sábado, 21 de dezembro de 2013


Era por volta das quatro horas da ensolarada tarde de 1 de julho de 1798, quando as primeiras vozes gritando “Terra!” partiram das centenas de embarcações no mar mediterrâneo. O brilho do sol nas águas calmas do litoral davam a paisagem um tom amarelado, cor de ouro, bem característico do país ao qual estavam prestes a conhecer. Os homens a bordo correram para as amuradas, alguns portando lunetas ou outras formas rudimentares de instrumentos óticos, na tentativa de vislumbrar o território cuja civilização fascinará tantos outros. O que viram ao longo da costa foi uma imenso mar de areia branca e uma cidade bem no meio do horizonte. Apesar de não ser a visão idílica e faraônica que tantos imaginaram, não havia duvida: finalmente haviam alcançado à costa do Egito.
A cidade na qual observavam era a histórica Alexandria. Seu lendário farol não existia mais, pois havia desabado durante um terrível terremoto. No local de suas fundações eram visíveis as muralhas brancas do Forte Qaitbey, construído em 1480 por um sultão mameluco. Devido a presença da marinha britânica no Mediterrâneo os franceses não podiam perder tempo. Imediatamente iniciaram os preparativos para o desembarque.
Ao anoitecer os navios, abarrotados de homens e equipamentos, oscilavam em meio às ondas da baía, que naquela altura já haviam começado a mostrar a fúria das águas do mediterrâneo. Por volta da meia noite, com o céu coberto de nuvens e relâmpagos, o cônsul francês da cidade de Alexandria partiu em um pequeno bote em direção aos navios. Foi recebido por ninguém menos que Napoleão Bonaparte, a bordo do L’Orient, o maior navio de guerra da marinha francesa que pesava incríveis duas mil toneladas e era armado com cento e vinte canhões. As noticias repassadas ao general francês não era das melhores: navios britânicos foram vistos ao longo da costa e uma grande esquadra britânica estaria de volta ao porto em aproximadamente três dias. A essa altura uma furiosa tempestade desabava ao longo do litoral fazendo as embarcações sacudirem de forma violenta.
Napoleão decidiu não esperar o fim da tempestade e ordenou o desembarque imediato. Em meio a escuridão noturna os homens começaram a descer pelas laterais dos navios rumo aos botes. As ondas tornavam a tarefa quase impossível, e muitos chegaram a ser lançados no mar. A esses pobres desafortunados nada restava alternativa senão gritar por socorro, mas a escuridão indescritível da noite tornava impensável qualquer resgate em meio à fúria das ondas. Levaria quatro horas para que os primeiros barcos finalmente chegassem à praia. Durante a madrugada o mar se acalmou e as centenas de marujos ensopados nas areias contemplavam com admiração a imagem da imensa frota de mais de duzentas embarcações, tendo ao fundo o céu rosado das primeiras horas da manhã. Aqueles que se aproximaram das muralhas do Forte Qaitbey, ficaram impressionados com a construção. No subterrâneo havia um labirinto de túneis e câmaras usadas como deposito de armas. Napoleão se instalou no Forte assim que desembarcou. Ele imediatamente analisou um mapa do Egito e compreendeu que rumar para o Cairo pelo rio Nilo seria muito perigoso devido a presença de navios britânicos no mediterrâneo. A solução seria despachar seus soldados rumo ao Cairo em uma marcha através das tórridas areias do deserto do Saara.
Liderando a marcha, Napoleão foi seguido por 30 mil soldados, usando os típicos uniformes azuis do exercito francês, com chapéus tricornio e botas completamente inadequadas a marcha prolongada. No dia 8 de julho, essa imensa massa humana mergulha no mar ardente das areias lendárias do deserto. O calor era tão intenso que as botas começaram a desmanchar, soldados começaram a perder a disciplina, alguns desmaiavam de sede outros simplesmente acabavam com o próprio sofrimento através de uma bala na cabeça. Para os mais supersticiosos, o mar revoltoso durante o desembarque era um pressagio de que aquela expedição não acabaria bem. Mal sabiam eles que suas previsões estavam certas e que aquela aventura pelas lendárias terras dos faraós seria não apenas desastrosa, mas também inesquecível.
A magnífica obra “Miragem - os cientistas de Napoleão e suas descobertas no Egito” retrata a expedição francesa ao Egito no ano de 1798, em plena Revolução Francesa. A França, mergulhada no caos político e financeiro da revolução, não tinha meios de empreender uma derrota armada a Inglaterra - sua histórica rival. A solução seria ocupar o Egito e atrapalhar o comercio britânico com suas colônias orientais. Para isso foram reunidos 34 mil soldados, 16 mil marinheiros e cento e cinqüenta artistas e cientistas parisienses que deveriam explorar e catalogar as riquezas do Egito. Matemáticos, botânicos, zoólogos, químicos, naturalistas, médicos, astrônomos, engenheiros, físicos e pintores iriam compor esse inusitado grupo de cientistas, acostumados a trabalhar na solidão de seus laboratórios e que na maioria dos casos nunca haviam utilizado uma arma de fogo na vida. Alguns foram convidados pelo próprio Napoleão, como o renomado químico Claude Louis Berthllet, o matemático Gaspard Monge - criador da Geometria descritiva, o químico e pintor Nicolas Jacques Conté, o medico René Nicolas Desgenettes, o matemático Jean Joseph Fourier - tido como um dos maiores gênios das ciências exatas de sua época, o zoólogo Etienne Saint-Hilaire e o engenheiro Jean Baptiste Prosper Jollois.
A jornalista Nina Burleigh criou uma obra magnífica que mistura ciência e historia, adornada por uma narrativa rápida, clara e agradável. Durante a leitura vemos a difícil travessia do Saara, tempestades de areia impressionantes, a celebre Batalha das Pirâmides, a lendária Batalha do Nilo - durante a qual ocorreu a colossal explosão do navio francês L’Oriente, a conturbada vida na cidade do Cairo, a descoberta da Esfinge de Gize – completamente coberta de areia quando os franceses a encontraram, a descoberta de múmias nas tumbas do Vale dos Reis, a jornada em meio a antigas fortalezas dos Cavaleiros Templários, a luta pela procura de água, a sangrenta Batalha de Jafa, os assassinatos em massa cometidos por Napoleão nas praias da península do Sinai, a descoberta da Pedra de Roseta – encontrada por soldados franceses enquanto escavavam próximos a uma muralha e cuja tradução seria fundamental para a compreensão do hieróglifos, o cerco a cidade de Acre, a Peste que devastou o exercito francês e a fuga vergonhosa de Napoleão abandonando seus soldados a própria sorte. A ironia final e que a maioria das descobertas acabaria mais tarde em um museu britânico. A obra de Nina Burleigh é um trabalho fascinante que aborda a conturbada relação entre o ocidente e o oriente, entre os progressos científicos das nações civilizadas e as belezas do mundo árabe.
AUTOR: TIAGO RODRIGUES CARVALHO
- MIRAGEM - OS CIENTISTAS DE NAPOLEAO E SUAS DESCOBERTAS NO EGITO
Autora: BURLEIGH, NINA
Editora: Landscape
312 paginas

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Logo no capitulo inicial o autor se dispõe a produzir uma distinção clara entre os problemas éticos e morais. Os problemas essencialmente práticos têm por objetivo expor tanto a macro como a micro influência de uma postura ética diante de situações na qual o individuo, como ser social, se vê obrigado a adotar. As conseqüências decorrentes de um comportamento, seja ele impulsionado por considerações éticas ou morais, podem se estender desde uma interação entre duas pessoas próximas até um gigantesco grupo social heterogêneo e aparentemente desconexo.
A reflexão acerca da distinção inicialmente exposta remete a uma conclusão na qual o comportamento moral é, sobretudo, a característica que difere os seres humanos das demais formas de vida. A capacidade de agir segundo aos princípios particulares e não a normas coletivamente determinadas está intimamente relacionada à forma como racionalismo e sentimentalismo são conciliados no plano cognitivo. O comportamento dos homens diante de determinados problemas obedece a um padrão mental lógico-moral que julga e apresenta não apenas um, mas dois rumos, cada qual associados a um dos extremos dessa oscilação. Cada decisão tomada é, portanto, submetida a uma “legalização moral”, que obedece a uma lógica interna e cuja formulação decorreu da absorção do conjunto de normas coletivamente impostas ao meio em que esta inserida.
As ações humanas, contudo, não possui a moral como regra única. O comportamento prático é muitas vezes adotado mediante situações onde as convicções particulares não encontram um campo favorável a sua influência. Esse comportamento prático é analisado como objeto de reflexão onde a prática-moral se transforma em teoria-moral. Esse julgamento mental realizado a posteriori e a revelia das normas sociais está intimamente relacionado à filosofia de cada individuo.
A diferença entre problemas prático-morais e éticos são definidos pelo autor por meio da generalidade entre ambos: um individuo diante de determinada situação tentará encontrar uma solução que seja efetiva e moralmente correta obedecendo a um conjunto de regras de ação cuja familiaridade lhe permite optar por uma ou outra. A ética, nesse caso, não seria capaz de fornecer uma regra prática para cada situação especifica uma vez que sua natureza genérica torna impraticável qualquer aplicação restrita da mesma. A conclusão lógica desse quadro teórico e a de que a adoção da ética, como recurso prático para uma situação concreta, só é possível diante da incapacidade de definir o que seria bom e o que seria ruim.
Segundo o autor a ética consiste num conjunto de normas genéricas calculadas para tornar a vida em sociedade mais justa. Seu objetivo seria subjugar os desejos particulares por meio da reflexão racional, ou seja, algo bastante lógico quando se vive em coletivo. A fragilidade desse sistema decorre da nuvem de convicções que acompanha a todos os seres, fazendo a ética falhar como doutrina apesar de toda a sua lógica. Seu surgimento como doutrina normativa decorreu da constatação de que a moralidade tradicional atende aos aspectos particulares, mas falha quando se trata do coletivo. Uma vez compreendida a noção que todos fazem depender sua opinião da qualidade que conferem a si mesmos tornou-se imperativo a adoção de métodos que elevassem a vontade geral acima das vontades particulares.
A noção de responsabilidade é usada como critério que separa o comportamento prático-moral do comportamento ético: ao escolher entre duas opções a vontade é na maioria dos casos o fator preponderante, e por isso a responsabilidade está intrinsecamente relacionada ao processo. Na ética a responsabilidade está de certa forma ausente, pois a vontade deixa de existir como guia.
Aparentemente a ética possui uma praticidade capaz de torná-la uma disciplina normativa. Sua natureza teórica, ignorada em função dessa praticidade aparente, torna irreal sua aplicação como uma forma de legislação moral da sociedade. A moralidade tradicional esta associada à marcha dos fatores históricos, os princípios variam bem como as normas. Um conjunto de princípios regulamentadores que não acompanhe os fatos históricos falha por explicar teoricamente uma pseudo-realidade. Por isso a ética deve ser encarada como uma disciplina mais teórica e menos prática. Ela explica ao invés de recomendar ou determinar um caminho.
Ainda assim, segundo o autor, não se deve cometer o erro de reduzir a ética a uma disciplina puramente descritiva apesar de sua natureza teórica. Ela é na realidade uma teoria que usa o comportamento moral da humanidade como ferramenta de reflexão sendo, portanto, produto das ações humanas e não apenas expectadora das mesmas. A definição de ética é o tema principal do item 3, capitulo 1: “a ética é a teoria ou ciência do comportamento moral dos homens em sociedade. Ou seja, é ciência de uma forma especifica de comportamento humano.”
A preocupação principal nessa definição e menos voltada ao esclarecimento conciso da ética do que a necessidade de classificá-la como ciência. Trazer a mesma para o campo da ciência é o mesmo que delimitar a disciplina dentro de um conjunto rígido de métodos racionais, objetivos e, sobretudo empíricos. Como ciência a ética deve ser capaz de analisar o comportamento humano, ou seja, a moral efetiva, e gerar resultados teóricos e comprováveis dentro de certos limites. Seu papel, como ciência moral, deve possuir o mesmo rigor cientifico no que diz respeito ao método, mas seus princípios devem ser mais flexíveis e menos dimensionados numa linha puramente determinista. Isto porque a ética é uma ciência, mas seu objeto de estudo, a moral, e algo subjetivo e, portanto, impermeável a determinados ramos da lógica. O objetivo da ética e menos voltada ao papel que as idéias possuem na formação do individuo, do que no comportamento deste mesmo individuo frente a essas idéias.
A distinção entre ética e filosofia é o tema principal do item 4, Capitulo 1. O autor busca retirar a ética de sua antiga posição subjugada à filosofia por meio da sua caracterização como disciplina racionalista e com uma esfera de atuação bastante especifica: o comportamento humano. Como base para esse posicionamento o autor cita argumentos cuja importância possui ligeira variação. O objeto da ética, ou seja, a moral é neste ponto definido como algo distante da esfera cientifica, porem suas origens e fundamentos podem ser investigados com a objetividade da ciência. A ambigüidade da ética é assim exposta: é cientifica quanto aos métodos e anti-ciêntifica por essência.
Aparentemente dispares e imiscíveis entre si, ética e ciência possuem aspectos que se relacionam intimamente. Negar sua estreita relação com a ciência seria o mesmo que classificar a primeira como uma subclasse da filosofia sendo, portanto, uma disciplina puramente especulativa segundo o autor. O mesmo não nega a afirmação de que as questões éticas constituem uma parte do pensamento filosófico. No entanto ele enfraquece a relação entre ambas ao mencionar o caráter generalista da Filosofia, que surgiu num momento histórico onde a falta de disciplinas especificas a determinados seguimentos fazia a mesma abranger todos os setores da realidade humana.
A obra reafirma a noção de que o desprendimento da ética da Filosofia deveu-se a evolução das ciências físicas e matemáticas o que permitiu não apenas uma mecanização do cosmos, como as leis da mecânica celeste do físico Isaac Newton, como sedimentou as bases técnicas para o surgimento de disciplinas não tão generalistas. Outro ramo que supostamente teria se desprendido da Filosofia foi à Psicologia, cujo objeto de estudo é a alma humana. Apesar de reconhecer o desligamento entre Psicologia e Filosofia o autor não deixa de reconhecer a existência de certas ligações que ainda permitem classificar ambas como uma simples “psicologia filosófica”.
No item 5, Capitulo 1, é apresentada a relação da ética, com todas as outras ciências que têm o comportamento humano como campo de estudo, bem como a contribuição de cada uma delas. A Psicologia possui estreita relação cooperativa com a ética uma vez que apresenta as “leis” que determinam as motivações individuais. Essa anatomia do caráter contribui na medida em que relaciona o papel do inconsciente na formação do individuo, seus hábitos e julgamentos morais, e seu papel como modelador do inconsciente. A dimensão da moral se tornou evidente graças ao progresso da psicologia como ciência. A sociologia também contribui com a ética ao estudar o comportamento do homem em sociedade.
MORAL E HISTORIA
A relação entre moral e história é abordada no primeiro item do Capitulo II. A moral é definida com um conjunto de normas e regras destinadas a regular as relações dos indivíduos em determinada sociedade. O predomino alternado de valores dentro de uma sociedade ao longo do tempo histórico é utilizado pelo autor como argumento para a existência de diversas vertentes da moral desde a antiguidade até a sociedade moderna. A existência de doutrinas, que excluem o papel dos eventos históricos na constituição da esfera moral, segue três caminhos assim expostos:
a) Deus como origem ou fonte da moral; que se fundamenta nos aspectos sobre-humanos e cuja fonte de origem não poderia der buscada nas relações do homem em sociedade.
b) A natureza como origem ou fonte natural da moral; que considera como sua fonte o instinto do homem e seus aspectos biológicos.
c) O homem como origem e fonte da moral; que busca definir a mesma como uma característica peculiar e inerente ao homem.
O autor condiciona o surgimento da moral a um núcleo coletivo com regras que limitam o comportamento dos homens e reforça sua ligação com os demais na forma de consciência. Cada indivíduo deve se adaptar, ao seu modo, a regras a todos imposta. Esse mecanismo de adaptação leva a interação e reduz o individualismo, criando, portanto, um conjunto de valores de origem comunitária.
O desenvolvimento industrial levou a um excedente produtivo em cuja origem está na fonte da desigualdade social. A apropriação, na forma de mercadoria, da força de trabalho alheia acentuou a noção de uma forma moderna de escravidão em que os indivíduos não mais eram identificados por sua cor, mas por sua classe. Com a exposição do lamentável quadro social existente nos aglomerados industriais urbanos, sobretudos os do século XIX, o autor busca apresentar a existência antagônica em duas formas de moral: a do homem livre e a do escravizado. A primeira foi amparada em textos filosóficos da antiguidade já consagrados e por isso amplamente aceitos; a segunda, sem base teórica, foi descartada como simples expressão da anarquia. A existência da “moral servil” em consonância com o pensamento filosófico existente até então funcionou com um potente fator de contenção que limitou a liberdade individual ao subjugá-la a doutrina da classe dominante. Segundo a obra essa divisão de classes, e a existência de um conflito de valores entre elas, ocasionou uma ramificação da moral que consequentemente deixou de representar a sociedade como um todo. O capitalismo moderno e apresentado como uma forma mais moderada do capitalismo classico que surgiu na Inglaterra no século XVII. O progresso tecnológico teria permitido um incremento na produção reduzindo assim a carga de trabalho do proletariado. No entanto o mesmo reconhece que a exploração do assalariado ainda se mantêm no cerne do sistema.
A conclusão final ao termino da leitura da obra é de que a Ética seria uma confluência de ciência moral, social e filosófica, muito mais especifica, ainda que bastante genérica, que a filosofia e que têm o comportamento humano como foco de atenção especial. A moral seria nada mais do que o produto do progresso radical de antigos valores consolidados em coletivo e diretamente relacionados ao tempo histórico.
ÉTICA
Vasquez, Adolfo Sánchez.
Civilização brasileira, 18ª Edição, Rio de Janeiro, 1998
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

quarta-feira, 6 de novembro de 2013


“Duas coisas iguais a uma terceira, são iguais entre si.”
- Euclides
Certo dia ao reler a excelente obra de Rousseau “Discurso sobre a Origem e os fundamentos das desigualdades entre os homens” me surgiu a seguinte questão: a idéia de igualdade é aceita pela sociedade contemporânea? Desde os primórdios da historia humana - do surgimento dos primeiros hominídeos até o homo sapiens - o homem busca se evidenciar por meio da exaltação de suas singularidades, ou seja, instintivamente o mesmo nega a idéia de que todos são iguais. A idéia de igualdade começou a ser difundida pelos filósofos iluministas no século XVIII, quando seu conceito antagônico passou a ser considerado como causa para o corrompimento da natureza humana e dos males sociais. Certos comportamentos permitem constatar que a idéia de igualdade existe, mas não é aceita, em alguns casos chega a ser odiada. O consumismo ostentatorio, ou seja, aquele pautado não na necessidade, mas na manutenção da imagem idealizada de um estereótipo de perfeição, reflete o grau de atração que a idéia de desigual, de diferente, de destoante, possui sobre as pessoas.
Aqui fica evidente o caráter paradoxal da modernidade, pois tendemos a repudiar aquilo que não se encaixa nos padrões, arbitrariamente definidos como normais, ao mesmo tempo em que buscamos ser aquilo que ninguém foi capaz de ser até então. Seria esta a base da teoria que diz que os seres humanos possuem uma natureza autodestrutiva? Será que preferimos ser odiados a permanecer no anonimato e morrer no esquecimento? A filosofia do período da ilustração foi capaz de romper a estrutura social de sua época, baseada na manutenção das desigualdades por meio da divisão de classes, mas não conseguiu eliminar certos dogmas mentais ou romper a estrutura inconsciente que ordena o comportamento humano.
Esse fracasso se torna evidente quando se considera o aspecto fragmentado da sociedade moderna onde até a linguagem é utilizada como forma de exclusão. A competitividade do mundo moderno também contribui para o repudio da idéia de igualdade, uma vez que valoriza aqueles que se destacam sem distinguir se por mérito pessoal ou se por pura sorte. A utopia Rousseauniana de igualdade parece estar cada vez mais condenada a extinção, pois na sociedade atual a noção de igualdade esta lamentavelmente relacionada ao conceito de comum. A filosofia iluminista gerou uma crise de classes, mas não de consciência.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

sábado, 2 de novembro de 2013

CANÇÕES


Lagrima nos olhos,
Cordas nos dedos,
Sentimento nos lábios,
Um turbulento furacão,
Em forma de canção.
Por aqui a musica passou e deixou suas marcas
Como resultado algo sublime se tornou imortal.
A solidão muda dos acordes
Numa natureza indiferente
As lembranças vêm e vão
Ao sabor das emoções vividas
Das ilusões perdidas
O tempo e sua relatividade
Basta uma fração de segundo
Para que algo se torne inesquecível.
A mente vaga
Alem das margens do horizonte
No ritmo dos acordes
Minhas dores se tornam passado
E meu passado se torna imortal.
AUTOR:
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

ESCOLHAS


A essência da vida
Consiste em percorrer um corredor com infinitas portas;
Tendo a coragem de abrir a maioria delas,
E a sabedoria para fechar as que nunca deveriam ter sido abertas.
Saber que cada sala representa um momento da vida,
E que quem está com você dentro de cada uma delas,
É o que realmente importa.
Em algumas não existe luz,
Em outras somente a solidão,
Poucas são coloridas.
Algumas são imensas, outras nem tanto.
Nas melhores tudo teremos,
Nas piores tudo nos falta.
Em algumas será fácil entrar,
Em outras difícil sair.
Se perder será fácil,
Encontrar-se e que será uma odisséia.
Ter a consciência de que cada uma delas será o seu lar
Basta que você saiba moldá-las ao seu estilo
Eis a essência da vida,
Viver ao sabor das escolhas,
Suportando as conseqüências,
E colhendo os frutos.
AUTOR:
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

CRONICA DE UM DIA


O sono agradável das primeira horas da manhã é interrompido pelo som desagradável e constante do despertador - exemplo notável de tormento individual. Você olha para o relógio e vê que são 6:30 da manhã e para piorar está chovendo! O cansaço do dia anterior foi tão grande que somente nessa hora você finalmente percebe que dormiu de meias. Os olhos parecem ter vontade própria pois insistem em ignorar sua ordem para permanecerem abertos enquanto o corpo implora por mais alguns minutos na cama. Não têm jeito: é hora de entrar na ativa! A solução parece ser entra debaixo de um chuveiro quente o mais rápido possível antes que a preguiça volte a dar conselhos – engraçado como ela é uma ótima conselheira. Depois do ritual matinal você entra no “busão” e segue para o seu destino. Logo que chega ao centro da cidade você procura uma casa lotérica, pois a conta de luz já venceu.
As casas lotéricas são verdadeiros antros de infelicidade: somos obrigados a ficar horas em uma fila que aparentemente não anda. Como não adianta ficara olhando para os caixas - acredite eles não irão funcionar mais rapidamente só porque você teima em ficar olhando com cara de poucos amigos – o jeito é procurar distração no ambiente ao redor. Na maioria das vezes só olhamos no entorno depois de já ter conferido umas trinta vezes o valor e a data de vencimento da conta ou boleto. Quando as filas se estendem até a rua é possível se distrair olhando a multidão, tão diversificada que é quase impossível cair na monotonia.
Ali se vê desfilar todo tipo de caricatura social; alguns seguem a passos largos, outros falam ao telefone, outros seguem com um semblante congelado graças aos fones nos ouvidos. Poucos parecem distraídos, a maioria carrega um pesado semblante de preocupação. Alguns param em frente às casas lotéricas e parecem refletir se vale ou não a pena enfrentar aquela fila. Um senhor aperta os olhos para conferir os números da mega sena, outro preenche os cartões escolhendo os números com tamanha concentração como se estivessem diante de uma prova de matrizes matemáticas, e enquanto isso a fila não andou nem um passo sequer!
A mulher na sua frente parece discutir sobre alguma greve com um senhor mau humorado e com hipertricose auricular evidente. Duas adolescentes, um pouco mais a frente na fila e carregando mochilas enormes, conversam sobre o termino do namoro de uma terceira, que por estar ausente parece mais presente do que nunca. Cansado daquele assunto juvenil você percorre a fila com os olhos e percebe uma mulher lutando para encontrar o celular que não para de tocar dentro da bolsa. Subitamente você sente um empurrão de alguém que se aproxima do caixa para perguntar alguma coisa, relacionada a um boleto ou conta, e enquanto observa um senhor conferindo o troco com certa dificuldade, pois de forma enigmática ele insiste em não larga o guarda chuvas. Nesse meio tempo e possível escutar a voz da mulher, que se encontra imediatamente atrás de você na fila, conversando ao telefone e dizendo algo do gênero: “Mas você precisar conversar com ele porque isso pode dar confusão”. Finalmente chega a sua vez de ser atendido e você não demora mais do que dois minutos para fazer o que têm que fazer. Indignado você se pergunta o porquê de tamanha demora, mas está tão feliz por finalmente sair dali que nem se importa mais com isso.
Seguindo pelas ruas em meio ao barulho caótico do transito você se encontra cercado por fragmentos de conversas incompreensíveis. Confesso que me divirto um pouco graças a essa impossibilidade de compreender fragmentos fonéticos soltos pela espontaneidade dos interlocutores. Deixando de lado o humor baseado na vida alheia você tenta compensar o tempo perdido acelerando o passo. Infelizmente sua estratégia não é muito vantajosa porque parece que todos os sinais estão abertos para o transito e você é obrigado a parar no limite de cada quarteirão. Ai você pensa: pronto é só esperar o sinal abrir e eu atravesso correndo! Leva uma eternidade para o sinal abrir - na realidade parece que ele só abre depois que algum carro passa e deixa seu tênis encharcado pela água da sarjeta. Quando finalmente os carros param e você se prepara para colocar em pratica seu preparo físico inexistente, no estilo cem metros rasos, você percebe que atravessar a rua era apenas um detalhe, pois a grande questão é se desviar da muralha de pessoas que vem no sentido contrario.
Quase sempre, exatamente no meio da rua, você dá de cara com alguém que insiste em seguir para a esquerda enquanto você também escolheu esse caminho. Quando você muda para o lado oposto percebe que a outra pessoa também fez a mesma coisa – quase como uma sombra! Se alguém observar essa cena de longe vai acreditar que está vendo duas pessoas estranhas ensaiando passos de dança - no estilo dois pra lá dois pra cá - bem no meio da rua. Quando você finalmente consegue atravessar a bendita rua se depara com uma multidão de anunciadores de calçada querendo te oferecer cartões de credito, serviços dentários, panfletos de alistamento militar, cursos profissionalizantes, corte de cabelos, etc. Os anúncios são tão automáticos que chegam a oferecer serviço de cabeleireiro a pessoas que não possuem um fio sequer deles sobre a cabeça!
Depois de finalmente atravessar essa confusão você se da conta de que precisa comprar um remédio na farmácia. Como não é difícil encontrar uma delas no centro de BH você rapidamente consegue encontrar uma loja, em cuja fachada está escrito “Drogaria”. Você então entra, passa por um setor generoso nas ofertas de analgésicos, se aproxima do balcão e entrega a receita para o farmacêutico. Enquanto ele confere você aproveita para ficar próximo do umidificador de ar – nos dias muito quentes isso não é possível, pois é quase certo que alguém já esteja diante dele quando você chegar. O vendedor olha a receita, volta os olhos para o computador, retira um crachá do bolso, anota algo em um pequeno bloco de papel – sempre com aquelas canetas em que você tem que apertar a parte de trás - digita algo no teclado e em seguida desfere o golpe final: ele se nega a vender o medicamento porque encontrou alguma irregularidade na receita. Uma assinatura torta, um carimbo com CRM muito claro, o CID da doença ausente, tudo é motivo para reprovar a bendita receita, cujo propósito seria aliviar algum sofrimento físico seu, mas que no fim acaba lhe causando muita dor de cabeça. Nesse exato momento você consegue entender o porquê de tantas ofertas generosas de analgésicos logo na entrada!
Alguns já exigem o CPF do medico e o endereço do hospital! Daqui a algum tempo não ficaria surpreso se passarem a pedir exames de sangue, facebook e Instagran do medico que receitou o medicamento. Depois de algum tempo você finalmente consegue encontrar uma farmácia que lhe forneça o medicamento; quando se dirige ao caixa para pagar o dito cujo você percebe que todas as barras de chocolate e biscoitos são colocadas nas prateleiras próximas. Coincidência? É claro que não! Depois de todo esse vai e vem um pouquinho de chocolate para adoçar o dia surge como uma oferta irresistivel. Isso sim é propaganda conativa!
Ao sair você não gasta mais do que alguns segundos para devorar a barra de chocolate e percebe que deveria ter comprado uma segunda. A vontade de comer era tanta que você só percebe que está chovendo no quarteirão seguinte. O jeito e parar em algumas daquelas feirinhas e compra um guarda chuvas, mas como hoje é um daqueles dias em que você não deveria ter se levantado da cama, o vendedor só têm aquelas sombrinhas de péssima qualidade e pra piorar são todas coloridas com flores – parecendo uma propaganda de primavera-verão. De volta as ruas, tentando caminhar o mais rápido possível, lutando contra a multidão de guarda chuvas e contra a chuva de impropérios dos pedestres, você se depara com um trecho da calçada coberto por ardósia ou algo semelhante. Temendo uma queda vergonhosa você reduz o passo e, instintivamente, contrai os dedos dentro do tênis – como se isso fosse lhe ajudar a não escorregar.
Finalmente você chega ao trabalho é logo é recebido por um nível de atenção hostil bem característico dos chefes em relação aos funcionários atrasados. Depois de se desculpar e inventar algo como “estava preso no transito”, ou “tive de pegar um taxi, pois está tudo engarrafado” você se encaminha ao banheiro, confiante de que suas desculpas funcionaram, mas intrigado porque durante toda a explicação o seu chefe não tirava os olhos dos seus dentes. Quando chega ao banheiro e se olha no espelho percebe aquele fragmento de chocolate entre o incisivo central e o incisivo lateral. Envergonhado você corre para a sua mesa e mergulha no trabalho na esperança de que o tempo não demore a passar.
Finalmente chega às 18 horas! Você se engrandece diante da certeza de que dali a algumas horas estará em casa. De volta as ruas você chega ao ponto de ônibus lotado. Com a visão já marejada, pelo dia de trabalho, enxergar o número dos ônibus fica mais difícil, se você for míope então fica ainda mais complicado. O ônibus finalmente chega e te leva arrastado para casa, pois é essa a impressão que dá! Aquela dor de cabeça chata do fim do dia já nem incomoda tanto, pois o funk, tocado “democraticamente” dentro do ônibus, é infinitamente mais desagradável. Nesse momento você percebe que a “democracia” conseguiu entrar no ônibus, o bom senso deve ter ficado no ponto e a ética... essa deve morar em outra cidade!
Chegar em casa é libertador! Livre das obrigações você se entrega a ociosidade e as distrações, pois, apesar de tudo, o bom humor não te abandonou. Os acontecimentos do dia se tornam motivos de risadas e é nessa hora que você percebe que não se conhece por completo e que tem no maximo uma opinião sobre si mesmo.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

TERRA: UMA QUESTÃO HISTORICA


Durante o século XVIII, e na primeira metade do século XIX, a terra era considerada a única fonte produtora de riqueza. Não é sem motivo que quase todas as teorias econômicas liberais - as mais influentes pelo menos - giravam na orbita da agricultura. O problema central do mundo rural não era expresso pelo valor da sua mercadoria, mas pela relação entre camponeses e latifundiários, ou seja, entre os donos da terra e os que a cultivavam.
A decadência da agricultura é um fato histórico: iniciou-se no século XII na Baixa Idade Media, com o Renascimento Comercial, e atingiu o apogeu durante a Revolução Industrial. No seculo XVIII a estrutura econômica de alguns países, como a Inglaterra, estavam alicerçados sobre o metodo de produção em massa com a mecanização dos meios de produção. A industria têxtil, por exemplo, permitia lucros exorbitantes aos que se aventuravam a investir no setor, pois sua materia prima era basicamente o algodão é a lã. Buscando o crescimento do setor têxtil a Inglaterra iniciou uma revolução agrícola cujos objetivos eram fornecer três componentes básicos ao estabelecimento de uma econômia capitalista: uma burguesia forte com capital para investir no setor de produção, um excedente de mão de obra e um mercado consumidor capaz de escoar a mercadoria produzida. A politica de Cercamentos deu inicio a um êxodo rural que atendeu as novas demandas do mundo urbanizado cada vez mais ávido por mão de obra excedente – um poderoso regulador dos salários. Com isso a terra deixou de ser um bem de consumo e se tornou um bem de produção.
Durante a baixa idade media o aumento da produção no campo se deveu ao aumento da população urbana. Esse incremento produtivo se baseou na expansão das terras produtivas, associada a um intenso desmatamento cujas conseqüências foram sentidas na forma de uma repentina alteração climática que arrasou a agricultura européia resultando numa onda de fome. O evento coincidiu com a Peste Negra que assolou o continente a partir de 1348, ocasionando a morte de aproximadamente 30% da população européia.
Esse método de aumento produtivo logo se esgotou porque não foi seguido por uma melhoria dos mecanismos de produção, o que certamente teria elevado o rendimento da terra e baixado o preço dos alimentos. As inovações ficaram restritas a introdução da Charrua – uma espécie de arado que possibilitava uma maior penetração do solo, a adubação com estume, a adoção da carreta com dois eixos que possibilitou um transporte maior de mercadorias e o rodízio de terras que evitava o esgotamento do solo. A produção se resumia ao trigo, centeio, cevada, aveia, gado de corte, porcos, aves e laticínios. A produção de frutas, legumes, vinho e lã eram infinitamente mais reduzidas que os primeiros.
O crescimento da população urbana garantia o escoamento dos produtos do campo e justificava o aumento das terras cultivadas; porem o sistema se baseava em um frágil equilíbrio entre campo e cidade. Uma redução mínima da população urbana ou o aumento do número de desempregados poderia gerar resultados desastrosos para a agricultura; e foi exatamente isso que aconteceu: o esgotamento do ouro e da prata das velhas minas, e os métodos rudimentares de extração, levaram os reis a reduzir a quantidade de ouro e prata nas moedas sem, no entanto, reduzir seu valor nominal. A desvalorização da moeda gerou uma inflação galopante que associada à queda da produtividade registrada no campo, em função de anomalias climáticas, fez o preço dos alimentos subir. A fome reduziu a população urbana e quebrou a relação entre campo e cidade. A Peste Negra contribuiu com o aumento da taxa de mortalidade abrindo caminho para o colapso do sistema feudal que se sustentava na monocultura e na decentralização do poder.
O surto demográfico que atingiu a Europa no século XVIII, e se prolongou ao longo do XIX, assustou economistas de todo o continente. No ano de 1798 Thomas Robert Malthus, na época um pastor da igreja anglicana, formulou a teoria segundo a qual a produção de alimentos crescia em escala aritmética (1,2,3,4,5) enquanto que a população crescia em escala geométrica (1,2,4,6,8). Suas idéias foram divulgadas na obra “Ensaio sobre as Populações” que atualmente consta entre uma das obras mais clássicas da economia. Em 1750 a população mundial era de alguns milhões, em 1850 ela alcançaria a marca de 1 bilhão de seres humanos.
Essa preocupação entre o crescimento populacional e a quantidade de terras produtivas já era um velho dilema europeu. A expansão muçulmana no século VII está relacionada a incompatibilidade entre o crescimento populacional e o cultivo da terra. A pratica da poligamia, muito comum no mundo árabe, deu inicio a um crescimento populacional desordenado que em conjunto com o solo árido da região mediterrânea ocasionou uma escassez de alimentos numa escala até então inédita. A solução encontrada para o drama foi à conquista de novos territórios. Enquanto os muçulmanos buscavam novas áreas para o cultivo os europeus buscavam escoar o excedente populacional e as Cruzadas serviram bem a esse propósito.
No mundo contemporâneo o progresso da biotecnologia, e a difusão dos transgênicos no meio rural, encareceram os custos e atraiu a atenção das grandes instituições bancarias, as únicas com capital suficiente para bancar as inovações. Essa reformulação ditou o fim da pequena agricultura familiar por meio da expansão dos grandes latifúndios. Atualmente o panorama rural do Brasil e composto por 90% de estabelecimentos com menos de 100 hectares. Os grandes latifúndios, com mais de 1000 hectares, não chegam a atingir 1%. No Brasil a expansão do latifúndio, e sua crise posterior, seguiram etapas diferentes das registradas no continente europeu. O sistema de Sesmarias que vigorou durante o século XVI praticamente consolidou a grande monocultura escravista como principal matriz produtiva.
Em 1822 o sistema de sesmarias foi extinto e em 1850 a Lei de Terras reduziu o apossamento de terras que vinha sendo praticado com o fim do sistema de Sesmarias. A extinção do trafico negreiro em 1855 deu inicio a crise do grande latifúndio e a posterior abolição da escravidão em 1888 deu o golpe final no método produtivo que cambaleava desde 1822. Tudo isso contribuiu com a vinda de imigrantes estrangeiros na segunda metade do século XIX. O surto imigratório foi utilizado como ferramenta econômica para impulsionar a lavoura cafeeira e manter o padrão agroexportador do país no cenário internacional. Ironicamente o movimento migratório acabou por contribuir com a industrialização do país nos anos posteriores. A recusa do governo em renovar os acordos comerciais de 1815, estabelecidos com a Inglaterra, forneceram proteção alfandegária tornando possível a industrialização e a posterior consolidação do padrão urbano industrial por volta de 1973.
Pode-se dizer que o renascimento do grande latifúndio começou com a modernização agrícola entre os anos de 1950 e 1980. O fluxo migratório rumo as cidade aumentou junto com a pratica de grilagem, que se associava aos cartórios regionais fraudando títulos de terras e expulsando posseiros. Em 1960 existiam 80 mil tratores na agricultura brasileira; em 1996 esse número havia subido para 800 mil. O consumo de fertilizantes subiu de 2 para 16 mil toneladas entre os anos de 1975 e 2001.
No século XX predominou a agropecuária patronal – agropecuária baseada no trabalhador assalariado. A constituição de 1891 havia transferido a posse das terras para os Estados, o que permitiu que as grandes oligarquias estaduais se apossassem de grande quantidade de terra graças a manipulação dos governos regionais. Entre os anos de 1995 e 2002, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, 18 milhões de hectares foram usados numa reforma agrária que assentou cerca de 400 mil famílias. O governo Lula prometeu assentar 560 mil famílias até o final de 2006.
O governo do presidente Fernando Henrique possui exemplos grotescos de medidas econômicas e sociais excepcionalmente antagônicas. Durante seu primeiro mandato (1995-1998) buscou-se a liberação econômica por meio de investimentos estrangeiros. Para isso foi criado um enorme programa de privatizações. A primeira leva atingiu o setor siderúrgico com as privatizações de Siderúrgica de Minas Gerais (Usiminas), a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) e a Aço Minas. O setor ferroviário foi o alvo seguinte com a privatização da malha ferroviária federal (RFFSA). A CVRD e a CSN, duas gigantes da mineração foram privatizadas logo em seguida. De 1999 a 2002 o setor de telecomunicações passou por privatizações. O governo então deu inicio a criação de agencias de fiscalização que deveriam regularizar a oferta de serviços privados. O Estado passou de fornecedor para regulamentador, ou seja, deixou uma posição mais elevada para assumir o papel de arbitro diante dos interesses privados. O resultado foi um aumento súbito do valor das taxas de serviços considerados essenciais; o custo de vida subiu e o desemprego aumentou. Se por um lado o governo Fernando Henrique direcionava terras para a reforma agrária, por outro tornava mais difícil a vida nas grandes cidades – destino natural dos produtos rurais.
Na região do Nordeste a seca é o argumento utilizado para justificar a extrema pobreza que assola a região. O imperialismo iniciado no século XIX deu inicio a pratica de utilizar “bases cientificas” para atender aos propósitos expansionistas. A teoria da Evolução de Darwin, por exemplo, foi distorcida e utilizada para justificar a colonização do continente africano e a sua posterior divisão entre as potencias européias. No Nordeste foi criado o mito do Polígono das secas (uma suposta região com tendência a desertificação devido a um regime de chuvas reduzido) que serviu para abocanhar boa parte dos recursos federais pela oligarquia sertaneja. A seca está longe de ser a causa da miséria nordestina; o núcleo causador da mesma está na concentração fundiária e na conseqüente exploração do trabalhador rural.
Na maioria dos casos o tipo de solo e determinado pelo clima predominante na região A maior parte do solo que recobre o território brasileiro é o latossolo; típico das regiões muito chuvosas e quentes. O solo dessas regiões sofrem intensa lixiviação dando origem a laterita – um solo de coloração vermelha e muito acido. Embora o regime de ventos também determine o tipo de solo - como ocorre no Vale do Rio Hoang-Ho, na China - o clima ainda tem o papel determinante. Durante o período colonial a região do nordeste permitiu o cultivo da cana graças ao clima predominante. Uma tentativa de expandir a plantação canavieira para a região do Vale do Paraíba não teve sucesso graças ao aspecto arenoso do solo e da estreita faixa de terra utilizada entre a serra do mar e a cidade de São Paulo.
Em 1970 o Proálcool deu um último fôlego a agricultura canavieira, em decadência desde os tempos do Brasil colônia, mas entre os anos de 1980 a 1990 a produção do cacau baiano mostrou como a agricultura está sujeita aos caprichos da natureza: o fungo conhecido como “vassoura de bruxa” arrasou as plantações de forma irreversível. De lá pra cá cresceram os movimentos reivindicando a desapropriação de terras improdutivas. Em 1990 esse movimento ganhou força na forma do movimento dos sem terra (MST).
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

domingo, 6 de outubro de 2013

CAOS METROPOLITANO: POLUIÇÃO, VIOLÊNCIA, POBREZA, TRANSITO E MERCADO IMOBILIÁRIO.


Durante a baixa idade media o Renascimento Comercial foi responsável pela evolução do comercio a longa distancia, ou seja, enrugou o cenário geográfico e dinamizou a troca de mercadorias entre os núcleos urbanos. Inicialmente as rotas de comercio eram predominantemente marítimas, o que explica o desenvolvimento mais expressivo das cidades próximas do litoral. Os transportes terrestres eram quase inexistentes devido às péssimas condições das estradas e da carência de estruturas como pontes, o que tornava a maioria dos rios verdadeiras barreiras intransponíveis principalmente nos períodos chuvosos.
A Revolução industrial ocasionou uma verdadeira reviravolta nos transportes com a adoção da maquina a vapor no lugar da tração animal. O tempo e o custo dos transportes despencaram e os núcleos urbanos se dispersaram para alem do litoral. É nesse contexto que se enquadram o surgimento das grandes metrópoles. O alicerce geográfico criado pelo desenvolvimento das vias de transporte funcionou com um importante fator para o surgimento das grandes cidades, bem como pela característica desconcentração dos aglomerados industriais e humanos.
Um dos maiores problemas das grandes metrópoles é o transito. As vias de transporte intercontinentais e interestaduais foram aperfeiçoados com a finalidade de facilitar o escoamento de mercadorias entre os portos e as regiões produtoras, sendo este um importante mecanismo do comercio a nível global. A mesma atenção não foi dispensada a esfera municipal. Sustentar a complexa rede de trocas, consagrada pela emergência do setor terciário junto aos grandes centros urbanos, exige um aprimoramento progressivo das estruturas capazes de atender as demandas do comercio. Esse desenvolvimento pautado nas imposições da economia e não na geografia urbana têm ampliado o caos metropolitano.
O desenvolvimento das grandes cidades tem seguido um padrão quase uniforme: o núcleo se desenvolve ao longo de um rio ou uma via radial em torno da qual se criam vias menores e mais complexas de comunicação, cuja função e facilitar o acesso ao grande centro – coração comercial da cidade. Em alguns países como Alemanha, Japão e Estados Unidos a expansão das taxas de conurbação é tão alta que já se fala nas chamadas megalópoles. Atualmente a engenharia de transito parece presa a um método pouco eficiente: a construção de viadutos nas zonas mais movimentadas e alargamento das vias principais. O esgotamento desse método é bastante evidente para qualquer morador de uma grande cidade.
CRESCIMENTO URBANO E MERCADO IMOBILIARIO
O crescimento exponencial das cidades é quase sempre acompanhado pela decadência de regiões anteriormente super valorizadas; a decadência do grande centro comercial é um fenômeno relativamente atual. A fuga do comercio de mercadorias de alto valor agregado para as regiões periféricas com alta concentração de renda é um dos reflexos da transformação sofrida pelo comercio da região central, cada vez mais direcionado as mercadorias populares.
Em Belo Horizonte (me perdoe o leitor se pareço por demais regionalista) essa desconcentração comercial é bastante evidente: na região do bairro Santa Inês é possível notar o surgimento de um subcentro comercial ao longo da Avenida Contagem.
Em um curto período de tempo a região acumulou lojas, agencias bancarias, restaurantes, shoppings, supermercados e prédios comerciais. Tudo isso foi precedido pelo aumento do valor dos alugueis residenciais e comerciais, pela ampliação do número de postos de gasolina e pela maior oferta de opções de “lazer noturno”, como bares e churrascarias. Essa concentração ao longo de toda a avenida não foi por acaso: o serviço de metrô, cuja linha liga a Estação Central a Estação Santa Inês, localizada na extremidade sudoeste da avenida, funcionou como ponto de escoamento para o fluxo de consumidores do grande centro. Isso favoreceu ao acumulo de comercio nos quarteirões que delimitam a avenida, explicando parte crescimento rápido e da valorização repentina dos terrenos da região.
Outra importante característica dos núcleos urbanos está diretamente relacionada a expansão das vias de transporte: o déficit habitacional. Nas metrópoles o dinheiro é a mercadoria mais cara é o imóvel e a mercadoria mais expressiva. A expansão do mercado imobiliário gerou uma aceleração do crescimento da região central através da valorização progressiva dos terrenos junto ao cinturão mais interno das grandes cidades. Como conseqüência a população tem se espalhado de forma desordenada sobre o tecido urbano, criando zonas de baixa densidade demográfica e aumentando o tempo das chamadas “migrações pendulares”, isto é o trajeto que o cidadão realiza todos os dias da casa até o trabalho.
Considerando-se o papel do imóvel como mercadoria no contexto urbano fica fácil entender o alto índice do déficit habitacional das grandes cidades. Todo o cidadão urbano é um consumidor do mercado imobiliário antes mesmo de ser um cidadão, no sentido estrito da palavra. A valorização constante dos imóveis residenciais contribuíram para o aumento das regiões de morros e favelas, uma das principais moléstias urbanas.
POLUIÇÃO AUTOMOTIVA: O PERIGO VEM DOS CEUS
A poluição urbana, sobretudo a relacionada aos gases liberados pela queima de combustíveis fosseis, agride tanto a saúde dos cidadãos quanto as estruturas urbanas. O fenômeno da chuva acida, ocasionada pela associação de óxidos anidros - como o dióxido de enxofre (SO2), o dióxido de nitrogênio (NO2) e o dióxido de carbono (CO2) - com a água presente nas nuvens causa danos a vegetação, ocasiona a poluição de lagoas e rios, a contaminação do solo e a destruição de estruturas de concreto, mármore e ferro.
"GREAT SMOG" - LONDRES 1952
Um fato histórico relacionado a poluição ocorreu na cidade de Londres, entre os dias 5 e 9 de dezembro de 1952. Tudo começou quando uma frente fria invadiu a cidade levando a população a consumir muito carvão no aquecimento residencial. O carvão usado era de baixa qualidade e possuía muito enxofre ocasionando a liberação de dioxido de enxofre. Graças ao fenômeno da inversão têrmica a nevoa de poluente não se dissipou e cobriu a cidade por quatro dias. Mais de 100 pessoas ficaram doentes e cerca 12 mil londrinos morreram no episodio que ficou conhecido como "Great Smog".
FENÔMENO DA INVERSÃO TERMICA: A CAMADA DE POLUENTE NÃO SE DISSIPA PARA AS REGIÕES MAIS ALTAS.
Em 2012 o número de veículos na cidade de Belo Horizonte atingiu o número de 1.519.438. Por meio desse número consegui realizar um calculo estimado sobre a quantidade de acido formado pela queima de combustível. O calculo exige um certo conhecimento sobre química e pode parecer um pouco complexo para o leitor com pouca afinidade com a matéria.
Neste caso basta desconsiderar a parte matemática, que coloquei aqui apenas a titulo de curiosidade. Imaginando uma situação hipotética onde apenas 600.000 destes veículos deixassem as garagens em um dia da semana, e supondo que cada um consumisse 1 litro de gasolina e possível obter um dado interessante, empregando conhecimentos sobre reações e estequiometria química. De forma simplificada o calculo pode ser descrito da seguinte forma:
1.514.438 veículos (BH/2012) Gasolina: Densidade 775g/L
Teor de enxofre: 1000 ppm (Partes por milhão)
Considerando-se apenas 600 mil veículos (por eliminação hipotética dos movidos a álcool e diesel) onde cada um consumiria 1 litro de gasolina por dia o resultado final seria o consumo de 600.000 litros de gasolina.
775 x 600.000 = 465.000.000 = 4,65 x 10^8g de gasolina
Cálculo do numero de mol: n= m/M = 4,65 x 10^8/58 = 8,02 x 10^6 mol de gasolina
1000 mol (Enxofre) -------------- 1.000.000 mol de gasolina
X -------------- 8,02 x 10^6 mol de gasolina
X = 8,02 x 10^3 mol
Reação de combustão do enxofre
Supondo um dia com temperatura de 27ºC:
PV = n.R.T
1V = 8,02 x 10^3 . 0,082(27 + 273)
V = 1,97 x 10^5
V = 197 000 Litros de H2SO4
Calculo do PH em função do volume de água:
H2SO4 ----------------2H+ SO4-2
Precipitação media: 33 mm/h = 0,033 m
Supondo que a chuva ocorre se numa área de 25 km quadrados:
V = 0,033 x 5000 x 5000
V = 825 000 metros cúbicos = 825.000.000 Litros de água
8,02 x 10^3/8,25 x 10^8 = 9,7 x 10^-6 mol de H2SO4 por litro de água
Como o acido sulfúrico é um acido forte ele apresenta 100% de dissociação. De acordo com a equação balanceada a proporção seria de 1:1:1, logo a Molaridade do acido será igual a Molaridade do íon H+:
HSO3- ⇌ H++SO32-
Molaridade do H2SO4: 9,7 x 10^-6 Molaridade do H+: 9,7 x 10^-6
pH = - Log [H+]
pH = - Log (9,7 x 10^-6)
pH = - (log 9,7 + log 10^-6)
pH = - (0,98 +(-6))
pH = 5,02
Essa chuva teria a acidez ligeiramente inferior a do suco de laranja.
Em algumas regiões já foram registradas chuvas com pH 2, o que equivale ao nível de acidez do vinagre (Acido Acético). Vale recordar que esse calculo não considera o dióxido de enxofre emitido por fabricas, queimadas e veículos movidos a diesel, o que certamente abaixariam ainda mais o pH (lembrando que o pH acido é inferior a 7, ou seja, quanto menor o numero maior o nível de acidez).
Só para se ter uma ideia a cidade de São Paulo possui 7 milhões de veículos em circulação e a emissão de gases como SO2 e NO2 é infinitamente maior. Da para imaginar a acidez das chuvas que atingem a capital, geralmente durante as tardes, ocasionadas pela elevação da massa de ar quando a mesma se aproxima da região da serra do mar.
CHUVA EM SÃO PAULO: AS CHUVAS ACIDAS CAUSAM DANOS A ESTRUTURAS URBANAS COMO A ESTATUA A ESQUERDA DA FOTO
As chuvas que caem durante a madrugada são mais acidas que as precipitações ocorridas durante o dia. Isso ocorre porque na ausência de luz solar as plantas deixam de absorver CO2 do ar uma vez que o processo de fotossíntese (chamada de fase clara) deixa de acontecer. Nesse caso ocorre aumento da concentração de CO2 no ar contribuindo para a diminuição do pH da chuva. A concentração de CO2 atinge valor mínimo entre as 12h e às 13h, pois nesse período de intensa iluminação a taxa de fotossíntese é alta. O ar urbano começa a se tornar perigosamente danoso nas primeiras horas da tarde, quando a iluminação reduz e aumentar a emissão de CO2 devido ao transito movimentado dos horários de pico.
Os carros a álcool podem até representar uma opção mais econômica e menos poluente que os veículos a diesel ou gasolina, porem os danos causados a saúde do cidadão comum são infinitamente piores. Quem já teve, ou tem, um veiculo movido a álcool conhece bem o cheiro irritante que aparece assim que é dada a partida no motor. Esse cheiro é provocado por um aldeído formado pela combustão do Etanol. A reação química que descreve a combustão dentro do motor é a seguinte:
CH3-CH2OH + ½ O2 ----------------- CH3-CHO (Etanal) + H2O
Para se ter uma ideia dos efeitos do Etanal no organismo, basta se lembrar de uma bela ressaca que você tenha tido em algum momento da vida. As pessoas acreditam que a ressaca é causada pelo álcool o que não é verdade. Ao ingerir bebida alcoólica o álcool é metabolizado pelo organismo e se converte em Etanal (CH3-CHO) e é esta substancia a responsável pelos efeitos da ressaca – dor de cabeça, enjoo, vômitos, fraqueza e sede. Como o álcool inibe a ação do hormônio antidiurético (ADH) ele provoca desidratação através da perda de líquidos na forma de urina. Isso só acentua os efeitos do etanal no organismo.
Deixando de lado a matemática e a química os problemas urbanos não se resumem a poluição do ar, mas também a poluição ocasionada pelo acumulo de lixo. Esse aumento per capto de lixo urbano se deve ao consumismo desenfreado do mundo moderno. O ato de substituir passou a ser um comportamento peculiar das sociedades do mundo globalizado. Esse comportamento irracional vêm sendo explorado de forma ofensiva pelo comercio. Basicamente o mercado têm sido impulsionado pela oferta de uma nova forma de tecnologia ao final de cada semestre. Centenas de Softwares e Hardwares lançados no mercado tem limitado o tempo de uso dos computadores a um período maximo de dois anos; os celulares são ainda mais “descartáveis”, sendo substituídos em media a cada seis meses.
No século XIX economistas já haviam conseguido associar os ciclos econômicos a marcha da inovação tecnológica. Isso de deve a baixa resiliência do consumidor diante das ofertas de um mercado movido pela troca. O papel dos bancos nesse lamentável quadro urbano é quase determinante uma vez que o consumismo exagerado é alavancado pelas inúmeras formas de credito que as instituições colocam a disposição do consumidor.
ENCHENTES: MAR DE PARASITAS
A impermeabilização do solo por meio do asfaltamento impede que a água da chuva seja absorvida pelo solo. O acumulo de lixo na rede de esgotos favorece a enchentes e alagamentos, que mesmo temporários, causam danos a saúde. A água acumulada na superfície possui contaminantes que emergem dos esgotos - como as fezes humanas. Essa água pode conter larvas (cercarias) de um parasita chamado “Schistosoma”, que penetra através da pele e se aloja nas veias do fígado causando uma parasitose chamada Esquistossomose.
Em alguns casos esse parasita causa acumulo de plasma nos tecidos do abdome, causando inchaço, daí o fato da doença ser conhecida popularmente como “barriga d’agua”. Acreditasse que essa parasitose tenha sido trazida para a America por meio de escravos africanos, embora a doença tenha surgido pela primeira vez no continente asiático. Vermes do parasita foram encontrados em múmias chinesas com mais de dois mil anos de idade.
VIOLÊNCIA E POBREZA
Há séculos a pobreza tem sido considerada o aspecto mais negativo do espaço urbano e sendo utilizada como indicador de outra patologia social: a violência. Seria correto atribuir o aumento de uma postura agressiva, algo diretamente ligada a natureza humana, como conseqüência do aumento de determinada condição social?
A expansão dos índices de violência esta mais relacionada a aspectos demográficos do que econômicos. O crescimento desordenado dos grandes aglomerados urbanos dificulta um planejamento urbano adequado resultando num aproveitamento desigual do espaço geográfico. Essa ampliação dos limites urbanos tem elevado as dificuldades enfrentadas pela população de todas as classes: distancias maiores tem separado os trabalhadores de seus locais de atuação, o custo dos transportes tem sofrido alterações periódicas, o transito tem se tornado cada vez mais caótico – uma evidencia das condições defasadas de escoamento do fluxo humano das metrópoles.
Em escala diametralmente oposta o tempo para o lazer e para as relações interpessoais tem reduzido. Tudo isso contribui para o aumento da violência, de forma infinitamente superior aos aspectos econômicos porque age diretamente no terreno mais instável da natureza humana: o seu emocional.
Os altos índices de violência nas regiões de morros e favelas é um exemplo claro de que a violência urbana esta diretamente relacionada a ocupação desigual do espaço geográfico, pois a característica mais marcante das periferias não é sua situação econômica, mas o seu sistema de ocupação irregular de terrenos vazios.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

sábado, 5 de outubro de 2013


Com Apenas 24 anos um jovem chamado Charles Dickens havia acumulado ao longo de dois anos, trabalhando como cronista em jornais londrinos como o Morning Chronicle e o Evening Chronicle, uma coletânea de textos sobre os aspectos da vida diária da velha Londres vitoriana. Dotado de uma observação sem igual Dickens consegue captar os pequenos dramas particulares dos cidadãos de uma das maiores metrópoles do século XIX. O retrato da cidade se constrói a partir do banal: um vendedor de biscoitos perambulando pelas ruas, um jovem limpador de chaminés sentado na calçada, o transito de carruagens no Mercado de Convent Garden, vendedores ajeitando as mercadorias nas vitrines das lojas, a agitação dos festeiros durante as madrugadas e a miséria presente em cada esquina. “E surpreendente observar o dia começar, a vida fervilhar e o alvoroço instalar-se ao redor dos prédios trancados e emudecidos. (,,,) O ultimo bêbado, que deveria ter achado o caminho de casa antes do dia raiar, ainda cambaleia pesadamente, ecoando sua voz roufenha aos sons da bebedeira da noite anterior.” – escreveu em uma crônica publicada no Evening Chronicle em 21 de julho de 1835.
Charles John Huffam Dickens nasceu em 7 de fevereiro de 1812 na cidade de Portsmouth, e logo na infância sentiu os efeitos da Revolução Industrial. Seu pai, chamado John, era um funcionário da marinha que vivia endividado. Em 1822 a família decide se mudar para Londres na esperança de melhorar de vida. Dois anos depois John Dickens vai para a cadeia por dividas. Elisabeth Dickens, sozinha a própria sorte com o filho resolve vender os pertences da família; o jovem Dickens, apaixonado por leitura desde cedo, viu seus livros serem vendidos para saldar as dividas. Em 1824 ele consegue emprego em uma fabrica de graxa como colador de rótulos. Anos mais tarde ele se recordaria de sua ocupação na fabrica como um dos momentos mais dramáticos de sua vida. Três anos depois ele se torna escrevente de um escritório de advocacia e em 1832, após aprender sozinho a taquigrafia, consegue emprego como repórter parlamentar. Em 1836 Dickens se casar com Catherine Hogarth, filha do editor do Evening Chronicle. Naquele mesmo ano ele finalmente pública seu primeiro livro: “Retratos Londrinos” – “Sketches by Boz” (O nome era devido ao costume do autor em assinar seus texto com o pseudônimo “Boz”). A obra teve sucesso imediato e abriu as portas para Dickens emergir como um dos maiores escritores da era vitoriana.
O livro é dividido em três partes: “Cinco retratos de nossa paróquia”, “Cenas” e “Personagens”. O estilo descritivo da narrativa, adornado pela ironia e sarcasmo característicos do autor, são os pontos fortes da obra. Em alguns momentos Dickens expõe a tendência humana de querer extrapolar os limites do “eu” na busca pelo ideal que fazem de si própria. Essa atração pelo objeto fátuo invariavelmente remete ao ridículo:
“O desejo dos integrantes das classes sociais humildes de ascender, elevar-se aos costumes e maneiras daqueles cuja sorte fez com que estivessem em um patamar mais acima, é muitas vezes observável, para não dizer lamentável. Tal atenção deve existir, e de fato existe, para muita gente, principalmente entre aquela parcela da população conhecida por seus sonhos aristocráticos: a classe media. (...) Desfilam pelos desbotados ambientes de algum hotel de segunda categoria com tanta satisfação quanto àquelas invejáveis criaturas que tem o privilegio de exibir toda a sua pompa em exclusivos lugares marcados pela parvoíce.”
Obviamente que nem todos os textos são interessantes, alguns poucos são chatos, mas a maioria faz a obra valer a pena. Um dos mais belos trechos está no conto “Divertimentos Londrinos”, publicado no Evening Chronicle em 17 de março de 1835. Nele o autor menciona o costume de um casal de idosos em admirar seu jardim durante as tardes; e o que se inicia como uma simples narrativa, aparentemente banal, termina adornada por um tom poético bem característico do autor:
“Num entardecer de verão, depois de o velho casal já estar exausto de tanto andar de um lado para o outro e do grande regador já ter sido enchido e esvaziado umas quatro vezes. Você pode observá-los sentados lado a lado, juntinhos e felizes, em sua pequena e aconchegante casa, aproveitando a paz do crepúsculo e admirando as sombras que se lançam sobre o jardim. Pouco a pouco, o lugar vai ficando cada vez mais envolto nas sombras. As pétalas multicoloridas das flores mais alegres vão, lentamente, escurecendo – uma boa representação dos anos que já se passaram silenciosamente diante de suas vistas e que, no caminho, acabaram eclipsando os matizes mais brilhantes de suas esperanças no futuro e de uma juventude que se esvaneceu.”
No século XIX o progresso econômico e industrial da Inglaterra era notável. A Revolução Industrial havia concentrado capital e recursos tecnológicos em uma escala assustadora. O país era um exemplo de sociedade capitalista e servia de inspiração para muitos dos países europeus que buscavam alcançar um nível de desenvolvimento industrial semelhante. A industrialização criou uma gigantesca demanda de aço e as grandes siderúrgicas floresceram devido às imensas reservas de carvão mineral do país. Em 1830 a Grã-Bretanha produzia 15 milhões de toneladas de carvão mineral, que correspondia a 90% da produção mundial. A expansão das linhas ferroviárias facilitou o escoamento do carvão até os grandes centros industriais e favorecendo ao crescimento urbano.
O aspecto geo-econômico mais marcante do século XIX foi a migração populacional (a maior de toda a historia humana) e nesta se inclui o êxodo rural. Os quatro maiores aglomerados urbanos era composto pelo eixo Londres-Paris-Berlim-Viena. Essa concentração industrial funcionou como poderoso atrativo a massa proletariada das cidades provincianas e dos camponeses. Os centros urbanos prometiam maiores oportunidades de emprego, o que teoricamente significava melhores condições de vida. Na busca por seus sonhos no emaranhado industrial urbano os trabalhadores deram vida a seus piores pesadelos.
A velha Londres vitoriana era um lugar onde não faltavam elementos capazes de abreviar a vida, sobretudo à dos mais pobres. “O inferno é um lugar semelhante a Londres, uma cidade esfumaçada e populosa. Existe ai todo tipo de pessoas arruinadas e pouca diversão, ou melhor nenhuma, e muito pouca justiça e menos ainda compaixão.” escreveu Sheller.
Dickens é um dos maiores especialistas em retratar a marginalidade da sociedade inglesa do século XIX. Obras como “Grandes Esperanças” e “Oliver Twist” o imortalizaram como um dos maiores escritores da era vitoriana. Ninguém menos que Fiodor Dostoievski era um grande admirador de seus textos. Durante toda a obra é possível perceber a intenção do autor em criar, não personagens, mas caricaturas urbanas da sociedade vitoriana. Impossível não perceber o tom de critica no trecho que abre a crônica “O primeiro de maio”: “Limpador, limpador, lim-pa-dor!”. Naquela época o governo havia proibido os limpadores de chaminés de percorrer as ruas anunciando seus serviços aos gritos. Dickens explorou a polissemia desta proibição ao destacar um trecho, publicado no The Library of Fiction em 31 de maio de 1836, seguido das palavras “propaganda ilegal”. É como se a imundice da sociedade vitoriana tivesse o consentimento do governo. Outro trecho onde é possível perceber a transição sutil entre critica e narrativa esta no conto “À noite nas ruas”, publicado no Bell’s Life in London em 17 de janeiro 1836:
“Se quisermos conhecer as ruas de Londres em seu momento mais glorioso, devemos observá-las em uma escura, sombria e triste noite de inverno (...). A multidão que passou de um lado para o outro durante todo o dia vai minguando rapidamente. E o barulho dos gritos e discussões que vem das tavernas é praticamente o único som a quebrar a quietude melancólica da noite.”
Dickens produz um quadro vivo da Londres vitoriana o que lhe permite, como observador, reafirmar as palavras de Edgar Alan Poe: “A multidão inabarcável onde ninguém se desvenda todo para o outro e onde ninguém é para o outro inteiramente impenetrável.”
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
RETRATOS LONDRINOS
Charles Dickens
Editora Record

terça-feira, 3 de setembro de 2013

ESPECTADOR NOTURNO


Contemplo a beleza solitária da lua
Admiro a luz do luar
Estremeço diante do seu brilho
Na reluzente espuma do mar
Busco algo belo como a lua
No céu infinito, com estrelas a adornar
Mas me deparo com uma tormenta
Em meio às ondas do mar
Sonho alcançar os céus
Banhado pela luz do luar
Mas despenco do meu mundo
Rumo as profundezas do mar
Existe beleza maior que a luz da lua?
Que de forma nobre tende a chegar
Tendo o mar como cúmplice
E olhos da areia a admirar
Observo da noite escura
E vejo o mundo a girar
Percebo o que é de fato viver
Mas permaneço inerte em sonhos
Tendo apenas o luar a me consolar
Vivo em um mundo estranho
Onde ainda que repleto de sonhos
E gritos dispersos no ar
A beleza se faz onipresente
Na medida de um belo luar
AUTOR:
Tiago R. Carvalho

sábado, 24 de agosto de 2013

STALIN EM DOSE DUPLA


As duas melhores biografias já públicadas sobre o lider sovietico.
Uma pesquisa no Google com as palavras "Stálin, biografia" revela a existência de quase 1 milhão de sites (mais de vinte mil em português). Qual o sentido então de escrever e publicar mais uma biografia do famigerado líder soviético? A resposta é simples: além de desencavar memórias e diários inéditos de personagens importantes e de entrevistar os sobreviventes e descendentes dos poderosos da era stalinista, o jornalista e escritor inglês Simon Sebag Montefiore beneficiou-se da recentíssima liberação de cartas, bilhetinhos, anotações nas margens de documentos e livros, minutas de reuniões, agendas e papéis que passavam todos os dias pela escrivaninha de Stálin, em muitos dos quais ele deixava sua marca de aprovação, reprovação ou escárnio. Com isso, pôde revelar a intimidade do poder que até agora permanecia envolta em mistério e mostrar sua face mais humana, embora nem sempre menos brutal.
Montefiore oferece um retrato nuançado de Stálin: leitor compulsivo, apreciador de música e cinema, burocrata minucioso e infatigável, pai rígido, marido desesperado com o suicídio da esposa, político suspeitoso e paranóico, implacável com possíveis inimigos e concorrentes, e líder disposto a sacrificar qualquer coisa - família, amigos, camaradas e milhões de camponeses e soldados - em nome do ideal comunista. E traz para o primeiro plano o que chama de "magnatas", os membros do círculo íntimo do poder - Mólotov, Vorochílov, Mikoian, Khruchióv e muitos outros -, que, como uma grande família, participavam de longos jantares e intermináveis bebedeiras, em que decidiam assuntos de Estado e compartilhavam a responsabilidade pelo terror. Montefiore relata em detalhes os bastidores das grandes decisões políticas e diplomáticas, ao mesmo tempo em que penetra na "cozinha" dos poderosos, revelando as preocupações cotidianas com a saúde, as férias, os filhos, ou o disse-me-disse muitas vezes mortal dos corredores do Kremlin. No fim, temos a imagem detalhada e completa da grande máquina montada para implantar o comunismo a ferro e fogo, aquela que, como admitiria Khruchióv mais tarde, deixou todos "com sangue até os cotovelos".
"Um retrato perturbador da vida no círculo íntimo do ditador [...] e da cultura de sadismo, crueldade e terror que floresceu ao seu redor e promoveu um regime assassino que causaria milhões de mortes." - The New York Times
TRECHO DA OBRA
PRÓLOGO O JANTAR FESTIVO - 8 DE NOVEMBRO DE 1932
Por volta das dezenove horas de 8 de novembro de 1932, Nádia Allilúieva Stálin, a esposa de 31 anos, rosto oval e olhos castanhos do secretário-geral do Partido, vestia-se para a ruidosa festa anual que celebraria o 15o. aniversário da Revolução. Puritana, diligente mas frágil, Nádia orgulhava-se de sua "modéstia bolchevique", usando os vestidos mais sem graça e sem forma, envolvida em xales simples, com blusas de colarinho quadrado e sem maquiagem. Mas, naquela noite, fazia um esforço especial. No apartamento sombrio dos Stálin, na construção do século XVII de dois andares do Palácio Potechny, que significa "palácio do divertimento", pois abrigara outrora os atores czaristas e um teatro, ela rodopiava diante de sua irmã Ana, com um vestido preto longo e inusitadamente moderno, com rosas vermelhas bordadas, importado de Berlim. Daquela vez, ela concordara em fazer um penteado, em vez de usar seu coque costumeiro. Descontraída, colocou uma rosa escarlate nos cabelos negros. Prestigiada por todos os magnatas bolcheviques, tais como o premiê Mólotov e sua esposa, a esbelta, inteligente e sedutora Polina, que era a melhor amiga de Nádia, a festa era promovida anualmente pelo comissário da Defesa Vorochílov, que morava no longo e estreito prédio da Guarda Montada, a cinco passos do Potiéchni. No mundo minúsculo e íntimo da elite bolchevique, aquelas noitadas simples e alegres acabavam com os potentados e suas mulheres dançando gigas cossacas e cantando lamentos georgianos. Mas, naquela noite, a festa não acabou do modo usual.
Na mesma hora, a poucas centenas de metros dali, perto do mausoléu de Lênin e da Praça Vermelha, em seu escritório do segundo andar do Palácio Amarelo, uma construção triangular do século XVIII, Ióssif Stálin, o secretário-geral do Partido Bolchevique e o Vojd - líder - da União Soviética, então com 53 anos, 22 a mais do que Nádia e pai de seus dois filhos, encontrava-se com seu agente da polícia secreta favorito. Guenrikh Iagoda, vice-presidente da GPU, um filho de joalheiro judeu com cara de doninha, originário de Nijny Nóvgorod, com um "bigode hitlerista" e um gosto por orquídeas, pornografia alemã e amizades literárias, informava Stálin de novos complôs contra ele dentro do partido e mais turbulência no campo. Stálin, assessorado por Mólotov, de 42 anos, e o responsável pela economia, Valerian Kúibichev, que parecia um poeta louco, com cabelos desgrenhados, um entusiasmo por bebidas, mulheres e, apropriadamente, escrever poesia, ordenou a prisão dos que se opunham a ele. A tensão daqueles meses crescia à medida que Stálin temia perder a Ucrânia, que, em certas partes, caíra numa distopia de fome e desordem. Quando Iagoda saiu, cinco minutos depois das sete da noite, os outros ficaram conversando sobre a guerra para "dobrar a espinha" do campesinato, qualquer que fosse o custo para as milhões de vítimas da maior epidemia de fome da história provocada pelo homem. Eles estavam decididos a usar os grãos para financiar o gigantesco programa de industrialização da Rússia. Mas, naquela noite, a tragédia ocorreria mais perto de casa: Stálin iria enfrentar a crise pessoal mais profunda e misteriosa de sua carreira. Ele a relembraria sem cessar pelo resto de seus dias.
Cinco minutos depois das oito, acompanhado pelo grupo, Stálin desceu as escadas na direção da festa, caminhando pelas vielas e praças cheias de neve daquela fortaleza medieval de muros vermelhos, vestido com a túnica do partido, velhas calças largas, botas de couro macio, velho sobretudo do Exército e seu chapka (gorro) de pele de lobo com orelheiras. Seu braço esquerdo era levemente menor do que o direito - mas a diferença era muito menos perceptível do que se tornou na velhice - e ele costumava fumar um cigarro ou cachimbo. A cabeça e os cabelos grossos e curtos, ainda pretos, mas já com as primeiras manchas grisalhas, irradiavam a força graciosa dos homens das montanhas do Cáucaso; seus olhos felinos, quase orientais, eram "cor de mel", mas soltavam chispas lupinas amarelas quando ele estava irado. As crianças achavam seu bigode espinhento e seu cheiro de tabaco acre, mas, como Mólotov e suas admiradoras femininas lembravam, Stálin ainda era atraente para as mulheres, com quem flertava de modo tímido e desajeitado.
Essa figura atarracada e baixa, de 1,68 metro de altura, que caminhava pesadamente, mas com rapidez, com as pontas dos pés voltadas para dentro (modo de andar imitado meticulosamente pelos atores do Bolchoi quando interpretavam czares), conversando de forma calma com Mólotov em seu sotaque forte de georgiano, era protegida apenas por dois guarda-costas. Os poderosos andavam por Moscou quase sem segurança. Até o suspeitoso Stálin, que já era odiado no campo, ia a pé de seu escritório para casa com apenas um guarda-costas. Uma noite de tempestade de neve, Mólotov e Stálin, no caminho para casa, atravessavam "sem guarda-costas" a praça Manege quando foram abordados por um mendigo. Stálin deu-lhe dez rublos, e o vagabundo, desapontado, gritou: "Seu burguês desgraçado!". "Quem pode entender nosso povo?", comentou Stálin. Apesar do assassinato de autoridades soviéticas (inclusive uma tentativa de matar Lênin, em 1918), as coisas continuaram muito relaxadas até o assassinato do embaixador soviético na Polônia, em junho de 1927, quando houve um leve aperto na segurança. Em 1930, o Politburo aprovou um decreto "para proibir o camarada Stálin de andar a pé pela cidade". No entanto, ele continuou com suas caminhadas por mais alguns anos. Essa era uma idade de ouro que, em poucas horas, acabaria em morte, senão assassinato. Stálin já era famoso por sua inescrutabilidade de esfinge e modéstia fleumática, representadas pelo cachimbo que fumava de modo ostentoso, como um ancião camponês. Longe de ser a mediocridade burocrática insossa desdenhada por Trotski, o verdadeiro Stálin era uma pessoa melodramática, enérgica e orgulhosa, excepcional em tudo. Sob a calma lúgubre dessas águas insondáveis havia redemoinhos mortais de ambição, ódio e infelicidade. Capaz tanto de se comportar com autocontrole como de ter rompantes imprudentes, ele parecia fechado numa armadura fria de aço, mas suas antenas eram extremamente sensíveis, e seu gênio impetuoso de georgiano era tão incontrolável que quase arruinara sua carreira ao se lançar contra a mulher de Lênin. Era um neurótico volúvel com o temperamento tenso e fervente de um ator excitável que se compraz com o próprio drama - o que seu sucessor Nikita Khruchióv chamou de um litsedei, um homem de muitas faces. Lázar Kaganóvitch, um de seus camaradas mais próximos por mais de trinta anos, que também se dirigia à festa, deixou a melhor descrição desse "personagem singular": ele era "um homem diferente em diferentes momentos [...]. Conheci não menos de cinco ou seis Stálins".
Porém, a abertura de seus arquivos e muitas fontes novas disponíveis o iluminam mais do que nunca: não é mais suficiente descrevê-lo como um "enigma". Sabemos agora como ele falava (constantemente sobre si mesmo, amiúde com honestidade reveladora), como escrevia notas e cartas, o que comia, cantava e lia. Colocado no contexto da liderança fissípara soviética, um ambiente sem par, ele se torna uma pessoa real. O homem que havia dentro dele era um político superinteligente e talentoso para quem o próprio papel histórico era fundamental, um intelectual nervoso que lia história e literatura de modo compulsivo, um hipocondríaco inquieto que sofria de amidalite crônica, psoríase, dores reumáticas em seu braço deformado e algidez, resultado de seu exílio na Sibéria. Loquaz, sociável e excelente cantor, esse homem solitário e infeliz arruinou todas as suas relações de amor e de amizade ao sacrificar a felicidade à necessidade política e à paranóia canibalesca. Marcado pela infância e de temperamento anormalmente frio, tentou ser um pai e marido amoroso, mas envenenou todos os poços emocionais. Esse amante nostálgico de rosas e mimosas acreditava que a solução para todos os problemas humanos era a morte e foi obcecado por execuções. Esse ateu devia tudo aos padres e via o mundo em termos de pecado e arrependimento, mas era um "marxista convicto e fanático desde a juventude". Seu fanatismo era "semi-islâmico", seu egotismo messiânico, sem fronteiras. Assumia a missão imperial dos russos, mas continuava a ser um georgiano, levando as vendetas de seus antepassados para Moscou. A maioria dos homens públicos tem o hábito cesarista de se afastar de si mesmo para admirar a própria figura no palco mundial, mas o afastamento de Stálin era em grau maior. Seu filho adotivo, Artiom Serguéiev, lembra dele gritando com o filho Vassíli por ter se aproveitado do nome do pai. "Mas eu sou um Stálin também", disse Vassíli. "Não, você não é", replicou Stálin. "Você não é Stálin e eu não sou Stálin. Stálin é o poder soviético. Stálin é o que ele é nos jornais e nos retratos, não você, nem mesmo eu!" Ele era uma criação de si mesmo. Um homem que inventa seu nome, data de nascimento, nacionalidade, educação e seu passado inteiro, a fim de mudar a história e desempenhar o papel de líder, provavelmente acabará numa instituição mental, a não ser que abrace, por vontade, sorte e habilidade, o movimento e o momento que podem inverter a ordem natural das coisas. Stálin foi um homem assim. O movimento foi o Partido Bolchevique; seu momento, a decadência da monarquia russa. Após a morte de Stálin, virou moda considerá-lo uma aberração, mas isso significava reescrever a história de modo tão grosseiro quanto o próprio Stálin fez. Seu sucesso não foi um acidente. Ninguém se ajustava mais às intrigas conspiratórias, às filigranas teóricas, ao dogmatismo homicida e à frieza desumana do partido de Lênin. É difícil encontrar uma síntese melhor entre um homem e um movimento que o casamento ideal de Stálin com o bolchevismo: ele era um espelho de suas virtudes e defeitos. Nádia estava excitada porque se vestia para uma festa. No dia anterior, na parada do Dia da Revolução, a dor de cabeça fora insuportável, mas ela agora estava alegre. Assim como o verdadeiro Stálin era diferente de sua personagem histórica, o mesmo acontecia com Nadejda Allilúieva. "Ela era muito bonita, mas não se vê isso nas fotografias", lembra Artiom Serguéiev. Ela não tinha uma beleza convencional. Quando sorria, seus olhos irradiavam honestidade e sinceridade, mas era também solene, distante e perturbada por males físicos e mentais. Sua frieza era periodicamente destruída por ataques de histeria e depressão. Sofria de ciúmes crônicos. Ao contrário de Stálin, que tinha a graça de um verdugo, ninguém lembra do senso de humor de Nádia. Ela era uma bolchevique, bem capaz de agir como informante do marido, denunciando seus inimigos. Era então o casamento de um ogro e uma ovelha, uma metáfora do tratamento que Stálin dava à Rússia? Somente na medida em que se tratava de um casamento bolchevique em todos os sentidos, típico da cultura peculiar que o gerou. Contudo, visto de outro ângulo, trata-se simplesmente da tragédia comum de um empedernido viciado em trabalho que não poderia ser um parceiro pior para sua esposa autocentrada e desequilibrada. A vida de Stálin parecia ser uma fusão perfeita de política e família bolchevique. Apesar da guerra brutal contra os camponeses e da crescente pressão sobre os líderes, aquele era um período de idílio feliz, uma vida de fins de semana no campo em datchas tranqüilas, jantares alegres no Kremlin e férias lânguidas às margens do mar Negro que os filhos de Stálin lembrariam como as mais felizes de suas vidas. As cartas de Stálin revelam um casamento difícil, mas amoroso:
"Olá, Tatska [...] sinto tanto a sua falta Tatotchka - estou solitário como um mocho", escreveu para Nádia, usando o apelido carinhoso dela, a 21 de junho de 1930. "Não vou sair da cidade a negócios. Estou só acabando meu trabalho e depois vou sair da cidade com as crianças amanhã. [...] Então adeus, não demore muito, volte para casa mais cedo! Beijos! Seu Ióssif." Nádia estava tratando de suas dores de cabeça em Carlsbad, Alemanha. Stálin sentia saudades dela e cuidava das crianças, como qualquer marido. Em outra ocasião, ela terminava uma carta assim: "Peço muito que cuide de você! Mando beijos apaixonados, tal como você me beijou quando nos despedimos! Sua Nádia". Nunca foi uma relação fácil. Ambos eram apaixonados e suscetíveis: suas brigas eram sempre dramáticas. Em 1926, ela levou os filhos para Leningrado, dizendo que o estava abandonando. Mas ele implorou que voltasse e ela voltou. Percebe-se que esse tipo de briga era freqüente, porém havia intervalos de um tipo de felicidade, embora não se devesse esperar aconchego nessa espécie de lar bolchevique. Stálin era amiúde agressivo e insultante, no entanto o que mais tornava difícil sua convivência era provavelmente seu distanciamento. Nádia era orgulhosa e severa, mas sempre doente. Se camaradas como Mólotov e Kaganóvitch achavam que ela estava à beira da "loucura", sua própria família admite que ela era "às vezes enlouquecida e demasiado sensível, todos os Allilúiev tinham sangue cigano instável". Os dois eram impossíveis de maneira parecida. Ambos eram egoístas, frios com temperamento fogoso, embora ela não tivesse nada da crueldade e duplicidade dele. Talvez fossem parecidos demais para ser felizes. Todas as testemunham concordam que a vida com Stálin "não era fácil, era uma vida dura". Não era um "casamento perfeito", disse Polina Mólotova à filha do casal Svetlana, "mas qual casamento o é?" Após 1929, eles ficavam freqüentemente separados, pois Stálin ia de férias para o sul no outono, quando Nádia ainda estava estudando. Não obstante, os tempos felizes eram cálidos e amorosos: suas cartas eram levadas e trazidas por mensageiros da polícia secreta e os bilhetes seguem-se com tal rapidez que parecem e-mails. Mesmo entre esses ascetas bolcheviques havia insinuações de sexo: os "beijos muito apaixonados" que ela relembrou na carta citada acima. Eles gostavam da companhia um do outro. Como vimos, ele sentia muitas saudades quando ela estava longe e Nádia também sentia a falta dele. "É muito chato sem você", escreveu ela. "Venha para cá e será gostoso ficarmos juntos." Eles compartilhavam Vassíli e Svetlana. "Conte alguma coisa sobre as crianças", escreveu Stálin do mar Negro. Quando ela está longe, ele relata: "As crianças estão bem. Não gosto da professora, ela anda correndo pelo lugar e deixa Vássia e Tolika [o filho adotivo Artiom] correr da manhã à noite. Tenho certeza de que Vaska vai mal nos estudos e quero que eles aprendam alemão". Muitas vezes, ela mandava junto com a carta os recados infantis de Svetlana. Compartilhavam suas preocupações com saúde como qualquer casal. Quando estava fazendo a cura nos banhos de Matsesta, perto de Sotchi, Stálin contou a ela: "Já tive dois banhos e terei dez [...]. Acho que ficarei seriamente melhor". "Como está sua saúde?", perguntou ela. "Tive um eco nos pulmões e uma tosse", respondeu ele. Seus dentes eram um problema perene: "Seus dentes, por favor, trate deles", disse Nádia. Quando ela foi fazer uma cura em Carlsbad, ele pediu preocupado: "Você visitou os médicos - conte-me a opinião deles!". Sentia falta dela, mas se o tratamento demorasse mais, ele compreendia.
Stálin não gostava de trocar de roupa e usava trajes de verão no inverno; ela então se preocupava: "Mando-lhe um sobretudo porque depois do sul você pode pegar um resfriado". Ele também mandava presentes para Nádia: "Estou lhe mandando alguns limões", escreveu ele, orgulhoso. "Você vai gostar deles." Esse jardineiro zeloso gostaria de cuidar de limoeiros até sua morte. Eles fofocavam sobre os amigos e camaradas que viam: "Ouvi dizer que Gorki [o romancista famoso] foi a Sotchi", escreveu ela. "Talvez esteja visitando você - que pena para mim. Ele tem uma conversa tão encantadora [...]". E, é claro, como uma criada bolchevique vivendo naquela minúscula família mais ampla de líderes e suas esposas, Nádia era quase tão obcecada por política quanto Stálin, passando adiante o que Mólotov ou Vorochílov lhe haviam contado. Mandava-lhe livros e ele agradecia, mas reclamava quando faltava um. Ela caçoava de Stálin devido à forma como ele aparecia na literatura dos russos brancos emigrados.
A modesta e austera Nádia não temia dar ordens. Repreendeu Poskrióbichev, o sombrio chefe de gabinete de Stálin, quando estava em férias, queixando-se de que "não recebemos nenhuma literatura estrangeira. Mas dizem que existem coisas novas boas. Talvez você converse com Iagoda [subchefe da gpu] [...]. Na última vez, recebemos livros muito desinteressantes [...]". Quando voltou das férias, mandou a Stálin as fotografias: "Só as boas - Mólotov não está engraçado?". Ele depois caçoou do absurdamente impassível Mólotov na frente de Churchill e Roosevelt. E mandou para Nádia fotografias das férias dele. Porém, no final dos anos 20, Nádia estava descontente do ponto de vista profissional. Queria ser uma mulher com carreira bolchevique séria por seus próprios méritos. No começo dos anos 20 datilografara para o marido, depois para Lênin e Sergo Ordjonikidze, outro dínamo georgiano, responsável agora pela Indústria Pesada. Depois foi para o Instituto Agrário Internacional, no Departamento de Agitação e Propaganda, onde, perdida nos arquivos, encontramos o trabalho diário da esposa de Stálin em toda a sua monotonia bolchevique: seu chefe pede a sua assistente, que se assina "N. Allilúieva", para cuidar da publicação de um artigo extremamente chato intitulado "Devemos estudar o movimento jovem na aldeia". "Não tenho absolutamente nada a ver com ninguém em Moscou", resmungava ela. "É estranho, mas me sinto mais próxima de gente que não é do Partido - mulheres, é claro. O motivo é que elas são de convivência mais fácil. [...] Há uma quantidade incrível de preconceitos novos. Se não trabalha, você é só uma baba! Ela tinha razão. As novas mulheres bolcheviques, como Polina Mólotova, eram políticas por seus próprios méritos. Essas feministas desprezavam as donas-de-casa e datilógrafas como Nádia. Mas Stálin não queria uma mulher desse tipo para ele: sua Nádia seria o que ele chamava uma "baba". Em 1929, Nádia decidiu se tornar uma mulher poderosa do partido e não saiu de férias com o marido, mas ficou em Moscou a fim de prestar exame para a Academia Industrial, onde estudaria fibras sintéticas, daí sua correspondência amorosa com Stálin. A educação era uma das grandes realizações bolcheviques e havia milhões como ela. Stálin queria realmente uma baba, mas apoiou a iniciativa de Nádia: por ironia, seus instintos talvez estivessem certos, pois ficou claro que ela não era suficientemente forte para ser estudante, mãe e esposa de Stálin ao mesmo tempo. Muitas vezes, ele terminava a carta assim: "Como vão os exames? Beijo minha Tatka!". A mulher de Mólotov tornou-se comissária do povo - e havia todos os motivos para que Nádia esperasse o mesmo. [...]
O JOVEM STÁLIN Simon Sebag Montefiore
Depois de ter revelado as minúcias do terror stalinista em Stálin: a corte do czar vermelho, Simon Sebag Montefiore mergulha agora no passado do ditador soviético e faz um relato fascinante de sua infância e juventude. Trata-se de um período sobre o qual Stálin sempre lançou cortinas de fumaça, dando informações contraditórias e enganadoras, suprimindo fatos e personagens e minimizando sua importância. As revelações extraordinárias de O jovem Stálin deixam claro por que o czar vermelho preferia esconder boa parte de seu passado pré-soviético. Com o fim da União Soviética, emergiu um tesouro de informações sobre a vida de Stálin anterior à Revolução - os segredos de suas origens, os infortúnios e sucessos de sua infância, os eventos extraordinários e a carreira ímpar de um jovem que foi seminarista brilhante, intelectual, poeta, agitador, assaltante, pirata, incendiário, assassino e mestre da conspiração e da fuga de prisões. É com base neste material desencavado de inúmeros arquivos, especialmente da Geórgia, e em conversas com descendentes (e até mesmo testemunhas da época) que Simon Sebag Montefiore traça um retrato vívido, complexo e surpreendente dos anos de formação daquele que viria a ser Stálin. "O retrato de Stálin que emerge destas paginas é mais completo, mais vivo, mais arrepiante e muito mais convincente do que todos os que o precederam." - New York Review of Books
TRECHO DA OBRA
Prólogo
O assalto ao banco
Às dez da manhã abafada de quarta-feira, 13 de junho de 1907, na fervilhante praça central de Tíflis, um vistoso e bigodudo capitão de cavalaria de culotes e botas, empunhando um grande sabre circassiano, realizava truques a cavalo, brincando com duas belas e bem vestidas garotas georgianas que giravam sombrinhas espalhafatosas - ao mesmo tempo que seguravam pistolas Mauser escondidas em suas vestes. Rapazes de aparência ordinária, vestidos com blusas claras de camponês e calças de estilo marinheiro, esperavam nas esquinas, acariciando revólveres e granadas escondidos. Na mal-afamada taberna Tiliputchúri, um bando de gângsteres fortemente armados ocupou o bar do porão e convidava alegremente os transeuntes a acompanhá-los na bebida. Todos eles aguardavam para executar a primeira proeza de Ióssif Djugachvíli, de 29 anos, mais tarde conhecido como Stálin, a chamar a atenção do mundo. Poucas pessoas de fora da gangue sabiam do plano daquele dia para um "número" criminoso-terrorista, mas Stálin trabalhara nele durante meses. Um homem que conhecia o plano em termos amplos era Vladímir Lênin, o líder do Partido Bolchevique, que estava escondido muito longe da Geórgia, numa casa de campo em Kuokola, Finlândia. Dias antes, tivesse acabado de proibir rigorosamente todas as "expropriações", o eufemismo para roubo de bancos. Mas as operações, assaltos e assassinatos de Stálin, sempre executados com atenção meticulosa aos detalhes e ao sigilo, haviam feito dele o "principal financiador do Centro Bolchevique". Os acontecimentos daquele dia fariam manchetes em todo o mundo, sacudiriam literalmente os alicerces de Tíflis e fragmentariam ainda mais os social-democratas em facções rivais: aquele dia iria ao mesmo tempo fazer a carreira de Stálin e quase arruiná-la - um divisor de águas em sua vida.
Na praça Ierevan, os vinte salteadores que compunham o núcleo da gangue de Stálin conhecida como "Drujina" assumiram posições, enquanto seus vigias observavam a avenida Golovinski, a elegante rua principal de Tíflis, depois do esplendor branco italianado do palácio do vice-rei. Eles esperavam o tropel de uma diligência e seu esquadrão de cossacos a galope. O capitão do exército com o sabre circassiano rodopiou seu cavalo antes de desmontar para um desfile pelo bulevar da moda. Todas as esquinas estavam guardadas por um cossaco ou um policial: as autoridades estavam a postos. Esperava-se alguma coisa desde janeiro. Os informantes e agentes da polícia secreta do czar, a Okhrana, e sua polícia política uniformizada, os gendarmes, haviam feito copiosos relatórios sobre as traquinagens clandestinas das gangues de revolucionários e criminosos. No lusco-fusco enevoado desse submundo, os universos dos bandidos e dos terroristas se haviam fundido e era difícil diferenciar boatos da verdade. Mas haviam escutado um "papo" sobre um "extraordinário" - como os especialistas em inteligência de hoje diriam - durante meses. Naquela manhã quente e úmida, a cor oriental de Tíflis (agora Tbilíssi, capital da República da Geórgia) mal parecia pertencer ao mesmo mundo da capital do czar, São Petersburgo, distante 1.600 quilômetros. As ruas mais antigas, sem água encanada ou eletricidade, subiam as encostas da Mtatsminda, a Montanha Sagrada, até ficarem impossivelmente escarpadas, cheias de casas tortuosamente pitorescas, vergadas com sacadas, entrelaçadas por velhas videiras. Tíflis era uma grande aldeia onde todos se conheciam.
Logo atrás do quartel-general militar, na elegante rua Freilinskaia, a um passo da praça, morava a esposa de Stálin, uma bela e jovem costureira georgiana chamada Kató Svanidze, e seu filho recém-nascido Iákov. Era um verdadeiro casamento de amor: apesar de seu temperamento sombrio, Stálin era devotado a Kató, que o admirava e compartilhava seu fervor revolucionário. Enquanto tomava sol com o bebê na sacada, seu marido estava prestes a dar a ela e à própria Tíflis um choque medonho. Essa cidade familiar era a capital do Cáucaso, o vice-reinado montanhoso e selvagem do czar, entre os mares Negro e Cáspio, um caldeirão de povos orgulhosos e arrebatados. A avenida Golovinski era quase parisiense em sua elegância. Teatros neoclássicos brancos, um teatro lírico em estilo mourisco, hotéis grandiosos e os palácios dos príncipes georgianos e barões do petróleo armênios enfileiravam-se na rua, mas, assim que se passava o quartel-general militar, a praça Ierevan se abria para um pot-pourri asiático. Ambulantes em trajes exóticos e barracas ofereciam o condimentado feijão lobio georgiano e tortas de queijo katchapúri quentes. Transportadores de água, vendedores ambulantes, batedores de carteira e carregadores faziam entregas, ou roubavam os bazares armênios e persas, cujos corredores se pareciam mais com uma feira levantina do que com uma cidade européia. Caravanas de camelos e burros, carregadas de sedas e especiarias da Pérsia e do Turquestão, frutas e odres de vinho do luxuriante interior georgiano, entravam pelos portões do caravançará. Jovens garçons e mensageiros serviam sua clientela de hóspedes e comensais, trazendo para dentro os sacos, desatrelando os camelos - e observando a praça. Com a abertura dos arquivos da Geórgia, sabemos agora que Stálin usava os meninos do caravançará para o serviço revolucionário de espionagem de rua e entrega de mensagens. Enquanto isso, em um dos recintos cavernosos do fundo do caravançará, os chefes da gangue levantavam o moral de seus homens, repassando o plano uma última vez. Stálin estava pessoalmente presente naquela manhã. As duas adolescentes de sombrinhas rodopiantes e revólveres carregados, Pátsia Goldava e Anneta Sulakvelidze, "de cabelos castanhos, esbeltas, com olhos negros que expressavam juventude", atravessaram afetadamente a praça para ficar diante do quartel-general militar, onde flertaram com oficiais russos, gendarmes de vistosos uniformes azuis, e cossacos de pernas arqueadas.
Tíflis era - e ainda é - uma cidade lânguida de pessoas que perambulam e param com freqüência para tomar uma taça de vinho nas muitas tabernas ao ar livre: se os exibidos e excitáveis georgianos se parecem com algum povo europeu, é com os italianos. Os homens georgianos e de outras regiões do Cáucaso, vestidos com sua tchokha tradicional - casacos longos e rodados com cartucheiras enfileiradas no peito -, pavoneavam-se pelas ruas, cantando em voz alta. As mulheres georgianas, com lenços pretos na cabeça, e as esposas dos oficiais russos, em trajes europeus, passeavam pelos jardins Púchkin, comprando gelados e sorvetes junto de persas e armênios, tchetchenos, abkhazes e judeus da montanha com roupas e chapéus de festa. Gangues de pivetes - kintos - observavam a multidão em busca de vítimas. Seminaristas adolescentes, com longas sobrepelizes brancas, eram escoltados por seus professores-padres barbudos ao sair do seminário do outro lado da rua, onde Stálin quase se tornara padre nove anos antes. Esse caleidoscópio do Ocidente e do Oriente, não eslavo, não russo e ferozmente caucasiano, foi o mundo em que Stálin se criou.
Depois de verificar a hora, Anneta e Pátsia assumiram novas posições em ambos os lados da praça. Na rua Palácio, a clientela suspeita da taberna Tiliputchúri - príncipes, cafetões, informantes e batedores de carteira - já bebia vinho da Geórgia e aguardente da Armênia, não longe da grandiosidade plutocrática do palácio do príncipe Sumbátov. Naquele exato momento, David Saguirachvíli, outro revolucionário que conhecia Stálin e alguns dos gângsteres, visitava um amigo que era dono de uma loja no andar superior da taberna e foi convidado a entrar pelo alegre bandoleiro Batchúa Kupriachvíli, que estava à porta e "imediatamente me ofereceu uma cadeira e um copo de vinho tinto, conforme o costume georgiano". David bebeu o vinho e estava para sair quando o capanga armado sugeriu "com refinada delicadeza" que ele ficasse dentro da taberna e "experimentasse mais petiscos e vinho". David se deu conta de que "eles estavam deixando as pessoas entrarem no restaurante, mas não as deixavam sair. Indivíduos armados guardavam a porta". Ao divisar o comboio que vinha a galope pelo bulevar, Pátsia Goldava, a morena esguia que estava à espreita, virou rapidamente a esquina para o jardim Púchkin, onde sacudiu seu jornal para Stepko Intskirvéli, que esperava junto ao portão. "Vamos nessa!", murmurou ele. Stepko fez um sinal com a cabeça para Anneta Sulakvelidze, que estava do outro lado da rua, junto à taberna, e ela fez um sinal chamando os outros do bar. Os capangas armados que estavam à porta acenaram para dentro. "A um sinal dado", Saguirachvíli viu os bandidos que estavam na taberna largarem suas bebidas, engatilharem suas pistolas e saírem, espalhando-se pela praça - jovens magros, definhados, de calças largas, que mal haviam comido durante semanas. Alguns eram gângsteres, outros eram criminosos, e outros, ainda, príncipes empobrecidos típicos da Geórgia, vindos de castelos sem telhado e sem muros das províncias. Embora suas façanhas fossem criminosas, eles não davam nenhuma importância ao dinheiro: eram devotados a Lênin, ao Partido e a seu chefe títere em Tíflis, Stálin.
"As funções de cada um de nós foram planejadas com antecedência", relembrou uma terceira garota da gangue, Alexandra Darakhvelidze, de apenas dezenove anos, amiga de Anneta e já veterana de uma farra de assaltos e tiroteios. Os gângsteres cobriram os policiais da praça - os gorodovói, conhecidos nas ruas como faraós. Dois homens ficaram de olho nos cossacos que estavam do lado de fora da Prefeitura; o resto seguiu para a esquina da rua Veliamínov e o bazar armênio, não longe do Banco do Estado. Alexandra Durakhvelidze, em suas memórias inéditas, relembrou que ficou guardando uma das esquinas com dois homens armados. Então Batchúa Kupriachvíli, fingindo ler despreocupadamente um jornal, divisou a distância a nuvem de poeira levantada pelos cascos dos cavalos. Eles estavam vindo! Batchúa enrolou seu jornal, preparado... O capitão da cavalaria com o sabre reluzente que estava passeando pela praça começou a advertir os transeuntes para que se afastassem, mas, como ninguém lhe dava atenção, saltou de volta para seu belo cavalo. Não se tratava de nenhum oficial, mas do ideal do beau sabreur e proscrito georgiano, meio cavaleiro, meio bandido. Era Kamó, de 25 anos, chefe da Drujina e, como Stálin disse, "um mestre do disfarce", capaz de se passar por um rico príncipe ou uma lavadeira camponesa. Movia-se rigidamente e seu olho esquerdo meio cego envesgava e se revirava: uma das bombas fabricadas por ele mesmo explodira em seu rosto algumas semanas antes. Ainda estava em recuperação.
Kamó "estava completamente fascinado" por Stálin, que o convertera ao marxismo. Eles haviam crescido juntos na violenta cidade de Góri, distante setenta quilômetros de Tíflis. Era um assaltante de bancos de audácia engenhosa, um Houdini das fugas de prisão, um simplório crédulo - e um praticante meio insano de violência psicopática. Intensa e sinistramente tranqüilo, com um esquisito "rosto sem brilho" e um olhar vazio, servia com entusiasmo ao seu senhor, implorando com freqüência a Stálin: "Deixe-me matá-lo para você!". Nenhuma proeza de horror macabro ou coragem bombástica estava fora do seu alcance: tempos depois enfiou a mão no peito aberto de um homem e arrancou seu coração. Durante toda a sua vida, o magnetismo desprendido de Stálin atrairia e conquistaria a devoção de psicopatas amorais e desenfreados. Seu assecla de infância Kamó e esses gângsteres foram os primeiros de uma longa lista. "Aqueles jovens seguiam Stálin de forma desinteressada [...] A admiração que tinham por ele lhe possibilitava impor-lhes uma disciplina férrea." Kamó visitava com freqüência a casa de Stálin, onde tomara emprestado o sabre do pai de Kató, explicando que ia "brincar de oficial dos cossacos". Até mesmo Lênin, aquele advogado fastidioso, criado como um fidalgo, ficou fascinado com o temerário Kamó, a quem chamava de seu "bandoleiro caucasiano". Na velhice, Stálin refletiu: "Kamó era uma pessoa realmente espantosa". O "capitão" Kamó virou seu cavalo na direção do bulevar e cruzou audaciosamente pelo comboio que vinha na direção oposta. Depois que o tiroteio começasse, vangloriou-se, a coisa toda "estaria terminada em três minutos". Os cossacos entraram a galope na praça Ierevan, dois à frente, dois atrás e um ao lado das duas diligências. Através da poeira, os gângsteres puderam perceber que o veículo transportava dois homens de sobrecasaca - o caixa do Banco do Estado Kurchúmov e o contador Golovnia - e dois soldados com rifles engatilhados, enquanto um segundo faeton estava cheio de policiais e soldados. No trovão dos cascos, demorou apenas segundos para que os carros e os cavaleiros atravessassem a praça, prontos para entrar na rua Sololaki, onde ficava o novo Banco do Estado: as estátuas de leões e deuses acima de sua porta representavam a prosperidade crescente do capitalismo russo. Batchúa deu o sinal abaixando o jornal, depois o jogou fora e sacou suas armas. Os gângsteres pegaram o que apelidavam de "maçãs" - poderosas granadas que haviam sido contrabandeadas para dentro de Tíflis por Anneta e Alexandra dentro de um grande sofá. Os homens armados e as garotas avançaram, puxaram os detonadores e jogaram quatro granadas que explodiram sob as diligências com um barulho ensurdecedor e uma força infernal que estripou os cavalos e espedaçou os soldados, espalhando vísceras e sangue pelas pedras do pavimento. Os bandoleiros sacaram suas pistolas Mauser e Browning e abriram fogo sobre os cossacos e os policiais da praça, que, pegos totalmente de surpresa, caíram feridos ou fugiram para se proteger. Mais de dez bombas explodiram. Testemunhas acharam que vinham de todas as direções, até mesmo dos telhados: mais tarde, foi dito que Stálin jogara a primeira bomba do teto da mansão do príncipe Sumbátov.
As diligências do banco pararam. Os transeuntes procuraram abrigo aos gritos. Alguns acharam que se tratava de um terremoto: a Montanha Sagrada estaria caindo sobre a cidade? "Ninguém sabia se o terrível tiroteio vinha de canhões ou da explosão de bombas", registrou o jornal georgiano Isari (Flecha). "O som causou pânico geral [...] quase em toda a cidade, as pessoas começaram a correr. Carruagens e carroças se afastaram a galope." Chaminés caíram dos edifícios; todas as vidraças foram estilhaçadas, até as do palácio do vice-rei. Kató Svanidze estava na sacada de sua casa cuidando do bebê de Stálin com a família "quando de repente ouvimos o som de bombas", relembrou sua irmã Sachikó. "Aterrorizadas, corremos para dentro da casa." Lá fora, em meio à fumaça amarela e ao caos, entre os corpos dos cavalos e os membros mutilados dos homens, alguma coisa dera errado.
Um cavalo atrelado à diligência da frente contorceu-se e, aos solavancos, voltou à vida. No momento em que os gângsteres correram para pegar os sacos de dinheiro que estavam na traseira da diligência, o cavalo se ergueu e disparou morro abaixo em direção ao bazar dos soldados, desaparecendo com o dinheiro que Stálin prometera a Lênin para a Revolução. [...]

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