quinta-feira, 26 de novembro de 2015


“Nossa época é uma época essencialmente trágica de modo que nos negamos a encará-la de modo trágico. Houve cataclismo, estamos entre as ruínas, começamos a construir novas casinhas e acalentar novas e leves esperanças. É uma tarefa árdua: não há um caminho cômodo para o futuro: ou nos contornamos o obstáculo, ou saltamos sobre ele. Precisamos viver, não importando quantos céus tenham vindo abaixo.”
D.H. Lawrence
Filho de um operário analfabeto que havia passado a vida trabalhando nas minas de carvão de Eastwood, Inglaterra, e de uma professora intolerante, D. H. Lawrence, um dos mais polêmicos literários de sua época, viveu exatamente como escreveu: intensamente. O jovem de compleição frágil nascido em 11 de setembro de 1885, tímido, pouco carismático e com nenhum talento para os estudos se tornaria um homem obcecado pela ideia de que o amor era algo puramente abstrato e que não se relacionava de nenhuma forma com as inconstâncias primitivas das necessidades físicas. Lawrence transpôs o conceito de sua época onde o amor físico se transmutava no amor sentimental; ambos se relacionavam como termos devido a sua aparente fluidez natural. Acreditava-se que o sentimento se renovava na forma da atração física e que esta ao perder seu ímpeto natural sedia espaço a serenidade do sentimento fraterno - pensamento no qual o autor do presente texto está completamente de acordo. Esse ciclo alternante entre instinto e ternura, definição inquestionável de amor para os românticos e líricos de sua época, não fazia sentido para o enigmático Lawrence. Casado aos vinte e sete anos com uma alemã de trinta, já mãe de três filhos e irmã do famoso aviador Manfred Von Richthofen, Lawrence despertou a hostilidade de seus conterrâneos ingleses. O que pensar daquele estranho jovem que gostava de realizar trabalhos domésticos, que cozinhava e que era casado com uma mulher alemã, em plena Primeira Guerra Mundial?
Se seu estilo de vida já era estranho aos olhos da sociedade conservadora da Inglaterra da virada do século o que dizer de sua obra, cujos valores estavam plenamente dissociados do senso comum de sua época? Ao escrever a obra “O amante de Lady Chaterley”, Lawrence buscava explorar o poder dos sentimentos circunscritos pelo convívio e pelo companheirismo em oposição às necessidades impostas pelo corpo físico. Os críticos de seu tempo classificaram a obra como pornografia barata. Lawrence chegou a pensar em mudar o titulo para “Ternura” na tentativa de reduzir o impacto negativo da obra. Seriam necessários vários anos para que seu texto conseguisse seu merecido espaço junto às obras mais profundas e ricas de significado da literatura universal.
Em “O amante de Lady Chaterley” vemos a história de Constance Chatterley, uma jovem de 23 anos proveniente de uma família de burgueses liberais, que se casa com Clifford Chaterley, um homem arrogante de 29 anos que pouco tempo depois do casamento parte para os campos de batalha da Primeira Guerra Mundial e retorna vivo, porem paralitico. Certo de que não seria mais capaz de satisfazer as necessidades orgânicas de sua companheira, Clifford, escritor e empresário, mergulha no trabalho e aos poucos se distancia de sua jovem esposa.
Ninguém é capaz de satisfazer completamente outra pessoa; é exatamente nessa brecha aberta por nossas impossibilidades que nascem outros amores, outras formas inexplicáveis de afeto: "Toda partida significa um encontro em algum outro lugar. E cada novo encontro é uma nova ligação". A necessidade incondicional de Constance fruto de um casamento de aparências a leva a se relacionar com outros homens até que finalmente conhece o guarda-caças Oliver Mellors, um homem rude e misterioso que buscou no isolamento a cura por seus fracassos amorosos.
O livro e sem duvida uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Lawrence soube abordar de forma inigualável os sentimentos ocultos da imperiosa alma feminina. Ao longo de suas paginas o autor intercala passagens, onde vemos desde uma descrição crua e realista do ato sexual até a linguagem poética com a qual descreve as mudanças ocorridas no corpo e na alma da mulher levada pelo tempo e pelas experiências vividas. Trata-se de um grande dilema na qual a protagonista se vê dividida entre o correto e o incorreto, entre a falha e o excesso o que nos leva a indagar a todo instante ao longo do texto: a mentira seria o mesmo que uma verdade irrelevante?
AUTOR: TIAGO R. CARVALHO
O amante de Lady Chaterley
Páginas: 342
Selo: Martin Claret
OBS: As pintura utilizadas no texto é de autoria do artista Pino Daeni.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015


A terrível carnificina da caça a baleia do século XIX era o equivalente moderno a indústria do petróleo: as enormes cachalotes eram cobiçadas devido ao seu óleo de alta qualidade, utilizado para iluminar os lampiões das cidades e como lubrificantes nas maquinas de um mundo ainda mergulhado nas inovações técnicas da revolução industrial. Somente no ano de 1837, aproximadamente 6767 baleias foram mortas por baleeiros americanos. A baleia cachalote, tida como um dos mais pacíficos dos gigantes marinhos era conhecida por ser um animal pouco agressivo. Nunca haviam sido registrados casos de baleias que haviam atacado embarcações, mas a caça desenfreada a sua espécie, a ponto de levar os marinhos a definir o oceano pacifico como um “mar de óleo e sangue”, havia alterado seu instinto.
Na manha do dia 20 de novembro de 1820, o navio baleeiro Essex, navegava a cerca de 1500 milhas náuticas a oeste do conjunto de ilhas de Galápagos, em pleno oceano pacifico. Nos porões estava à preciosa carga de centenas de barris de óleo de gordura de baleia, extraídos pela tripulação ao longo dos vários meses que estavam no mar. Por volta das 9h um marinheiro de 15 anos, chamado Thomas Nickerson avistou, a cerca de 100 metros do navio, uma enorme cachalote: um macho com 26 metros de comprimento – quase do mesmo tamanho que o próprio navio que possuía 26,5 metros - e pesando aproximadamente 8 toneladas.
Para espanto de todos a bordo o imenso cetáceo começou a nadar em direção a lateral do navio e mergulhou a pouco mais de 30 metros de distancia. Ao passar por baixo da embarcação a baleia estraçalhou o revestimento de cobre e as groças placas de carvalho do fundo do casco. O enorme mamífero marinho, ensandecido pela força do choque contra uma embarcação de 238 toneladas, voltou-se novamente na direção do Essex e o atingiu com um segundo choque, ainda mais violento que o primeiro. O Essex, um navio com mais de 20 anos de idade, não resistiu e adernou num ângulo de 45º. Em poucas horas estaria no fundo do oceano, junto com a enorme baleia que o havia atingido e que nunca mais foi vista após aquela trágica manha de 20 de novembro.
Abandonados a própria sorte em três pequenos botes de madeira os sobreviventes se viram mergulhados em uma das mais cruéis e desesperadoras situações na qual os seres humanos podem se encontrar. Para os 21 apavorados homens a deriva só restava à esperança de navegar em direção à costa oeste da America do Sul antes que seus poucos recursos se esgotassem.
Em uma obra excepcionalmente bem escrita o americano Nathaniel Philbrick apresenta ao leitor a dramática luta pela sobrevivência da tripulação do baleeiro Essex que durante 89 dias enfrentaria as dores das terríveis queimaduras do sol, a fome, a sede que provocava rachaduras dolorosas na boca e inchaços na língua a ponto de impedir que se comunicassem uns com os outros e por fim a exaustão provocada pela inanição. Quando um dos barcos finalmente foi resgatado, em 23 de fevereiro pelo navio Dauphin, a tripulação encontrou no interior do bote uma pilha de ossos dos cinco homens que haviam morrido e sido devorados pelos dois esqueléticos sobreviventes deitados sob uma lona e que mal tinham forças para ficar de pé. A tragédia do Essex percorreu o mundo até que chegou aos ouvidos de um jovem marinheiro chamado Herman Melville, que anos mais tarde escreveria um dos maiores clássicos da literatura americana: Moby Dick.
Philbrick presenteia o leitor com inúmeras informações sobre as baleias cachalotes, sobre os problemas enfrentados pelo corpo humano - reduzidos a uma alimentação de poucas calorias diárias -, os problemas psicológicos decorrentes do cansaço e relatos de naufrágios impressionantes como o navio francês Medusa, que naufragou em 1816 e serviria de inspiração para a pintura de Théodore Géricault. O texto é empolgante, envolvente, ágil e eletrizante. Sem duvida vale a pena acompanhar ao longo das 392 paginas a historia real de 21 homens que enfrentaram nada mais que 2 mil milhas náuticas da imensidão hostil do oceano pacifico em um dos mais inacreditáveis exemplos de resistência, determinação e sobretudo coragem.
Autor: Tiago R. Carvalho
NO CORAÇÃO DO MAR - A história real que inspirou o Moby Dick de Melville
Autor: Nathaniel Philbrick
Título original: IN THE HEART OF THE SEA
Tradução: Rubens Figueiredo
Páginas: 392
Selo: Companhia das Letras

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