segunda-feira, 26 de dezembro de 2016


Estreando aqui no blog CAFÉ MUSAIN o Cafeína 2016 – uma coletânea dos melhores livros de 2016 classificados conforme as categorias.
Foram considerados apenas os livros lidos entre dezembro de 2015 e novembro de 2016. As obras lidas no mês de dezembro entram para a lista do ano seguinte, pois não haveria tempo hábil para ler todas as obras e classificá-las antes do dia 23 de dezembro – data oficial do CAFÉ NOTA 5 para divulgação da lista a partir de 2017.
Cada obra é avaliada em seus diversos aspectos: enredo, tradução, acabamento, o papel utilizado na edição, a fonte da letra, presença de notas de rodapé, facilidade de manuseio, fluidez narrativa, etc.
MELHORES LIVROS DE LITERATURA DE 2016:
1º - “Vida e destino” – Vassili Grossman
2º - “O mestre e Margarida” – Mikail Bulgakov
3º - “O leitor” – Bernhard Schlink
MELHOR ENREDO:
“O Mestre e Margarida” – Mikail Bulgakov
MELHORES PERSONAGENS:
1º - Liudimila (“Vida e Destino”)
2º - Hanna Schmitz (“O leitor”)
3º - Satã (“Paraíso Perdido”)
MELHORES OBRAS DE NÃO FICÇÃO:
1º - “A Comuna de Paris 1871: Origens e massacre” – John Merriman
2º - “A guerra não tem rosto de mulher” – Svetlana Alekseivch
3º - “Alemanha 1945” – Richard Bessel
MELHORES ÉPICOS DE 2016:
1º - “Paraíso Perdido” – John Milton
2º - “A Iliada” – Homero
3º - “Odisseia” - Homero
MELHOR BIOGRAFIA DE 2016:
“Madonna 50 anos” – Lucy O’Brien
MELHOR LIVRO DE CONTOS DE 2016:
“A Estrada” – Vassili Grossman
MELHOR LIVRO TECNICO:
“A história da Arte” – Ernst Hans Gombrich
MELHOR OBRA CIENTIFICA:
“O mapa fantasma” – Steven Johnson
PIOR LIVRO DE 2016:
“Absinto uma historia cultural” – Phil Baker
MELHOR RELEITURA DE 2016:
“Sussurros a vida privada na Rússia de Stalin” – Orlando Figes
MELHOR PEÇA (TEATRO):
“Sonho de uma noite de verão” – Willian Shakespeare
MELHOR OBRA DE TERROR:
“O medico e o monstro” – Robert L. Stevenson

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016


Magistral romance do ucraniano Vassili Grossman trás a tona os diversos formatos de conflito: o embate entre homem e consciência, entre marido e esposa, entre ideologias opostas, entre o passado e o presente e até mesmo entre filósofos de século XVII.
A vida é a negação da morte, a morte é o limite existencial da vida, a lembrança é o resultado dessa assimilação. Só aprende a compreender a si próprio aquele que encontra sentido em seu passado.
O presente texto não é uma resenha sobre a obra do ucraniano Vassili Grossman, “Vida e destino”. Trata-se apenas de um ensaio sobre como eu o interpretei no papel de simples leitor. Meu objetivo é fazer uma espécie de releitura, que nada mais é do que uma reinterpretação das camadas literárias por uma perspectiva mais complexa com conceitos ligados a física e a filosofia.
É perfeitamente natural que alguns leitores questionem a minha forma de buscar um excessivo grau de conceitos teóricos e científicos nas entrelinhas do texto. O habito de fato nos leva a extrapolar as conclusões indo muito alem daquilo que o texto oferece como base de reflexão. Mas quanto ao romance “Vida e Destino” acredito que Grossman teve um propósito maior o que me levou a seguinte teoria: é uma obra criada para rememorar a historia de sua mãe e ao mesmo tempo explicar os estranhos conceitos quânticos por meio de exemplos observáveis no mundo físico.
Por que Grossman adotaria a tradição literária como substrato para um propósito tão ambicioso? Para responder a essa pergunta temos a principio que aceitar a ideia de que autor e personagem se confundem. O dilema de Grossman era o mesmo que o de Chtrum: como tornar concreto aquilo que a ideia possui de abstrato? O método escolhido parece ter sido a exposição de exemplos.
Exemplificar é um método satisfatório de transformar um dado puramente abstrato e complexo que escapa dos limites da imaginação em algo mais próximo daquilo que a mente aceita como verdade. Só compreendemos um conceito se a sua premissa fundamentadora for plenamente assimilada. A assimilação de conceitos da teoria quântica exige que se aceite a predominância da probabilidade sobre o determinismo e isso não é algo simples de se fazer. Nesse caso Grossman certamente percebeu que seria mais plenamente compreendido se adotasse a linguagem literária e não a cientifica.
“Guerra é Paz” foi o único livro que Grossman leu durante a guerra. Embora tenha servido de inspiração para o autor acho absolutamente errado comparar as duas. A maior, e talvez única semelhança, entre elas está na significação do titulo. É provável que Grossman tenha feito uma interpretação dialética do titulo de “Guerra e Paz”. Em varias de suas obras encontramos referencias ao filosofo Heráclito (544-484 ac), autor da teoria do “tudo flui” – que inclusive é o titulo de uma de suas obras.
Os soviéticos tinham uma recorrência muito forte à dialética de Hegel, e parte desses conceitos se encontram na teoria de Heráclito, ou seja, o ser que se constrói por meio de suas oposições internas. Da luta entre o racional e o irracional, entre o amor e o ódio surge um terceiro termo. Colocada em termos simples a dialética seria a transformação a partir da destruição das partes que integram a transformação. Assim a paz surge da guerra. Contradição? Não! Apenas pura dialética. A harmonia é um produto da luta! Para explicar essa aparente contradição recorremos à física: um corpo eletricamente neutro surge pela interação de corpos com cargas opostas.
Existe um ponto interessante quando se compara “Vida e Destino” com “Guerra e Paz” e este ponto reside no tipo de influencia social entre duas nações rivais. Em “Guerra e Paz” existe a influencia cultural: a língua francesa era tão apreciada que era adotada pela aristocracia russa. No caso de “Vida e Destino” existe uma analogia que aproxima as duas nações devido a semelhanças políticas. Nazismo e stalinismo partilhavam de certas semelhanças. Ideologicamente eram opostos, mas possuíam métodos comuns.
De alguma forma o principal tema da obra parece ser o tempo: algo que se funde e se desprende de seu conceito físico, como grandeza matemática, e do seu conceito histórico como espaço das ações humanas. O aspecto mutante da realidade é analisado por meio de conceitos da física quântica. É aqui que identificamos as primeiras marcas que o momento histórico imprime na narrativa através da descrição dos sentimentos de um soldado anônimo que combate no front:
inicialmente ele se encontra em meio ao seu grupo - o “nos” cuja força bruta é a sua noção de superioridade numérica - avançando imperiosamente contra uma posição inimiga aparentemente frágil. Pouco depois o mesmo soldado se encontra sozinho, fragilizado, confuso. O destino havia ceifado a existência daqueles que o acompanhavam, a visão clara era agora nublada pela fumaça e a “frágil” defesa inimiga, de perto, havia assumido o aspecto de uma impenetrável muralha: o “nos” havia cedido lugar ao “eles”.
A transição do estado de união para o de solidão diante do implacável papel do destino requer um avanço continuo diante das possibilidades. A percepção da realidade depende do ponto através do qual se observa. A noção de “nos” contra “ele” pode facilmente se converter na imagem do “eu” contra “eles”. Tudo depende do ponto de vista, do referencial como diria o físico Albert Einstein.
Segundo sua teoria da relatividade a deformação do espaço provoca alterações na passagem do tempo. Grossman retoma a relativística de Einstein associando essa deformação do espaço a uma brusca alteração da percepção da realidade – o “nos” se transfigura no “eu” enquanto o “ele” assume o aspecto de “eles” e nesse intervalo ocorre à perda da noção de tempo. Toda essa complexa mecânica quântica se manifesta na mente do soldado que não a compreende na sua forma cientifica, com números e formulas, ele apenas sente os seus estranhos efeitos.
Outra forma de interpretar essa distorção perceptiva é por meio de conceitos ligados as artes plásticas. Qualquer tipo de padrão visual pode ser afetado pelos aspectos dimensionais do espaço que a circunscreve. Um único ponto minúsculo desenhado aleatoriamente em um grande espaço branco parecerá insignificante e em desequilíbrio; ao passo que se reduzindo a dimensão desse espaço o mesmo ponto minúsculo parecerá maior e seu equilíbrio aumentará à medida que o ponto se aproxime do centro geométrico da imagem. Talvez seja por isso que Grossman tenha escrito: “No entendimento dessa transição reside aquilo que da aos negócios da guerra o direito de serem chamados de arte.”
Novamente o tempo é utilizado pelo autor para abordar a decadência da imagem de “soldado herói” do pós-guerra:
“O tempo deságua no homem e no Estado, se aninha neles, e depois sai, desaparece, e o homem, o Estado ficam... o reino ficou, mas seu tempo se foi... o homem está La, mas seu tempo sumiu. Onde ele esta? Eis o homem: ele respira, ele pensa, ele chora, mas aquele tempo particular, único, pertencente apenas a ele, se foi, sumiu, passou. O mais difícil é ser um enteado do tempo. Não há sorte mais dura que a do enteado, vivendo com um tempo que não é seu.”
“Vida e destino” é considerado o “Guerra e paz” do século XX porque também carrega as marcas de seu tempo e essas marcas não se resumem apenas a história da segunda grande guerra ou ao Stalinismo, mas também ao progresso cientifico. A batalha de Stalingrado, principal pano de fundo da obra, marca uma importante fronteira da ciência soviética no que diz respeito à Física. Foi durante o auge da batalha que Stalin assinou, em 28 de setembro de 1942, a Diretriz nº 2352, referente à pesquisa do Urânio, cujo objetivo era explorar o potencial bélico da energia do núcleo do átomo.
Por que colocar o protagonista de sua obra como um físico? Em primeiro lugar é preciso reconhecer a influencia do momento histórico na criação artística. A física era o estatus maximo da ciência na primeira metade do século XX. O estudo do átomo levou a física a assumir a dianteira como ciência, tanto pelas perspectivas praticas de seus métodos quanto as militares.
A Física é amplamente reconhecida entre os mais leigos pelas famosas leis de Newton. A terceira lei de Newton - a mais famosa de todas - é a da ação e reação. Toda ação tem uma reação igual em sentido contrario. É a clássica lei do retorno, fácil de ser compreendida porque se aplica facilmente a situações cotidianas. No caso da obra “Vida e Destino” é a segunda lei de Newton que mais importa. Essa lei diz que força é o produto da massa de um objeto por sua aceleração. Foi a partir dessa lei que Newton chegou a uma outra que analisa o grau de interação dos corpos, a famosa lei da gravidade.
Primeiramente é preciso definir que nas ciências exatas “grandeza” é tudo aquilo que pode ser medido e expresso em unidade numérica: tempo, peso, velocidade, todos estes termos são exemplos de grandeza. Na física o termo “força” é uma grandeza que mede a intensidade de interação entre dois ou mais corpos. E possível traduzir esse conceito físico para questões sociais como, por exemplo, no relacionamento entre duas pessoas. Duas pessoas que se relacionam possuem uma força que age no sentido de reforçar essa relação. Choderlos de Laclos compreendeu bem esse conceito físico e realizou uma perfeita transposição de seu significado para as relações interpessoais: “Toda relação amorosa é sobretudo um relação de força.”
Na química a união de átomos ocorre por meio da liberação de energia. Na física a separação do núcleo atômico libera uma quantidade avassaladora de energia. Tanto na união quanto na separação da matéria sentimos as marcas dessa relação. O conceito físico-químico de liberação de energia neste caso funciona como uma analogia para a força que se depreende da ruptura entre pessoas.
Grossman, que era químico, construiu um personagem absurdamente racionalista e profundamente angustiado devido a sua busca constante por respostas que pudessem explicar seu comportamento – praticamente seu próprio alter ego.
O homem que se recusa a seguir sua voz interior precisa racionalizar essa recusa na forma de justificativa e esse era o maior fardo de Chtrum. Os dilemas de consciência enfrentados pelo personagem vão se delineando ao longo do texto. Inicialmente vemos um físico teórico que trabalha mentalmente com equações complexas na tentativa de descrever o movimento de partículas provenientes da desintegração do átomo e também um homem que nutre um profundo ressentimento por sua esposa.
O romance é amplo em vários aspectos, tanto no que diz respeito ao numero de personagens quanto em sua geografia narrativa, ou seja, ele começa em um campo de prisioneiros, posteriormente foca na batalha de Stalingrado e na sequência desvia sua narrativa para os núcleos dos diversos personagens que preenchem a história. Cronologicamente a narrativa é linear e se passa durante o outono, entre os meses de setembro de 1942 e fevereiro de 1943. O próprio outono possui um significado especial no contexto da obra se o considerarmos como uma metáfora daquilo que seria uma espécie de morte da consciência, algo que se traduz como aquela incapacidade de atribuir significância a vida humana.
Outro aspecto analisado separadamente no texto são os significados dos substantivos “vida” e “destino”. O conceito de vida é a todo momento associado a ideia de liberdade. Essa associação não é colocada em termos claros, mas é apontada por meio das criticas que o autor faz a atmosfera repressiva do período stalinista. Por essa perspectiva o conceito de vida se opõe ao de destino, pois a ideia de destino é aquela que nos nega a liberdade de escolha, ou seja, de que tudo já estaria determinado à revelia de nossas ações.
Existe inclusive nas entrelinhas do texto uma espécie de conectivo que em determinados momento parece direcionar os acontecimentos em uma direção única. Como se tudo estivesse ligado mesmo que aparentemente não estivesse. É muito fácil se perder neste tipo de interpretação, pois uma característica de qualquer romance é a de possuir eventos que se desenvolvem paralelamente, mas isso não significa que esses eventos possuem a mesma direção. No caso de “Vida e Destino” existe esse paralelismo dos acontecimentos e também existe um reforço onisciente do autor no sentido de direção única.
Essa idéia de oposição entre os substantivos "vida" e "destino" desaparece diante do significado que o conceito de destino possui no texto. Se existe algo evidente na obra, até mesmo para o menos perspicaz dos leitores, é a forte relação de dependência entre “escolha” e “conseqüência”. A realidade seria filha das escolhas do passado, até aqui nenhuma novidade, mas o que Grossman fez foi mostrar é que o passado não se prende ao passado, ele vive no presente através de nossos tormentos internos. Na alma do homem, onde a realidade morta de seu passado vive através da lembrança, ressoa a certeza de que seu tempo é não apenas trágico, mas também único em termos humanos. Platão já dizia que a reminiscência, seja da dor ou da felicidade, despertava na alma através dos sentidos.
Esse conceito de destino se expressa na relação entre Chtrum e Liudmila. Logo nas primeiras paginas fica latente uma certa tensão entre ambos. De certa forma é natural que se atribua pouca importância a essa característica da vida conjugal dos personagens, afinal a vida de casado possui inúmeros desafios com potencial de arrastar para o seu núcleo alguma forma de hostilidade. Interessante observar como a reciprocidade entre ambos se alinha com conceitos da física, como a lei de ação e reação de Newton.
À medida que a leitura evolui deixamos de avaliar o comportamento do marido e da esposa e passamos a observar o homem e a mulher. É somente ai que compreendemos a extensão do fosso que se interpõem entre ambos e que se constrói pelo ressentimento mutuo. Nesse ponto o termo destino começa a se delinear como um produto de nossas escolhas de nossas decisões. Um único momento pode se estender por uma eternidade se compreendermos que leva apenas alguns segundos para uma decisão cujas conseqüências serão por toda uma vida. Aqui mais uma vez Grossman brinca com a relativística quântica: o tempo que se estende e se contrai.
E como se a vida em alguns momentos nos colocasse diante de escolhas e que uma vez exposta a nossa decisão a vida perdesse o seu caráter alternativo, plural e se transfigurasse em destino, fixo é imóvel até que se coloque diante de uma nova escolha. O destino, portanto, não seria fixo, mas construído gradualmente através de unidades de tempo ao longo da vida. A vida não se opõe ao destino, ela na verdade o constrói! Vida e destino não são, no contexto da obra, opostos, mas complementares. Logo não vejo a conjunção “e” com sentido adversativo, mas sim aditivo.
A obra possui um quadro muito amplo de personagens, porem resolvi concentrar meus texto apenas nos dois protagonistas: Viktor Pavlovitch Chtrum e Liudimila Nikolaievna Chapochnikova. Liudmila é uma das personagens mais fortes da história. Minha primeira impressão sobre ela confesso não ter sido muito positiva, mas quando analisamos seu comportamento em retrospecto conseguimos reconhecer seu valor como personagem. Certas passagens de fato mostram uma mulher um tanto quanto egoísta, mas é justamente esse seu traço que lhe confere firmeza. Ela não finge ser uma figura sobre-humana sufocando seus desejos e sendo irracional na medida em que contraria sua natureza. Ela parece compreender bem sua extensão existencial e não procura viver aquém dessa margem teórica. Ela sabe o seu real significado como mulher, compreende como algumas atitudes tomadas no passado projetaram, sobretudo em seu marido, uma forma individual de sofrimento. Digo individual porque aparentemente ela não partilha dessa dor embora sinta um reflexo dela na forma da indiferença do marido.
Ela de alguma forma sustenta o lado racionalista de Chtrum em sua própria figura na medida em que se nega a agir - na maior parte do tempo - contra seu próprio conceito de correto. Chtrum também é muito parecido com ela nesse aspecto. Não se trata de teimosia, mas de uma personagem que consegue justificar seu comportamento. A guerra que se trava entre Chtrum e Liudmila é silenciosa porem não menos cruel: enquanto ele a culpa pela morte da mãe ela o despreza por atacar um Estado cujo filho havia dado a própria vida para defender.
A imagem da figura materna é muito significativa para o autor e para qualquer um que já tenha lido sobre sua historia, bem como seus outros trabalhos, fica claro que seu conceito de amor materno ampara muitos de seus contos. “Na representação visual da alma materna há algo de inacessível a consciência humana” – escreveu ele em um de seus textos. Como um talentoso romancista, Grossman não encontra dificuldades para se expressar é isso nos revela dois traços marcantes do autor.
O primeiro é a busca pela perfeita expressão do afeto materno. Em “Vida e destino” gosto de pensar que em sua genialidade criativa ele teria colocado a mulher como um exemplo de como a física do século XX seguia no caminho errado. Essa interpretação adota principio teóricos da teoria aristotélica e da metafísica. Sei que não é tão simples enxergar essa linha interpretativa, por isso recorrerei a uma explicação mais detalhada: para Grossman a física do século XIX era inocente quando comparada a do século XX. O estudo do átomo e da desintegração do núcleo atômico liberou uma terrível força destrutiva que se ocultava no cerne da matéria.
A vida se traduz no conceito de matéria, algo físico, palpável, extinguível, efêmero. O destino surge como forma - aquilo que faz da matéria (Vida) o que ela é de fato. Assim surge a perfeita correlação com a teoria Potencia-Ato de Aristóteles. Um recurso muito comum para explicar essa teoria é através do exemplo semente-arvore: uma semente possui a potencia de se tornar uma arvore. A semente seria a arvore na forma de potencia, enquanto a arvore seria a potencia como ato. Na física clássica essa filosofia surge através do principio da conservação de energia: imagine uma bola de aço pendurada no décimo andar de um prédio. Enquanto essa bola permanece parada no alto do edifício dizemos que ela possui uma energia potencia de causar destruição caso despenque até o chão. Neste caso a bola teria uma energia potencial enquanto permanecesse no décimo andar, já a destruição no chão seria essa mesma potencia como ato concreto.
Voltando a questão abordada na obra, Chtrum havia criado equações que descreviam o movimento das partículas da desintegração atômica, sua pesquisa dava seguimento rumo à fissão do átomo, a criação das armas nucleares. O homem ao dividir o átomo havia transformado a matéria em energia, mas a mulher, projeção bruta da natureza, havia feito o contrario: transformou sua energia potencial de mãe em matéria física (filho). A mulher mostrando ao mundo as falhas da ciência quando esta caminha no sentido errado. Seria infinitamente mais belo se o homem conseguisse converter energia em vida, e não fazer desprender na matéria essa energia e com ela provocar a extinção da vida.
Na literatura russa a caracterização da consciência com receptáculo dos problemas pessoais é sempre um fator chave é em “Vida e Destino” isto não poderia ser diferente. Buscar orientações em meio ao fluxo de sentimentos e idéias, essa é a formula de Chtrum para encontrar o fator inquestionável de sua existência. Idéias nem sempre possuem o reforço dos argumentos e os sentimentos tendem a desconsiderar essa falha.
Chtrum era uma mistura detonante de inocência e franqueza. Em muitos momentos dizia suas próprias opiniões sem pensar nas conseqüências. O filtro mental da ideologia do Estado era incompatível a forma geométrica de seu caráter político. Liudmila sentia a pressão política do Estado através do seu marido. Ela conhecia Chtrum como ninguém, sabia que ele as vezes mastigava uma conversa e cuspia seu palavreado reacionário. Eu senti a opressão de Liudmila em diversas passagens. Em uma delas ela despertava durante a noite e ficava escutando o barulho dos automóveis na rua. Levantava e olhava pela janela a espera do pior. Quem sabe não seriam agentes do NKVD? Será que Chtrum havia dito alguma bobagem? Ela seria enviada a um campo de trabalhos forçados como seu primeiro marido havia sido?
Durante todo o longo romance Chtrum luta para solucionar um dilema cientifico que o consagraria como um dos maiores físicos do país. Seu método era a clássica associação de lógica teórica com os resultados das experimentações praticas. A teoria, no entanto, apresentava resultados diferentes da pratica. Era a lógica racionalista de Rene Descartes em oposição ao empirismo de Francis Baccon.
Chtrum só conseguiu solucionar seu dilema quando sua matemática deixou de ser uma projeção da realidade e se tornou apenas uma ferramenta de gerenciamento lógico das idéias. O encadeamento lógico de idéias se revelou o método mais eficaz. Aparentemente foi uma referencia ao método de Descartes, mas Grossman parece buscar uma forma de reconhecer a genialidade de outro filosofo: Baruch Spinosa (1632-1677) – um homem cuja obra havia sido negligenciada durante todo o século XVII pelo simples fato de seu autor ser judeu. Coincidência? Eu acho que não!
Filha de Vassili Grossman (centro da foto) transferindo as caixas com o manuscrito original confiscado de "Vida e Destino" dos arquivos da FSB para o Arquivo de Literatura e Arte do Estado Russo.
Desculpe-me o leitor se o presente texto ficou muito longo, mas o melhor livro que li em 2016 não merecia algo menor. A própria historia real do romance seria o enredo de um filme: Grossman escreveu “Vida e Destino” como uma homenagem a historia de sua própria mãe. A censurar do governo soviético, no entanto, impediu que a obra fosse publicada e o manuscrito foi confiscado. Grossman nunca viu em vida a publicação de seu livro, cabe a nós leitores reconhecer o seu talento excepcional e lhe prestar o devido reconhecimento. Mais uma obra imortal da literatura mundial.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
VIDA E DESTINO
Autor: GROSSMAN, VASSILI
Tradutor: PERPETUO, IRINEU FRANCO
Editora: ALFAGUARA BRASIL
Nº de Páginas: 920
OBS: As fotos que aparecem ao longo do texto retratam a vida da população civil e os combates durante a batalha de Stalingrado - pano de fundo do romance "Vida e Destino".
LINKS COM RESENHAS DE OUTRAS OBRAS DE GROSSMAN AQUI NO CAFÉ MUSAIN:
“A ESTRADA”
http://cafe-musain.blogspot.com.br/2016/08/a-estrada.html
“UM ESCRITOR NA GUERRA: VASSILY GROSSMAN COM O EXERCITO VERMELHO 1941-1945”
http://cafe-musain.blogspot.com.br/2016/05/um-escritor-na-guerra-vasily-grossman.html

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A COMUNA DE PARIS 1871: ORIGENS E MASSACRE


“O nascimento e a destruição da Comuna de Paris, um dos mais trágicos eventos que contribuíram para definir o século XIX, ressoam ainda hoje. Nas ruas de Paris, o exercito de Thiers derrubou a tiros milhares de homens e mulheres, mesmo que não participassem dos combates, e algumas crianças. Soldados executaram muitos atuarem na defesa da comuna; outros morreram por seus trajes de trabalhadores, restos de uniformes da Guarda Nacional parisiense, ou simplesmente pelo modo de falar. Os massacres realizados pelas tropas francesas contra seus próprios compatriotas prenunciaram os demônios do século seguinte. Você podia ser derrubado a tiros por ser quem você era, porque queria ser livre. Este talvez tenha sido o principal significado da Semana Sangrenta, de 21 a 28 de maio de 1871, o maior massacre da Europa no século XIX.”
- John Merriman
Em 1870 a Espanha estava sem um rei. O trono estava vago há dois anos e o parlamento espanhol decidiu oferecê-lo a Leopoldo de Hohenzollern – parente do rei da Prússia - país dominado pela figura política de seu chanceler Otto Von Bismarck que buscava unificar os fragmentados Estados alemães em um poderoso império.
A ideia de um império forte bem ao lado de suas linhas de fronteira não agradava ao imperador francês Napoleão III que através da política tentava impedir que os Estados prussianos do sul fossem unificados. As noticias sobre a concessão do trono espanhol a um nome ligado ao rei da Prússia aumentaram as pressões francesas sobre os Estados do sul.
Bismarck sabia que para conquistar a sonhada unificação seria preciso eliminar a França do cenário político, é a solução para isso foi à guerra. O chanceler reuniu um poderoso exercito e deu iniciou a manobras políticas de provocação para forçar Napoleão III a declarar guerra a Prússia. Ao colocar os franceses na condição de agressores Bismarck conseguiu o apoio dos Estados prussianos do sul, exatamente onde a França possuía maior influencia. A chamada Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) terminou com a derrota francesa.
Napoleão III foi feito prisioneiro em Sedan onde assinou a capitulação. A França estava naquele momento a mercê das tropas prussianas. Em Paris as ruas foram tomadas por revoltas, o Império foi abolido e a República restaurada. Uma assembléia nomeou o ministro Louis Adolphe Thiers como representante do poder executivo.
Enquanto isso tropas prussianas cercavam Paris dando inicio a um dos períodos mais negros da capital francesa. Por vários meses a população resistiu ao terror da fome e dos canhões que diariamente disparavam contra a cidade. Thiers, no entanto, decidiu encerrar o conflito. Reunido em Versalhes com uma assembléia ele ofereceu a rendição aos prussianos. Para os parisienses que resistiram há tanto tempo aquilo era um ato de traição.
Em janeiro de 1871 o governo em Versalhes se rendeu oficialmente aos prussianos. O exercito francês entregou suas armas, mas a Guarda Nacional de Paris se recusou. Tropas enviadas de Versalhes tentaram confiscar os 246 canhões da Guarda Nacional, mas foram impedidos pela população dos distritos mais radicais da cidade. Thiers ordenou que as tropas leais ao governo de Versalhes se retirassem de Paris: o plano era reagrupar as tropas para um posterior ataque a cidade. Assim que as tropas prussianas abandonaram os arredores de Paris o governo de Thiers aprovou três medidas que praticamente lançaram a Guarda Nacional parisiense no caminho da revolta armada.
A primeira foi o fim da moratória sobre os itens penhorados. Aqueles que não resgatassem imediatamente os itens depositados nas casas de penhores perderiam o direito de resgatá-los em uma ocasião posterior. 2300 pessoas haviam penhorado seus colchões e 1500 pares de tesouras haviam sido penhoradas por costureiras famintas. A segunda foi o fim da moratória sobre os alugueis. Quem não pagasse os alugueis atrasados seria colocado na rua. A terceira foi o fim do pagamento diário, no valor de 1,50 francos, aos membros da Guarda Nacional. Paris havia acabado de enfrentar um cerco de vários meses, sem emprego a população se viu obrigada a penhorar seus pertences para conseguir algum dinheiro, o pagamento dos alugueis foi deixado de lado, pois a prioridade era a alimentação. A escassez de alimentos levou as pessoas a se alimentarem de animais domésticos e ratos. Ate mesmo os animais do Zoológico foram mortos para servirem de alimento.
Como Thiers esperava que essa população esgotada e falida resgata-se seus bens penhorados e pagasse os alugueis é um mistério. No mínimo pode-se questionar se estas medidas não foram claramente direcionadas a lançar a população no caminho da transgressão e justificar a repressão posterior. Paris tornou-se um caos político. A força policial havia deixado de existir, barricadas foram erguidas nas ruas, Republicanos e Socialistas fundaram um governo municipal isolado do restante do país: era o dia 18 de março de 1871, inicio da trágica e sangrenta Comuna de Paris. “A comuna de Paris 1871: origens e massacre”, do historiador John Merriman, é uma obra que reescreve os detalhes acerca do maior massacre europeu do século XIX. A reconstrução da linha de eventos ocorre a partir do recrudescimento dos focos de tensão entre a classe operaria e o governo do segundo império de Napoleão III – um líder pouco carismático e um político incompetente que governava um país onde nas ultimas seis décadas viu três de seus reis serem expulsos de seus tronos.
O autor soube narrar de forma bastante fluida as conseqüências políticas e econômicas da guerra franco prussiana. A guerra em si é retratada de forma rápida e superficial o que é bastante compreensível, pois o foco da obra não é esse. Quando ele se dispõe a abordar alguns aspectos mais técnicos ligados a guerra ele o faz de forma que estas informações possam complementar a narrativa posterior como, por exemplo, a descrição dos armamentos utilizados por franceses e alemães que são os mesmo utilizados durante o cerco prussiano a Paris e durante a resistência da comuna. Nenhuma informação irrelevante para o desenvolvimento posterior é incorporado ao texto o que é de fato um aspecto muito positivo.
Um aspecto que não poderia deixar de comentar é que logo nos capítulos iniciais Merriman explora a decadência do armamento francês em face aos de seus rivais prussianos, no entanto em dois aspectos os franceses possuíam vantagem: estavam equipados como o moderno fuzil Chassepot – que era carregado pela culatra – e também possuíam uma versão rudimentar de metralhadora com 37 canos. Aparentemente estas inovações técnicas dos armamentos deveriam funcionar como uma defesa para o próprio povo francês, mas o que choca terrivelmente é ver que essas armas foram infinitamente mais eficazes para massacrar o povo francês do que para defendê-lo.
O texto é muito bem dividido e retrata de forma competente a geografia social da Paris do século XIX, a tensão entre as classes, os problemas econômicos da França e o seu impacto sobre a classe trabalhadora. A dependência dos mais pobres as políticas de governo, sobretudo a relacionada aos alugueis e ao pagamento de salário aos membros da Guarda Nacional, são trabalhadas num tom muito menos político do que se costuma encontrar em textos do gênero. Os homens e mulheres que engrossaram as fileiras da Comuna não são taxados como socialistas ou como membros de um grupo político de esquerda qualquer, mas como trabalhadores comuns: costureiras, artesãos, pintores e pequenos negociantes. Merriman deu uma face humana a um evento histórico que sempre foi tratado apenas como uma polarização ideológica.
Didaticamente é possível perceber uma divisão textual da obra em três atos: no primeiro o período pré-guerra franco-prussiana; no segundo o período da Comuna e do cerco prussiano a Paris e no terceiro o massacre. O autor utilizou um recurso que eu pessoalmente gosto muito em textos históricos que é começar narrando um acontecimento sem recorrer a muitas explicações sobre ele e em seguida retroceder no tempo a narrativa. É como se ele desse ao leitor uma pequena fração do que ocorrerá mais a frente. Esse recurso quando bem utilizado fica impressionante. Poucas vezes vi um autor trabalhar tão bem esse mecanismo quanto Simom Sebag Montefiore no magnífico “O jovem Stalin” ou Max Gallo em “A revolução francesa: as armas cidadãos".
Dois pontos interessantes são trabalhados pela narrativa: o florescimento da arte em Paris e a liberdade de imprensa durante o governo da Comuna. Uma comissão artística liderada pelo pintor Gustave Colbert e por nomes como Jean François Millet e Edouard Manet buscaram romper as imposições da Academia de Belas Artes que anulava a criatividade artística.
A questão da liberdade de imprensa durante a Comuna é algo que deve ser visto com certa moderação, pois o governo concedeu liberdade a alguns jornais, mas também proibiu que muitos outros fossem impressos, no entanto havia muito mais liberdade de imprensa durante a Comuna do que durante o Império de Napoleão III.
Na terceira parte da obra ocorre uma mudança brusca do tom narrativo. O texto mergulha na exposição crua de uma matança sem fim. Chega a um ponto em que o leitor se pergunta se vale à pena continuar lendo tanta brutalidade. As tropas de Thiers vencem com extrema facilidade as defesas dos comunards que em desespero começaram a atear fogo nos prédios para frear o avanço inimigo.
À medida que avançam os soldados de Versalhes realizaram execuções sumarias: homens, mulheres e crianças foram fuziladas ou mortas de diversas formas diante dos olhares de aprovação dos “homens das altas classes”. Tudo isso é narrado por Merriman de forma crua e brutal. Trata-se de uma obra de fôlego que não poupa o leitor do quadro de carnificina que caracteriza a Comuna de Paris, o maior massacre europeu do século XIX. Vale muito a pena ser lido!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A COMUNA DE PARIS 1871: ORIGENS E MASSACRE
Autor: MERRIMAN, JOHN
Editora: ROCCO
Assunto: História
Idioma: PORTUGUÊS
Ano: 2015
Encadernação: BROCHURA
Nº de Páginas: 400

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O POLEMICO FANTASIA (1940) DA DISNEY


Sempre fui fascinado pelo clássico de 1940 dos estúdios Disney “Fantasia”. A animação é dividida em oito partes, cada qual acompanhada de uma melodia clássica. A “grosso modo” pode se dizer que se trata de vários “curtas” dentro de um “longa”. A proposta foi colocar a musica erudita como complemento para a arte visual, e o resultado ficou bem interessante. A musica aqui não funciona como um fator que compensa um enredo superficial – como ocorre em muitos desenhos da Disney – mas contribui para o desenvolvimento da animação. A sonoridade é relevante para o enredo que se desenvolve.
Alguns críticos o definem como uma das obras mais sombrias e polemicas da Disney. Bruxaria, figuras femininas nuas, elementos de preconceito racial, almas que ardem no fogo do inferno é a aparição do diabo em uma das sequências finais fazem de “Fantasia” uma animação pesada, polemica e madura dentro de sua pretensão inovadora. Não se enganem pela imagem infantil do Mickey com chapéu de mago, pois não se trata de uma animação para crianças e isto é importante ressaltar: nem toda animação é direcionada somente ao publico infantil!
É obvio que existe um exagero na alegação de que “Fantasia” seria uma animação criada somente para adultos. A obra é bem diversificada quanto ao seu publico alvo: no plano visual existe um maior apelo ao público infantil, já no plano sonoro o foco é mais adulto. Dentro daquilo que o longa se propõe a fazer, ou seja, criar uma forma de entretenimento que promova algum grau de interpretação e apreciação artística poderíamos dizer que sua compreensão plena exige de fato um espectador adulto, por isso ela é mais direcionada a este publico, mas não somente a este.
“Fantasia” estreou nos Estados Unidos no dia 13 de novembro de 1940. Desnecessário dizer que a data de estréia foi responsável pelos primeiros elementos de superstição popular atribuído a animação. No Brasil a estréia ocorreu no dia 25 de dezembro do mesmo ano.
Logo na seqüência inicial, embalada pela Tocata e Fuga em Ré Menor de Johann Sebastian Bach, fica claro o caráter inovador da obra. Partes de violinos dançam ao sabor das possibilidades da musica. A sensação inicial é de pura imersão no universo associativo entre arte visual e sonora com uma paleta de cores que oscila entre tons de laranja e vermelho intenso. Abstração e musica erudita funcionam bem como elemento introdutório, embora possa se tornar desinteressante para o expectador mais leigo.
O segundo trecho da animação é uma reinterpretação do bale Quebra Nozes de Tchaikovsky. Fadas se movem em meio à escuridão da noite fazendo com que as flores liberem um néctar brilhante – néctar é uma solução liberada por glândulas especificas dos vegetais cuja composição inclui açucares, o que casou perfeitamente com a belíssima melodia de Tchaikovsky “Dança da fada açucarada”.
Essa sequência sempre foi a minha preferida da obra, tanto pela beleza das imagens quanto pelas lembranças que elas me despertam: a época do jardim de infância quando tínhamos que fazer folhas e flores de plantas em papel crepom e cartolina e depois pregar lantejoulas em suas bordas :)
Todo o segundo ato consiste em uma mistura de bale clássico, dança russa, patinação artística e dança do ventre. Como pano de fundo temos a passagem das quatro estações do ano. As imagens das folhas amareladas e vermelhas do outono sendo carregadas pelo vento ao som da “Valsa da flores” de Tchaikovsky é um dos mais belos momentos da animação. Com Tchaikovsky o longa encerra seus dois primeiros segmentos é começa a entrar em uma campo mais denso.
No trecho sobre o “Aprendiz de feiticeiro”, considerado como o primeiro flerte da animação com temas ligados ao misticismo e a bruxaria, Mickey transforma uma vassoura em um funcionário obediente. Esse é talvez o primeiro momento em que o espectador encontra brechas para suposições mais adultas e ate mesmo maliciosas. Uma delas é na semelhança das vassouras que aparecem na animação com um objeto fálico.
Tradicionalmente vassouras são elementos associados às bruxas. Muitas crianças cresceram com a imagem inocente de bruxas velhas, com narizes compridos e chapéus pontudos voando sobre vassouras. Quando buscamos o fundamento dessa caracterização é que compreendemos a conotação profundamente sexual de sua linguagem visual. Para a igreja católica as bruxas de fato existiam. Milhares de mulheres foram condenadas como feiticeiras e submetidas a brutal execução na fogueira. Buscando associar a imagem dessas mulheres ao pecado a igreja criou o conceito visual de que elas voavam esfregando suas partes intimas em um cabo de vassoura, impregnado de óleos vegetais, colocado entre suas pernas.
Nenhum trecho causou mais polemica - e não sem motivo - que o da pastoral campestre de Beethoven. Seres mitológicos dominam a sequência que logo nos primeiros minutos mostra centauras femininas se banhando nuas em um rio. Na sequência surge uma centaura negra lixando o casco de uma centaura branca e loira. Aqui temos um estereótipo racista típico da década na qual o filme foi lançado (não se esqueçam de que a animação é de 1940). Muitas pessoas se recusam a acreditar, mas o famoso Walt Disney, o suposto gênio por trás do mágico universo Disney, era um homem machista, preconceituoso e racista.
Nas edições posteriores as cenas com as centauras negras (com exceção de uma) foram censuradas. Em alguns trechos elas foram apagadas das imagens em outros a cena foi captada em um plano mais fechado ocultando sua visualização.
O seguimento final da animação é o mais denso de todos: a aparição do demônio no monte calvo. As cenas de almas sendo invocadas de um vilarejo medieval aos pés da montanha e sendo levadas para adorar a figura de satã é bastante tenebrosa. Apesar de toda a critica que esse trecho tenha recebido, confesso que achei uma das melhores partes da animação. A ousadia das cenas, onde figuras femininas nuas aparecem ardendo em chamas, o tom de cores azulado e meio escuro e a belíssima composição de Modest Mussorgsky, “Uma noite no monte calvo”, criam um clima perfeito de angustia que engrandece a obra por lhe imprimir mais profundidade.
O dia 31 de outubro é tradicionalmente considerado como dia das bruxas (Halloween). A data, no entanto, varia conforme a tradição: na Alemanha e nos países escandinavos o dia das bruxas (Noite de Wallpurgis) é no dia 30 de abril. No leste europeu a data é comemorada no dia 23 de junho, véspera do dia de São João. Mussorgsky era um homem solitário, alcoólatra, depressivo e constantemente acometido por crises epiléticas – quase um equivalente musical do gênio Dostoievski.
Após assistir a uma peça de teatro chamada “A bruxa”, Mussorgsky começou a pensar numa peça cujo tema seria a bruxaria. Em 1867 ele compôs “Noite de São João no monte calvo” – o nome de “São João” foi utilizado em referencia ao dia das bruxas da tradição eslava. A composição nunca chegou a ser tocada durante a vida de Mussorgski graças aos conselhos de seu amigo Balakirev, que a considerava muito polemica. Ao associar a nebulosa composição do gênio russo à imortalizada “Ave Maria” de Schubert criou-se um belíssimo e perfeito contraste como elemento de encerramento.
A animação possui um arco evolutivo muito bom: de inicio explora elementos da abstração em seguida sede espaço para a fantasia com uma ótica infantil acerca dos fenômenos da natureza. Em um terceiro ato invade o polemico campo da magia e da feitiçaria em uma bela metáfora sobre o desejo de dominação do homem – tema que é novamente levantado de forma polemica em um seguimento posterior. O que vem a seguir é um resgate dos conceitos científicos da evolução da vida na terra que vai até a extinção dos dinossauros. Em seguida ocorre a retomada dos elementos fantásticos através de um tratamento mitológico da musica de Bethoven – e esta proximidade entre ciência e mitologia foi muito bem elaborada.
O seguimento que retrata a evolução da vida termina antes do surgimento do homem, portanto, ao colocar o seguimento seguinte como uma composição mitológica encenada por vários casais de centauros é como se o longa buscasse uma aproximação entre o homo sapiens é a sua origem no animal. Para os gregos da antiguidade os centauros eram os únicos monstros com qualidades positivas: eram sábios, cultos e fortes.
O que me fez associar os centauros que aparecem na animação ao homo sapiens foi à cena na qual a centaura negra aparece na condição de subordinada em uma clara referência a escravidão: talvez a mais lamentável forma de exploração criada pelo homem. Dentre todas as outras formas de vida apenas o homo sapiens foi capaz de criar parâmetros de distinção racial em sua própria espécie é aceita-las como natural.
Outro ponto que me fez associar os centauros ao homem foram os elementos do enredo daquele seguimento: Centauras nuas vivendo idilicamente em uma paraíso natural é quase uma referência direta ao Genesis é a visão bíblica do surgimento do homem a partir de Adão e Eva. A inovação aqui é que não é uma serpente que leva a corrupção para o coração do homem, mas sim o deus grego Dionisio, que na mitologia representa a divindade do vinho, da insanidade e da busca pelo prazer. Ate mesmo um icônico Zeus aparece em meio as nuvem é destrói aquele paraíso mitológico mandando uma tempestade e lançando raios sobre o gorducho Dionisio.
O trecho sobre a dança das horas é uma abordagem cômica da passagem do tempo e isto é muito interessante uma vez que a passagem do tempo nunca foi algo divertido para as pessoas, muito pelo contrario sempre foi fonte de preocupação. O tempo passa, nos envelhecemos, as oportunidades se vão e os sonhos se desconstroem. “Fantasia” é uma animação que carrega as marcas de seu tempo, ou seja, um período conturbado, com muitas questões sociais e políticas opostas. Dentre todas as obras do universo Disney, “Fantasia” certamente emerge como um trabalho polemico, mas cujo mérito artístico é inquestionável.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
Segue o link de um interessante video-reportagem sobre "Fantasia":

domingo, 27 de novembro de 2016


“Ela devia estar completamente esgotada. Não lutava apenas no processo. Lutava sempre e sempre tinha lutado, não para mostrar do que era capaz, mas sim para esconder o que não sabia fazer. Uma vida cujos avanços consistiam em retiradas energéticas e cujas vitorias consistiam em derrotas secretas.”
- Bernhard Schlink
A obra “O leitor”, do escritor alemão Bernhard Schlink, meche um pouco com uma questão, que a meu ver é bastante significativa, que é a superestimação do julgamento moral. A convenção humana mais falsamente aceita pela maioria esmagadora da população é a de que nossa sociedade funciona a partir de conceitos morais.
A obra é mundialmente conhecida e apreciada. Trata-se da historia de um adolescente chamado Michael Berg, de 16 anos, que se envolve casualmente em uma relação amorosa com Hanna Schmitz, uma mulher misteriosa de 36 anos. A relação dos dois segue uma rotina: todos os dias Michael sai mais cedo da escola e se dirige para a casa de Hanna. Lá os dois primeiramente tomam banho juntos, em seguida Michael lê um livro para Hanna e em seguida os dois fazem sexo.
Hanna é uma mulher bruta, sensual, forte, pouco carismática, mas ainda sim sedutora. Ela trabalha como cobradora de bondes mora sozinha em um pequeno apartamento na cidade de Neustadt, localizada na Alemanha ocidental. A historia se inicia no ano de 1958.
Um belo dia Hanna desaparece. Michael a reencontra anos mais tarde - ele como estudante de direito e ela como ré em um julgamento de crimes de guerra. Hanna havia servido durante a guerra em um campo de concentração. Ela havia sido integrante da SS – a força de elite nazista responsável pela guarda dos campos. Durante uma evacuação cerca de trezentas prisioneiras foram queimadas vivas dentro de uma igreja durante um bombardeio. As guardas optaram por deixar as prisioneiras trancadas dentro da igreja em chamas para evitarem que escapassem. Entre essas guardas estava Hanna.
Este texto não é um resumo do enredo de “O leitor”. Trata-se de uma avaliação critica que surgiu após o termino da leitura. Hanna possui um segredo que explica a natureza de seu comportamento. Obviamente que não direi qual é esse segredo. Não retirarei do leitor a emoção de descobri-lo sozinho.
A conscientização da importância da ética como ferramenta social obviamente representou um progresso no sentido em que deu aos indivíduos uma espécie de pluralidade de perspectiva social. Por outro lado essa incorporação de valores éticos naturalmente parece ter legitimado uma forma mais estúpida, e eu diria mais recorrente, de invocar valores morais no sentido de expor as falhas do outro.
Na excelente adaptação cinematográfica da obra, lançada em 2008 – com a vencedora do Oscar, Kate Winslet no papel de Hanna Schmitz, existe uma cena - que não existe no livro - onde a personagem de Hanna faz um comentário negativo sobre uma passagem da obra “O amante de Lady Chaterley”. O interessante é que ela vê a descrição bruta que o autor faz do ato sexual como algo repulsivo e vergonhoso, como se aquilo não fizesse parte da sua realidade. A própria personagem alimenta a hipocrisia social de condenar no outro aquilo que faz na sua intimidade. É como se a moral funciona-se como um escudo onde não apenas se espelha a “imoralidade” alheia, mas também se oculta à própria “imoralidade”.
A primeira questão polemica do texto é o relacionamento de Hanna com um garoto adolescente. Para a maioria dos leitores esse relacionamento desencadeia um processo de desconstrução do caráter de Hanna justamente porque explora, num primeiro momento, o julgamento moral de cada um. A imagem de uma pervertida sexual é logo invocada sem que se preocupe com uma avaliação mais criteriosa. Basicamente é aquela velha história de “a primeira impressão é a que fica”. Essa pré elaboração de uma opinião a partir de um único fato é tão forte que quando a personagem começa a ser julgada por crimes de guerra ela praticamente já foi condenada moralmente pela maioria dos leitores.
O julgamento que o leitor submete Hanna se encontra atrelado a uma avaliação moral do comportamento. A pratica precede a norma jurídica. O fato de se contar atualmente com leis que restringem o comportamento entre adultos e adolescentes para alem dos limites sexuais significa que esse tipo de relacionamento já existia no passado. A responsável por empurrar esse tipo de relação para a esfera do reprovável é a aceitação da ética.
Hanna Schmitz é a imagem daquilo que toda sociedade busca: um culpado. Sempre se buscam exemplos daquilo que se reprova como se o que é considerado certo só fosse plenamente compreendido se fosse confrontado com seu conceito antagônico. Ambivalência é a palavra que define hoje a construção de um conceito que não é considerado isoladamente, mas sempre em relação ao seu contrario. Um conceito é sempre aceito como uma unidade, mas sempre se expressa de forma dialética.
A idéia de distinção é muito forte num grupo social. Distinção por critérios econômicos, ideológicos, de raça, por ocupação ou de crença são costumes perenes. É natural, portanto, que nesse contexto surgi-se alguma forma de distinção pelo comportamento, que no caso do romance “O leitor” seria o envolvimento amoroso de uma mulher, já na casa dos trinta, com um adolescente.
Eu diria que o fato de Michael ter apenas 15 anos não é algo tão determinante para que se faça a condenação moral da personagem. O grau de repúdio seria o mesmo se ele tivesse 18 e ela 38 anos. A questão aqui é a diferença de idade e não a questão legal da relação. Esse incômodo social com relação à diferença de idade entre duas pessoas que se relacionam é nada mais que um exemplo claro de que coletivamente o que importa é uma avaliação quantitativa e não qualitativa do comportamento.
As pessoas estão tão acostumadas a atribuir valores a tudo que elas se esquecem que num relacionamento o que importa é a qualidade dessa relação e não fatores numéricos. Talvez seja por isso que existam tantos casamentos indo por água abaixo e tantos casais infelizes em sua união “moralmente adequada”. Talvez se nos permitíssemos abandonar o peso do julgamento moral isso de alguma forma nos liberta-se de pelo menos uma das inúmeras falhas que nós como seres humanos cometemos.
A figura de Hanna é tão predominante que em nenhum momento se questiona sobre o papel do próprio Michael naquele tipo de relação. É importante avaliar não apenas a relação em si, mas também o papel de cada uma das partes envolvidas. Em primeiro lugar trata-se de uma interação consensual, portanto, não se configura abuso. Em segundo não se pode caracterizar nenhum dos envolvidos como “criança”, portanto são pessoas perfeitamente conscientes do que fazem.
Se pensarmos, portanto, que numa sociedade de direito onde o julgamento moral e mais adotado que aquele estritamente legal, então o próprio Michael é tão culpado quanto Hanna, pois trata-se de um adolescente que embora não possa ser responsabilizado por suas atitudes ainda assim compreende as implicações das mesmas. Logo se age conscientemente contra a moral disseminada em seu meio é tão amoral quanto Hanna. Talvez fosse muito mais valido questionar, por exemplo, que na maioria dos casos uma relação entre pessoas com uma diferença de idade muito grande acabe caminhando numa forma de interação muito superficial e basicamente resumida a satisfação sexual. A meu ver isto sim configura um aspecto negativo desse tipo de relação, claro que não do ponto de vista legal, mas porque se resume a uma troca que satisfaz mais que não beneficia nenhuma das partes.
Eu diria que as pessoas ainda não compreendem bem a diferença entre satisfação e beneficio. Uma relação não pode ser resumida a pura satisfação; algum grau de beneficio deve surgir. O beneficio a que me refiro não é material e sim abstrato, seja na forma de algum aprendizado como, por exemplo, aprender a aceitar as diferenças do outro ou perceber, mesmo que de forma dolorosa, que não somos capazes de satisfazer plenamente uma pessoa em todos os aspectos. Em algum ponto nos falhamos, por isso os relacionamentos são tão difíceis porque é através deles que enxergamos nossos limites.
A questão da culpa alemã é outro aspecto polemico trazido à tona pelo autor. O julgamento de crimes de guerra, que ocorre mais ou menos no meio do texto, coloca essa questão em debate. Surge o tema da importância de se punir os culpados. É claro que ninguém é favorável a impunidade. Quem sabe alguns nomes ligados a política o sejam, mas a grande maioria da população não é.
O regime nazista cometeu inúmeras atrocidades, não há duvidas quanto a isso. Ver um nazista no banco dos réus é quase como se a sentença já houvesse sido promulgada. O julgamento em si aparece como mera formalidade. Não hesitaríamos em nenhum momento em condenar um ex carrasco de Auschwitz. É por que não hesitaríamos? Porque nosso julgamento moral nos impede de olhar a questão de forma mais ampla.
O habito de julgar o comportamento do outro por meio de valores e crenças pessoais nos leva a extrapolar e generalizar os dados que um único fato pode fornecer. Trata-se de uma sistematização da suspeita: pega-se um fato e o julga de forma isolada, uma espécie de análise morfológica do comportamento. Algumas palavras são substantivos se observadas isoladamente, mas dentro de uma frase podem se tornar verbos, assim como um comportamento pode tanto significar um ato de extrema covardia como um ato inconsciente.
A maioria de nós se esconde atrás do escudo da moralidade sem que se permita enxergar que ela não é um recurso, mas o refugio para nossas fraquezas. O que é ser ético atualmente? É corresponder a expectativa social! É onde encontro espaço para minha espontaneidade diante disto? Devo seguir um caminho só porque ele carrega as marcas das pegadas dos outros? Sinto muito se esses grifos de percurso não me servem como guia. De que me serve seguir os mesmos caminhos sempre? Eles não possuem o prazer da descoberta, eles apenas levam ao mesmo destino de tantos outros. O paradigma da moral é o que nos leva a cometer falhas quando ousamos julgar um tempo que não foi o nosso. O tempo passa e arrasta com ele as oportunidades de corrigir seus erros. Julgar o passado é impossível! Os mortos não querem justiça, eles querem paz. Justiça é algo que se busca em vida... depois de morto ela não significa mais nada.
Quando passamos a enxergar o predomínio da postura critica durante a leitura e posteriormente avaliamos nossa postura em retrospecto a imagem que temos é a de um julgamento constante, contra tudo e contra todos, e isso de alguma forma nos mostra que a história real, e não aquela fabricada por ideologias é aquela onde a culpa se dissemina por todas as camadas sociais, sem respeitar diferenças de idade, diferenças culturais ou de raça. No fim, de alguma forma, somos todos culpados.
Pessoalmente o comportamento privado das pessoas não me interessa. Confesso que talvez ele me intrigue, mas não me interessa assim como não acho que um comportamento sexual diferenciado possa servir como rotulo social ou como uma espécie de termômetro moral. Erotismo é algo que não pode e nunca ira se alinhar com a moral coletiva. Isto porque o erotismo está fortemente relacionado à transgressão, a inversão radical do comportamento social. A nudez é algo quase fundamental no erotismo, mas não se pode simplesmente sair às ruas e ir ao trabalho sem roupas. A própria linguagem do ser social precisa ser polida, contida, clara. Já no erotismo a linguagem é obscena, bruta, vulgar. Não se pode avaliar socialmente o individuo a partir do que ele faz na sua privacidade.
O que torna o comportamento de Hanna incompreensível, não apenas em relação aos crimes, mas também quanto ao estilo de vida que ela abraçou e que obviamente cria muitos problemas para ela própria, é que sempre que analisamos um fato qualquer nós, por antecipação, aceitamos a idéia de que toda ação se fundamenta em um motivo. Basicamente é a analise que se constrói por meio da relação de causa e conseqüência. Analisar o nazismo por estes termos é algo comum, ainda que de pouca validade, pois não existem motivos para justificar a brutalidade do nazismo. Essa postura analítica praticamente define o comportamento de Hanna como inexplicável. Isso ocorre porque estabelecer uma conexão valida entre o motivo da ação e a ação propriamente dita não é uma tarefa simples. Primeiro porque ainda que cheguemos a uma conclusão ela será sempre passível de questionamentos; e segundo e que o conceito de motivo como fundamento da ação é falho.
A sociedade contemporânea possui inúmeros exemplos de que a ação é na maioria das vezes uma etapa para um objetivo, particular, que transcende aquilo que a ação afirma ter como meta. É comum vermos analfabetos políticos, por exemplo, no meio de manifestações políticas. Neste caso sua presença ali não ocorre por simpatia com as propostas de reivindicação, mas por algum motivo particular que foge da esfera da política.
Quanto à personagem Hanna o autor não fornece muitas informações sobre o seu passado, o que impede uma busca efetiva pelo real motivo de suas ações. Esse é um aspecto muito interessante do texto porque à medida que o autor se exime da responsabilidade de construir em detalhes o passado de seus personagens ele abre precedentes para uma serie de interpretações e conjecturas e isso promove um resgate constante do texto como elemento de debate nos grupos de leitura. Hanna parece ter sofrido algum tipo de violência sexual durante a guerra pois sua relação com Michael é de subordinação, quase que uma determinação em retratar o amor como algo tosco e descartável.
A obra possui um substrato tão amplo que é possível colocar em relevo até mesmo a questão da antinomia das leis, ou seja, da contradição das leis. A lei seria aplicável a todos com igual rigor. Na pratica não é bem assim. Essa falha da pretensão jurídica em julgar a todos com a mesma cartilha, a revelia das considerações individuais de cada caso, acaba promovendo uma injustiça justamente por aqueles encarregados de serem justos.
Uma serie de perguntas interessantes surgem após a leitura: Somos suficientemente instruídos acerca de um individuo a ponto de sermos capazes de julgar suas atitudes? O passado pode ser corretamente interpretado pelo presente? É possível corrigir o passado? É correto combater a crueldade com a injustiça? Quando o segredo de Hanna finalmente é revelado alguns podem até questionar a relevância desse fato quanto aos crimes da acusada. Fica de fato muito difícil vislumbrar o impacto desse segredo no comportamento de Hanna se você não for capaz de considerar os inúmeros desdobramentos que esse segredo teria na vida de qualquer pessoa.
Guerras são eventos que promovem a escassez nas opções de sobrevivência. Caso você se encontre na mesma situação que a própria Hanna essas opções se tornam ainda menores. O caráter de uma pessoa pode ser determinado por seu grau de instrução? Em muitos casos sim! Isso não significa que uma pessoa que não tenha doutorado ou uma formação acadêmica não possa ter um bom caráter. Existem indivíduos sem nenhum conhecimento acadêmico que são exemplos de humanidade. Mas é inegável o papel da instrução na formação de uma pessoa. Como diria Isaac Azimov “se o conhecimento nos cria problemas não é com a ignorância que vamos resolve-los”.
Acho que a grande proposta do autor é reavaliar nossa postura critica diante de nossos semelhantes. Como em muitos casos julgamos erradamente um tempo que não era e nunca será o nosso. A vida em sociedade fez do homem um animal ávido por critérios de distinção. A separação entre grupos opostos, em termos morais, amplia as possibilidades de eliminação de um destes grupos por meio do incremento constante da hostilidade entre eles. Uma vez eliminado o grupo “vencedor” abre espaço para a introdução de adicionais valorativos em seu núcleo. Novas distinções são criadas, novos grupos são definidos e novamente a violência se encarrega de definir quem fica e quem sai. É assim que a espécie se “purifica” e se adapta. O que diria hoje Charles Darwin se ele pudesse ver sua teoria sendo demonstrada em termos tão irracionais? Seria ele, de alguma forma, convencido de que não apenas o homem e o macaco possuem um ancestral comum, mas que o ultimo representa uma forma infinitamente mais evoluída que o primeiro?
Ao se envolver com Hanna, Michael começa a tomar consciência tanto do valor da relação de envolvimento com outra pessoa como também de suas regras. Esse é um processo natural em adolescentes. Ao se identificar com um grupo especifico o adolescente tende a valorizar mais os valores do grupo que os de si próprio. A lealdade, nesse contexto, surge como uma das mais importantes características do grupo.
É impossível olhar a vida de forma racional. Olhar racional é determinista e a vida é contingente. Os eventos podem se desenvolver de inúmeras formas aleatórias. Se a vida não pode ser objeto da razão, dada a inobservância de uma relação de causa e conseqüência bem definida e pelo predomínio do relativismo, ou seja tudo depende do ponto de vista, como e possível definir o que é certo e o que é errado? Como é possível estabelecer os limites de um comportamento que quando extrapolado se torna loucura? Posso ser louco pelo olhar de alguém e gênio pelo olhar de outro. Como saber qual imagem é a correta?
A palavra “moral” vem do latim “moris” que significa “maneira de se comportar regulada pelo uso”. Ética e moral não são sinônimos. Ética pode ser definida como uma espécie de filosofia da moral enquanto a moral seria o desdobramento teórico e pratico de como a ética é assimilada coletivamente. Por isso a moral e tão pouco diversificada, ela não e construída individualmente, mas de forma coletiva. O comportamento ético é fundamental para a atividade humana. Como seria se cada um agisse apenas por suas próprias vontades? Mas o fato é que existem limites quanto à invocação dos valores morais. Não se pode adotar um valor coletivo para julgar uma ação individual porque o comportamento individual não e orientado pela moral constituída, mas pela realidade do momento.
São inúmeras as variáveis que orientam o comportamento humano – tempo, meio, momento histórico – a moral é apenas uma constante nessa equação. O paradigma nos mostra que a moral possui prazo de validade. Ela muda como conjunto de valores a medida em que mudam-se as necessidades do meio social que ela se insere. Vista por estes termos fica difícil enxergá-la como uma evolução nas relações humanas. Trata-se apenas de uma ferramenta que limita a liberdade de ação individual. Uma prisão no qual aprisionamos a nos mesmos de livre e espontânea vontade. Por que a moral pode ser considerada como uma chaga social? Porque ela não possui uma consciência moral como amparo. Não é critica, pelo contrario, é aceita sem questionamento. Pessoas conscientes de seus próprios pecados são mais humildes. São pessoas com uma expressão moral neutra. O caráter permissivo de cada um não lhes parece um motivo valido para que apontem o seu dedo e decretem sua sentença. Os puritanos e moralistas invocam a moral cristã para legitimar sua própria hipocrisia. Parecem ignorar que o próprio Jesus se cercou daqueles ditos imorais: ladrões e prostitutas.
Porque existe a necessidades de julgar o próximo? O que torna esse comportamento tão irresistível? A vaidade. A autopromoção, o elogio fabricado por si mesmo, a auto-avaliação feita diante do espelho, a pura e simples vaidade. Sentimos o desejo incontrolável de sublinhar nossos pontos positivos, nossas supostas virtudes. A beleza se torna mais clara diante do repulsivo, o virtuoso se torna mais grandioso diante do imoral. De novo a velha formula de conceito que se constrói por sua expressão contraria. A vaidade fez do homem um juiz eterno que aplica a tudo e a todos o crivo torpe de sua auto avaliação.
O obra “O Leitor” é um texto fácil de ser lido e difícil de ser digerido. Foi uma das mais expressivas experiências literárias que já tive. Uma obra magnífica, cativante e profunda. Hanna Schmitz tornou-se para mim uma das personagens mais impressionantes da literatura. Ela não foi apenas uma entre centenas de carrascos do Holocausto, foi também uma vitima do nazismo! Ela representa aquilo que faz dos humanos seres primitivos: Carentes por atenção, reféns de seus desejos, brutos em seus modos e sempre mais conscientes de seus limites do que de seus atos.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
Autor: Bernhard Schlink
Editora Record
Ano 2009
Assunto Literatura Estrangeira-Romances
Idioma Português
TRAILER DO FILME DE 2008

sábado, 26 de novembro de 2016

O FANTASMA DA ÓPERA


O “Fantasma da Ópera”- “Le Fantôme de l'Opéra” em francês - é um clássico da literatura mundial que ganhou destaque nos últimos anos graças ao musical de Andrew Lloyd Webber e do filme de 2004 dirigido por Joel Schumacher. Escrito por Gaston Leroux e lançado em 1905 a história se passa na Paris do final do século XIX, ou mais precisamente na belíssima Ópera Garnier.
Tudo começa quando o corpo de um funcionário é encontrado com marcas de enforcamento em uma das dependências da ópera e imediatamente surgem rumores sobre o suposto fantasma. Uma estranha e misteriosa figura parece habitar os subterrâneos do edifício. De tempos em tempos eventos estranhos acontecem sem que possam ser explicados. Um sinistro envelope com um bilhete escrito em tinta vermelha exige dos novos administradores da opera o pagamento de uma mensalidade e que o camarote de numero 5 nunca fosse alugado. Intrigados os administradores Armand Moncharmin e Firmin Richard resolvem não atender as exigências e é ai que o enredo começa a se desembrulhar em acontecimentos cômicos e trágicos.
A ópera Garnier de Paris sempre foi um monumento cercado de mistérios. Foi a 13ª casa de opera construída na cidade – um número carregado de superstições. As obras foram interrompidas durante o trágico cerco prussiano a Paris em 1871 e durante a sangrenta comuna. A construção se estendeu a vários metros abaixo do solo o que provocou infiltrações de água em suas fundações. A água foi mantida pelos engenheiros e algumas paredes foram impermeadas para represá-las. Um lago artificial de fato existe nos porões da Ópera Garnier e a existência desse lago deu vazão a inúmeras lendas.
A historia do “Fantasma da Opera” é um mito, mas o autor, Gaston Leroux, constrói o texto de forma a convencer o leitor de que se tratou de um acontecimento real. O ponto negativo da edição da editora LePM é a ausência de um texto introdutório que aborde o contexto histórico no qual a obra foi escrita. Uma falha grave a nível editorial!
O enredo é linear o que permite que os personagens adquiram profundidade, mas isto não acontece! Não existe um arco evolutivo, os personagens não se desvinculam da imagem inicial, eles são excessivamente planos, rasos e isto de certa forma parece corresponder à intenção do autor em humanizar a figura do fantasma em detrimento dos demais personagens. É a clássica narrativa que trabalha sobre a ideia de os vivos serem mais perigosos que os “mortos”.
Ao contrario do que pode parecer essa ausência de profundidade funciona bem para o enredo do “O Fantasma da Ópera”, que não tem a pretensão de criar uma obra de caráter psicológico muito profundo. Personagens muito densos dentro dessa moldura poderiam resultar em um texto muito arrastado - de fato existem momentos maçantes, mas nada que resulte numa avaliação muito negativa.
Os aspectos que me desagradaram nesta obra não foram poucos, embora isso não retire o seu mérito. Em primeiro lugar fica a sensação de que o espaço físico onde se passa a historia - a ópera Garnier - não foi bem aproveitado. A narrativa foca muito em alguns diálogos desnecessários e deixa de explorar a geografia de onde o enredo se desenvolve.
Outro ponto que me desagradou foi à forma banal como o autor tratou do episodio da queda do famoso lustre. A historia supostamente foi escrita inspirada em um acontecimento real: o lustre de varias toneladas desabou depois que seu cabo de sustentação se rompeu durante uma apresentação. Algumas pessoas ficaram feridas e uma morreu – exatamente a mulher que estava no assento de numero 13. Esse acontecimento trágico não teve o destaque que se espera de um fato que motiva o surgimento de uma obra. Fica a sensação de que foi um ato banal, um mero preenchimento de fundo para uma história bem menos interessante, e em alguns momentos bastante irritante: o romance de Raoul, visconde de Chagny, e Christine Daaé, a soprano por quem o fantasma nutria um amor platônico.
Raoul é de longe o personagem mais insuportável do texto. Sua obsessão pelo misterioso “Anjo da musica” irrita até mesmo o mais paciente dos leitores. O problema com relação ao romance entre os dois personagens e que o leitor parece sempre tangente a essa relação. Não existe uma ligação convincente para amor que eles encenam, embora possuam uma ligação que remeta ao passado de ambos.
O livro começa muito bem, o autor soube trabalhar o clima de mistério das primeiras paginas nas quais a figura do fantasma é construída através das conversas de bastidores dos artistas da ópera. Isso funciona bem em textos do gênero onde o leitor deve ser seduzido pelo mistério logo nas primeiras paginas.
O personagem do fantasma adquire algumas camadas de personalidade a partir da segunda metade da obra. Neste aspecto o autor acertou em cheio ao deixar sua historia para o final, pois isto alimenta aquele mistério que é o combustível natural de enredos do gênero. Um fato intrigante é a oposição entre a avaliação que os personagens fazem e a do próprio autor com relação ao fantasma. A todo o momento ele é descrito como um monstro, um ser repulsivo, um assassino, mas o que o próprio autor parece querer dizer é o oposto disto. Essa busca por humanizar um ser, que para muitos pertence ao mundo dos mortos, pode ser um foco interessante de interpretação psicológica do significado da obra.
O texto perde um pouco desse fôlego após alguns capítulos iniciais e passa a oscilar entre trechos interessantes e empolgantes e outros nada interessantes e muito pouco emocionantes. Apesar de todas as falhas é um texto que vale a pena ser lido principalmente por seu desfecho que apesar de triste consegue retratar bem os propósitos de uma bela ópera.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

Seguidores