sexta-feira, 18 de setembro de 2015


A ironia pode ser definida como uma importante ferramenta social pois como diria Florbela Espanca “a ironia é a expressão mais perfeita do pensamento.” Dizer o contrário do que se pensa é afastar-se de si mesmo e admirar uma figura construída como ideal de si próprio. Isso pode ser entendido tanto como um narcisismo incontido como uma baixa alto estima. Sócrates era defensor da ironia como ferramenta de linguagem, pois a mesma associada a pratica da maiêutica permite compreender a magnitude do nível de conhecimento do seu interlocutor, em síntese esse comportamento pode ser descrito como um teste para saber com quem de fato estamos nos relacionando. A ironia é a mais bela e admiravel forma de sutileza que circunscreve a sempre retorica comunicação humana. Ser irônico é, portanto, o mesmo que ser cauteloso.
Todo homem é uma forma de duplo oposto de si mesmo: é o exemplo de coexistência entre racional e irracional, entre razão e emoção. É por isso que o conceito de relativo é perfeitamente aplicável ao homem. Sua essência é na verdade seu caráter ambíguo: a predominância alternada ora de uma postura ora de outra. E por isso que muitas vezes o individuo que diante de nós se apresenta cauteloso, assume aos olhos de outro a postura de radical.
A linguagem não mascara o pensamento dos irônicos, mas pelo contrario. Ela é uma expressão berrante que indica o grau de distanciamento entre o que dizemos e o que pensamos; é o único recurso de linguagem humana que é compreendida em sua plenitude apesar de sua origem nitidamente contraditória. O pensamento é compreendido a partir de sua expressão verbal contraria. Em síntese a ironia é nada além de uma forma de sinceridade adornada de muito humor.
Tememos ser desagradáveis; somos obcecados por aceitação social e por isso não dizemos o que realmente pensamos. A verdade é algo que sufocamos diariamente em nome do convívio social. Buscamos em cada frase não a verdade, mas a mentira por trás dela. Estamos sempre buscando significado oculto de cada frase; sempre tentando entender o que não foi dito, o que se esconde por trás da massa cuidadosamente ordenada de palavras. Buscamos a resposta no silencio criado pelo decoro social! O grande drama dessa questão é que a linguagem do silencio não pode ser compreendida da forma usual, ou seja, pela interpretação de palavras não ditas. O silencio não existe! Ele é apenas um emaranhado de palavras ditas de forma diferenciada e que revela muito além daquilo que se espera dele.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

O principal obstáculo que se impõe diante da tentativa de se compreender as civilizações antigas é a tendência quase natural que temos de classificá-las como inferiores ao invés de diferentes. Essa ótica etnocêntrica cria uma abordagem que inevitavelmente encerra todas as formas de cultura, religiosidade e de ciência numa forma estéril e menor de representação. Os mitos, na medida em que são vistos como lendas, fabulas, em síntese como o conjunto de crenças nas quais esta ausente um encadeamento lógico racional que lhe preste a função de amparo argumentativo, são interpretados simplesmente como uma forma incorreta de religiosidade. Os mitos não necessitam da lógica porque sua adesão à cultura de cada povo acorre através da fé e não de um método rigoroso e técnico de interpretação. Trata-se de uma crença estéril porque é aceita sem questionamento e que se insere de forma insidiosa através dos costumes.
Qual seria então o real valor existente por trás dos mitos, sejam eles gregos, romanos, egípcios ou escandinavos? Se encararmos as lendas como uma tentativa particularizada de explicação da realidade como ela é, certamente enxergaríamos ai tanto sei valor cientifico como artístico, uma vez que consiste na busca por formas abstratas de representação, ainda que pouco racional, da realidade. Os mitos, portanto, se caracterizam como uma criação artística que na tentativa de explicar o mundo acabou revelando as essências da psique humana. É nesse contexto que a frase do pintor Pablo Picasso expõe toda a sua grandeza e genialidade: “A arte é uma mentira que nos mostra a realidade.”
A idealização e aceitação desses mitos como uma verdade institucionalizada pela vontade nos revela a origem emocional por trás de tais historias. O mundo, com toda a sua amplitude e grandeza é por demais caótico para que seja compreendido em sua plenitude. O conhecimento é intuitivo e começa a partir das partes que compõem o todo. O método de compreensão consiste na constante fragmentação da realidade no plano mental, onde a mesma é reduzida a fragmentos menores através dos quais são feitas afirmações e exclusões arbitrarias cujos resultados são as variadas formas de fé que vemos pelo mundo. Em resumo os mitos revelam aquilo que queremos e o que tememos, na medida em que da vazão as necessidades essências do homem que encerra no seu âmago as inconstâncias de sua natureza primitiva.
Pode se dizer que os mitos gregos da antiguidade representam a primeira tentativa metafórica e mais elevada de representação psicológica. Não faltam exemplos de mitos que possam servir de representação da mecânica do inconsciente, dentre os quais estão os famosos doze trabalhos de Hercules. Segundo a lenda Hercules teria sido encarregado de matar o gigantesco e feroz leão que vinha aterrorizando o vale da região da Némeia. O monstro era impenetrável as flechas e lanças dos mortais graças a uma porção mágica feita por Selene, uma feiticeira que havia sido expulsa da cidade e que havia prometido se vingar de seus habitantes.
Quando Hercules finalmente conseguiu encontrar a fera no interior de uma caverna ele a teria estrangulado, pois suas armas não eram capazes de ferir o monstro. Na ocasião Hercules teria se lembrado dos conselhos da deusa Minerva – deusa da sabedoria - que disse para que usasse a inteligência ao invés da força. O mito de Hercules e o Leão da Némeia é uma representação metafórica de que somente o uso da razão é capaz de sufocar a fera que existe dentro de cada um. De como nosso ego - representado pela pele do leão - se acha inatingível; e de como nos tornamos mais fortes quando enfrentamos aquilo que de certa forma é o oposto do que somos, nossa nêmeses. Na pratica a alegoria da pele do leão nos mostra que apesar da recusa em se revelar completamente para o outro, ninguém é completamente impenetrável.
De acordo com a concepção freudiana de inconsciente os mecanismos que o delimitam se articulam na busca pelo consenso, pelo equilíbrio. Da vontade, em constante atrito com a realidade, surge o que somos. Nascemos acolhidos pelos braços da contradição, talvez esteja ai a explicação para nossa natureza complexa. Verdades ou mentiras os mitos cumprem perfeitamente sua função: ensina-nos a enxergar quem somos e nos mostra que na maioria das vezes as mentiras dizem apenas verdades.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

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