quinta-feira, 31 de outubro de 2013

CRONICA DE UM DIA


O sono agradável das primeira horas da manhã é interrompido pelo som desagradável e constante do despertador - exemplo notável de tormento individual. Você olha para o relógio e vê que são 6:30 da manhã e para piorar está chovendo! O cansaço do dia anterior foi tão grande que somente nessa hora você finalmente percebe que dormiu de meias. Os olhos parecem ter vontade própria pois insistem em ignorar sua ordem para permanecerem abertos enquanto o corpo implora por mais alguns minutos na cama. Não têm jeito: é hora de entrar na ativa! A solução parece ser entra debaixo de um chuveiro quente o mais rápido possível antes que a preguiça volte a dar conselhos – engraçado como ela é uma ótima conselheira. Depois do ritual matinal você entra no “busão” e segue para o seu destino. Logo que chega ao centro da cidade você procura uma casa lotérica, pois a conta de luz já venceu.
As casas lotéricas são verdadeiros antros de infelicidade: somos obrigados a ficar horas em uma fila que aparentemente não anda. Como não adianta ficara olhando para os caixas - acredite eles não irão funcionar mais rapidamente só porque você teima em ficar olhando com cara de poucos amigos – o jeito é procurar distração no ambiente ao redor. Na maioria das vezes só olhamos no entorno depois de já ter conferido umas trinta vezes o valor e a data de vencimento da conta ou boleto. Quando as filas se estendem até a rua é possível se distrair olhando a multidão, tão diversificada que é quase impossível cair na monotonia.
Ali se vê desfilar todo tipo de caricatura social; alguns seguem a passos largos, outros falam ao telefone, outros seguem com um semblante congelado graças aos fones nos ouvidos. Poucos parecem distraídos, a maioria carrega um pesado semblante de preocupação. Alguns param em frente às casas lotéricas e parecem refletir se vale ou não a pena enfrentar aquela fila. Um senhor aperta os olhos para conferir os números da mega sena, outro preenche os cartões escolhendo os números com tamanha concentração como se estivessem diante de uma prova de matrizes matemáticas, e enquanto isso a fila não andou nem um passo sequer!
A mulher na sua frente parece discutir sobre alguma greve com um senhor mau humorado e com hipertricose auricular evidente. Duas adolescentes, um pouco mais a frente na fila e carregando mochilas enormes, conversam sobre o termino do namoro de uma terceira, que por estar ausente parece mais presente do que nunca. Cansado daquele assunto juvenil você percorre a fila com os olhos e percebe uma mulher lutando para encontrar o celular que não para de tocar dentro da bolsa. Subitamente você sente um empurrão de alguém que se aproxima do caixa para perguntar alguma coisa, relacionada a um boleto ou conta, e enquanto observa um senhor conferindo o troco com certa dificuldade, pois de forma enigmática ele insiste em não larga o guarda chuvas. Nesse meio tempo e possível escutar a voz da mulher, que se encontra imediatamente atrás de você na fila, conversando ao telefone e dizendo algo do gênero: “Mas você precisar conversar com ele porque isso pode dar confusão”. Finalmente chega a sua vez de ser atendido e você não demora mais do que dois minutos para fazer o que têm que fazer. Indignado você se pergunta o porquê de tamanha demora, mas está tão feliz por finalmente sair dali que nem se importa mais com isso.
Seguindo pelas ruas em meio ao barulho caótico do transito você se encontra cercado por fragmentos de conversas incompreensíveis. Confesso que me divirto um pouco graças a essa impossibilidade de compreender fragmentos fonéticos soltos pela espontaneidade dos interlocutores. Deixando de lado o humor baseado na vida alheia você tenta compensar o tempo perdido acelerando o passo. Infelizmente sua estratégia não é muito vantajosa porque parece que todos os sinais estão abertos para o transito e você é obrigado a parar no limite de cada quarteirão. Ai você pensa: pronto é só esperar o sinal abrir e eu atravesso correndo! Leva uma eternidade para o sinal abrir - na realidade parece que ele só abre depois que algum carro passa e deixa seu tênis encharcado pela água da sarjeta. Quando finalmente os carros param e você se prepara para colocar em pratica seu preparo físico inexistente, no estilo cem metros rasos, você percebe que atravessar a rua era apenas um detalhe, pois a grande questão é se desviar da muralha de pessoas que vem no sentido contrario.
Quase sempre, exatamente no meio da rua, você dá de cara com alguém que insiste em seguir para a esquerda enquanto você também escolheu esse caminho. Quando você muda para o lado oposto percebe que a outra pessoa também fez a mesma coisa – quase como uma sombra! Se alguém observar essa cena de longe vai acreditar que está vendo duas pessoas estranhas ensaiando passos de dança - no estilo dois pra lá dois pra cá - bem no meio da rua. Quando você finalmente consegue atravessar a bendita rua se depara com uma multidão de anunciadores de calçada querendo te oferecer cartões de credito, serviços dentários, panfletos de alistamento militar, cursos profissionalizantes, corte de cabelos, etc. Os anúncios são tão automáticos que chegam a oferecer serviço de cabeleireiro a pessoas que não possuem um fio sequer deles sobre a cabeça!
Depois de finalmente atravessar essa confusão você se da conta de que precisa comprar um remédio na farmácia. Como não é difícil encontrar uma delas no centro de BH você rapidamente consegue encontrar uma loja, em cuja fachada está escrito “Drogaria”. Você então entra, passa por um setor generoso nas ofertas de analgésicos, se aproxima do balcão e entrega a receita para o farmacêutico. Enquanto ele confere você aproveita para ficar próximo do umidificador de ar – nos dias muito quentes isso não é possível, pois é quase certo que alguém já esteja diante dele quando você chegar. O vendedor olha a receita, volta os olhos para o computador, retira um crachá do bolso, anota algo em um pequeno bloco de papel – sempre com aquelas canetas em que você tem que apertar a parte de trás - digita algo no teclado e em seguida desfere o golpe final: ele se nega a vender o medicamento porque encontrou alguma irregularidade na receita. Uma assinatura torta, um carimbo com CRM muito claro, o CID da doença ausente, tudo é motivo para reprovar a bendita receita, cujo propósito seria aliviar algum sofrimento físico seu, mas que no fim acaba lhe causando muita dor de cabeça. Nesse exato momento você consegue entender o porquê de tantas ofertas generosas de analgésicos logo na entrada!
Alguns já exigem o CPF do medico e o endereço do hospital! Daqui a algum tempo não ficaria surpreso se passarem a pedir exames de sangue, facebook e Instagran do medico que receitou o medicamento. Depois de algum tempo você finalmente consegue encontrar uma farmácia que lhe forneça o medicamento; quando se dirige ao caixa para pagar o dito cujo você percebe que todas as barras de chocolate e biscoitos são colocadas nas prateleiras próximas. Coincidência? É claro que não! Depois de todo esse vai e vem um pouquinho de chocolate para adoçar o dia surge como uma oferta irresistivel. Isso sim é propaganda conativa!
Ao sair você não gasta mais do que alguns segundos para devorar a barra de chocolate e percebe que deveria ter comprado uma segunda. A vontade de comer era tanta que você só percebe que está chovendo no quarteirão seguinte. O jeito e parar em algumas daquelas feirinhas e compra um guarda chuvas, mas como hoje é um daqueles dias em que você não deveria ter se levantado da cama, o vendedor só têm aquelas sombrinhas de péssima qualidade e pra piorar são todas coloridas com flores – parecendo uma propaganda de primavera-verão. De volta as ruas, tentando caminhar o mais rápido possível, lutando contra a multidão de guarda chuvas e contra a chuva de impropérios dos pedestres, você se depara com um trecho da calçada coberto por ardósia ou algo semelhante. Temendo uma queda vergonhosa você reduz o passo e, instintivamente, contrai os dedos dentro do tênis – como se isso fosse lhe ajudar a não escorregar.
Finalmente você chega ao trabalho é logo é recebido por um nível de atenção hostil bem característico dos chefes em relação aos funcionários atrasados. Depois de se desculpar e inventar algo como “estava preso no transito”, ou “tive de pegar um taxi, pois está tudo engarrafado” você se encaminha ao banheiro, confiante de que suas desculpas funcionaram, mas intrigado porque durante toda a explicação o seu chefe não tirava os olhos dos seus dentes. Quando chega ao banheiro e se olha no espelho percebe aquele fragmento de chocolate entre o incisivo central e o incisivo lateral. Envergonhado você corre para a sua mesa e mergulha no trabalho na esperança de que o tempo não demore a passar.
Finalmente chega às 18 horas! Você se engrandece diante da certeza de que dali a algumas horas estará em casa. De volta as ruas você chega ao ponto de ônibus lotado. Com a visão já marejada, pelo dia de trabalho, enxergar o número dos ônibus fica mais difícil, se você for míope então fica ainda mais complicado. O ônibus finalmente chega e te leva arrastado para casa, pois é essa a impressão que dá! Aquela dor de cabeça chata do fim do dia já nem incomoda tanto, pois o funk, tocado “democraticamente” dentro do ônibus, é infinitamente mais desagradável. Nesse momento você percebe que a “democracia” conseguiu entrar no ônibus, o bom senso deve ter ficado no ponto e a ética... essa deve morar em outra cidade!
Chegar em casa é libertador! Livre das obrigações você se entrega a ociosidade e as distrações, pois, apesar de tudo, o bom humor não te abandonou. Os acontecimentos do dia se tornam motivos de risadas e é nessa hora que você percebe que não se conhece por completo e que tem no maximo uma opinião sobre si mesmo.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

TERRA: UMA QUESTÃO HISTORICA


Durante o século XVIII, e na primeira metade do século XIX, a terra era considerada a única fonte produtora de riqueza. Não é sem motivo que quase todas as teorias econômicas liberais - as mais influentes pelo menos - giravam na orbita da agricultura. O problema central do mundo rural não era expresso pelo valor da sua mercadoria, mas pela relação entre camponeses e latifundiários, ou seja, entre os donos da terra e os que a cultivavam.
A decadência da agricultura é um fato histórico: iniciou-se no século XII na Baixa Idade Media, com o Renascimento Comercial, e atingiu o apogeu durante a Revolução Industrial. No seculo XVIII a estrutura econômica de alguns países, como a Inglaterra, estavam alicerçados sobre o metodo de produção em massa com a mecanização dos meios de produção. A industria têxtil, por exemplo, permitia lucros exorbitantes aos que se aventuravam a investir no setor, pois sua materia prima era basicamente o algodão é a lã. Buscando o crescimento do setor têxtil a Inglaterra iniciou uma revolução agrícola cujos objetivos eram fornecer três componentes básicos ao estabelecimento de uma econômia capitalista: uma burguesia forte com capital para investir no setor de produção, um excedente de mão de obra e um mercado consumidor capaz de escoar a mercadoria produzida. A politica de Cercamentos deu inicio a um êxodo rural que atendeu as novas demandas do mundo urbanizado cada vez mais ávido por mão de obra excedente – um poderoso regulador dos salários. Com isso a terra deixou de ser um bem de consumo e se tornou um bem de produção.
Durante a baixa idade media o aumento da produção no campo se deveu ao aumento da população urbana. Esse incremento produtivo se baseou na expansão das terras produtivas, associada a um intenso desmatamento cujas conseqüências foram sentidas na forma de uma repentina alteração climática que arrasou a agricultura européia resultando numa onda de fome. O evento coincidiu com a Peste Negra que assolou o continente a partir de 1348, ocasionando a morte de aproximadamente 30% da população européia.
Esse método de aumento produtivo logo se esgotou porque não foi seguido por uma melhoria dos mecanismos de produção, o que certamente teria elevado o rendimento da terra e baixado o preço dos alimentos. As inovações ficaram restritas a introdução da Charrua – uma espécie de arado que possibilitava uma maior penetração do solo, a adubação com estume, a adoção da carreta com dois eixos que possibilitou um transporte maior de mercadorias e o rodízio de terras que evitava o esgotamento do solo. A produção se resumia ao trigo, centeio, cevada, aveia, gado de corte, porcos, aves e laticínios. A produção de frutas, legumes, vinho e lã eram infinitamente mais reduzidas que os primeiros.
O crescimento da população urbana garantia o escoamento dos produtos do campo e justificava o aumento das terras cultivadas; porem o sistema se baseava em um frágil equilíbrio entre campo e cidade. Uma redução mínima da população urbana ou o aumento do número de desempregados poderia gerar resultados desastrosos para a agricultura; e foi exatamente isso que aconteceu: o esgotamento do ouro e da prata das velhas minas, e os métodos rudimentares de extração, levaram os reis a reduzir a quantidade de ouro e prata nas moedas sem, no entanto, reduzir seu valor nominal. A desvalorização da moeda gerou uma inflação galopante que associada à queda da produtividade registrada no campo, em função de anomalias climáticas, fez o preço dos alimentos subir. A fome reduziu a população urbana e quebrou a relação entre campo e cidade. A Peste Negra contribuiu com o aumento da taxa de mortalidade abrindo caminho para o colapso do sistema feudal que se sustentava na monocultura e na decentralização do poder.
O surto demográfico que atingiu a Europa no século XVIII, e se prolongou ao longo do XIX, assustou economistas de todo o continente. No ano de 1798 Thomas Robert Malthus, na época um pastor da igreja anglicana, formulou a teoria segundo a qual a produção de alimentos crescia em escala aritmética (1,2,3,4,5) enquanto que a população crescia em escala geométrica (1,2,4,6,8). Suas idéias foram divulgadas na obra “Ensaio sobre as Populações” que atualmente consta entre uma das obras mais clássicas da economia. Em 1750 a população mundial era de alguns milhões, em 1850 ela alcançaria a marca de 1 bilhão de seres humanos.
Essa preocupação entre o crescimento populacional e a quantidade de terras produtivas já era um velho dilema europeu. A expansão muçulmana no século VII está relacionada a incompatibilidade entre o crescimento populacional e o cultivo da terra. A pratica da poligamia, muito comum no mundo árabe, deu inicio a um crescimento populacional desordenado que em conjunto com o solo árido da região mediterrânea ocasionou uma escassez de alimentos numa escala até então inédita. A solução encontrada para o drama foi à conquista de novos territórios. Enquanto os muçulmanos buscavam novas áreas para o cultivo os europeus buscavam escoar o excedente populacional e as Cruzadas serviram bem a esse propósito.
No mundo contemporâneo o progresso da biotecnologia, e a difusão dos transgênicos no meio rural, encareceram os custos e atraiu a atenção das grandes instituições bancarias, as únicas com capital suficiente para bancar as inovações. Essa reformulação ditou o fim da pequena agricultura familiar por meio da expansão dos grandes latifúndios. Atualmente o panorama rural do Brasil e composto por 90% de estabelecimentos com menos de 100 hectares. Os grandes latifúndios, com mais de 1000 hectares, não chegam a atingir 1%. No Brasil a expansão do latifúndio, e sua crise posterior, seguiram etapas diferentes das registradas no continente europeu. O sistema de Sesmarias que vigorou durante o século XVI praticamente consolidou a grande monocultura escravista como principal matriz produtiva.
Em 1822 o sistema de sesmarias foi extinto e em 1850 a Lei de Terras reduziu o apossamento de terras que vinha sendo praticado com o fim do sistema de Sesmarias. A extinção do trafico negreiro em 1855 deu inicio a crise do grande latifúndio e a posterior abolição da escravidão em 1888 deu o golpe final no método produtivo que cambaleava desde 1822. Tudo isso contribuiu com a vinda de imigrantes estrangeiros na segunda metade do século XIX. O surto imigratório foi utilizado como ferramenta econômica para impulsionar a lavoura cafeeira e manter o padrão agroexportador do país no cenário internacional. Ironicamente o movimento migratório acabou por contribuir com a industrialização do país nos anos posteriores. A recusa do governo em renovar os acordos comerciais de 1815, estabelecidos com a Inglaterra, forneceram proteção alfandegária tornando possível a industrialização e a posterior consolidação do padrão urbano industrial por volta de 1973.
Pode-se dizer que o renascimento do grande latifúndio começou com a modernização agrícola entre os anos de 1950 e 1980. O fluxo migratório rumo as cidade aumentou junto com a pratica de grilagem, que se associava aos cartórios regionais fraudando títulos de terras e expulsando posseiros. Em 1960 existiam 80 mil tratores na agricultura brasileira; em 1996 esse número havia subido para 800 mil. O consumo de fertilizantes subiu de 2 para 16 mil toneladas entre os anos de 1975 e 2001.
No século XX predominou a agropecuária patronal – agropecuária baseada no trabalhador assalariado. A constituição de 1891 havia transferido a posse das terras para os Estados, o que permitiu que as grandes oligarquias estaduais se apossassem de grande quantidade de terra graças a manipulação dos governos regionais. Entre os anos de 1995 e 2002, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, 18 milhões de hectares foram usados numa reforma agrária que assentou cerca de 400 mil famílias. O governo Lula prometeu assentar 560 mil famílias até o final de 2006.
O governo do presidente Fernando Henrique possui exemplos grotescos de medidas econômicas e sociais excepcionalmente antagônicas. Durante seu primeiro mandato (1995-1998) buscou-se a liberação econômica por meio de investimentos estrangeiros. Para isso foi criado um enorme programa de privatizações. A primeira leva atingiu o setor siderúrgico com as privatizações de Siderúrgica de Minas Gerais (Usiminas), a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa) e a Aço Minas. O setor ferroviário foi o alvo seguinte com a privatização da malha ferroviária federal (RFFSA). A CVRD e a CSN, duas gigantes da mineração foram privatizadas logo em seguida. De 1999 a 2002 o setor de telecomunicações passou por privatizações. O governo então deu inicio a criação de agencias de fiscalização que deveriam regularizar a oferta de serviços privados. O Estado passou de fornecedor para regulamentador, ou seja, deixou uma posição mais elevada para assumir o papel de arbitro diante dos interesses privados. O resultado foi um aumento súbito do valor das taxas de serviços considerados essenciais; o custo de vida subiu e o desemprego aumentou. Se por um lado o governo Fernando Henrique direcionava terras para a reforma agrária, por outro tornava mais difícil a vida nas grandes cidades – destino natural dos produtos rurais.
Na região do Nordeste a seca é o argumento utilizado para justificar a extrema pobreza que assola a região. O imperialismo iniciado no século XIX deu inicio a pratica de utilizar “bases cientificas” para atender aos propósitos expansionistas. A teoria da Evolução de Darwin, por exemplo, foi distorcida e utilizada para justificar a colonização do continente africano e a sua posterior divisão entre as potencias européias. No Nordeste foi criado o mito do Polígono das secas (uma suposta região com tendência a desertificação devido a um regime de chuvas reduzido) que serviu para abocanhar boa parte dos recursos federais pela oligarquia sertaneja. A seca está longe de ser a causa da miséria nordestina; o núcleo causador da mesma está na concentração fundiária e na conseqüente exploração do trabalhador rural.
Na maioria dos casos o tipo de solo e determinado pelo clima predominante na região A maior parte do solo que recobre o território brasileiro é o latossolo; típico das regiões muito chuvosas e quentes. O solo dessas regiões sofrem intensa lixiviação dando origem a laterita – um solo de coloração vermelha e muito acido. Embora o regime de ventos também determine o tipo de solo - como ocorre no Vale do Rio Hoang-Ho, na China - o clima ainda tem o papel determinante. Durante o período colonial a região do nordeste permitiu o cultivo da cana graças ao clima predominante. Uma tentativa de expandir a plantação canavieira para a região do Vale do Paraíba não teve sucesso graças ao aspecto arenoso do solo e da estreita faixa de terra utilizada entre a serra do mar e a cidade de São Paulo.
Em 1970 o Proálcool deu um último fôlego a agricultura canavieira, em decadência desde os tempos do Brasil colônia, mas entre os anos de 1980 a 1990 a produção do cacau baiano mostrou como a agricultura está sujeita aos caprichos da natureza: o fungo conhecido como “vassoura de bruxa” arrasou as plantações de forma irreversível. De lá pra cá cresceram os movimentos reivindicando a desapropriação de terras improdutivas. Em 1990 esse movimento ganhou força na forma do movimento dos sem terra (MST).
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

domingo, 6 de outubro de 2013

CAOS METROPOLITANO: POLUIÇÃO, VIOLÊNCIA, POBREZA, TRANSITO E MERCADO IMOBILIÁRIO.


Durante a baixa idade media o Renascimento Comercial foi responsável pela evolução do comercio a longa distancia, ou seja, enrugou o cenário geográfico e dinamizou a troca de mercadorias entre os núcleos urbanos. Inicialmente as rotas de comercio eram predominantemente marítimas, o que explica o desenvolvimento mais expressivo das cidades próximas do litoral. Os transportes terrestres eram quase inexistentes devido às péssimas condições das estradas e da carência de estruturas como pontes, o que tornava a maioria dos rios verdadeiras barreiras intransponíveis principalmente nos períodos chuvosos.
A Revolução industrial ocasionou uma verdadeira reviravolta nos transportes com a adoção da maquina a vapor no lugar da tração animal. O tempo e o custo dos transportes despencaram e os núcleos urbanos se dispersaram para alem do litoral. É nesse contexto que se enquadram o surgimento das grandes metrópoles. O alicerce geográfico criado pelo desenvolvimento das vias de transporte funcionou com um importante fator para o surgimento das grandes cidades, bem como pela característica desconcentração dos aglomerados industriais e humanos.
Um dos maiores problemas das grandes metrópoles é o transito. As vias de transporte intercontinentais e interestaduais foram aperfeiçoados com a finalidade de facilitar o escoamento de mercadorias entre os portos e as regiões produtoras, sendo este um importante mecanismo do comercio a nível global. A mesma atenção não foi dispensada a esfera municipal. Sustentar a complexa rede de trocas, consagrada pela emergência do setor terciário junto aos grandes centros urbanos, exige um aprimoramento progressivo das estruturas capazes de atender as demandas do comercio. Esse desenvolvimento pautado nas imposições da economia e não na geografia urbana têm ampliado o caos metropolitano.
O desenvolvimento das grandes cidades tem seguido um padrão quase uniforme: o núcleo se desenvolve ao longo de um rio ou uma via radial em torno da qual se criam vias menores e mais complexas de comunicação, cuja função e facilitar o acesso ao grande centro – coração comercial da cidade. Em alguns países como Alemanha, Japão e Estados Unidos a expansão das taxas de conurbação é tão alta que já se fala nas chamadas megalópoles. Atualmente a engenharia de transito parece presa a um método pouco eficiente: a construção de viadutos nas zonas mais movimentadas e alargamento das vias principais. O esgotamento desse método é bastante evidente para qualquer morador de uma grande cidade.
CRESCIMENTO URBANO E MERCADO IMOBILIARIO
O crescimento exponencial das cidades é quase sempre acompanhado pela decadência de regiões anteriormente super valorizadas; a decadência do grande centro comercial é um fenômeno relativamente atual. A fuga do comercio de mercadorias de alto valor agregado para as regiões periféricas com alta concentração de renda é um dos reflexos da transformação sofrida pelo comercio da região central, cada vez mais direcionado as mercadorias populares.
Em Belo Horizonte (me perdoe o leitor se pareço por demais regionalista) essa desconcentração comercial é bastante evidente: na região do bairro Santa Inês é possível notar o surgimento de um subcentro comercial ao longo da Avenida Contagem.
Em um curto período de tempo a região acumulou lojas, agencias bancarias, restaurantes, shoppings, supermercados e prédios comerciais. Tudo isso foi precedido pelo aumento do valor dos alugueis residenciais e comerciais, pela ampliação do número de postos de gasolina e pela maior oferta de opções de “lazer noturno”, como bares e churrascarias. Essa concentração ao longo de toda a avenida não foi por acaso: o serviço de metrô, cuja linha liga a Estação Central a Estação Santa Inês, localizada na extremidade sudoeste da avenida, funcionou como ponto de escoamento para o fluxo de consumidores do grande centro. Isso favoreceu ao acumulo de comercio nos quarteirões que delimitam a avenida, explicando parte crescimento rápido e da valorização repentina dos terrenos da região.
Outra importante característica dos núcleos urbanos está diretamente relacionada a expansão das vias de transporte: o déficit habitacional. Nas metrópoles o dinheiro é a mercadoria mais cara é o imóvel e a mercadoria mais expressiva. A expansão do mercado imobiliário gerou uma aceleração do crescimento da região central através da valorização progressiva dos terrenos junto ao cinturão mais interno das grandes cidades. Como conseqüência a população tem se espalhado de forma desordenada sobre o tecido urbano, criando zonas de baixa densidade demográfica e aumentando o tempo das chamadas “migrações pendulares”, isto é o trajeto que o cidadão realiza todos os dias da casa até o trabalho.
Considerando-se o papel do imóvel como mercadoria no contexto urbano fica fácil entender o alto índice do déficit habitacional das grandes cidades. Todo o cidadão urbano é um consumidor do mercado imobiliário antes mesmo de ser um cidadão, no sentido estrito da palavra. A valorização constante dos imóveis residenciais contribuíram para o aumento das regiões de morros e favelas, uma das principais moléstias urbanas.
POLUIÇÃO AUTOMOTIVA: O PERIGO VEM DOS CEUS
A poluição urbana, sobretudo a relacionada aos gases liberados pela queima de combustíveis fosseis, agride tanto a saúde dos cidadãos quanto as estruturas urbanas. O fenômeno da chuva acida, ocasionada pela associação de óxidos anidros - como o dióxido de enxofre (SO2), o dióxido de nitrogênio (NO2) e o dióxido de carbono (CO2) - com a água presente nas nuvens causa danos a vegetação, ocasiona a poluição de lagoas e rios, a contaminação do solo e a destruição de estruturas de concreto, mármore e ferro.
"GREAT SMOG" - LONDRES 1952
Um fato histórico relacionado a poluição ocorreu na cidade de Londres, entre os dias 5 e 9 de dezembro de 1952. Tudo começou quando uma frente fria invadiu a cidade levando a população a consumir muito carvão no aquecimento residencial. O carvão usado era de baixa qualidade e possuía muito enxofre ocasionando a liberação de dioxido de enxofre. Graças ao fenômeno da inversão têrmica a nevoa de poluente não se dissipou e cobriu a cidade por quatro dias. Mais de 100 pessoas ficaram doentes e cerca 12 mil londrinos morreram no episodio que ficou conhecido como "Great Smog".
FENÔMENO DA INVERSÃO TERMICA: A CAMADA DE POLUENTE NÃO SE DISSIPA PARA AS REGIÕES MAIS ALTAS.
Em 2012 o número de veículos na cidade de Belo Horizonte atingiu o número de 1.519.438. Por meio desse número consegui realizar um calculo estimado sobre a quantidade de acido formado pela queima de combustível. O calculo exige um certo conhecimento sobre química e pode parecer um pouco complexo para o leitor com pouca afinidade com a matéria.
Neste caso basta desconsiderar a parte matemática, que coloquei aqui apenas a titulo de curiosidade. Imaginando uma situação hipotética onde apenas 600.000 destes veículos deixassem as garagens em um dia da semana, e supondo que cada um consumisse 1 litro de gasolina e possível obter um dado interessante, empregando conhecimentos sobre reações e estequiometria química. De forma simplificada o calculo pode ser descrito da seguinte forma:
1.514.438 veículos (BH/2012) Gasolina: Densidade 775g/L
Teor de enxofre: 1000 ppm (Partes por milhão)
Considerando-se apenas 600 mil veículos (por eliminação hipotética dos movidos a álcool e diesel) onde cada um consumiria 1 litro de gasolina por dia o resultado final seria o consumo de 600.000 litros de gasolina.
775 x 600.000 = 465.000.000 = 4,65 x 10^8g de gasolina
Cálculo do numero de mol: n= m/M = 4,65 x 10^8/58 = 8,02 x 10^6 mol de gasolina
1000 mol (Enxofre) -------------- 1.000.000 mol de gasolina
X -------------- 8,02 x 10^6 mol de gasolina
X = 8,02 x 10^3 mol
Reação de combustão do enxofre
Supondo um dia com temperatura de 27ºC:
PV = n.R.T
1V = 8,02 x 10^3 . 0,082(27 + 273)
V = 1,97 x 10^5
V = 197 000 Litros de H2SO4
Calculo do PH em função do volume de água:
H2SO4 ----------------2H+ SO4-2
Precipitação media: 33 mm/h = 0,033 m
Supondo que a chuva ocorre se numa área de 25 km quadrados:
V = 0,033 x 5000 x 5000
V = 825 000 metros cúbicos = 825.000.000 Litros de água
8,02 x 10^3/8,25 x 10^8 = 9,7 x 10^-6 mol de H2SO4 por litro de água
Como o acido sulfúrico é um acido forte ele apresenta 100% de dissociação. De acordo com a equação balanceada a proporção seria de 1:1:1, logo a Molaridade do acido será igual a Molaridade do íon H+:
HSO3- ⇌ H++SO32-
Molaridade do H2SO4: 9,7 x 10^-6 Molaridade do H+: 9,7 x 10^-6
pH = - Log [H+]
pH = - Log (9,7 x 10^-6)
pH = - (log 9,7 + log 10^-6)
pH = - (0,98 +(-6))
pH = 5,02
Essa chuva teria a acidez ligeiramente inferior a do suco de laranja.
Em algumas regiões já foram registradas chuvas com pH 2, o que equivale ao nível de acidez do vinagre (Acido Acético). Vale recordar que esse calculo não considera o dióxido de enxofre emitido por fabricas, queimadas e veículos movidos a diesel, o que certamente abaixariam ainda mais o pH (lembrando que o pH acido é inferior a 7, ou seja, quanto menor o numero maior o nível de acidez).
Só para se ter uma ideia a cidade de São Paulo possui 7 milhões de veículos em circulação e a emissão de gases como SO2 e NO2 é infinitamente maior. Da para imaginar a acidez das chuvas que atingem a capital, geralmente durante as tardes, ocasionadas pela elevação da massa de ar quando a mesma se aproxima da região da serra do mar.
CHUVA EM SÃO PAULO: AS CHUVAS ACIDAS CAUSAM DANOS A ESTRUTURAS URBANAS COMO A ESTATUA A ESQUERDA DA FOTO
As chuvas que caem durante a madrugada são mais acidas que as precipitações ocorridas durante o dia. Isso ocorre porque na ausência de luz solar as plantas deixam de absorver CO2 do ar uma vez que o processo de fotossíntese (chamada de fase clara) deixa de acontecer. Nesse caso ocorre aumento da concentração de CO2 no ar contribuindo para a diminuição do pH da chuva. A concentração de CO2 atinge valor mínimo entre as 12h e às 13h, pois nesse período de intensa iluminação a taxa de fotossíntese é alta. O ar urbano começa a se tornar perigosamente danoso nas primeiras horas da tarde, quando a iluminação reduz e aumentar a emissão de CO2 devido ao transito movimentado dos horários de pico.
Os carros a álcool podem até representar uma opção mais econômica e menos poluente que os veículos a diesel ou gasolina, porem os danos causados a saúde do cidadão comum são infinitamente piores. Quem já teve, ou tem, um veiculo movido a álcool conhece bem o cheiro irritante que aparece assim que é dada a partida no motor. Esse cheiro é provocado por um aldeído formado pela combustão do Etanol. A reação química que descreve a combustão dentro do motor é a seguinte:
CH3-CH2OH + ½ O2 ----------------- CH3-CHO (Etanal) + H2O
Para se ter uma ideia dos efeitos do Etanal no organismo, basta se lembrar de uma bela ressaca que você tenha tido em algum momento da vida. As pessoas acreditam que a ressaca é causada pelo álcool o que não é verdade. Ao ingerir bebida alcoólica o álcool é metabolizado pelo organismo e se converte em Etanal (CH3-CHO) e é esta substancia a responsável pelos efeitos da ressaca – dor de cabeça, enjoo, vômitos, fraqueza e sede. Como o álcool inibe a ação do hormônio antidiurético (ADH) ele provoca desidratação através da perda de líquidos na forma de urina. Isso só acentua os efeitos do etanal no organismo.
Deixando de lado a matemática e a química os problemas urbanos não se resumem a poluição do ar, mas também a poluição ocasionada pelo acumulo de lixo. Esse aumento per capto de lixo urbano se deve ao consumismo desenfreado do mundo moderno. O ato de substituir passou a ser um comportamento peculiar das sociedades do mundo globalizado. Esse comportamento irracional vêm sendo explorado de forma ofensiva pelo comercio. Basicamente o mercado têm sido impulsionado pela oferta de uma nova forma de tecnologia ao final de cada semestre. Centenas de Softwares e Hardwares lançados no mercado tem limitado o tempo de uso dos computadores a um período maximo de dois anos; os celulares são ainda mais “descartáveis”, sendo substituídos em media a cada seis meses.
No século XIX economistas já haviam conseguido associar os ciclos econômicos a marcha da inovação tecnológica. Isso de deve a baixa resiliência do consumidor diante das ofertas de um mercado movido pela troca. O papel dos bancos nesse lamentável quadro urbano é quase determinante uma vez que o consumismo exagerado é alavancado pelas inúmeras formas de credito que as instituições colocam a disposição do consumidor.
ENCHENTES: MAR DE PARASITAS
A impermeabilização do solo por meio do asfaltamento impede que a água da chuva seja absorvida pelo solo. O acumulo de lixo na rede de esgotos favorece a enchentes e alagamentos, que mesmo temporários, causam danos a saúde. A água acumulada na superfície possui contaminantes que emergem dos esgotos - como as fezes humanas. Essa água pode conter larvas (cercarias) de um parasita chamado “Schistosoma”, que penetra através da pele e se aloja nas veias do fígado causando uma parasitose chamada Esquistossomose.
Em alguns casos esse parasita causa acumulo de plasma nos tecidos do abdome, causando inchaço, daí o fato da doença ser conhecida popularmente como “barriga d’agua”. Acreditasse que essa parasitose tenha sido trazida para a America por meio de escravos africanos, embora a doença tenha surgido pela primeira vez no continente asiático. Vermes do parasita foram encontrados em múmias chinesas com mais de dois mil anos de idade.
VIOLÊNCIA E POBREZA
Há séculos a pobreza tem sido considerada o aspecto mais negativo do espaço urbano e sendo utilizada como indicador de outra patologia social: a violência. Seria correto atribuir o aumento de uma postura agressiva, algo diretamente ligada a natureza humana, como conseqüência do aumento de determinada condição social?
A expansão dos índices de violência esta mais relacionada a aspectos demográficos do que econômicos. O crescimento desordenado dos grandes aglomerados urbanos dificulta um planejamento urbano adequado resultando num aproveitamento desigual do espaço geográfico. Essa ampliação dos limites urbanos tem elevado as dificuldades enfrentadas pela população de todas as classes: distancias maiores tem separado os trabalhadores de seus locais de atuação, o custo dos transportes tem sofrido alterações periódicas, o transito tem se tornado cada vez mais caótico – uma evidencia das condições defasadas de escoamento do fluxo humano das metrópoles.
Em escala diametralmente oposta o tempo para o lazer e para as relações interpessoais tem reduzido. Tudo isso contribui para o aumento da violência, de forma infinitamente superior aos aspectos econômicos porque age diretamente no terreno mais instável da natureza humana: o seu emocional.
Os altos índices de violência nas regiões de morros e favelas é um exemplo claro de que a violência urbana esta diretamente relacionada a ocupação desigual do espaço geográfico, pois a característica mais marcante das periferias não é sua situação econômica, mas o seu sistema de ocupação irregular de terrenos vazios.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

sábado, 5 de outubro de 2013


Com Apenas 24 anos um jovem chamado Charles Dickens havia acumulado ao longo de dois anos, trabalhando como cronista em jornais londrinos como o Morning Chronicle e o Evening Chronicle, uma coletânea de textos sobre os aspectos da vida diária da velha Londres vitoriana. Dotado de uma observação sem igual Dickens consegue captar os pequenos dramas particulares dos cidadãos de uma das maiores metrópoles do século XIX.
O retrato da cidade se constrói a partir do banal: um vendedor de biscoitos perambulando pelas ruas, um jovem limpador de chaminés sentado na calçada, o transito de carruagens no Mercado de Convent Garden, vendedores ajeitando as mercadorias nas vitrines das lojas, a agitação dos festeiros durante as madrugadas e a miséria presente em cada esquina. “E surpreendente observar o dia começar, a vida fervilhar e o alvoroço instalar-se ao redor dos prédios trancados e emudecidos. (,,,) O ultimo bêbado, que deveria ter achado o caminho de casa antes do dia raiar, ainda cambaleia pesadamente, ecoando sua voz roufenha aos sons da bebedeira da noite anterior.” – escreveu em uma crônica publicada no Evening Chronicle em 21 de julho de 1835.
Charles John Huffam Dickens nasceu em 7 de fevereiro de 1812 na cidade de Portsmouth, e logo na infância sentiu os efeitos da Revolução Industrial. Seu pai, chamado John, era um funcionário da marinha que vivia endividado. Em 1822 a família decide se mudar para Londres na esperança de melhorar de vida. Dois anos depois John Dickens vai para a cadeia por dividas. Elisabeth Dickens, sozinha a própria sorte com o filho resolve vender os pertences da família; o jovem Dickens, apaixonado por leitura desde cedo, viu seus livros serem vendidos para saldar as dividas. Em 1824 ele consegue emprego em uma fabrica de graxa como colador de rótulos. Anos mais tarde ele se recordaria de sua ocupação na fabrica como um dos momentos mais dramáticos de sua vida. Três anos depois ele se torna escrevente de um escritório de advocacia e em 1832, após aprender sozinho a taquigrafia, consegue emprego como repórter parlamentar. Em 1836 Dickens se casar com Catherine Hogarth, filha do editor do Evening Chronicle. Naquele mesmo ano ele finalmente pública seu primeiro livro: “Retratos Londrinos” – “Sketches by Boz” (O nome era devido ao costume do autor em assinar seus texto com o pseudônimo “Boz”). A obra teve sucesso imediato e abriu as portas para Dickens emergir como um dos maiores escritores da era vitoriana.
O livro é dividido em três partes: “Cinco retratos de nossa paróquia”, “Cenas” e “Personagens”. O estilo descritivo da narrativa, adornado pela ironia e sarcasmo característicos do autor, são os pontos fortes da obra. Em alguns momentos Dickens expõe a tendência humana de querer extrapolar os limites do “eu” na busca pelo ideal que fazem de si própria. Essa atração pelo objeto fátuo invariavelmente remete ao ridículo:
“O desejo dos integrantes das classes sociais humildes de ascender, elevar-se aos costumes e maneiras daqueles cuja sorte fez com que estivessem em um patamar mais acima, é muitas vezes observável, para não dizer lamentável. Tal atenção deve existir, e de fato existe, para muita gente, principalmente entre aquela parcela da população conhecida por seus sonhos aristocráticos: a classe media. (...) Desfilam pelos desbotados ambientes de algum hotel de segunda categoria com tanta satisfação quanto àquelas invejáveis criaturas que tem o privilegio de exibir toda a sua pompa em exclusivos lugares marcados pela parvoíce.”
Obviamente que nem todos os textos são interessantes, alguns poucos são chatos, mas a maioria faz a obra valer a pena. Um dos mais belos trechos está no conto “Divertimentos Londrinos”, publicado no Evening Chronicle em 17 de março de 1835. Nele o autor menciona o costume de um casal de idosos em admirar seu jardim durante as tardes; e o que se inicia como uma simples narrativa, aparentemente banal, termina adornada por um tom poético bem característico do autor:
“Num entardecer de verão, depois de o velho casal já estar exausto de tanto andar de um lado para o outro e do grande regador já ter sido enchido e esvaziado umas quatro vezes. Você pode observá-los sentados lado a lado, juntinhos e felizes, em sua pequena e aconchegante casa, aproveitando a paz do crepúsculo e admirando as sombras que se lançam sobre o jardim. Pouco a pouco, o lugar vai ficando cada vez mais envolto nas sombras. As pétalas multicoloridas das flores mais alegres vão, lentamente, escurecendo – uma boa representação dos anos que já se passaram silenciosamente diante de suas vistas e que, no caminho, acabaram eclipsando os matizes mais brilhantes de suas esperanças no futuro e de uma juventude que se esvaneceu.”
No século XIX o progresso econômico e industrial da Inglaterra era notável. A Revolução Industrial havia concentrado capital e recursos tecnológicos em uma escala assustadora. O país era um exemplo de sociedade capitalista e servia de inspiração para muitos dos países europeus que buscavam alcançar um nível de desenvolvimento industrial semelhante.
A industrialização criou uma gigantesca demanda de aço e as grandes siderúrgicas floresceram devido às imensas reservas de carvão mineral do país. Em 1830 a Grã-Bretanha produzia 15 milhões de toneladas de carvão mineral, que correspondia a 90% da produção mundial. A expansão das linhas ferroviárias facilitou o escoamento do carvão até os grandes centros industriais e favorecendo ao crescimento urbano.
O aspecto geo-econômico mais marcante do século XIX foi a migração populacional (a maior de toda a historia humana) e nesta se inclui o êxodo rural. Os quatro maiores aglomerados urbanos era composto pelo eixo Londres-Paris-Berlim-Viena. Essa concentração industrial funcionou como poderoso atrativo a massa proletariada das cidades provincianas e dos camponeses. Os centros urbanos prometiam maiores oportunidades de emprego, o que teoricamente significava melhores condições de vida. Na busca por seus sonhos no emaranhado industrial urbano os trabalhadores deram vida a seus piores pesadelos.
A velha Londres vitoriana era um lugar onde não faltavam elementos capazes de abreviar a vida, sobretudo à dos mais pobres. “O inferno é um lugar semelhante a Londres, uma cidade esfumaçada e populosa. Existe ai todo tipo de pessoas arruinadas e pouca diversão, ou melhor nenhuma, e muito pouca justiça e menos ainda compaixão.” escreveu Sheller.
Dickens é um dos maiores especialistas em retratar a marginalidade da sociedade inglesa do século XIX. Obras como “Grandes Esperanças” e “Oliver Twist” o imortalizaram como um dos maiores escritores da era vitoriana. Ninguém menos que Fiodor Dostoievski era um grande admirador de seus textos. Durante toda a obra é possível perceber a intenção do autor em criar, não personagens, mas caricaturas urbanas da sociedade vitoriana.
Impossível não perceber o tom de critica no trecho que abre a crônica “O primeiro de maio”: “Limpador, limpador, lim-pa-dor!”. Naquela época o governo havia proibido os limpadores de chaminés de percorrer as ruas anunciando seus serviços aos gritos. Dickens explorou a polissemia desta proibição ao destacar um trecho, publicado no The Library of Fiction em 31 de maio de 1836, seguido das palavras “propaganda ilegal”. É como se a imundice da sociedade vitoriana tivesse o consentimento do governo. Outro trecho onde é possível perceber a transição sutil entre critica e narrativa esta no conto “À noite nas ruas”, publicado no Bell’s Life in London em 17 de janeiro 1836:
“Se quisermos conhecer as ruas de Londres em seu momento mais glorioso, devemos observá-las em uma escura, sombria e triste noite de inverno (...). A multidão que passou de um lado para o outro durante todo o dia vai minguando rapidamente. E o barulho dos gritos e discussões que vem das tavernas é praticamente o único som a quebrar a quietude melancólica da noite.”
Dickens produz um quadro vivo da Londres vitoriana o que lhe permite, como observador, reafirmar as palavras de Edgar Alan Poe: “A multidão inabarcável onde ninguém se desvenda todo para o outro e onde ninguém é para o outro inteiramente impenetrável.”
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
RETRATOS LONDRINOS
Charles Dickens
Editora Record

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