sábado, 20 de abril de 2013

NOVA ANTOLOGIA DO CONTO RUSSO


Maravilha de lançamento do final de 2011 da Editora 34: Nova Antologia do Conto Russo. O livro engloba a produção feita no período de 1792 a 1998. São 40 autores, muitos deles pouco ou nada conhecidos no Brasil. O organizador da obra é Bruno Barreto Gomide, professor da USP. Todos os contos foram traduzidos diretamente do russo, como já é prática desta excelente editora. O "time" de tradutores é de primeira: só para citar alguns, tem-se a Arlete Cavalieri, Aurora Bernardini e Boris Schnaiderman. Os amantes da literatura russa sabem o peso destes nomes. São 40 obras, em sua maior parte inéditas por aqui, apresentando o rico panorama da literatura russa ao longo da história, que provam que "na arte do conto, tanto em número como em qualidade - e abarcando uma diversidade de tons e temas -, os russos são igualmente magistrais".
São os seguintes autores desta antologia:
Nikolai Karamzin (Pobre Liza) (1792)
Aleksandr Puchkin (Viagem a Arzrum (1836)
Nikolai Gógol (A carruagem) (1836)
Vládimir Odóievski (A Sílfide) (1837)
Mikhail Liérmontov (Taman) (1840)
Fiodor Dostoevski (Polzunkov) (1848)
Ivan Turguêniev (Relíquia Viva( 1852)
Vsiévolod Gárchin (Quatro dias) (1877)
Nikolai Leskov (Viagem de um niilista (1882)
Mikhail Saltikov-Schedrin (Contos do Major Gorbiliov)(primeira noite) (1884)
Vladímir Korolenko (O sonho de Makar) (1885)
Aleksandr Kuprin (O inquérito)(1894)
Anton Tchekhov (Ariadne)(1895)
Fiodor Slogub (Luz e Sombras) (1896)
Leonid Andrêiev (O Abismo) (1902)
Lev Tolstoi (Depois do Baile (1903)
Arkadi Aviértchenko (Um dia humano)(1910)
Maksim Gorki(Vedertta) (1911)
Velimir Khliébnikov (Dia de Páscoa) (1911)
Nadiéjda Téffi (Tempo do Cão)(1911)
Boris Pasternak (Cartas de Tula) (1918)
Ievguêni Zmiátin (A Caverna)(1920)
Aleksandr Grin (O caça ratos) (1924)
Ivan Búnin (Insolação) (1925)
Mikhail Zóshenko (A crise) (1925)
Valentin Katáiev(O vadio Eduard) (1925) Iuri Oliécha (Liompa) (1928) Andrei Platónov (Makar, o duvidador) (1929)
Isaac Bábel (Guy de Maupassant ) (1932)
Ilf e Petrov (Como o Robinson foi criado) (1933)
Vladímir Nabákov (Primavera em Fialta) (1936) Daniil Kharms (Conexão) (1937)
Konstantin Paustóvski (Neve) (1943)
Aleksei Riémizov (Às avessas) (1952)
Varlam Chalámov (Xerez) (1958)
Vassili Chukchin (Dá-lhe coração) (1973)
Tatiana Tolstaia (noite) (1988)
Liudmila Petruchévskaya (A dama dos cachorros) (1990)
Serguei Dovlátov (Na rua e em casa) (1995)
Vládimir Sorókin (Um mês em Dachau) (1998)
É muito difícil julgar o melhor conto da seleção. Alguns dos autores eu já conhecia e era fã de carteirinha, de outras obras, como o magnífico Andrêiev. Adorei seu conto "O Abismo", desta publicação.Repleto de transbordante sentimento, indo até a loucura, marca registrada do autor de tantos contos com fundos psicológicos e seus personagens marcados pela tragédia e infelicidade, que inspiram pronta compaixão. Como em muitos de seus outros trabalhos, neste predomina o lado mais brutal e cruel da vida humana. Outro conto que me deslumbrou foi "Quatro Dias", de Vsiévolod Gárchin, que trata dos horrores da Guerra contra os turcos, pela libertação da Bulgária. Este conto me marcou com muita intensidade, talvez pelo tema, talvez pela semelhança com alguns trabalhos de Tolstoi.
Pobre Liza, de Karamzin, também posso apontar como um dos meus favoritos. Conto singelo, tocante. Não vou falar o óbvio, ou seja, sobre os cânones tipo Tolstoi e Dostoievski. O de Tolstoi (Depois do Baile) eu já havia lido. Excelente. O de Dostoievski, Polzunkov, é fantástico. É da fase inicial da carreira do autor. Acredito que este conto nunca tenha saído em nenhuma coletânea no Brasil. Em Polzunkov Dostoievski enfoca o lado psicológico do personagem, enfatizando a dignidade humana, o respeito e o perdão. Viagem a Azrum, de Puchkin, é - para mim, um dos pontos altos do livro. Último trabalho em prosa de Puchkin, foi feito com base em notas de uma viagem ao Cáucaso, apesar de, no transcurso do trabalho, ele ter alterado muito as anotações, até chegar a um misto de ficção e memória.
Por fim, umas poucas palavras sobre "O Caça Ratos", de Aleksandr Garin, outro conto que me prendeu do início ao fim de sua leitura. Nele tem algo do surrealismo de Gógol ao narrar São Petersburgo, na época ainda Petrogrado.Este conto integra a mitologia desta que é a minha cidade mais querida e que é apresentada por ele como algo fantasmagórico. Esta imagem da cidade irritava Anna Akhmatova, peterburguense apaixonada, que criticou, não raras vezes, a desconstrução que Gógol fazia da cidade.
Texto retirado da pagina: http://russiashow.blogspot.com.br/2012/01/o-livro-do-dia-nova-antologia-do-conto.html

terça-feira, 16 de abril de 2013

EM UM MUNDO DE MENTIRA A VERDADE É UM PERSONAGEM FICTÍCIO



Existe uma forte razão para a mentira estar tão presente na vida de milhares de pessoas: ela funciona! E como funciona! Alguns chegam ao ponto de dizer que toda a estrutura social moderna se sustenta de forma oscilatória sobre a mentira. Longe de querer desmistificar essa opinião popular, ao meu ver a mentira, ou “omissão da verdade” como preferem os adeptos dos eufemismos, se estabeleceu de forma tão intensa porque encontrou aplicação pratica em um seguimento onde seu uso tornou-se imperativo: na política.
Longe de querer atribuir uma adjetivação tão depreciativa como característica inerente a todo político no comprimento de sua função, é o próprio contexto da política que insistentemente a nós se apresenta como uma espécie de acrópole dos mentirosos. A adoção e aplicação extensiva da mentira no cenário político, quase uma dogma, não é um fato atual e muito menos restrito as fronteiras de nosso desigual Brasil. Maquiavel já explorava os “benefícios” dessa ferramenta na celebre obra “O Principe” onde a mentira se iguala a uma mercadoria com retorno garantido, pois sempre existirá demanda: “Os homens são tão simples e tão obedientes às necessidades do momento que quem engana encontra sempre um alguém disposto a se deixar enganar.” Em tempo de guerra a mentira passa a ser valorizada, admirada e de forma antagônica considerada fundamental para a existência da verdade. Segundo a frase do Primeiro Ministro Britânico, Winston Churchill, durante a segunda grande guerra: “Em tempos de guerra a verdade é tão valiosa que ela deve ser guarnecida por uma escolta de mentiras”.

Mas nem todos estão dispostos a engolir uma mentira assim logo de cara, e para estes cidadãos menos expostos os despudorados já encontraram uma solução: basta dar uma verdade para que o pacote de mentiras seja aceito de braços abertos. Não faltam exemplos na historia de que a infidelidade da política para com a verdade expressa o caráter imiscível entre ambas. Analogicamente poderíamos considerá-las como cargas elétricas de natureza opostas que se repelem quando cessa a força que as mantém unidas. Quem não se lembra da frase da Ministra da Economia, Zelia Cardoso de Mello, pouco antes do escândalo Collor: “Não vamos mexer na poupança”; das palavras do republicano, e então presidente americano, Herbert Hoover pouco antes da crise de 1929: “Os negócios fundamentais do país, que são a venda de Commodities, encontram-se sobre uma base solida e prospera.”; ou do sorriso amarelo de Neville Charberlein ao retornar de Munique e em 1938 dizendo que “Her Hitler” queria a paz. As maiores mentiras da historia forma orquestradas por hábeis mentes da política.
Restringindo a aplicação pratica da mentira na esfera do cidadão comum a mesma assume contornos menos sérios, porem , não menos danosos. Uma mentirinha aqui, outra mentirinha ali e o jeitinho malandro se estabelece como característica nacional. Malandro que se preze mente até quando não quer e o respeito a esse protocolo é quase religioso. Falando em religião algumas instituições são enciclopédias históricas da mentira, verdadeiros dicionários. Mas esse assunto é tão delicado que prefiro mentir e dizer que nada sei.
A mentira está tão presente no dia a dia do brasileiro que não me surpreende que a Academia Brasileira de Letras queira aproveitar a reforma da gramática para incluí-la como figura de linguagem. Se as bandeiras fosse dada o dom da fala a brasileira seria vencedora do campeonato de mentiras: desde quando progredimos em ordem? Dupla “omissão da verdade” uma vez que nem temos progresso e muito menos ordem. O que temos é um país com dimensões continentais, rico, como um povo que enfrenta a desigualdade com alegria e um bando de políticos que enquanto falam de peso da econômia ostentam o pesado rotulo de mentirosos. Isso pelo menos é verdade... Triste verdade!

AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

sábado, 13 de abril de 2013

A EXECUÇÃO DE LUÍS XVI

A alguns anos escrevo um livro sobre a Revolução Francesa e confesso que meu trabalho ainda asta longe de acabar. Decidir públicar aqui alguns trechos deste meu livro:
(...)
A Convenção tomou para si a tarefa de realizar o julgamento de Luís alegando ser a única instituição do país com altoridade para julgar o ex-monarca. A contradição por traz dessa medida da Convenção é por demais evidênte para que escape de uma análise critica ou, no mínimo, a paixão das convicções. Ao retirar de Luís sua altoridade de monarca e reduzi-lo a condição de “cidadão” a afirmação de que a Convenção seria a única gabaritada para o julgamento se torna completamente redundante uma vez que o rei havia sido reduzido à condição de cidadão Luís Capeto. Por mais que a Convenção alegasse realizar o julgamento de um cidadão comum por “crimes” cometidos durante a monarquia fica evidente que essa medida não se destinava a garantir um julgamento adequado, mas a garantir o veredito final antes mesmo do início do processo. A comissão reunida no dia 6, com o objetivo de redigir o ato de acusação contra Luís, terminou sua tarefa no dia 10. O documento consistia em uma lista de “crimes” que haviam se iniciado durante os Estados Gerais. A chamada seção real, de 23 de junho de 1789, constava no documento como “subversiva a todas as liberdades”. Luís foi acusado de abusar das finanças do estado e de atividades anti-revolucionarias. Até mesmo as atitudes de seus irmãos emigrados, Artois e Provença, foram usados contra ele; sem mencionar a fuga a Varennes. Ao todo o documento somava 37 acusações.
LUIS XVI
No dia 11 de dezembro, Luís foi acordado na prisão do Templo às cinco da manhã. Por volta das 11:00 horas ele foi levado a Convenção onde deveria prestar esclarecimento sobre as acusações. Barère, que presidia a sessão da Convensão, foi o responsável por dirigir as perguntas ao ex-monarca:
- “Luís, leremos para o senhor o ato enunciativo dos delitos que lhe são imputados.”
Seguiu-se então a leitura dos 37 itens pelo qual Luís foi acusado: acusam-no, entre outros itens, de ter lançado tropas contra Paris em 1789, de ter mandado os guardas suíços atacarem o povo na Tulherias no dia 10 de agosto de 1792, do Massacre no Champ des Mars, da fuga a Varennes, de conspirar com as cortes européias contra a Revolução e até de conspiração para matar o povo de fome. Ao serem apresentados os documentos a Luís ele negou reconhecer sua assinatura e seu selo na maioria dos papeis, também continuou negando a existência do armário de ferro nas Tulherias. Essa primeira audiência durou cerca de quatro horas ao final da qual o Luís pediu para que lhe fosse concedido o direito de nomear conselheiros para sua defesa e um prazo de duas semanas para que se preparasse. A Convenção resolveu atender a sua solitação.
BERTRAND BARÈRE
Lamoignon de Malesherbes, de 71 anos, havia sido secretario de Estado de Luís XVI e foi escolhido, juntamente com François Tronchet e Marc-Antoine De Sèze, para serem seus advogados de defesa. A feminista Olympe de Gouges se ofereceu para auxiliar em sua defesa, mas foi recusada. Malesherbes, o homem por quem Maria Antonieta sentia profunda antipatia, realizaria a defesa de seu marido. Antes mesmo de iniciado o julgamento Luís já estava certo de que seria condenado a morte. De acordo com os relatos de Malesherbes, Luís teria dito: - “Eles me matarão. Não faz mal ganharei minha causa ao deixar uma memória sem manchas.”
(...)
Os convencionais estavam divididos quanto ao destino a ser dado ao ex-monarca. Os Girondinos demonstraram um atrofiamento extrategico impressionante; em nenhum momento foram capazes de convergir à divergência de opniões a um ponto favorável. A alegação de manter Luís vivo, para o caso de usá-lo como refém as nações extrangeiras não foi aceita como valida, pois naquele momento o exército francês já havia expulsado seus inimigos além das fronteiras da França. Em 25 de dezembro, Luís, já certo do resultado de seu processo escreveu seu testamento:
“Em nome da santíssima trindade, do pai e do filho, e do espírito santo. Hoje, vigésimo quinto dia de dezembro de mil setecentos e noventa e dois, eu, de nome Luís XVI, rei da França, há quatro meses encerrado com minha família na prisão do Templo, em Paris, por aqueles que eram meus súditos e privado de qualquer tipo de comunicação, mesmo com minha família, desde o dia 11 deste mês; ainda por cima envolvido em um processo cujo resultado e impossível prever, por causa das paixões dos homens, e do qual não se encontra nenhum pretexto nem meios em nenhuma lei existente; tendo apenas Deus por testemunha de meus pensamentos, e a que posso dirigir-me, eu declaro aqui, em sua presença, minhas ultimas vontades e meus sentimentos (...) Eu rogo a todos aqueles a quem eu possa ter ofendido por inadvertência (pois não me lembro de ter conscientemente ofendido ninguém) que me perdoem pelo mal que acreditam eu possa ter-lhes feito (...) Eu rogo a minha mulher que me perdoe por todos os males que ela sofre por mim, e pelos desgostos que posso ter-lhe causado durante nossa união; da mesma forma, ela pode ter certeza de que não guardo nada contra ela, caso ela acredite ter alguma coisa a censurar-se (...) Eu recomendo a meu filho, se ele tiver o azar de tornar-se rei, que pense que deve dedicar-se por inteiro à felicidade de seus concidadãos.”
Luís foi impedido pelos convencionais de passar a noite de Natal com a família. Na quarta-feira, 26 de dezembro ele compareceu pela última vez na Convenção. Em seu discurso ele disse:
“Falando aos senhores talvez pela última vez, declaro que minha conciência não me reprova em nada (...) nunca temi um exame público de minha conduta, mas meu coração está despedaçado por encontra na acusação a imputação de que desejei derramar o sangue do povo, e acima de tudo de que os infortúnios de 10 de agosto deveriam ser atribuídos a mim. Confesso que as muitas provas que todas as vezes dei de meu amor pelo povo e que a maneira como sempre me conduzi me pareciam prova suficiente de que dei pouca atenção a me expor a fim de poupar seu sangue e para remover para sempre tal imputação.”
Naquele mesmo dia o julgamento começou com o discurso do jovem advogado De Sèze:
“Cidadãos representantes da nação. É finalmente chegado o momento onde Luís, acusado em nome do povo francês, pode se fazer ouvir em meio a esse mesmo povo! (...). Cidadãos, vos falarei com a franqueza de um homem livre : procuro dentre vós juízes e não vejo senão acusadores! (...). Luís será assim o único francês para quem não há nenhuma lei, nem nenhuma forma! Ele não desfrutará nem de sua antiga condição nem da nova! Que destino estranho e inconcebível! Franceses, a revolução que vos regenera desenvolveu dentro de vós grandes virtudes; porém temei que ela não tenha enfraquecido dentro de vossas almas o sentimento de humanidade sem o qual não pode haver senão deformações! Escutai de antemão a História que dirá à posteridade: "Luís subiu ao trono há vinte anos e há vinte anos deu exemplo de costumes: ele não carregou nenhuma fraqueza condenável nem nenhuma paixão corruptível; ele foi econômico, justo e severo ; ele mostrou-se sempre amigo constante do povo. O povo desejava a destruição de um imposto desastroso que pesava sobre ele, ele o destruiu; o povo pedia a abolição de uma servidão, ele começou por aboli-la dentro de seus próprios domínios; o povo solicitava reformas dentro da legislação criminal para o abrandamento da sorte dos acusados, ele fez estas reformas; o povo queria que milhares de franceses, que o rigor de nossos costumes tinha privado até então dos direitos que pertenciam aos cidadãos, adquirissem estes direitos ou os recuperassem, ele os fez usufruir deles por suas leis. O povo quis a liberdade, ele lha deu! Ele veio inclusive em sua direção por seus sacrifícios e, no entanto, é em nome desse mesmo povo que hoje se pede… Cidadãos, não chego ao fim, me interrompo diante da História. Pensai qual será vosso julgamento, pois o dele será o dos séculos a vir!”
Saint-Just discursou depois onde voltou a defender a condenação a morte do rei:
“A tirania e como um bambu que se dobra ao vento e depois se ergue novamente. O que vocês chamam de Revolução? A queda de um trono, alguns golpes contra alguns abusos? A ordem moral é como a ordem física; abusos desaparecem por um instante, assim como o orvalho seca pela manha, mas assim como volta a cair à noite, os abusos retornam. A Revolução começa quando termina a tirania.”
Acontecimentos irrelevantes foram usados para justificar a culpa de Luís. Ele não reconheceu sua caligrafia ou sua assinatura em vários documentos que lhe foram apresentados. Nenhuma testemunha de acusação ou de defesa foi utilizada. O povo e a imprensa acompanharam, ansiosos o julgamento, que segundo Saint-Just, não julgaria apenas o rei, mas a monarquia. Nicolas Ruault escreveu:
“O processo do rei ocupa todas as mentes. Os rostos se entristecem, os corações se afligem, pois se prevê um desfecho fatal para o infeliz prisioneiro (...). Os fanáticos dominam a Assembléia [Convenção] que deve julgar este desafortunado monarca, e os fanáticos não são capazes de uma grande e bela ação; eles querem sangue, mas sangue atrai sangue, começa-se por derramar algumas gotas e acaba-se com rios de sangue, e os assassinos são mortos por sua vez, esta é a história de todas as revoluções.”
Os Girondinos tentaram submeter o julgamento a um veredito popular alegando que somente assim a soberania não seria desrespeitada. Em 28 de dezembro, Robespierre atacou a proposta dos Brissotinos em um discurso onde voltou a defender a imediata condenação de Luís:
“Cidadãos, é do interesse supremo do bem estar público que os lembro disso. Que motivo os força a se ocuparem de Luís? Não é o desejo de uma vingança indigna da nação; é a necessidade de cimentar a liberdade e a tranqüilidade pública na punição do tirano. Todo modo de julgá-lo, todo sistema de lentidão que compromete a tranqüilidade pública contraria diretamente o objetivo de vocês. Seria melhor se vocês esquecessem as dificuldades de puni-lo, em vez de fazer deste processo uma fonte de perturbações e o inicio de uma guerra civil. (...) O verdadeiro julgamento de um rei é o movimento espontâneo e universal de um povo cansado da tirania que o oprime. Trata-se, ai, evidentemente, do mais justo de todos os julgamentos.”
Em seu discurso, Robespierre já insinuava que a postura adotada pelos convencionais durante o processo do rei teria conseqüências futuras:
“A posteridade os adimirará ou os desprezará, segundo o grau de vigor que vocês mostrarem neste momento, e este vigor será também a medida da audácia ou da leveza dos déspotas estrangeiros com vocês. Ela será a garantia de nossa servidão ou de nossa liberdade, de nossa prosperidade ou de nossa miséria. Cidadãos, a vitória decidirá se vocês são rebeldes ou os benfeitores da humanidade. É a grandeza de caráter de vocês que decidirá a vitória.”
A réplica de Vergniaud, em 31 de dezembro, quando respondeu ao discurso de Robespierre, foi uma de suas melhores atuações como orador na Convenção. Durante o longo tempo em que falou seu discurso foi recebido com injurias e até mesmo com manifestações de aprovação silenciosas:
“Cidadãos, em uma questão tão importante por suas relações íntimas com a tranquuilidade pública e com a glória nacional, é preciso não tomar suas paixões pelos princípios, ou movimentos de sua alma por medida de segurança geral. (...) O que é a soberania do povo da qual se fala tanto, à qual quero pensar que não quer prestar uma homenagem derrisória, à qual, tenho certeza, pelo menos, a Convenção prestará uma homenagem sincera? É o poder de fazer à felicidade do corpo social. O povo exerce este poder, ou por ele mesmo ou atravéz de seus representantes. Nesse último caso, e é o nosso, as decisões dos representantes do povo são executadas como leis: mas por que? Porque presumem-se que elas sejam a expressão da vontade geral. Desta única presunção deriva sua força; desta única presunção deriva o caráter que as faz respeitar. (...) Roubar este direito ao povo seria espoliá-lo da soberania. Seria transformá-la, por uma usurpação criminosa, na cabeça dos representantes que ele teria escolhido. Seria o mesmo que transformar seus representantes em reis ou tiranos. (...) Todo ato emanado dos representantes do povo é um ato de tirania, uma usurpação da soberania, se ele não for submetido, ou à ratificação formal ou à ratificação tácita do povo logo, o julgamento de Luís deve ser submetido a uma dessas duas ratificações. Poderiam dizer que, mesmo após sua execução, o julgamento de vocês será submetido à ratificação social? Seria ultrajar o povo com a mais alta impudência: não há ratificação tácita, o silêncio não pode ser visto como uma aprovação senão quando aquele que se cala tem a faculdade de se fazer ouvir com algum fruto. (...) Vocês são, ao mesmo tempo, mandatários do povo e seus representantes. Sua vontade particular é sempre presumida como a expressão da vontade geral (...) É como representantes do povo que vocês, se declaram juízes de Luís. É como representantes do povo que vocês reuniram em suas cabeças as funções de jurado de acusação, de jurado de julgamento, de legisladores para determinar as formas do julgamento e de juízes para aplicar a pena do julgamento. (...) Se é verdade que Luís não pode se prevalecer da inviolabilidade que lhe foi prometida, contra o povo que ele traiu, não é menos verdade que somente o povo pode punir Luís sem levar em conta a inviolabilidade da qual ele mesmo havia se investido. (...) Não tentem substituir o voto particular pela vontade geral. Senão vocês estaram usurpando a soberania, tornando-se culpados de um dos crimes com os quais querem punir Luís.”
Vergniaud prosseguiu atacando a alegação de Robespierre de que submeter o julgamento ao veredicto popular seria extremamente desgastante para a população e incompativel com as dificuldades da burocracia administrativa:
“Disseram que haveria dificuldades intransponíveis ao fazer deliberar as assembléias primárias. Disseram que seria arrancar os trabalhadosres de seus arados, os operários de seus ateliês. Disseram que seria cansar os cidadoas, esgotar suas forças com dissertações sobre formalidades de advocacia, sutilezas da chicana (...). Procuro ainda ali uma razão para que possa me precisar o sentido. Onde estão, de fato, estas grandes dificuldades? (...) Nos temos dois deveres a cumprir: o primeiro o de dar ao povo um meio de expressar seu voto sobre um ato importante da representação nacional; o segundo, de lhe indicar um modo simples e que não traga nenhum incoveniente."
Vergniaud apresentou sua proposta para o esquema de votação, segundo o qual, os resultados das urnas seriam passados das assembléias primarias para os departamentos, que se encarregariam de analizar o resultado de cada distrito e repasá-lo a Convenção; dessa forma, segundo suas próprias palavras, “não haverá um só individuo que se permitirá murmurar contra o resultado proclamado”. Embora o metodo apresentado por Vergniaud pudesse ser de fato adotado, é certo que o mesmo permitiria manipulações nos resultados em meio à intrincada rede burocrática da administração do país. Ainda mais quando o réu em questão era a personificação dos dois extremos da política francesa, isto é, republicanos e monarquistas. O restante do discurso o girondino dirigiu ataques a Montanha e principalmente a Robespierre:
“Acusam-nos! [Girondinos] Ah! Se tivéssemos o insolente orgulho ou a hipócrita ambição de nossos acusadores. Se, como eles, gostássemos de nos vangloriar do pouco de bem que fizemos, diríamos com qual coragem temos constantemente lutado contra a tirania dos reis e contra a tirania ainda mais perigosa dos bandos que no mês de setembro, quiseram fundar seu poder sobre os restos do poder real. (...) Mas por que uma opnião incita agitações? Porque estes verdadeiros amigos da liberdade ameaçam de morte os cidadãos que têm a infelicidade de não pensar como eles. É assim que eles querem nos provar que a Convenção nacional é livre? (...) Na opnião de vocês, a soberania dos povos é, então, uma calamidade para o gênero humano? Eu compreendo vocês. Vocês querem é reinar. A ambição de vocês era mais modesta no dia do Champs-de-Mars. Naquele momento vocês redigiam, faziam assinar uma petição que havia por objetivo consultar o povo sobre o destino de Luís que voltava de Varennes. O coração de vocês não estava nem um pouco atormentado pelo temor das discórdias. Não lhe custa nada reconhecer a soberania do povo. Será que ela favorecia seus objetivos secretos, e hoje ela os contraria? Não existe, de fato, outra soberania que não seja a de suas paixões? Insensatos! Vocês puderam se gabar de que a França quebrou seu cetro de reis para curvar a cabeça sob um jugo tão aviltante?”
Em certos momentos de seu discurso, Vergniaud pareceu querer defender a postura da Comuna durante a jornada de 10 de agosto, alegando que havia sido necessária certa dose de coragem para “atacar Luís com todo o seu poder”, se é que se pode dizer que Luís possuía algum poder naquela altura dos acontecimentos. Em seguida proseguiu citando as dificuldades que a condenação de Luís poderia acarretar ao país, tribuindo, com certa dose de especulação, a postura de neutralidade da Inglaterra e da Espanha a existência de Luís. Vergniaud reconheceu que as potencias europeis certamente se colocariam na posição aberta de inimiga da França, mas que a condenação, e execução de Luís, poderiam fornecer o pretexto para uma coalisão armada entre as potencias. Ele prosseguiu tentando demonstrar confiança na vitória do exército francês, mas pedindo cautela, uma vez que um novo conflito significava novos gastos:
“Vocês vencerão estes novos inimigos, eu o creio. A coragem de nossos soldados e a justiça de nossa causa são a garantia disso. Entretanto resistamos um pouco à embriaguez de nossos primeiros sucessos. Teremos um crescimento considerável das despesas. Teremos que fazer um novo recrutamento para o exército. Teremos que criar uma força naval. Teremos novos riscos para o comércio, que já sofreu tanto com o desastre das colônias. Teremos novos perigos para seus soldados, que, enquanto vocês dispõesm aqui tranquilamente de seus destinos, afrontam os rigores do ar, as intempéries das estações, as fadigas, as doenças e a morte.”
Além de ser mais direto e claro, do que os floreios intermináveis do discurso de Robespierre, que não citei de forma mais abundante por considerar completamente redundante, o texto de Vergniaud possuía mais riqueza, no que conserne a recursos lingüísticos, o que lhe possibilitava certa vantagem politica. Hans Ulrich Gumbrecht, autor de “As funções da retórica parlamentar na Revolução Francesa”, escreveu que o discurso do Girondino permitia a “possibilidade de preservar a própria imagem atacando a imagem do outro. Vergniaud confiou tanto nessa tática agrssiva que a leitura do seu discurso faz esquecer o quanto sua própria identidade, enquanto defensor da democracia representativa, era ameaçada por causa do seu engajamento a favor do plebiscito.”
(...)
No dia 4 de janeiro, Barère discursou contra a medida de levar o julgamento ao escrutínio popular. Os debates sobre o processo foram encerrados no dia 7. Numa demonstração aguçada de percepção e frieza, Luís dis a Malesherbes:
- “O senhor está convencido, agora, de que antes mesmo de eu ser ouvido, minha morte já fora decretada?”
Danton recebeu mais de dois milhões de libras, enviadas por emigrados e ministros estrangeiros, destinados a comprar o seu voto e subornar outros deputados do processo do rei. O objetivo dos emigrados era livrar Luís de uma provável condenação. Danton exigiu mais dinheiro em troca de seu voto, numa espécie de “leilão obscuro” cujo item a venda era nada mais do que a vida de Luís. A atitude ganaciosa de Danton, perfeitamente de acordo com seu caráter corrupto, possibilitou que se evidenciase as posições das grandes potencias européias em relação à crise da monarquia francesa, se é que inexistência pode ser chamada de crise.
Na Inglaterra, Thomas Paine pediu para que o primeiro ministro Willian Pitt interviesse em favor de Luís XVI enviando dinheiro para a compra de votos, mas a Inglaterra, antiga rival da França, não havia se esquecido do apoio de Luís aos colonos americanos na sua luta contra o domínio inglês. Vendo uma oportunidade para enfraquecer seu inimigo, Pitt se recusou a defender Luís alegando que seria mais fácil conseguir aliados contra a França depois que esta se tornasse regicida. O primeiro ministro da Espanha e o imperador da Áustria, irmão de Maria Antonieta, também se recusaram a enviar dinheiro. Todos aqueles que se negaram a ajudar Luís XVI o agiram assim por enxergar na morte do ex-monarca francês uma forma de unir a Europa na luta contra aquela Revolução que tanto os apavorava. O acordo de parceria dos reinos da Europa teria mais força se fosse escrito depois que o sangue de Luís XVI fosse derramado. No momento em que a situação de Luís estava mais critica os únicos que poderiam lhe oferecer ajuda eram seus antigos rivais, mas estes não estavam dispostos a esquecer a antiga rivalidade. Na terça-feira, 15 de janeiro de 1793, iniciaram as votações; o primeiro item da agenda a ser votado era: - “Luís é culpado?” Dos 749 deputados da Convenção, 691 votam sim, 31 estão ausentes e 27 votam em branco. No mesmo dia foi votado o segundo item: - “O julgamento terá de ser submetido a um referendo popular?” 287 deputados votam a favor, 424 contra, 28 estão ausentes e 12 votam em branco. No dia 16 de janeiro, quarta-feira, foi votada a questão principal: - “Que pena será infligida a Luís Capeto?” A sessão que começou pouco depois das 11h da manhã só chegou ao fim às 8h da noite do dia seguinte, quinta feira, 17 de janeiro. As votações se iniciaram por volta das 20:00 horas do dia 16 e se arrastaram por mais de 12 horas ininterruptas. Naquela gélida noite de inverno o destino de Luís seria definitivamente traçado. 387 deputados votam pela morte sem condições, entre eles alguns Girondinos como Verguiniaud, que presidia a sessão. 334 votaram pela retenção, ou morte sob condições, e 28 votaram em branco. Alguns deputados não concordaram com a categoria em que seus votos foram enquadrados e exigiram nova votação. A nova e definitiva votação aconteceu na sexta-feira, 18 de janeiro. O resultado foi de 361 votos a favor da morte e 360 contra. Por apenas um voto de diferença Luís XVI foi condenado à morte. Alguns historiadores, como Simon Schama, consideram, em função das condições com que a pena de morte foi decretada, que a maioria pela morte foi não de um, mas de 75. Entre os que votaram a favor de sua morte estava o seu primo duque d’Orléans, que agora mudara seu nome para Filipe Égalité. Ao final da votação, Malesherbes leu uma carta escrita por Luís onde alegava, mais uma vez, sua inocencia perante as acusações. Terminada a leitura o velho e cansado Malesherbes caiu em prantos enquanto pedia clemência a Convenção.
PAGINA ORIGINAL DA CHAMADA NOMINAL REFERENTE A VOTAÇÃO: A ESQUERDA O NOME DO DEPUTADO A DIREITA A SENTENÇA QUE NA MAIORIA DOS CASOS ERA "LA MORT"
Nas primeiras horas da manhã, Malesherbes se dirigiu a prisão do Templo. Enquanto informava Luís da sentença, Malesherbes não resistiu e novamente caiu no choro. Segundo seu testemunho Luís reagiu como se já aguardasse o veredito, apenas irritou-se ao saber que Orléans, seu próprio primo, havia votado por sua morte. Ele pediu para que sua sentença fosse adiada por três dias afim de que tivesse tempo para se preparar para a morte. A Convenção resolveu manter Luís isolado até o dia de sua execução. Pelos proximos dois dias ele foi mantido completamente isolado, tendo como companhia apenas a amarga certeza de que em poucas horas seria submetido ao maior desafio de sua vida: enfrentar a injustiça revolucionaria, no alto de um cadafalso erguido sobre as ruínas daquilo que um dia havia sido uma monarquia socialmente injusta e financeiramente falida. A votação em relação ao pedido de adiamento foi realizada no dia 19, tendo 380 votos contrários e 310 favoráveis. O resultado só foi divulgado às duas da manhã do dia seguinte, domingo, 20 de janeiro. Às duas horas da tarde, Luís foi informado da sentença da Convenção: seu pedido de adiamento havia sido negado, ele seria guilhotinado nas primeiras horas do dia seguinte, 21 de janeiro de 1793, na Praça da Revolução.
A despedida dramática de Luís a sua família foi testemunhada pelo camareiro do rei, Clery, que observou por uma abertura na porta e, embora não tenha escutado a conversa, viu o que se passou nas quase duas horas de um adeus dilacerante. O Delphin, agarrado as pernas do pai, chorava copiosamente; Maria Antonieta e Madame Elisabeth se mantiveram abraçadas a Luís enquanto choravam aos soluços. A jovem Maria Teresa desmaiou durante a despedida. O rei ainda teve tempo de esperar que a jovem recobrase a conciencia. Por fim, Luís fez com que seu filho Luís Carlos jurasse jamais buscar vingança por sua morte e pediu para que os perdoase. Maria Antonieta desmaiou várias vezes durante a despedida. Diante dos soluços da rainha, Luís prometeu retornar as seis da manha do dia seguinte, pouco antes da execução, para um último adeus. Sabendo que não conseguira realizar uma nova despedida Luís mandou um auxiliar avisar sua família de que não voltariam a vê-lo. A última refeição de Luís XVI foi servida as 23:00 e consistiu em asas de galinha, legumes, biscoitos de sobremesa e vinho. Durante o jantar ele ficou profundamente irritado quando foi proibido de usar garfo e faca:
- “Julgam-me um covarde para atentar contra minha própria vida?”
Ele adormeceu por volta da meia noite em um sono profundo. Testemunhas disseram escutar o ruidoso ronco do rei durante toda a noite. Era o sono merecido, o último, de alguém que se preparava para seu trágico destino no dia seguinte.
Não seria justo julgar o povo exclusivamente pelos seus atos. O povo agiu de forma incorreta porque foi incorretamente informado, em sua maior parte pela imprensa marrom de Paris. A multidão de parisienses que aguardava ansiosa a visão de seu monarca a caminho da morte não enxergava na figura do rei um homem tímido, indeciso e incapaz de derramar o sangue de seu povo por seus próprios interesses. Eles viam um tirano isento de qualquer empatia pela miséria de seu povo e que havia traído a sonhada Revolução através da qual conquistavam seus direitos. A imagem pública de Luís XVI era de um rei forjado por meio de calunias, criticas e inverdades produzidas pela propaganda revolucionária. O historiador Bernard Vincent descreveu em sua excelente biografia sobre Luís XVI que a sua maior qualidade como homem foi talvez, enquanto príncipe, sua fraqueza mais trágica – a de acreditar que bastava ser um rei bom para fazer um bom rei.
As 09h00min horas da fria manhã de segunda-feira, 21 de janeiro, Santerre e alguns funcionários municipais chegaram para levar o rei. Luís pediu a um dos funcionarios, chamado Jacques Roux, o futuro líder dos ultra radicais Énrages, que entregasse uma copia de seu testamento e seus objetos pessoas a Maria Antonieta. A resposta de Roux evidencia a personalidade de um homem desprovido de compaixão:
- “Não estou aqui para cuidar de seus objetos pessoais, mas para levá-lo para o cadafalso.”
Uma carruagem fechada conduziu o ex-monarca pelas ruas de Paris em direção a Praça da Revolução. Canhões forão colocados nos cruzamentos e milhares de guardas nacionais faziam a segurança para evitar uma possível fuga. Antoine-Joseph Santerre, que agora ocupava posição de destaque na Guarda Nacional, seria o responsável por realizar a escolta do rei até a guilhotina. Mais de 100 gendarmes a cavalo seguiram a frente, ao redor da carruagem duzentos soldados armados em formação compacta, logo atrás vinham cem guardas nacionais montados a cavalo. Essa formidável escolta se movia pelas ruas ao som de doze tambores tocados por soldados que acompanhavam o trajeto. Apesar de todo o esquema de segurança ainda houve uma tentativa fracassada de libertar o rei de seu destino. No cruzamento do Bulevard Bonne Nouvelle e a Rue Cléry havia um grupo de homens, liderados pelo barão de Batz, que tentariam uma última e desesperada tentativa de resgatar o rei. O plano consistia em utilizar a própria inclinação da rua para avançar até a carruagem, retirar o rei e realizar uma fuga a pé até um esconderijo próximo de onde seria retirado de Paris durante a noite. Batz aguardou desde as primeiras horas do dia 21 de janeiro no local marcado. Os mais de 130 mil soldados da Guarda Nacional posicionados ao longo do trajeto desencorajaram os comparsas de Batz a prosseguir com o plano. Mesmo assim, no momento em que a carruagem levando Luís XVI passou a frente de Batz ele, de forma surpreendente, correu para o meio da rua com a espada nas mãos e gritou: - “Comigo, todos os que querem salvar o rei!” Para a surpresa de Batz nenhuma alma viva se moveu em seu apoio, apenas os guardas nacionais correram para deté-lo. Batz agiu rápido e se enfiou no meio da multidão e conseguiu escapar. Sua ação corajosa mal foi percebida pelos que assistiam ao cortejo. É quase certo que nem mesmo Luís XVI trancado em sua carruagem tivesse ouvido algo maior que uma pequena comoção.
Na casa dos Duplay, Robespierre tomava o café da manhã enquanto o rei era conduzido para a guilhotina. Elisabeth, a filha mais nova do marceneiro Duplay, se surpreendeu ao ver Robespierre em seu quarto com as janelas fechadas. De acordo com a própria Elisabeth, Robespierre respondeu que “estava acontecendo algo que ele não podia ver” e pediu para que o portão na Rue Saint-Honoré que dava acesso ao pátio do marceneiro fosse fechado. Robespierre que tanto clamou pela morte de Luís XVI dizendo: “Luís precisa morrer para que a nação possa viver”, não teve coragem de encarar “algo” pelo qual era um dos responsáveis. Ao desembarcar na Praça da Revolução, Luís viu o cadafalso erguido no meio de uma multidão incalculável de parisienses. Desde o início do julgamento do rei o carrasco Sanson temia ter que realizar a execução de Luís. Foi um choque quando ele recebeu do procurador geral, no dia 20 de janeiro, o documento dizendo que a temida execução estava marcada para o dia seguinte. Usado seu casaco verde escuro, uma grande gravata branca e um longo chapéu preto arredondado, Sanson esperava pelo ex-monarca aos pés do cadafalso, pronto para cumprir sua missão. De acordo com as anotações do próprio Sanson, a carruagem parou bem próxima do cadafalso; ao descer, Luís olhou por alguns instantes na direção do Palacio das Tulherias e espantado com a quantidade de pessoas na praça teria se perguntado o que teria feito para merecer tamanho castigo. Aquela sem duvida seria a mais espetacular execução da história da França, tanto por seu significado quanto por sua dose de injustiça.
Dois ajudantes do carrasco tentaram tirar o colete que o rei, mas encontraram resistência por parte do ex-monarca. Depois de ser informado de que a roupa poderia atrapalhar a execução o próprio Luís retirou o colete e abriu o colarinho da blusa. Os ajudantes tentaram amarrar suas mãos e novamente Luís se manifestou contrario:
- “O que vocês pretendem fazer?”
- “Amarrar suas mãos” – respondeu um dos ajudantes do carrasco
- “Amarrar-me! Não, jamais consentirei.” O abade Edgeworth de Firmont, que já havia ministrado a comunhão a Luís nas primeiras horas da manhã e o acompanhou durante todo o trajeto, o convenceu a aceitar que suas mãos fossem imobilizadas. Luís entregou aos algozes um lenço que eles imediatamente usaram para amarrar suas mãos. - “Façam o que quiserem eu beberei no cálice amargo até o fim.” - respondeu o rei. Parte de seu cabelo já havia sido cortado, para que a nuca ficasse desimpedida para a lâmina da guilhotina. Os tambores começaram a rufar enquanto ele subia os degraus do cadafalso, que eram tão íngremes que teve de se apoiar no abade Edgeworth. Ao terminar de subir, Luís fez um sinal para que os tambores parassem e um silêncio assustador tomou conta da praça. Ele então se posicionou a esquerda do cadafalso e disse:
“Franceses! Morro inocnete dos crimes de que fui acusado. Perdôo aqueles que são culpados de minha morte e peço a Deus que o sangue que vocês estão prestes a derramar nunca seja cobrado da França. Só sancionei a Constituição Civil do Clero sob coação...”
As palavras seguintes foram encobertas pela ordem de Santerre para que os tambores voltassem a rufar. Os ajudantes do carrasco amarraram o agitado Luís à prancha e com dificuldade colocam o seu pescoço, muito grosso, na guilhotina. O carrasco acionou a alavanca e a lamina despencou sobre o pescoço, que por ser muito grosso, não foi cortado totalmente. Parte do accipicio e da mandubula foram terrivelmente multilados e a cabeça ainda permaneceu presa ao corpo. Testemunhas disseram ter ouvido Luís soltar um grito terrivel, que só pode ter acontecido nos dois segundos em que a lamina caia, pois seria impossível que conseguisse gritar com o pescoço parciamente decapitado. Sanson forçou a lamina e a cabeça finalmente rolou para o cesto; eram exatamente 10h22 minutos. Aos 39 anos de idade, Luís XVI, rei da França, estáva morto.
Sanson tremeu diante da perspectiva de recolher a cabeça de dentro do cesto. Um de seus ajudantes a apanhou segurando-a pelos cabelos e percebeu que os olhos do rei não haviam se fechado. Ele ergueu o troféu macabro nos braços enquanto a multidão estasiada gritava “Viva a republica!”, “Viva a revolução!”. Tiros forão disparados ao ar em comemoração. O historiador Bernard Vincent escreveu:
“Ao cortar a cabeça do supliciado, o carrasco, que talvez não medindo todo o alcance histórico de seu gesto, não apenas guilhotinara Luís XVI ou a monarquia; ele também guilhotinara, de certa maneira, a história da França. Pois parece legitimo pensar que ouve, a partir desse dia, um antes e um depois, e que foi nesse 21 de janeiro de 1793 que iniciou, dessa vez para sempre, o Ano I da França moderna.”
Existem muitos relatos de testemunhas que presenciaram a execução de Luís, a maioria diverge em alguns pontos. Um homem que estava presente na execução do rei deixou registrado o que viu:
“Às oito horas, chega o carro em que se encontram Luís XVI e seu confessor, Edgeworth de Firmont, um padre que havia se recusado a prestar juramento durante as mudanças no estatuto do clero, em 1790. Foi ele que recebeu a última confissão de Luís XVI na prisão e lhe deu a absolvição. Ao longo do trajeto entre a prisão do Temple e a Praça da Revolução, o rei lê a oração dos agonizantes, demonstrando calma impávida. Quando o carro aparece na frente das Tulherias, é sempre com a mesma calma e voz segura que o rei diz ao abade Firmont: Chegamos, se não estou enganado . Com um nó na garganta, o padre não consegue responder e se limita a fazer um sinal de assentimento. O frio glacial não parece afetar Luís, que desce do carro vestindo uma camisa, um casaco costurado em forma de colete, e calças cinza. Quando o carro chega, a multidão se cala bruscamente. É como se , diz León, envolvidos pela grandiosidade do evento, aqueles homens e mulheres que esperavam havia horas, tivessem sido, instantaneamente, tomados pela estupefação. O silêncio que acompanha o rei em sua descida do carro se assemelha a uma homenagem solene. Se alguém tivesse gritado Viva o rei! Naquele momento, teria sido preso imediatamente. Mas este silêncio ressoa bem mais alto em meus ouvidos do que qualquer aclamação. Prevenido por algum instinto secreto, este povo, que há meses humilha publicamente o seu rei, compreende que vai assistir a um momento crucial da História da França, e que o sacrifício de Luís é o prelúdio de uma seqüência de acontecimentos que ameaçarão a existência do país .”
O proprio Sanson deixou anotado em uma carta, datada de 20 de fevereiro, suas impressões acerca da execução de Luís XVI:
“Chegado ao pé da guilhotina, Luís XVI considerou um instante os instrumentos de seu suplício e perguntou a Sanson se os tambores cessariam de bater. Ele se aproximou para falar. Foi dito aos carrascos que fizessem seu dever. Enquanto lhe colocavam as cilhas, ele gritou : ‘Povo, eu morro inocente !’. Em seguida, virando-se para os carrascos, Luís XVI declara : ‘Senhores, sou inocente de tudo o que me inculpam. Espero que meu sangue possa cimentar a felicidade dos Franceses’. O cutelo caiu. Eram 10 horas e 22 minutos. Um dos assistentes de Sanson apresentou a cabeça de Luís XVI para o povo, enquanto elevava-se um grande grito de: ‘Viva a Nação ! Viva a República !’ e que ressoava uma salva de artilharia que chegou até às orelhas da família real encarcerada..”
Na Prisão do Templo, Maria Antonieta escutou a salva de tiros de canhão que anunciaram a morte de seu marido. Em prantos ela se ajoelhou diante do filho Luís Carlos e o saudou como o novo rei da França, Luís XVII. Obviamente que este reinado só existia na mente de Maria Antonieta, que não via nenhuma legalidade nas medidas revolucionarias, e daqueles que respeitavam a pratica de sucessão real dos governos monarquicos. Luís XVII estava tão distante do trono quanto à monarquia estava distante da França.
Na Praça da Revolução o espetáculo grotesco da execução do rei continuou: alguns indivíduos conseguiram romper o cordão de isolamento dos guardas nacionais e entraram debaixo do cadafalso para molhar seus lenços no “sangue real” – que acreditavam trazer sorte – e que aquela altura já havia escorrido e encharcado a madeira do patíbulo e o chão da praça. Alguns soldados molharam seus sabres na poça de sangue e alguns tentaram comprar do carrasco uma mecha do cabelo ensangüentado de Luís. Alguns, tentando depreciar ainda mais a imagem do executado, molhava os dedos no sangue e o levavam a boca dizendo: “é horrivelmente salgado!”. Um homem lambuzou os braços no sangue e o aspergiu na direção da multidão, que vibrava de forma incontrolada. Uma testemunha relatou:
“Seu sangue jorrou e feriram-me os ouvidos os gritos de alegria de 80 mil homens armados (...) vi os escolares da Quatre-Nations jogarem os chapéus para o alto; seu sangue jorrou e nele alguns mergulharam os dedos, uma pena ou um pedaço de papel; alguém o provou e disse: ‘Il est bourgrement salé’ [É horrivelmente salgado]”
Por fim o corpo decapitado de Luís foi colocado na carroça, sua cabeça foi colocada entre suas pernas. Os restos do monarca foram levados para o cemitério de Madeleine e sepultados em uma cova com 3,5 metros de profundidade. Ao invez do manto real uma pá de cal foi jogada sobre seus restos mortais. Uma testemunha que estava presente durante o sepultamento deixou registrado:
“Ao chegar ao cemitério (...) um destacamento de policiais nos mostrou um corpo que estava vestindo uma jaqueta branca e calças de seda cinza com meias combinando (...) o corpo deitado em um caixão aberto foi jogado no fundo da cova e coberto por uma camada de cal e em seguida coberto por terra bem socada. A cabeça de Luís XVI foi colocada entre seus pés.”
Logo após a execução do rei, sua aliança foi entregue a rainha Maria Antonieta junto com uma mensagem do próprio Luís: “Ele nunca se separaria dela a não ser na morte”.
(...)
AUTOR:
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

sexta-feira, 12 de abril de 2013

ENTARDECER


Porque me sinto triste ao entardecer?
Sinto-me incapaz de responder.
Não espero encontrar respostas na filosofia;
Não espero encontrar resposta alguma;
Não vivo a espera de respostas;
Mas vivo fazendo perguntas;
No entardecer atribuo valor as coisas pequenas;
E que valor atribuo a um simples olhar;
Na sombra do passado me enraiveço;
Na luz do presente sou inseguro;
Na neblina fria do futuro me apavoro;
No entardecer compreendo minha magnitude;
Compreendo minha insignificância;
Lamento o que deixei de dizer;
O que fui incapaz de dizer;
Penso em reviver o passado;
Em dizer o que não foi dito;
Em seguir o caminho certo;
Em corrigir o incorrigível;
Procuro desesperadamente um amparo;
Para minha necessidade incondicional;
No entardecer me convenço de que não vivo;
Porem vivo estou!
Desfaço-me ante o desconhecido;
Enxergo meus limites;
Justifico minha covardia chamando-a de maturidade;
No entardecer sou uma desprezível massa racional;
Misterioso para quem apenas observa;
Desagradável para quem se aproxima;
A certeza do amanhecer não me consola;
Porque me sinto triste ao entardecer?
Talvez alguém, um dia, possa me responder;
Vivo a imensidão angustiante
...na medida de uma tarde.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

quarta-feira, 10 de abril de 2013

DIVAGAÇÕES AO SOM DE COLDPLAY


Em Alguns momentos somos tomados por um súbito impulso questionador. Nos achamos senhores da verdade, donos da razão e nesse instante submetemos todas as questões que se atrevam a atravessar nosso caminho ao julgo implacável de nossas opiniões e convicções. Em certo dia de chuva eu, mergulhado na imensidão minúscula do meu quarto, ouvindo Coldplay na companhia de meus adoráveis livros e de meu humor sarcástico me vi surpreendido por um desses momento em que os pensamentos extrapolam os limites da cognição e transbordam palavras que se unem em frases e logo formam um texto.

Pensei sobre alguns temas muito comentados e debatidos de forma exaustiva pela mídia como a caótica “educação” nacional, tecnologia associada ao mercado de trabalho, cotas em universidades, meio ambiente, cidadania, liberdade de informação, altruísmo no mundo moderno, etc. Sei das possibilidades de me deixar levar por temas batidos e saturados e de compor uma massa prolixa de divagações pouco interessantes. Ainda assim sinto a necessidade de compartilhar essas opiniões ainda que pareçam redundantes. Tentei ser o mais objetivo possível com abordagem rápidas e sem muita densidade.
NOVAS TECNOLOGIAS TORNARAM IMPRATICAVEIS AS POLITICAS DE PLENO EMPREGO

No mundo contemporâneo as novas tecnologias, e seus constantes aprimoramentos, são definidos como bases indispensáveis ao desenvolvimento econômico. No entanto, essa inovação tecnológica tem ocasionado impactos de natureza negativa em diversos segmentos sociais, dentre os quais se destaca o mercado de trabalho.
Os grandes aglomerados industriais, símbolos do século XIX e ainda muito comuns no final do século passado, eram decorrentes da reorganização do método de produtivo que exigia mão de obra numerosa, maximizada e pouco qualificada. Atualmente os investimentos têm sido direcionados aos setores tecnológicos, visando uma melhoria nas técnicas produtivas e reduzindo os custos dos bens provenientes dos segmentos primários e secundários. A adoção de tecnologias de ponta exige mão de obra qualificada, uma das grandes deficiências dos países subdesenvolvidos como o Brasil, o que dificulta a contratação de funcionários aptos para atenderem as exigências do mercado ditadas pela inovação tecnológica. A necessidade de aprimoramento tecnológico visando o aumento da produtividade tem gerado resultados antagônicos em segmentos sociais diversos, em uma espécie de paradoxo da “destruição criadora”.
OS DESAFIOS DA EDUCAÇÃO NACIONAL

É praticamente inegável o reconhecimento do ensino como uma ferramenta indispensável ao progresso de uma sociedade, tanto a nível local quanto global. A grande problemática no campo da educação pode ser resumida na didática superficial e contraria a aplicação pratica do conhecimento.
A superficialidade didática, adotada como regra nas escolas, direciona seu foco não ao esclarecimento ou a formação de um senso critico e racional, mas unicamente a um propósito pouco altruísta: conseguir uma boa avaliação em concursos e vestibulares. O propósito original de qualquer ramo do conhecimento baseado na lógica desaparece debaixo de um método de “ensino” cujas bases se sustentam sobre o superficial e em regras de memorização pouco úteis. A condição necessária ao progresso só é alcançada por uma sociedade altamente esclarecida e capaz de enxergar uma aplicação pratica para o conhecimento adquirido na escola. A didática deve ser aplicada no sentido de expor a lógica, permitindo aos alunos a compreensão adequada do propósito verdadeiro, oculto pela massa de teorias aparentemente isentas de utilidade. A pratica da leitura deve ser incentivada como uma opção de lazer e não forçada de modo imperativo e restrito a um conteúdo literário pouco atraente. A reformulação do método de ensino deve ser considerada como de suma importância uma vez que o desenvolvimento nacional avança na razão direta do nível sócio educacional de seu povo.
UNIVERSIDADE PARA TODOS: SISTEMA DE COTAS

A fragilidade do sistema educacional brasileiro se manifesta de forma irônica: o ensino proporcionado pelas escolas públicas não prepara o aluno para o ingresso em uma universidade publica. Diante desta realidade a criação de cotas, que beneficiem alunos provenientes do ensino público, é uma medida valida?
De fato o sistema de cotas não é a solução mais adequada para a relação paradoxal que se estabelece entre o ensino de base e a educação superior, uma vez que consiste numa frágil tentativa de corrigir uma falha do sistema educacional público, abrindo espaço para uma serie de contestações amparadas em princípios constitucionais e sustentadas por aqueles que não podem se beneficiar do sistema. Apesar da polemica em torno do tema o sistema de cotas é sim uma medida valida, do ponto de vista pratico e social, capaz de gerar resultados em curto prazo que se expressem de forma positiva não só na esfera educacional como no desenvolvimento nacional através de redução da elitização do ensino superior e do aumento da mão de qualificada. A alegação de que a medida poderia reduzir o empenho acadêmico do aluno de escola pública se torna nula quando se considera sua lógica oposta na qual a dificuldade para ingressar no ensino superior também seria uma poderosa fonte de desmotivação.
Se amparar em princípios constitucionais, que impedem a diferenciação dos cidadãos por meio de critérios sócio econômicos, como forma de contestar o sistema de cotas em um país onde a desigualdade é uma característica mundialmente reconhecida, o que por si apenas já consiste em uma tremenda ferida constitucional, assume contornos humorísticos, algo até previsível quando se considera o “jeitinho” brasileiro.
DESENVOLVIMENTO E PRESERVAÇÃO AMBIENTAL
Um inquestionável fato histórico é o de que o desenvolvimento das nações, de um modo geral, parece ter sido condicionado a um grau de destruição ambiental diretamente proporcional aos resultados apresentados. Seria o progresso incompatível com uma postura menos agressiva ao planeta?
Se por um lado o desenvolvimento sustentável tem se tornado um dos temas recorrentes da atualidade o “desenvolvimento insustentável” é mais primitivo do que parece A taxa de destruição da cobertura vegetal, seja por desmatamento, poluição, queimadas ou por qualquer um dos produtos decorrentes de uma industrialização irresponsável, reflete a intensidade com que o desenvolvimento econômico foi colocado em pratica e o quanto a economia mundial tem sido alavancada por medidas insustentáveis a longo prazo no que diz respeito ao meio ambiente.
Os resultados mais significativos, no sentido de reduzir a agressão ao ambiente natural seriam alcançados por medidas governamentais a nível global, no entanto, a adoção de atitudes conscientes por parte da população, como a redução do consumismo, um melhor aproveitamento da água potável e uma queda no consumo energético entre outras medidas, apresentavam resultados positivos e expressivos em curto prazo. A determinação do meio não deve ser uma “condição de existência” ao progresso econômico, uma vez que os custos para a recuperação ambiental podem ser até mais onerosos que uma recessão econômica.
CIDADÃNIA E PARTICIPAÇÃO SOCIAL

A lógica do progresso social se baseia no conceito de que o futuro é o resultado direto das atitudes empregadas no presente. O peso por essa responsabilidade de gerar resultados que expressem algo positivo em um futuro próximo recai, principalmente, sobre a parcela mais jovem da sociedade. Mas estaria a juventude contemporânea consciente do seu papel na edificação de um futuro que atenda aos anseios na nação?
O individualismo, o consumismo irracional baseado numa forma de hedonismo moderno e o descaso para com os temas relacionados ao coletivo têm afastado os jovens de uma postura fundamental na condução de um desenvolvimento expressivo e que tenha por princípios básicos o bem comum social, o respeito ao pluralismo dos costumes e a valorização da natureza na forma do desenvolvimento sustentável.
É imperativo que haja um incentivo governamental no sentido de uma reformulação não apenas da mentalidade, mas na postura da parcela jovem da população para a valorização do coletivo, subjugando o individualismo ao segundo plano, e no incentivo ao alto-didatismo associado ao ensino regular como forma de aprimorar o senso critico, gerando indivíduos capazes de responder as incertezas do futuro de modo satisfatório e com resultados que se expressem de forma coletiva. Esse incentivo se traduz em medidas sócio econômicas como melhorias das condições de trabalho da população, tendo como resultado direto a facilitação de acesso dos jovens ao ensino superior e ao mercado de trabalho, tornando possível seu papel como cidadão. A postura quase arrogante dos jovens de se definirem como “energia potencial do futuro” deve ser revista de forma racional, o que certamente ira expor o engano grotesco por trás desta alto-denominação que lamentavelmente acompanha as gerações acostumadas a tomar os clichês como verdade imutável.
LIBERDADE DE INFORMAÇÃO

Qual seria o atual grau de subordinação da imprensa a imparcialidade e ao bom censo? Os mecanismos de comunicação estariam cumprindo seu papel de informar ou agindo no sentido contrario?
O debate em torno do questionamento sobre os aspectos negativos da livre expressão parece remeter a um passado não muito distante da historia nacional onde a liberdade se viu restringida em sua quase totalidade ao autoritarismo governamental. Segundo algumas fontes a corrente sensacionalista da imprensa teria subjugado o propósito da informação ao mesmo tempo em que se abastece dos dramas do cidadão comum. Alguns consideram indispensável a existência de mecanismos regulamentadores que fiscalizem a atividade dos veículos midiáticos, numa espécie de “controle de qualidade”. Por outro, existe uma corrente, completamente antagônica, que repudia qualquer resquício ao controle de informação argumentando ser esta pratica contraria aos princípios constitucionais e a um regime democrático.
A problemática em torno do tema coloca não apenas a noticia na mira dos questionamentos, mas também o caráter e a ética, ou a ausência de ambos, dos jornalista, aumentando ainda mais o inflamado debate sobre os impactos negativos do sensacionalismo midiático.
ALTRUÍSMO NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Futuro hipotecado, altruísmo em extinção! A sociedade humana se encontra imersa numa espécie de individualismo destrutivo, completamente incompatível com uma postura altruísta, algo indispensável para a projeção, ainda que utópica, de um horizonte mais favorável as relações humanas.
Foco no presente, pois o amanha é incerto! Sob esse lema o mundo avança negando a empatia qualquer chance de se estabelecer como característica social. O cidadão moderno é forçado a conviver com aquilo que julga ser o ideal de si próprio, levando-o a um incessante aprimoramento profissional deixando pouco espaço para relações que não se pautem no interesse e no ganho pessoal. A incapacidade de se colocar na condição do próximo é não só uma característica marcante da modernidade como também é uma das mais destrutivas patologias sociais que já se evidenciaram ao longo da história. A valorização do “eu” têm hipotecado o futuro em nome do presente, algo bastante lógico quando se considera o imediatismo contemporâneo. Olhar para o futuro, ainda que o horizonte não apresente contornos bem definidos, é uma condição indispensável para a existência do altruísmo como fato e não com mito. Em meio a todos as concepções filosóficas acerca da natureza e do comportamento humano o mundo segue seu avanço em direção ao paradoxo: pensar no futuro é coisa do passado.
Essas são algumas considerações minhas acerca de alguns tópicos que abordam problemas globais e alguns essencialmente nacionais. Não espero convencer ninguém com minha frágil retórica, mas fico feliz de poder compartilhar esses pensamentos que afloraram enquanto escutava musicas como “Clocks”, “God Put a Smile Upon Your Face”, “Every Teardrop is a waterfall”, “In My Place”, “The Scientist”, “Paradise”, “Yellow” e “Viva la Vida”. Agora se me permitam pretendo voltar a minhas divagações... enquanto escuto Coldplay!

AUTOR:
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

sábado, 6 de abril de 2013

O DUPLO


Atualmente a perda da personalidade é um evento natural e corriqueiro; quase uma característica indissociável da modernidade. O ser multifacetado é predominante no mundo globalizado e a “mascara” tornou-se o acessório fundamental do cidadão moderno. Boa parte das relações interpessoais, em planos sociais distintos, só são possíveis em função da aplicação pratica deste adorno teatral que deixou os palcos e se estabeleceu como alegoria social. Existe um lado de nos mesmos que apresentamos a sociedade e um lado que reprimimos por medo de reprovação, vergonha ou por simples excentricidade.
A concorrência desenfreada do mundo moderno, seja no plano profissional ou amoroso, tem contribuído para o estabelecimento do núcleo fundamental dos distúrbios da psique. A hipocrisia, que tanto vemos desfilar nas ruas, está presente em nos mesmos de forma dominadora e imperativa. Temos medo de reconhecer nossas descrenças e assumir determinados sentimentos “socialmente imorais” por simples medo de não nos adequarmos no perfil de um cidadão “normal”. Essa necessidade de aceitação leva a formação de um individuo com muitas personalidades - um tema já muito explorado pela literatura.
Na novela “O Duplo” o escritor russo Fiodor Dostoievski aborda a personalidade dual como tema principal. A narrativa se passa em São Petersburgo, cidade palco de muitos dos romances do escritor, e narra os dramas de Yakov Pietrovitch Golyadkin, conselheiro titular de uma repartição pública, em essência um burocrata de segunda categoria que luta para ser aceito na sociedade. Já no primeiro capitulo o autor nos apresenta um personagem desorientado – quase uma marca registrada dos personagens do Dostoievski – que se prepara para comparecer a uma festa de aniversario na casa do conselheiro de estado Beriendêiev. No caminho ele resolve fazer uma visita a seu medico, ficando implícita pelo menos uma das patologias que acometem o personagem. Golyadkin chega ao cumulo de exigir que o cocheiro da carruagem de aluguel use uma libré – tecido usado pelos cocheiros dos aristocratas – numa tentativa desesperada de se aproximar da classe que julgava superior a sua.
Ao chegar à residência de Beriendêiev, Golyadkin é informado pelos serviçais de que não poderia ser recebido junto aos demais convidados. Inconformado ele deixa o local e pouco depois retorna pela porta dos fundos somente para ser novamente expulsos pelos próprios convidados. Sentindo-se humilhado ele vaga pelas gélidas ruas cobertas de gelo e assoladas pelo vento invernal em meio a lampiões tremeluzentes da velha São Petersburgo enquanto digere a idéia de sua própria insignificância social.
Nesse momento o típico personagem dostoievskano surge com seus intermináveis conflitos internos e sua auto-reprovação aguda. Enquanto percorre as ruas Golyadkin se encontra na dependência da vergonha e da auto-reprovação. Seu desprezo por si próprio atinge tamanha intensidade que vemos a situação evoluir de um ego ferido para uma condição patológica, num misto de comicidade e tragicidade.
Em determinado momento, enquanto atravessava à ponte Izmáilovski, Golyadkin percebe que está sendo seguido por uma estranha figura humana. Poucos minutos depois vem o choque: o homem que o seguia era na verdade ele mesmo; o seu duplo! Golyadkin, literalmente, fugia de si mesmo, fugia da ilusão de sua própria mente numa autentica demonstração patológica de auto-reprovação.
Existe uma tese da psicologia que analisa uma estranha particularidade da psique humana: todo individuo alimenta uma inveja de si próprio. No caso de Golyadkin o sentimento de inveja por seu objeto fátuo, isto é seu ideal de si próprio, evolui com a narrativa de um turbilhão paranóico e culmina num sentimento destrutivo de ódio onde a ilusão termina como vencedora absoluta.
A narrativa é cronológica sem recuos temporais, mas possui algumas características levemente desagradáveis, como o comportamento do personagem principal em repetir exaustivamente o nome do interlocutor com o qual dialoga (característica presente em outros personagens do autor), mas isso não compromete a abordagem genial de Dostoievski. O desfecho carregado de tristeza é bastante coerente com o enredo e a leitura e sem duvida agradável, e em certos momentos bastante cômica. Vale à pena conferir mais está maravilhosa obra do gênio Dostoievski.
AUTOR: TIAGO RODRIGUES CARVALHO
O DUPLO - Fiodor Dostoievski
Editora 34
Tradução de Paulo Bezerra

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