sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A ERA VITORIANA: LITERATURA


Mas nem só de números e progressos se fez a era vitoriana. Em muitos casos a característica mais marcante do período foi justamente a falta de mobilidade na medida da pura e simples estagnação. Na literatura, por exemplo, é possível extrair certas singularidades do período, como a rígida estrutura da constituição familiar. Não surpreende o fato de que na orbita do capitalismo britânico o casamento tenha aos poucos assumido o contorno de mercadoria.
A valorização burguesa do conceito de lar, ou seja, da união indissolúvel de seus integrantes no ambiente domestico, teve um amparo discreto na pratica de leitura familiar. Nesse contexto o livro, como objeto, contribuiu diretamente para a conservação do estilo de vida burguês, que acabaria por se consolidar como um estilo de criação literária. Os textos eram criados para serem lidos durante a noite, momento em que todos os integrantes da família estavam reunidos. Alguns eram recheados de temas obscuros cujas historias de fantasmas certamente teriam mais impacto durante a leitura noturna.
Jane Austen (1775-1817) produziu um quadro vivo da importância do casamento em sua obra “Orgulho e Preconceito”. Embora o livro tenha sido publicado em 1813, período anterior a era vitoriana, o mesmo já retratava os valores da sociedade surgida a posteriori e cujos valores permaneceram praticamente inalterados. Emily Bronte (1818-1848) também é uma das principais representantes de sua época, ao lado de nomes como Oscar Wilde (1854-1900) e Charles Dickens (1812-1870), Lewis Carrol (1832-1898), Robert Louis Stevenson (1850-1894), Arthur Conan Doyle (1859-1930) e Alfred Tennyson (1809–1892). Na poesia Tennyson foi um dos maiores destaques. No trecho final de seus mais belos poemas – Ulisses – o autor apresenta um belo quadro de determinação e coragem:
Ainda que muito esteja perdido, muito nos resta; e ainda que perdida a força dos velhos dias que movia céus e terras; somos o que somos; uma coragem única nos corações heróicos, débeis pelo tempo e pelo destino, mas persistentes em lutar, achar, buscar, jamais render.
Lewis Carrol – nascido Charles Lutwidge Dodgson – se tornou mundialmente famoso com a obra “Alice no país das maravilhas”, que teria criado depois de uma viajem de barco pelo Tamisa na companhia de uma menina de 10 anos chamada Alice Liddell. A vida particular de Carrol, e seu gosto, no mínimo exótico, de fotografar crianças parcialmente nuas, contribuíram para aumentar os enigmas associados a suas obras. Pelos padrões Freudianos a cena inicial de “Alice no país das maravilhas”, onde um coelho a guia para o interior de uma toca escura e estreita, que terminada num mundo de fantasia, possui uma gritante conotação sexual, tanto pelo coelho – animal que no período era associado ao sexo – quanto pela toca “escura e estreita”.
Existe uma tendência de se aplicar padrões Freudianos a todas as épocas, o que não me parece correto, mas que de forma curiosa acaba por expor certas particularidades notáveis. No caso de Lewis Carrol o padrão Freudiano parece não só perfeitamente aplicável como igualmente revelador. Não chega a ser surpreendente que textos com conteúdo homoerótico, como no caso de “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde, tenham sido alvo de criticas ferozes em uma época tão moralista quanto a vitoriana.
Uma das primeiras vozes literárias a se elevar por sobre a miséria das grandes cidades industriais foi Elizabeth Gaskell, autora do romance “Mary Barton” cujo enredo era direcionado aos trabalhadores das industrias têxteis de Manchester. Nascida Elizabeth Stevenson, e conhecida popularmente com Mrs. Gazkell, se tornaria uma das maiores contistas da era vitoriana, ao lado de Charles Dickens. O romance “Mary Barton” impressionou a sociedade britânica ao retratar o mundo fétido das fabricas com seus operários esqueléticos e famintos.
Charles John Huffam Dickens, nasceu em 7 de fevereiro de 1812 na cidade de Portsmouth, e logo na infância sentiu os efeitos da Revolução Industrial. Seu pai, chamado John, era um funcionário da marinha que vivia endividado. Em 1822 a família decide se mudar para Londres na esperança de melhorar de vida. Dois anos depois John Dickens vai para a cadeia por dividas. Elisabeth Dickens, sozinha a própria sorte com o filho resolve vender os pertences da família; o jovem Dickens, apaixonado por leitura desde cedo, viu seus livros serem vendidos para saldar as dividas. Em 1824 ele consegue emprego em uma fabrica de graxa como colador de rótulos. Anos mais tarde ele se recordaria de sua ocupação na fabrica como um dos momentos mais dramáticos de sua vida. Três anos depois ele se torna escrevente de um escritório de advocacia e em 1832, após aprender sozinho a taquigrafia, consegue emprego como repórter parlamentar.
Em 1836 Dickens se casar com Catherine Hogarth, filha do editor do Evening Chronicle. Naquele mesmo ano ele finalmente pública seu primeiro livro: “Retratos Londrinos”“Sketches by Boz” (O nome era devido ao costume de Dickens em assinar seus textos com o pseudônimo “Boz”). A obra teve sucesso imediato e abriu as portas para Dickens emergir como um dos maiores escritores da era vitoriana.
Apesar do sucesso estrondoso de “Grandes Esperanças” sua obra mais marcante foi “Um Conto de Natal”. A história do rabugento Ebenezer Scrooge, um funcionário de escritório que passou a odiar o Natal depois que seu sócio, chamado Jacob Marley, morreu em uma noite de 25 de dezembro, encantou a sociedade da época e se consolidou como o mais famoso conto natalino da historia. Dickens sempre fora apaixonado pelo clima natalino. Uma das mais belas passagens de sua obra “Retratos Londrinos” ele escreveu:
“Não viva no passado. Não lembre que apenas há um ano a criança que hoje já se foi estava sentada diante de você, com as bochechas rosadas e a alegre inconsciência da infância brilhando nos olhos. Pense nas bênçãos presentes – aquelas que todos os homens têm -, não nas desgraças passadas, que todos os homens possuem em algum momento da vida. Encha novamente o cálice, com um rosto feliz e o coração contente. Nossa vida depende disso (...)”
Em 1780, Luige Galvani, que na época era professor de anatomia, descobriu o efeito da eletricidade sobre os músculos. Inicialmente ele havia testado em sapos mortos e constatou a contração dos membros diante de uma descarga elétrica. Seu neto, chamado Giovani Aldini, percorreu a Europa divulgando as descobertas do avô. Em 1803 ele realizou uma de suas mais bizarras apresentações: diante de uma platéia de espectadores Giovani utilizou o cadáver de um homem que havia acabado de ser executado na forca. O cadáver, deitado em uma mesa, teve dois eletrodos ligados a dois pontos distinto, onde foi aplicada uma carga de 120 volts.
A descarga no rosto gerou movimentos convulsivos na face; em dado momento o olho esquerdo chegou a abrir. Mas o clímax aconteceu quando um dos eletrodos foi colocado na boca e o outro no reto. Ao acionar o disjuntor a contração muscular no cadáver foi tão intensa que o mesmo chegou a se sentar sobre a mesa, causando pânico entre os expectadores. Entre os que assistiam a apresentação estava uma jovem chamada Mary Shelley (1797-1851), que devido a esse espetáculo inusitado encontrou inspiração para escrever sua obra mais famosa: “Frankenstein”
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

sábado, 23 de setembro de 2017

EVA BRAUN: UMA BIOGRAFIA MINIMALISTA


Essa é uma biografia de Eva Braun cujo nome que menos aparece em suas paginas é o da própria Eva Braun. Lançada pela Companhia das Letras a obra “Eva Braun a vida com Hitler”, da historiadora alemã Heike B. Gortemaker, tenta desconstruir a imagem de uma mulher apagada vivendo a sombra de Adolf Hitler. O fato é que o livro não cumpre o que ele promete.
A narrativa é focada sobre o circulo de pessoas que tinha um contato mais intimo com Hitler, no entanto, a própria Eva Braun aparece muito pouco. Talvez a ausência de material sobre o passado da família Braun tenha determinado a construção de um texto mais superficial onde a biografada se constrói por meio do ambiente social em que ela se insere. O problema é que essa abordagem cria uma figura que emerge a sombra de outras pessoas e isso, ao meu ver, contraria a proposta do texto.
O que falta aqui é intimidade entre a autora e a biografada. Heike B. Gortemaker não conseguiu romper a dimensão social de Eva Braun e entrar em um terreno mais intimo que naturalmente é o que se espera de uma biografia.
Apesar de suas falhas a obra possui também seus méritos. O maior deles talvez seja a elegância elucidativa das palavras com as quais a autora fez um breve resumo da ascensão do regime nazista em algumas regiões da Alemanha, como na Baviera. O texto é também um ótimo apanhado sobre as pessoas que conviviam diariamente com Hitler no Berghof – sua casa de campo nas montanhas.
Embora não funcione como uma biografia tradicional a autora deve ter seus méritos reconhecidos por buscar uma diferente base de relacionamento entre o leitor e a obra. Se por um lado a obra peca devido a falta de profundidade por outro ela acerta por não entrar no campo especulativo ou recorre a dados biográficos extensos que quando não são bem trabalhados se tornam cansativos.
Como uma biografia a obra definitivamente não funciona. Como um retrato do staff de Hitler o texto se mostra mais competente. Esse é um dos casos raros em que o subtítulo da obra está mais próximo daquilo que ela se dispõe a ser: um retrato de como era a vida com Hitler.
AUTOR
TIAGO R.CARVALHO
Título original: EVA BRAUN - LEBEN MIT HITLER
Autora:Heike B. Görtemaker
Páginas: 408
Acabamento: Brochura
Selo: Companhia das Letras

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

DO INFERNO


A história de Jack, o Estripador, o primeiro serial killer a ter destaque na imprensa e que aterrorizou a Londres vitoriana do final do século XIX, é o tema desta graphic novel de Alan Moore e Eddie Campbell. “Do Inferno” possui um tom inicial de suspense que evolui de intensidade à medida que o enredo se constrói.
Não é um enredo que tenta domesticar sua historia, ou seja, não existe o menor esforço de atenuar os aspectos mais chocantes e desagradáveis. Tudo é muito visceral, intenso e sem eufemismos. O tom bem pronunciado de erotismo de alguns trechos contribui e muito para a história. Não se trata de uma mera exposição barata de cenas de sexo e sim de algo que cria uma intimidade entre o leitor e os personagens.
Alan Moore sabe bem a história que possui em mãos. Em nenhum momento fica a sensação de que ele não sabe para onde ir. Quem possui um conhecimento razoável sobre os eventos de 1888 em Whitchapel (bairro pobre de Londres onde Jack fez suas vitimas) vai identificar muitos fatos reais que foram inseridos na versão de Moore de modo que criasse uma explicação valida, embora conveniente do ponto de vista narrativo, para as lacunas deixadas pelos eventos reais. É obvio que se trata de uma ficção, mas existem sim elementos que são encadeados de forma coerente de modo que em muitos momentos agente se pergunta: ok, por que não?
Alan Moore levou uma década para concluir essa magnífica obra que é também um retrato da população pobre da Londres do século XIX. E comum encontrarmos textos que exploram a Londres vitoriana porem de uma perspectiva mais aristocrática, ou seja, as residências ricamente mobiliadas com seus jardins ingleses e costumes burgueses. Aqui essa imagem idílica aparece apenas como elemento de realce para mostrar o distanciamento enorme entre as classes sociais do período.
O resultado é um texto muito bem feito e envolvente, pois é importante ressaltar: o fato de um texto ser bom não necessariamente se traduz em uma boa experiência de leitura. Existem livros que possuem um conteúdo excepcional, porem são chatos. Definitivamente isso não acontece em “Do inferno”. Foi um texto que me prendeu desde o inicio!
Os grupos de personagens são muito bem construídos desde as prostitutas com seus diálogos expositivos ao inspetor Aberline, um personagem que não possui vigor ou carisma, mas que se torna interessante devido à ligação que estabelece com uma das mulheres do grupo. O príncipe Albert – neto da Rainha Victoria - têm uma grande relevância, pois é em torno dele que o enredo se constrói, porem ele é de longe o personagem mais apagado.
Willian Gull é sem duvida o mais profundo e enigmático de todos. Na pele do assassino Jack ele consegue elevar a historia ao nível da catarse. Um fato que aparentemente se resume as ações de um louco se transforma numa divagação filosófica que resume o século XIX e projeta o violento século XX. Suas divagações são excepcionais e a sua teoria sobre uma “arquitetura da historia” é algo que nos leva a questionar elementos como a linearidade do tempo.
Nenhum dos personagens mais relevantes é unidimensional, ou seja, todos eles apresentam certo desenvolvimento. A empatia do leitor por esses personagens surge gradualmente de forma que a arte rústica dos traços de Eddie Campbell - que no inicio pode dificultar um pouco o entendimento - se torna completamente irrelevante depois de algumas paginas. Muito tem se falado sobre os desenhos de Campbell. Alguns gostam outros nem tanto, mas o fato é que o aspecto de “rascunho” dos desenhos me agradou bastante.
De fato não é uma arte que prima por uma estética perfeita. Inicialmente pode ser um pouco complicado identificar certos personagens. Um leitor menos detalhista certamente vai se perder em algumas passagens ao se perguntar, por exemplo, se o personagem de determinado quadro é o mesmo do quadro anterior. No entanto, esse obstáculo acaba criando uma atmosfera de mistério que se justifica diante do desfecho. Quem leu sabe do que estou falando!
Existem alguns cortes bruscos – por pura conveniência narrativa - em alguns diálogos que podem confundir um pouco os leitores menos familiaridades com HQs. A linguagem é bruta, agressiva, obscena e sempre acompanha o tom dos elementos que ela busca narrar. O problema é que exatamente onde a obra acerta ela também apresenta falhas: as gírias na linguagem dos personagens são muito atuais e distante da fala do século XIX.
Em determinados momentos os personagens não parecem pertencer ao período no qual os eventos ocorrem deixando a sensação de uma caracterização moderna do passado. Por outro lado o uso da linguagem mais atual parece buscar estabelecer uma ligação entre os eventos daquele período é o século posterior. É exatamente essa relação entre o século XIX e o XX que fazem de “Do inferno” uma obra prima magistral.
O desfecho da obra acompanha aquilo que o texto vinha desenvolvendo, ou seja, não ocorre uma grande reviravolta no enredo embora exista um pequeno twist no final que obviamente não direi qual é. Isso faz sentido, pois não existe nenhum mistério em “Do inferno”. O assassino é revelado logo no inicio de modo que o que fica para o final é uma retomada de fatos reais que levam o próprio leitor a repensar o propósito do texto. O objetivo de Alan Moore não foi falar sobre Jack, o estripador. Ele utilizou a história do assassino para abordar outro tema. O que fica após a leitura é a questão: Seria Jack ou o século XX um produto do inferno?
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
DO INFERNO
Autor: MOORE, ALAN
Tradutor: MARTINS, JOTAPE
Ilustrador: CAMPBELL, EDDIE
Editora: EDITORA VENETA
Assunto: HQs - Quadrinhos
Idioma: PORTUGUÊS
Ano: 2014 Encadernação: CAPA DURA
Altura: 28,00 cm
Largura: 21,00 cm
Comprimento: 3,90 cm
Nº de Páginas: 592

terça-feira, 22 de agosto de 2017

AGENDA DE EVENTOS COMPANHIA DAS LETRAS


Eventos de lançamento de Lima Barreto: Triste visionário Lilia Moritz Schwarcz promove nesta semana diversos eventos de lançamento de Lima Barreto: Triste visionário, biografia do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma. Confira as datas e cidades.
Debate na UFRJ
Segunda-feira, 21 de agosto, às 17h
Lilia Moritz Schwarcz conversa sobre Lima Barreto com André Botelho, Beatriz Resende e Flávio Gomes.
Local: Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ - Largo São Francisco de Paula,1 - Rio de Janeiro, RJ Aula de lançamento em São Paulo
Terça-feira, 22 de agosto, às 19h30
Uma aula sobre a vida e a obra de Lima Barreto na inauguração do teatro do Sesc 24 de Maio. Retirada de ingressos a partir das 18h30 no foyer do teatro.
Local: Sesc 24 de Maio - Rua 24 de Maio, 109 - São Paulo, SP
Lançamento de Inquebrável
Fernando Fernandes e Pablo Miyazawa lançam Inquebrável pela Editora Paralela. Confira locais e datas dos eventos. São Paulo
Terça-feira, 22 de agosto, às 19h
Local: Saraiva do Shopping Pátio Paulista - Rua Treze de Maio, 1947 - São Paulo, SP
Rio de Janeiro
Quinta-feira, 24 de agosto, às 19h
Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon - Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 - Rio de Janeiro, RJ
Sempre um Papo com Luiz Eduardo Soares
Terça-feira, 22 de agosto, às 19h
Luiz Eduardo Soares, autor de Rio de Janeiro, participa de mais um encontro do Sempre um Papo.
Local: Auditório da Cemig - Rua Alvarenga Peixoto, 1220, Santo Agostinho - Belo Horizonte, MG
Lançamento de Chic profissional
Terça-feira, 22 de agosto, às 19h30
Gloria Kalil autografa Chic profissional em Curitiba.
Local: Livrarias Curitiba do Shopping Palladium - Av. Presidente Kennedy, 4121 - Curitiba, PR
Sessão de autógrafos com Raphael Montes
Quinta-feira, 24 de agosto, às 18h30
Raphael Montes, que está relançando Suicidas pela Companhia das Letras, autografa seus livros no Rio.
Local: Livraria da Travessa Botafogo - Rua Voluntários da Pátria, 97 - Rio de Janeiro, RJ
Marília Garcia autografa Câmera lenta
Quinta-feira, 24 de agosto, às 19h
Marília Garcia lança em São Paulo seu novo livro de poemas, Câmera lenta.
Local: Tapera, Taperá - Av. São Luís, 187, loja 29, Galeria Metrópole - São Paulo, SP
Ana Maria Machado na FLIM
De 25 a 27 de agosto
Autora de Ponto de Fuga e Um mapa todo seu, Ana Maria Machado é a autora homenageada da Festa Literária de Santa Maria Madalena, no Rio de Janeiro.
Autores do Grupo Companhia das Letras no Seminário Fazer Pensar Brasil
Sexta-feira, 25 de agosto, das 9h às 18h30
José Miguel Wisnik, Lilia Moritz Schwarcz, Pedro Meira Monteiro, André Botelho, Ricardo Teperman e Lira Neto participam do Seminário Fazer Pensar Brasil. O evento também contará com lançamento de Lima Barreto: Triste visionário.
Local: Instituto brincante - Rua Purpurina, 412, Vila Madalena - São Paulo, SP
ENTRADA FRANCA | Sujeito à lotação
Pré-inscrição: http://bit.ly/FazerPensarBrasil
Informações: http://bit.ly/FazerPensarBrasil_Eevento
Programação sujeita a alterações. Consulte o calendário atualizado Blog da Companhia

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A COLHER QUE DESAPARECE


Em química é comum atribuir nomes da mitologia aos elementos devido a suas propriedade. Na mitologia grega Tântalo foi condenado a sofrer eternamente de sede ainda que seu corpo estivesse mergulhado em um rio. Sempre que ele se curvava para beber de suas águas estas se afastavam de sua boca.
O elemento de numero atômico 73 recebeu esse nome devido a sua característica de não se misturar facilmente em água. O Tântalo é um elemento que normalmente se encontra no solo misturado a outros metais, geralmente é encontrado associado ao Nióbio. Na mitologia grega Nióbia era filha de Tântalo e por isso o elemento de numero atômico 41 recebeu foi batizado de Nióbio – pois ambos possuem propriedades físicas e químicas semelhantes.
Tântalo e Nióbio são elementos resistentes a corrosão, ou seja, são difíceis de sofrerem oxidação (perda de elétrons). Isso torna a ambos excelentes alternativos para a produção de baterias de aparelhos eletrônicos como celulares uma vez que ambos seguram bem uma carga elétrica. O principal fornecedor de Nióbio na década de 90 era a República Democrática do Congo – antigo Zaire. Tribos do Zaire estavam em guerra com rivais de Ruanda, na África Central. Em 1996 os terríveis massacres de Ruanda sinalizaram ao mundo o caráter brutal do conflito. O governo do Zaire precisava de dinheiro para manter a guerra e os massacres e esse dinheiro veio das empresas de componentes eletrônicos européias e ocidentais.
No Zaire o Tântalo e o Nióbio era retirados do solo de forma simples e rudimentar: bastava uma simples pá para recolher o barro cinzento que ficava nas margens dos rios e que era chamado de Coltran – basicamente uma mistura rica em Nióbio. Centenas de família se embrenharam nas matas em busca do ouro barrento que sustentava a guerra. Como passavam dias, e em alguns casos vários meses, no meio das matas as pessoas buscavam meios alternativos para se alimentar. A caça ao gorila africano atingiu o auge neste período.
Os garimpeiros passaram a se alimentar de carne de gorila para não morrer de fome. Esse contato entre humanos e gorilas provocou a ameaça de extinção do ultimo e alguns pesquisadores acreditam que foi esse contato que promoveu o desenvolvimento do vírus HIV – um vírus que se desenvolveu inicialmente nas células do gorila africano. O contato de seres humanos portadores de vírus patogenos a sua espécie - como a gripe comum – pode ter entrado em contato com o vírus HIV primitivo do gorila. Desse contato uma provável mutação permitiu ao vírus HIV adquirir receptores que permitissem sua entrada em células humanas, dando inicio a uma das maiores tragédias da historia do homem.
Essa é apenas uma das centenas de historias que preenchem a interessante obra de S.Kean “A colher que desaparece”. Como alguém apaixonado por química, como eu, a historia dos elementos químicos sempre foi um foco de minha atenção. O Nióbio vem ganhando destaque junto a mídia devido a expectativa representada por sua exploração econômica. Resta a nos torcer para que o seu passado sangrento não volte a se repetir.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A COLHER QUE DESAPARECE
Autor: KEAN, SAM
Tradutor: CARINA, CLAUDIO
Editora: ZAHAR
Ciências Exatas - Química
Ano: 2011
Nº de Páginas: 370

domingo, 13 de agosto de 2017

UMA HISTORIA DA ÓPERA


“Carmen” é uma opera cômica que termina em tragédia. A história se passa em Sevilha onde a cigana Carmen, uma mulher promiscua, convence Jose a abandonar sua carreira no exercito e se aliar ao bando de contrabandistas. Foi uma das óperas de maior sucesso do século XIX, mas parte de seu sucesso se deveu a um fato macabro de sua historia.
Em 2 de junho de 1875, durante a 33ª apresentação de “Carmen” a cantora Celestine Gelli-Marie desmaiou no palco após sentir uma forte dor no lado direito do corpo. O fato aconteceu durante o terceiro ato, no exato instante em que Celestine encenava a icônica cena do taro marcada pela aparição da carta da morte.
Após recobrar a consciência Celestine conseguiu terminar o espetáculo, mas logo em seguida caiu em prantos. Enquanto ainda tentava se recuperar do ocorrido chegou a noticia de que Bizet, autor da ópera “Carmen”, havia falecido poucas horas antes. Essa é outras historias estão presentes em “Uma historia da ópera”, de Carolyn Abbate e Roger Parker. Um texto ambicioso que se propõe a discutir os mais de quatrocentos anos de história da ópera, uma arte cuja beleza emerge do seu aspecto irreal.
O questionamento inicial que os autores levantam é bem interessante: para se apreciar a ópera é necessário que o publico entenda o idioma no qual ela é encenada? Alguns especialistas acreditam que não. Isto porque ao serem pronunciadas como musicas algumas palavras perdem o seu significado semântico. Entre os elementos que contribuem para essa perda está o som dos instrumentos que tanto servem como moldura para a voz humana como em determinados momentos suplantam essa mesma voz.
Existe de fato uma pretensão poética nas letras de algumas musicas, porem os significados dos mesmos versos mudam de acordo com a forma na qual são pronunciados: na poesia a beleza está no significado da palavra, na musica é o som dessa palavra que se destaca, portanto a musica explora muito mais o elemento estético da língua do que o seu significado verbal.
Outro ponto levantado pelos autores é o fato de a ópera ser tão exótica e, por conseqüência, estranha. Um dos elementos que essa arte busca é a fuga da realidade, provocar o esquecimento e isso inclui o abandono temporário da obsessão moderna pelo aspecto do visual perfeito. E dessa forma que, segundo os autores, a ópera apela para algo que transcende a estreita dimensão cognitiva humana.
Uma das coisas de que eu senti falta no início apareceu por volta da pagina duzentos, que é a contextualização histórica. Até esse momento os autores se detiveram nos aspectos mais técnicos da ópera. Mozart, como já era de se esperar, aparece como figura central. O compositor, no entanto, não tem tanto destaque quanto suas peças e seus trabalhos. Os aspectos biográficos surgem apenas como elementos de transição o que é muito bom tendo em vista aquilo que a obra tem como pretensão: narrar à história da ópera e não a história de seus ícones.
A contextualização do romantismo alemão na ópera é inserido no texto através de uma passagem belíssima da obra “Orlando”, de Virginia Woolf. Era meia noite de 31 de dezembro de 1799:
“O relógio deu meia noite, nuvens cobriram o céu a partir do norte, soprava um vento frio, a luz de mil velas douradas se extinguiu, e, subitamente, aqueles que estavam vestidos com diamantes e calções de seda branca e rendas prateadas e cetim cor de pêssego se envolveram em sombrios veludos e ornamentos feitos de contas de âmbar negro. O século XIX tinha chegado.”
A ópera alemã do século XIX tinha um aspecto xenofóbico bem evidente, e é por meio da contextualização que os autores explicam o porquê dessa hostilidade alemã para com os demais povos. As constantes invasões napoleônicas, por exemplo, criaram a imagem de uma nação violada, corrompida. Isso é muito interessante porque explica o anti-semitismo de alguns grandes ícones da ópera alemã como Richard Wagner – ícone supremo e símbolo maximo de admiração de Adolf Hitler, o cabo austríaco que em seus anos de juventude era um assíduo freqüentador das casas de ópera de Viena.
O problema maior aqui é a abrangência do publico alvo. Os autores obviamente criaram uma obra que fosse relevante para os críticos e também para o publico mais leigo. O resultado foi uma quebra no impulso narrativo devido a sua intermitência. Em um momento estamos lendo sobre a vida de um grande compositor e sobre a relevância de determinada ópera e no momento seguinte somos jogados numa tempestade entediante de análises puramente técnicas e incompreensíveis para qualquer leigo.
O que os autores fazem de melhor é apresentar ao leitor o material que este tem em mãos. O capitulo inicial é absurdamente bem escrito. Certamente é um texto que cumpre o que promete, pois desde o inicio fica claro que ele dialoga com todo tipo de leitor. Nas ultimas cem paginas a narrativa se torna mais truncada com muitas análises técnicas e com contextualizações ocasionais. Em uma delas os autores exploram a influencia da psicanálise de Freud nas encenações operísticas do final do século XIX.
Ao termino da leitura fica de fato a sensação de que a obra é direcionada a um publico familiarizado com o mundo da ópera, embora isso não signifique que não possa ser lido por um leigo que procura em textos desse gênero informações, como por exemplo, sobre a rotina dos atores, figurinos, detalhes arquitetônicos, histórias de bastidores, enfim o trivial associado a um resumo das óperas. Tudo isso está presente na obra porem de forma mais minimalista, o que predomina é a análise técnica: libretos, orquestrações, etc. Um ótimo texto onde a arte é sempre superior ao artista.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
UMA HISTORIA DA OPERA
Autor: ABBATE, CAROLYN e PARKER, ROGER
Tradutor: GEIGER, PAULO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2015
Nº de Páginas: 656

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

BIOGRAFIA INTIMA DE LEOPOLDINA


“nós, pobres princesas, somos como dados cuja sorte se joga e cujo destino depende do resultado. Dirás que sou uma verdadeira filosofa, mas o fogo da juventude se apaga facilmente quando as pessoas se tornam prudentes por experiência própria”.
- Leopoldina
“A biografia intima de Leopoldina” do cientista político Marsilio Cassoti, talvez venha resgatar a imagem real da princesa do Brasil, considerada até então como coadjuvante no processo de independência. Leopoldina foi tão determinante no processo quanto o próprio imperador Dom Pedro I. Lamentavelmente a historiografia brasileira encerrou-a dentro dos moldes da estrangeira feia, desleixada, subordinada ao marido e restrita ao papel de mãe.
Na obra de Cassotti vemos despertar uma jovem de beleza austríaca, inteligente e apaixonada por mineralogia e ciência. As primeiras cem paginas narram o período de formação de Leopoldina desde a infância até o momento em que ela finalmente desembarca no Brasil. Apesar de ser um texto fácil de ler acredito que essas primeiras paginas possam, de alguma forma, entediar leitores menos familiarizados com biografias de personalidades históricas. Não foi esse o meu caso!
Leopoldina teve no Brasil o que se pode definir como uma vida monótona e marcada por humilhações devido a infidelidades do seu marido. Ela se refugiava na natureza, se empenhava nas aulas de piano, português e latim. Adorava passar as tardes na famosa “cascatinha do tijuco” ou cavalgando. Esse estilo de vida pacato não tornava sua historia desinteressante embora não se possa dizer que possua o mesmo vigor que a historia de sua famosa tia, a extravagante rainha francesa Maria Antonieta.
A admiração por Leopoldina surge diante da narrativa de uma noite chuvosa quando uma princesa, ostentando um ventre com cinco meses de gestação, se levanta da cama preocupada com a perspectiva de um ataque das tropas portuguesas enviadas de Lisboa. Enquanto Leopoldina pensava na situação política, Dom Pedro se perdia nos braços de sua amante, a famosa Domitila de Castro. Na manha seguinte, 2 de setembro, a revelia de Dom Pedro, Leopoldina reuniu o Conselho de Estado. Foi esse conselho, marcado pela presença dominante de Jose Bonifacio de Andrada e Silva, outro ícone admirável da historia do Brasil, que deu inicio ao processo de separação de Portugal. Logo após e reunião do conselho Leopoldina escreveu a Dom Pedro:
“(...)O Conselho de Estado vos aconselha a ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças se partirmos agora para Lisboa. Sabemos bem o que tem sofrido nosso país. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito. O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com vosso apoio ou sem vosso apoio, ele fará sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrecerá.”
Após ler a carta de Leopoldina, Dom Pedro se restringiu ao gesto patético de dizer a seu assistente: “Dize à guarda que acabo de fazer a independência completa do Brasil. Estamos separados de Portugal!”
O tom político que a obra assume em determinado momento pode frustrar um pouco aqueles que esperavam de fato uma biografia “intima” da princesa do Brasil. No entanto após os acontecimentos do processo de independência a narrativa volta à esfera privada de Leopoldina, começando com a perda de seu mais poderoso aliado: Jose Bonifacio, que caluniado por seus rivais ousou levantar suspeitas sobre Domitila. Irritado com as alegações de Bonifacio o imperador acabou por demiti-lo do cargo de Ministro.
Leopoldina passou a se refugiar cada vez mais na natureza, passou a se importar ainda menos com sua aparência e a buscar na solidão das cavalgadas a resposta para seus dilemas. Na madrugada do dia 1º para 2 de dezembro ela sofreu um aborto espontâneo. Seu estado foi ficando cada vez mais critico até que na manha de 11 de dezembro de 1826 sua historia chegou ao fim. Tinha apenas 29 anos de idade.
A jovem princesa do Brasil certamente não tem o reconhecimento que deveria ter. Foi uma mulher admirável que certamente teria tido uma vida muito mais gloriosa como princesa de um país que valoriza-se mais as artes e o conhecimento. Sua tragédia talvez se deva ao fato de ser uma jovem princesa em um país ainda mais jovem. Ótimo Livro!!!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A BIOGRAFIA INTIMA DE LEOPOLDINA
Autor: CASSOTTI, MARSILIO
Editora: PLANETA DO BRASIL
Ano: 2015
Nº de Páginas: 304

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A BIBLIOTECA ESQUECIDA DE HITLER


Timothy Riback
É muito comum ouvir criticas sobre a saturação do mercado literário com obras sobre Hitler e o nazismo. Embora reconheça que existe uma atenção desproporcional das editoras brasileiras pelo tema, em função do seu apelo comercial, existem muitas obras que apesar de falarem de um mesmo evento o fazem de diferentes ângulos de modo que um funciona como complemento do outro.
O problema é que um mercado literário monotemático acaba deixando de lado inúmeros outros temas igualmente relevantes e que em alguns casos tratam de eventos pré e pós segunda guerra mundial (1939-1945). Isso é muito significativo, pois se cria um publico informado sobre os eventos da guerra, mas incapaz de identificar os elementos que levaram a ela ou compreender seus desdobramentos. Se existe uma obra que explora uma face até então desconhecida do ditador austríaco é “A biblioteca esquecida de Adolf Hitler” do historiador Timothy W. Riback.
É um texto sem grandes pretensões e direcionado a todo tipo de publico, inclusive o mais leigo. Não existe predomínio da política aqui e embora a obra se permita fazer uma breve biografia de Hitler à idéia é mostrar como ele moldou seu pensamento buscando amparo nos livros. Riback não oferece a imagem de um homem influenciado pelos livros, muito pelo contrario: Hitler já possuía suas convicções políticas e raciais e o que ele fazia era buscar nos livros autores que partilhassem dos mesmos pontos de vista.
O autor explora uma face mais humana de Hitler e nos mostra que ele não era um completo fanático nacionalista que considerava tudo que fosse alemão superior aos demais; ele, por exemplo, considerava Shakespeare muito superior a Goethe.
É um livro fácil de ler, muito interessante, com uma abordagem diferenciada e bem menos carregado de tensão que as demais obras sobre Hitler trazem em seu núcleo. Ótimo texto de um autor que resolveu se lembrar de algo que todos haviam se esquecido: o papel da leitura na vida de todos nos.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A BIBLIOTECA ESQUECIDA DE HITLER OS LIVROS QUE MOLDARAM SUA VIDA
Autor: RYBACK, TIMOTHY W.
Tradutor: KORYTOWSKI, IVO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2009
Nº de Páginas: 328

terça-feira, 25 de julho de 2017

CãozinhO


Foi-se embora o meu cãozinho!
Meu cãozinho se foi!
Meu herói... minha heroína;
Partiu com um dilacerante adeus
E me deixou aqui;
cheio de saudades;
cheio de lembranças;
que nunca morrem;
que nunca me deixam;
e que nunca me permitiram ser novamente
o que eu era antes dele.
TIAGO R. CARVALHO

sexta-feira, 14 de julho de 2017

FOI-SE O MARTELO!


Em um primeiro momento me parece ser bastante contraditória a posição do Partido Comunista Soviético em se auto proclamar como um produto do marxismo e ao mesmo tempo ser profundamente ideológico. Isto porque o próprio Karl Marx tinha um conceito bastante negativo quanto às ideologias. Ele as considerava como um mecanismo de coerção social que dificultava a percepção do que ele chamava de alienação.
Marx considerava como ideologia o conjunto de idéias e normas que condicionavam o comportamento dos indivíduos aos interesses da classe dominante. No sistema soviético supostamente não existiam classes, mas apenas uma: a do proletariado. Uma única classe com uma ideologia tornava o cidadão soviético alheio a todos os aspectos de sua vida. Era a forte ideologia do partido comunista que impedia que essa condição alienada torna-se obvia.
O que num primeiro momento me pareceu contraditório posteriormente se tornou bastante lógico: o responsável pela transfiguração da essência negativa do conceito marxista de ideologia para algo positivo foi o próprio Vladimir Lenin que criou a idéia de uma ideologia proletária oposta a opressiva ideologia burguesa. Na teoria um antagonismo, na pratica apenas mais do mesmo.
Relançado pela Companhia das Letras, em função do centenário da revolução russa, a obra “O tumulo de Lenin”, do jornalista norte americano David Remnick, é um mergulho político nos momentos finais do regime soviético. Corrupção, inflação, burocracia partidária, produtividade insuficiente, diferenças culturais e étnicas, escassez generalizada e altos gastos com industria bélica na manutenção da linha de frente da guerra fria fizeram o gigante vermelho desmoronar.
Não é uma obra que se detém em informações, ou seja, ela presume que seu leitor tenha certo conhecimento dos fatos apresentados. O quadro histórico é apresentado sem muitos esclarecimentos, o que é muito bom tendo em vista o que o texto de propõe a ser. O autor constrói uma espécie de crônica sobre o que ele viu em diversas cidades da União Soviética no período de 1985 a 1991.
O livro é recheado de entrevistas que oscilam do cidadão comum ao mundialmente conhecido físico Andrei Sakarov. É por meio dessas entrevistas que Remnick resgata alguns lampejos da trágica historia russa do século XX. Esse é sem duvida um dos grandes méritos da obra pois a forma como o autor transita entre o passado é o presente é construída por meio de uma narrativa artificiosa e agradável.
O tema central é basicamente a política de Mikhail Gorbatchev que promoveu a desfragmentação da União Soviética e a sua posterior transição de um regime socialista para um democrático. A narrativa se articula em torno da Perestróika e tenta mostrar a polaridade política entre os que defendiam a necessidade de reformas e a linha dura do partido comunista.
Alguns capítulos possuem nomes de obras clássicas da literatura como “Gente Pobre” de Dostoievski e “Ilusões Perdidas” de Balzac. Outros fazem uma espécie de paralelo entre o que existia na literatura e o que podia ser visto na União Soviética, como é o caso do impressionante capitulo “A revolução subterrânea” no qual a realidade dos mineiros da cidade siberiana de Mezhdurechensk é comparada a dos mineiros da fantástica obra de Emile Zola: “Germinal”.
O “Tumulo de Lenin” é uma obra excelente, e eu diria que é mais um grande acerto da Companhia das Letras. Grande em todos os sentidos, pois a obra possui 670 paginas de texto (excluindo as paginas com notas e referencias). O projeto gráfico é bem simples e com poucas fotos.
Não é uma obra que agradaria a todo tipo de leitor, pois apesar de ser um texto bem fácil ele possui uma boa dose de política, sobretudo nas ultimas paginas quando o foco passa para a tentativa de golpe de Estado dos conservadores e o ataque ao prédio do Parlamento Russo. Mas para quem se interessa pelo tema chega a ser muito satisfatório ler sobre ícones como Boris Yeltsin e Gorbatchev em meio ao turbilhão político que marcou o final do século XX e sobre o qual se ergueu o século seguinte que já nasceu em meio a incertezas e cercado por todo tipo de violência. Grande livro, ótima narrativa e um excelente resgate histórico.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
O TUMULO DE LENIN
OS ULTIMOS DIAS DO IMPERIO SOVIETICO Autor: REMNICK, DAVID
Tradutor: COUTO, JOSE GERALDO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2017
Nº de Páginas: 712

terça-feira, 4 de julho de 2017

LONDRES 1854: COLERA


“Todo limite é um começo tanto quanto um final”
– George Eliot
No século XIX Londres era a maior de todas as metrópoles. Marca indelével da atividade humana a nível geográfico e social; um verdadeiro formigueiro humano cujo crescimento desordenado havia criado um falso ecossistema: a matéria era consumida, mas não reciclada. Em 1854 dois milhões de londrinos, amontoados entre ruas fedorentas, cobertas de lixo e sufocadas pela poluição das fabricas, estariam diante de uma das mais terríveis epidemias de Cólera de sua história.
O surto teve inicio no dia 28 de agosto de 1854, nas imediações da rua Broad Street, mais precisamente no numero 40, onde vivia a família Lewis. O bebe de Sarah Lewis havia começado a apresentar sinais de febre e diarréia. Fazia muito calor naqueles dias e a população da cidade sufocava debaixo de quase 30°C. Sarah despejava diariamente a água que utilizava para lavar as fraudas de seu bebe em uma fossa que ficava diante de sua casa e a poucos metros da bomba de água que abastecia a rua.
O fato de haver uma fossa bem ao lado da bomba de água não preocupava os moradores do bairro que apreciavam a água da Broad Street devido a sua alta concentração de dióxido de carbono, o que tornava seu gosto mais agradável. O que esses mesmo moradores não sabiam é que estavam consumindo água contaminada com alta concentração de vibrio Cholerae – a bactéria causadora da cólera.
As bactérias presentes nas fezes do bebe Lewis haviam se misturados ao solo lodoso que ficava entre a bomba e a fossa. Com facilidade elas atravessaram o revestimento de cimento do poço de água e aberto caminho até suas águas. O Vibrio Cholerae precisava apenas de um meio para chegar ao intestino humano. Dentro do corpo a bacteria se associam a uma proteína que facilita sua proliferação exponencial: a cada unidade de tempo seu numero dobra.
Assim que chegar ao intestino a bactéria começa a produzir uma toxina que altera o metabolismo celular do revestimento intestinal. O corpo perde a capacidade de absorver água. A presença da toxina no intestino provoca uma reação imunológica que leva o organismo a tentar eliminar o seu conteúdo através de uma diarréia com intensa perda de líquidos. A diarréia associada aos vômitos ocasiona uma desidratação severa. Como conseqüência o sangue se torna mais grosso, a pressão sanguínea cai e o coração passa a trabalhar em um ritmo mais intenso para compensar a perda. Orgãos não vitais entram em colapso.
A vitima começa a sentir formigamentos nos pés e nas mãos, conseqüência da contração dos vasos sanguíneos. O corpo retira sangue das extremidades e passa a enviá-los aos órgãos mais vitais. Os rins passam a trabalhar mais intensamente, porem, logo entram em colapso devido ao aumento de substancias tóxicas liberadas pelo metabolismo celular. A perda de água leva ao aumento da concentração desses resíduos. Com a falha dos rins a febre se torna mais intensa. O cérebro passa a reconhecer o acumulo de resíduos do metabolismo celular como agentes patogênicos. O hipotálamo em resposta eleva a temperatura corporal. Por fim o próprio cérebro entra em colapso devido à falta de organização. A vitima entra em coma e em seguida morre.
Em um período de apenas 10 dias mais de 500 pessoas morreriam dessa forma nas imediações da rua Broad Street. Steven Johnson resgata essa tragédia em sua magnífica obra “O mapa Fantasma”. Em uma narrativa que se assemelha a um thriller cientifico, Johnson reconstrói os passos de dois homens: o medico John Snow e o padre Henry Whitehead. Ambos, valendo-se de dados estáticos, conhecimentos científicos e mapas, conseguiram traçar os caminhos da epidemia e determinar pela primeira vez que a Cólera era ocasionada pela ingestão de água contaminada e não por odores fétidos.
A obra de Johnson foi uma das mais gratificantes surpresas de leitura que tive em 2016. O texto me cativou desde as primeiras linhas com seu tom fluido é informativo. O texto começa contando um pouco sobre os limpadores de fossa que trabalhavam nas ruas de Londres. Apresenta informações sobre as tentativas de melhorias sanitárias na metrópole, como, por exemplo, a implantação de vasos sanitários nas residências. Tudo evolui até o momento em que ocorre o inicio da epidemia e essa transição é feita de forma absurdamente competente por parte do autor.
Ao estabelecer a narrativa do tema central o texto nos apresenta seus dois protagonistas. A partir daí o ritmo narrativo é intermitente e oscila entre informações sobre a Cólera é sobre o empenho de Snow e Whitehead para chegar à origem da epidemia. O final da obra é um magnífico quadro geral da tragédia humana que a cólera representou para diversas cidades no século XIX e que só foi vencida pela união entre medicina, engenharia e ciência.
O autor também explora os perigos que as grandes densidades urbanas do século XXI representam para suas populações seja a nível de ataques terroristas ou a nível microscópico como, por exemplo, a proximidade entre um simples vírus da gripe de um vírus de alta letalidade. Em alguns casos onde ocorrem epidemias periódicas do Ebola as organizações de saúde aconselham a vacinação da população contra a gripe comum. Segundo Johnson essa medida é para impedir que os dois vírus infectem um mesmo individuo o que poderia ocasionar troca de material genético entre os agentes patogenos e resultar em formas mutantes e ainda mais letais de novos vírus.
“O mapa fantasma” é uma excelente obra, com conteúdo atual e ao mesmo tempo um retrato vivo do passado.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
O MAPA FANTASMA - COMO A LUTA DE DOIS HOMENS CONTRA O COLERA MUDOU
Autor: JOHNSON, STEVEN
Subtítulo: COMO A LUTA DE DOIS HOMENS CONTRA O COLERA MUDOU
Editora: ZAHAR
Ano: 2008
Nº de Páginas: 276

quinta-feira, 22 de junho de 2017

CAMINHOS DE FERRO


A guerra floreia o horizonte das possibilidades, pois vive-se o presente com tamanha intensidade que pensar no futuro se torna um alivio. A historia da “grande guerra patriótica” não é a historia do comunismo, do socialismo ou do stalinismo, pois a realidade da guerra anulou o elemento critico do povo soviético frente a seus valores ideológicos.
“A guerra não tem rosto de mulher”, obra da escritora bielorrussa Svetlana Aleksievitch, chegou ao Brasil com uma forte publicidade que vendia a imagem de uma obra predominantemente trágica. De fato o texto possui um tom dramático bem pronunciado, no entanto, existe uma alternância entre momentos mais densos e outros mais palatáveis ao leitor menos familiarizado como a crueza tradicional de narrativas do gênero. Existem sim momentos de alivio cômico, mas esses momentos não são tão evidentes. É um humor mais contido. O leitor deve saber onde buscar esse humor. É aquela velha história: “seria cômico se não fosse trágico.”
O grande mérito de Svetlana foi conseguir organizar uma obra com ritmo narrativo lento sem que isso sacrifica-se a intensidade do texto. É uma obra que possui um vigor absurdo e natural. Quem já se habituou a escrita de Svetlana sabe que em suas obras o elemento humano predomina. É por meio da intercalação de dramas particulares que ela constrói um quadro mais amplo de determinado evento. O que ela trás de inovador é a ausência do olhar patriótico e glamoroso com o qual tradicionalmente têm se tratado o tema da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), sobretudo por Hollywood.
Esse típico olhar, eu diria romantizado da guerra, não existe aqui. A abordagem de Svetlana é muito mais brutal muito mais realista. Ela opta por um estilo narrativo que explora a forma como os eventos foram assimilados pelos sobreviventes sem se importar muito com o rigor da narrativa histórica. Como ela mesma escreveu logo em seu primeiro capitulo “o ser humano é maior do que a guerra.”
O conflito adquire uma dimensão própria por meio da ótica feminina. Tudo fica muito mais subjetivo e, por conseguinte, muito mais intenso. É uma nova imagem do conflito ainda mais brutal do que aquela destilada pela ótica masculina insensível aos dramas pessoais e escrava do sensacionalismo patriótico. A adaptação das mulheres a um ambiente naturalmente hostil ao seu sexo foi descrita pela autora de forma genérica, mas ainda assim cativante.
“A guerra não tem rosto de mulher” é uma obra impressionante do inicio ao fim e que nos mostra que em uma guerra cada um busca meios próprios de justificar sua brutalidade. É um texto duro, intenso e em muitos momentos difícil de ler. Em determinados momentos me peguei refletindo sobre como retratar um povo que sobreviveu a tamanha brutalidade. Antigas imagens do período soviético me vieram à mente é subitamente compreendi que o melhor símbolo para aquele povo é a locomotiva: pois tanto um quanto o outro percorreram caminhos de ferro.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A GUERRA NAO TEM ROSTO DE MULHER
Autor: ALEKSIEVITCH, SVETLANA
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano de Edição: 2016
Nº de Páginas: 392

segunda-feira, 12 de junho de 2017

ILÍADA E ODISSEIA: UM BREVE COMENTÁRIO DE LEITURA


Ler a obra de Homero me fez enxergar o que é abordar com maestria o mesmo acontecimento através de dois pontos distintos: um coletivo e o outro pessoal. Na “ilíada” a guerra é retratada em um plano geral, épico. Na "Odisséia" ocorre uma focalização das conseqüência do conflito a nível mais particular. É uma espécie de contração narrativa muito bem construída.
A “Ilíada” é sem duvida um texto mais grandioso e menos cansativo que a “Odisséia” porque oscila o foco narrativo. É uma obra cujo tema principal é o próprio Aquiles, mas cuja grandiosidade é sinalizada pela guerra de Tróia. Outros personagens se destacam e o elemento humano se torna mais presente.
Os dramas de consciência de Aquiles deram o tom de profundidade que uma obra clássica precisa e as passagens sobre as batalhas são sempre muito violentas, grandiosas e alegóricas. Não é uma violência gratuita, pelo contrario, ela direciona o leitor para o mesmo tipo de drama vivido pelo protagonista e o leva a seguinte duvida: Por gloria pessoal e pura vaidade é justificável que tais atos sejam encenados? As perdas são proporcionais aos ganhos da vitoria?
Apesar de ser um texto mais difícil de ser lido – em função da quebra de linearidade cronológica do enredo – a linguagem poética dos versos funcionou melhor na “Odisséia” do que na “Ilíada”. A “Odisséia” possui um apelo sentimental infinitamente mais pronunciado: a saudade do lar, a perda dos amigos, as dificuldades enfrentadas para o retorno ao lar as decisões difíceis. Seu enredo definitivamente favorece ao tom poético e introspectivo.
O que torna a “Odisséia” um texto mais complexo é a sua estrutura narrativa. As inversões no tempo são elementos difíceis de se associar ao arco evolutivo dos personagens. Fica mais difícil acompanhar as mudanças de postura e de comportamento dos personagens de forma satisfatória.
Tem-se dito que a “Odisséia” é um poema machista, porem eu discordo. Homero soube bem ressaltar tanto as qualidades do sexo masculino quanto do feminino: A astuciosa Penélope não pode ser vista senão como o retrato feminino da inteligência; a facilidade com que Circe encanta, por meio de sua beleza, a tripulação de Odisseu parece buscar sublinhar, mesmo que de forma não intencional, uma fraqueza masculina diante do poder sedutor da mulher.
O aspecto machista da “Odisséia” aparece porque a própria mitologia possuía uma construção que atualmente pode ser encarada como machista. Quase todos os monstros haviam sido mulheres que foram castigadas. Ate mesmo o cristianismo é carregado de concepções machistas: Eva a mulher responsável por condenar a humanidade a ser expulsa do Eden.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
Odisseia e Ilíada - Caixa
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Capa dura: 958 páginas
Editora: Nova Fronteira;
Idioma: Português

quarta-feira, 26 de abril de 2017

VOZES DO DESASTRE


Ao meio dia de 26 de abril de 1986 o vice Ministro de Energia, A. Makhunin expediu um relatório que foi entregue ao secretario geral do partido comunista soviético, Mikhail Gorbachev:
“Em 26.04.86, à 1h21, na Chernobyl AES [Usina de Energia Atômica], em seguida ao desligamento do reator do Bloco 4 e durante a remoção dos componentes para manutenção, ocorreu uma explosão na parte superior do reator. As 3h30 o incêndio foi debelado. O pessoal da AES está tomando medidas para resfriar a zona ativa do reator. Na opinião da terceira administração Principal do Ministério da Saúde da URSS, providencias especiais, inclusive a evacuação dos habitantes da cidade, não são necessárias.”
RELATO DE UMA SOBREVIVENTE
“Há uma região de Minsk de que eu gosto muito, fica no bairro dos correios, na rua Volodárski. Ali, embaixo do relógio, começamos a nos encontrar. Eu morava perto da fabrica têxtil e tomava o ônibus numero 5, que não parava exatamente nos correios, mas um pouco mais a frente, próximo a uma loja de roupas intimas infantis. O ônibus sempre avança lentamente na curva, que era justamente o que eu precisava. Eu sempre retardava um pouco minha chegada só para passar de ônibus por ele, vê-lo da janela e suspirar por aquele rapaz tão belo estar me esperando. Durante aqueles dois anos, não me dava conta de nada, nem do inverno, nem do verão. Ele me levava a concertos, para ouvir minha cantora preferida, Edit Piékha. Não saiamos para dançar. Ele não sabia. E nos beijávamos o tempo todo. Ele me chamava de “minha pequena”. No dia do meu aniversario...outra vez no dia do meu aniversario. É estranho mas as coisas mais importante da minha vida ocorreram nessa data; depois disso, como não acreditar no destino! Marcamos um encontro às cinco. Estou embaixo do relógio esperando e ele não chega. As seis estou desolada e em lagrimas, ando na direção do meu ponto de ônibus; atravesso a rua e decido olhar em volta, como se pressentisse, e ele estava La, atravessando o semáforo vermelho, e corre até mim vestido com uma roupa especial do trabalho e de botas. Não o liberaram antes. Assim é como eu mais gostava, em roupas de caça e jaqueta; tudo fica bem nele. Fomos para a casa dele (...) decidimos comemorar o meu aniversario num restaurante, mas não conseguimos, já era tarde e todos estavam cheios. (...) Passamos em uma loja, compramos uma garrafa de champanhe, um sortido de pasteis e vamos ao parque, celebrar lá. Sob as estrelas, sob o céu! Assim era ele! Passamos a noite num banco do parque Gorki, até o amanhecer.”
Essa história não acaba bem, pois o homem aprendeu a controlar o fogo, mas não as suas conseqüências. Esse é o trecho do relato de Valentina Timofiéevna Apanassiévitch, esposa de um dos liquidadores de Chernobyl. O desfecho dessa história revela que a felicidade humana é de fato uma redoma de vidro. Lançado pelo selo Companhia das Letras a obra “Vozes de Tchernobyl”, da ganhadora do premio Nobel Svetlana Aleksiévitch, é um retrato perturbador da tragédia. O foco aqui é a tragédia humana em face do poder destrutivo de uma era dominada pelo poder do átomo.
O tom dramático do texto é bem pronunciado o que costuma desagradar alguns leitores que tem por esse recurso narrativo certa dose de hostilidade. De fato é comum encontrar em alguns textos o emprego do recurso dramático como disfarce para uma linguagem rasa e desinteressante, mas definitivamente isso não acontece aqui. Svetlana deu um novo tratamento à tragédia de seu tempo resgatando um passado onde o homem era agente e ao mesmo tempo vitima de suas atitudes.
Não e fácil perceber os artifícios com os quais a autora prende a atenção do leitor. O mais evidente de todos é sem duvida o elemento emocional que ela busca ressaltar os relatos que preenchem sua obra. Esse tipo de abordagem não é fácil de se fazer sem correr o risco de cair numa narrativa repetitiva e pouco verossímil. Um texto cuja base são memórias nem sempre é aceito de forma plena, isso porque os relatos quase sempre se divergem e em alguns casos se contradizem. Acontece que esse tipo de material nas mãos de uma grande escritora, como é o caso de Svetlana, se transforma em um texto perturbador, humano e nada convencional.
Não existe uma abordagem técnica do evento, ou seja, não espere encontrar aqui um relato cronológico dos eventos que levaram ao acidente, o foco da autora não é o fato em si, mas os seus desdobramentos. Intermitência é algo que define bem a forma com os relatos estão dispersos na obra: um relato mais intenso e seguido por outro com certa dose de alivio cômico. É uma alternância muito bem vinda que alem de mostrar a tragédia por diversos ângulos impede que a leitura se torne cansativa, embora não se possa dizer que essa é uma obra agradável de ler. Existem muitas passagens fortes e difíceis de serem digeridas.
Definitivamente não é uma obra que adota o convencionalismo como meio de expressão. A idéia de um texto composto por relatos esta longe de ser algo original, mas a originalidade aqui esta no foco da autora e não no formato do texto. Svetlana reconstrói o passado a partir de sua base, onde estão os anônimos que a escreveram e que a encenaram longe dos holofotes da fama. Seus protagonistas são as vozes que nunca foram ouvidas.
É essa busca de verdades no anonimato que faz a obra de Svetlana ir muito alem do acidente em si. A tragédia é sempre acompanhada pelos elementos negativos característicos do governo soviético: descaso do poder público, negligencia, baixo nível sócio educacional, burocracia política, crueldade gratuita e violência. Quanto a esses temas a autora não emprega uma abordagem direta, mas sim reflexiva. O baixo nível educacional, por exemplo, é retrato através de relatos de sobreviventes que se mostravam incapazes de compreender e ate de acreditar na existência de radiação. Uma onda eletromagnética sem cor, sem cheiro e que fosse capaz de destruir um organismo vivo e contaminar o solo de suas plantações parecia algo de outro mundo.
Os próprios lideres soviéticos eram medíocres quanto aos temas científicos. Acostumados às escolas onde se ensinava apenas marxismo e política se mostraram incapazes de compreender a extensão dos danos provocados por uma tragédia daquele tipo. A obra de Svetlana é um texto espetacular que retrata a tragédia de seu povo e também a face de um regime político que já via no horizonte o colapso de seu próprio sistema.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
VOZES DE TCHERNÓBIL
Svetlana Aleksiévitch
Páginas: 384
Selo: Companhia das Letras

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