quinta-feira, 22 de junho de 2017

CAMINHOS DE FERRO


A guerra floreia o horizonte das possibilidades, pois vive-se o presente com tamanha intensidade que pensar no futuro se torna um alivio. A historia da “grande guerra patriótica” não é a historia do comunismo, do socialismo ou do stalinismo, pois a realidade da guerra anulou o elemento critico do povo soviético frente a seus valores ideológicos.
“A guerra não tem rosto de mulher”, obra da escritora bielorrussa Svetlana Aleksievitch, chegou ao Brasil com uma forte publicidade que vendia a imagem de uma obra predominantemente trágica. De fato o texto possui um tom dramático bem pronunciado, no entanto, existe uma alternância entre momentos mais densos e outros mais palatáveis ao leitor menos familiarizado como a crueza tradicional de narrativas do gênero. Existem sim momentos de alivio cômico, mas esses momentos não são tão evidentes. É um humor mais contido. O leitor deve saber onde buscar esse humor. É aquela velha história: “seria cômico se não fosse trágico.”
O grande mérito de Svetlana foi conseguir organizar uma obra com ritmo narrativo lento sem que isso sacrifica-se a intensidade do texto. É uma obra que possui um vigor absurdo e natural. Quem já se habituou a escrita de Svetlana sabe que em suas obras o elemento humano predomina. É por meio da intercalação de dramas particulares que ela constrói um quadro mais amplo de determinado evento. O que ela trás de inovador é a ausência do olhar patriótico e glamoroso com o qual tradicionalmente têm se tratado o tema da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), sobretudo por Hollywood.
Esse típico olhar, eu diria romantizado da guerra, não existe aqui. A abordagem de Svetlana é muito mais brutal muito mais realista. Ela opta por um estilo narrativo que explora a forma como os eventos foram assimilados pelos sobreviventes sem se importar muito com o rigor da narrativa histórica. Como ela mesma escreveu logo em seu primeiro capitulo “o ser humano é maior do que a guerra.”
O conflito adquire uma dimensão própria por meio da ótica feminina. Tudo fica muito mais subjetivo e, por conseguinte, muito mais intenso. É uma nova imagem do conflito ainda mais brutal do que aquela destilada pela ótica masculina insensível aos dramas pessoais e escrava do sensacionalismo patriótico. A adaptação das mulheres a um ambiente naturalmente hostil ao seu sexo foi descrita pela autora de forma genérica, mas ainda assim cativante.
“A guerra não tem rosto de mulher” é uma obra impressionante do inicio ao fim e que nos mostra que em uma guerra cada um busca meios próprios de justificar sua brutalidade. É um texto duro, intenso e em muitos momentos difícil de ler. Em determinados momentos me peguei refletindo sobre como retratar um povo que sobreviveu a tamanha brutalidade. Antigas imagens do período soviético me vieram à mente é subitamente compreendi que o melhor símbolo para aquele povo é a locomotiva: pois tanto um quanto o outro percorreram caminhos de ferro.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A GUERRA NAO TEM ROSTO DE MULHER
Autor: ALEKSIEVITCH, SVETLANA
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano de Edição: 2016
Nº de Páginas: 392

segunda-feira, 12 de junho de 2017

ILÍADA E ODISSEIA: UM BREVE COMENTÁRIO DE LEITURA


Ler a obra de Homero me fez enxergar o que é abordar com maestria o mesmo acontecimento através de dois pontos distintos: um coletivo e o outro pessoal. Na “ilíada” a guerra é retratada em um plano geral, épico. Na "Odisséia" ocorre uma focalização das conseqüência do conflito a nível mais particular. É uma espécie de contração narrativa muito bem construída.
A “Ilíada” é sem duvida um texto mais grandioso e menos cansativo que a “Odisséia” porque oscila o foco narrativo. É uma obra cujo tema principal é o próprio Aquiles, mas cuja grandiosidade é sinalizada pela guerra de Tróia. Outros personagens se destacam e o elemento humano se torna mais presente.
Os dramas de consciência de Aquiles deram o tom de profundidade que uma obra clássica precisa e as passagens sobre as batalhas são sempre muito violentas, grandiosas e alegóricas. Não é uma violência gratuita, pelo contrario, ela direciona o leitor para o mesmo tipo de drama vivido pelo protagonista e o leva a seguinte duvida: Por gloria pessoal e pura vaidade é justificável que tais atos sejam encenados? As perdas são proporcionais aos ganhos da vitoria?
Apesar de ser um texto mais difícil de ser lido – em função da quebra de linearidade cronológica do enredo – a linguagem poética dos versos funcionou melhor na “Odisséia” do que na “Ilíada”. A “Odisséia” possui um apelo sentimental infinitamente mais pronunciado: a saudade do lar, a perda dos amigos, as dificuldades enfrentadas para o retorno ao lar as decisões difíceis. Seu enredo definitivamente favorece ao tom poético e introspectivo.
O que torna a “Odisséia” um texto mais complexo é a sua estrutura narrativa. As inversões no tempo são elementos difíceis de se associar ao arco evolutivo dos personagens. Fica mais difícil acompanhar as mudanças de postura e de comportamento dos personagens de forma satisfatória.
Tem-se dito que a “Odisséia” é um poema machista, porem eu discordo. Homero soube bem ressaltar tanto as qualidades do sexo masculino quanto do feminino: A astuciosa Penélope não pode ser vista senão como o retrato feminino da inteligência; a facilidade com que Circe encanta, por meio de sua beleza, a tripulação de Odisseu parece buscar sublinhar, mesmo que de forma não intencional, uma fraqueza masculina diante do poder sedutor da mulher.
O aspecto machista da “Odisséia” aparece porque a própria mitologia possuía uma construção que atualmente pode ser encarada como machista. Quase todos os monstros haviam sido mulheres que foram castigadas. Ate mesmo o cristianismo é carregado de concepções machistas: Eva a mulher responsável por condenar a humanidade a ser expulsa do Eden.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
Odisseia e Ilíada - Caixa
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Capa dura: 958 páginas
Editora: Nova Fronteira;
Idioma: Português

quarta-feira, 26 de abril de 2017

VOZES DO DESASTRE


Ao meio dia de 26 de abril de 1986 o vice Ministro de Energia, A. Makhunin expediu um relatório que foi entregue ao secretario geral do partido comunista soviético, Mikhail Gorbachev:
“Em 26.04.86, à 1h21, na Chernobyl AES [Usina de Energia Atômica], em seguida ao desligamento do reator do Bloco 4 e durante a remoção dos componentes para manutenção, ocorreu uma explosão na parte superior do reator. As 3h30 o incêndio foi debelado. O pessoal da AES está tomando medidas para resfriar a zona ativa do reator. Na opinião da terceira administração Principal do Ministério da Saúde da URSS, providencias especiais, inclusive a evacuação dos habitantes da cidade, não são necessárias.”
RELATO DE UMA SOBREVIVENTE
“Há uma região de Minsk de que eu gosto muito, fica no bairro dos correios, na rua Volodárski. Ali, embaixo do relógio, começamos a nos encontrar. Eu morava perto da fabrica têxtil e tomava o ônibus numero 5, que não parava exatamente nos correios, mas um pouco mais a frente, próximo a uma loja de roupas intimas infantis. O ônibus sempre avança lentamente na curva, que era justamente o que eu precisava. Eu sempre retardava um pouco minha chegada só para passar de ônibus por ele, vê-lo da janela e suspirar por aquele rapaz tão belo estar me esperando. Durante aqueles dois anos, não me dava conta de nada, nem do inverno, nem do verão. Ele me levava a concertos, para ouvir minha cantora preferida, Edit Piékha. Não saiamos para dançar. Ele não sabia. E nos beijávamos o tempo todo. Ele me chamava de “minha pequena”. No dia do meu aniversario...outra vez no dia do meu aniversario. É estranho mas as coisas mais importante da minha vida ocorreram nessa data; depois disso, como não acreditar no destino! Marcamos um encontro às cinco. Estou embaixo do relógio esperando e ele não chega. As seis estou desolada e em lagrimas, ando na direção do meu ponto de ônibus; atravesso a rua e decido olhar em volta, como se pressentisse, e ele estava La, atravessando o semáforo vermelho, e corre até mim vestido com uma roupa especial do trabalho e de botas. Não o liberaram antes. Assim é como eu mais gostava, em roupas de caça e jaqueta; tudo fica bem nele. Fomos para a casa dele (...) decidimos comemorar o meu aniversario num restaurante, mas não conseguimos, já era tarde e todos estavam cheios. (...) Passamos em uma loja, compramos uma garrafa de champanhe, um sortido de pasteis e vamos ao parque, celebrar lá. Sob as estrelas, sob o céu! Assim era ele! Passamos a noite num banco do parque Gorki, até o amanhecer.”
Essa história não acaba bem, pois o homem aprendeu a controlar o fogo, mas não as suas conseqüências. Esse é o trecho do relato de Valentina Timofiéevna Apanassiévitch, esposa de um dos liquidadores de Chernobyl. O desfecho dessa história revela que a felicidade humana é de fato uma redoma de vidro. Lançado pelo selo Companhia das Letras a obra “Vozes de Tchernobyl”, da ganhadora do premio Nobel Svetlana Aleksiévitch, é um retrato perturbador da tragédia. O foco aqui é a tragédia humana em face do poder destrutivo de uma era dominada pelo poder do átomo.
O tom dramático do texto é bem pronunciado o que costuma desagradar alguns leitores que tem por esse recurso narrativo certa dose de hostilidade. De fato é comum encontrar em alguns textos o emprego do recurso dramático como disfarce para uma linguagem rasa e desinteressante, mas definitivamente isso não acontece aqui. Svetlana deu um novo tratamento à tragédia de seu tempo resgatando um passado onde o homem era agente e ao mesmo tempo vitima de suas atitudes.
Não e fácil perceber os artifícios com os quais a autora prende a atenção do leitor. O mais evidente de todos é sem duvida o elemento emocional que ela busca ressaltar os relatos que preenchem sua obra. Esse tipo de abordagem não é fácil de se fazer sem correr o risco de cair numa narrativa repetitiva e pouco verossímil. Um texto cuja base são memórias nem sempre é aceito de forma plena, isso porque os relatos quase sempre se divergem e em alguns casos se contradizem. Acontece que esse tipo de material nas mãos de uma grande escritora, como é o caso de Svetlana, se transforma em um texto perturbador, humano e nada convencional.
Não existe uma abordagem técnica do evento, ou seja, não espere encontrar aqui um relato cronológico dos eventos que levaram ao acidente, o foco da autora não é o fato em si, mas os seus desdobramentos. Intermitência é algo que define bem a forma com os relatos estão dispersos na obra: um relato mais intenso e seguido por outro com certa dose de alivio cômico. É uma alternância muito bem vinda que alem de mostrar a tragédia por diversos ângulos impede que a leitura se torne cansativa, embora não se possa dizer que essa é uma obra agradável de ler. Existem muitas passagens fortes e difíceis de serem digeridas.
Definitivamente não é uma obra que adota o convencionalismo como meio de expressão. A idéia de um texto composto por relatos esta longe de ser algo original, mas a originalidade aqui esta no foco da autora e não no formato do texto. Svetlana reconstrói o passado a partir de sua base, onde estão os anônimos que a escreveram e que a encenaram longe dos holofotes da fama. Seus protagonistas são as vozes que nunca foram ouvidas.
É essa busca de verdades no anonimato que faz a obra de Svetlana ir muito alem do acidente em si. A tragédia é sempre acompanhada pelos elementos negativos característicos do governo soviético: descaso do poder público, negligencia, baixo nível sócio educacional, burocracia política, crueldade gratuita e violência. Quanto a esses temas a autora não emprega uma abordagem direta, mas sim reflexiva. O baixo nível educacional, por exemplo, é retrato através de relatos de sobreviventes que se mostravam incapazes de compreender e ate de acreditar na existência de radiação. Uma onda eletromagnética sem cor, sem cheiro e que fosse capaz de destruir um organismo vivo e contaminar o solo de suas plantações parecia algo de outro mundo.
Os próprios lideres soviéticos eram medíocres quanto aos temas científicos. Acostumados às escolas onde se ensinava apenas marxismo e política se mostraram incapazes de compreender a extensão dos danos provocados por uma tragédia daquele tipo. A obra de Svetlana é um texto espetacular que retrata a tragédia de seu povo e também a face de um regime político que já via no horizonte o colapso de seu próprio sistema.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
VOZES DE TCHERNÓBIL
Svetlana Aleksiévitch
Páginas: 384
Selo: Companhia das Letras

sábado, 25 de março de 2017

PARAÍSO PERDIDO


Temos aqui um texto difícil de ler e com uma complexidade que vai desde palavras difíceis a uma métrica poética nada convidativa. É um texto custoso de se ler, arrastado, mas isso não significa que seja ruim, muito pelo contrario: trata-se de um texto desafiador. Talvez não seja um épico tão conhecido, como é o caso da “Ilíada” e da “Odisséia”, porque não se trata de um enredo completamente original. Ele é basicamente a história do Genesis bíblico, mas que se articula de forma genial através das palavras irônicas de um dos maiores poetas da literatura inglesa.
É sempre complicado fazer uma critica de “Paraiso Perdido” sem correr o risco de ser mal compreendido. Uma critica é uma analise dos elementos que compõem a obra, como enredo, tradução, estruturação, fluidez narrativa etc. Uma critica focada apenas nos elementos mais técnicos se torna improdutiva porque restringe seu publico alvo. Para construir uma critica mais atrativa são os elementos de criação artística que devem ser evidenciados, como por exemplo, os personagens. E é ai que começa toda a problemática em torno da obra de John Milton, pois o protagonista é ninguém menos que satã.
A forma como Milton o construiu fez dele não apenas o mais interessante como também o mais humano dos personagens. Ele é cruel, irônico, ambicioso, manipulador, mas também tem seus momentos de angustia, arrependimento onde reconhece seu caráter e a natureza egoísta de suas intenções depravadas. Os cinco solilóquios de satã (IV,32-113,358-92,505-35;IX,99-178,472-93.) são os momentos mais intrigantes da obra. São estes os trechos onde fica evidente a assinatura de um texto literário de qualidade.
A reflexão, aquele momento em que o individuo dá atenção a sua voz interior, é talvez o mais importante alicerce do caráter. São os conselhos auto gerados que definem a nobreza moral de cada um. Por essa perspectiva Satã surge no poema como uma figura desprovida de qualquer traço de empatia. É um personagem melancólico, ambicioso e inseguro, mas que se vale de sua astucia e perspicácia para confrontar seus dilemas.
Absorver as imagens por trás dos versos brancos de Milton não é uma tarefa das mais fáceis, principalmente se você não for um leitor habitual de poesia. O estranhamento inicial é completamente natural, mas depois de algumas paginas consegue-se acompanhar tranquilamente o estilo do autor. O conteúdo da obra é absurdamente polemico, isto porque se trata de um poema épico onde o mau e o bem se confundem em diversos momentos como em um trecho do Livro V onde o anjo Rafael diz a Adão e Eva que Deus exige obediência cega. Isso faz com que Deus seja visto como uma figura que governa através da subjugação. A tirania dos céus da qual Satã se refere está implícita nas palavras de Rafael que diz que Adão e Eva são “livres” para escolherem se obedecem ou não a Deus. No caso de optarem por não obedecer seriam castigados.
Nenhum castigo deveria ser aplicado a aqueles que têm “liberdade” de escolha. O castigo pressupõe a ideia de que um dos caminhos é errado, mas quem define, neste caso, o certo e o errado é o próprio Deus de forma arbitraria. Satã governa pela astucia e pela ganância: engana, corrompe, manipula. Deus governa pela submissão e pela ameaça de punição. Deus assume a figura de um ditador e Satã a de um político demagogo, cruel e vaidoso.
Milton ataca a ideia de superioridade da espécie humana, algo muito pregado pela ortodoxia cristã. Deus fez dos anjos príncipes para que estes o idolatrassem, mas um terço deles se revoltou contra Deus. Deus fez dos homens príncipes para que reinassem sobre as demais formas de vida “irracionais” e sobre a natureza. A tirania do homem sobre a natureza fez com que esta se revoltasse contra o homem. Deus fez do homem um espelho de seus próprios erros! Essa é a face humana que Deus assume de forma velada no poema e que o distancia do ser onipotente e abstrato criado pelas impressões iniciais. Até quando as pessoas vão continuar ignorando que o Genesis é na verdade uma lição para conter o senso torpe de superioridade que o homem nutre por sua própria espécie?
Esse épico sem par possui uma grandiosidade literária que por muito tempo foi ocultada pela interpretação simplista e errada de seu texto. Definitivamente não é um texto que idolatra a figura de Satã. Ele apenas reconhece seu inegável papel dentro da filosofia cristã.
A obra em si é um dos maiores feitos da literatura universal, mas a edição da Editora 34 deixa muito a desejar em seu projeto gráfico. Com tradução de Daniel Jonas, a obra de 10.565 versos em edição bilíngue, conta com mais de cinqüenta ilustrações do genial Gustav Doré, o problema é que a editora ampliou em excesso essas ilustrações. O resultado final foi lamentável: as ilustrações originais possuem um aspecto tenebroso e assustador. Ao retalhar e ampliar essas mesmas imagens a editora conseguiu transformá-las em algo tosco e até mesmo infantil. Existem também alguns erros grotescos nas notas de rodapé. Em um dele, por exemplo, o editor cometeu o erro de dizer que na obra “Odisséia” a feiticeira Circe e a deusa Calipso eram a mesma divindade. Um absurdo!
Deixando de lado os aspectos negativos da edição o que resta é um livro intrigante, reflexivo, profundo e desafiador. Um autêntico exemplo de obra prima e de superação intelectual. Nota 1000!!!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
PARAISO PERDIDO (EDIÇAO BILINGUE)
Autor: Milton
JohnTradutor: JONAS, DANIEL
Ilustrador: DORE, GUSTAVE
EDITORA 34
Nº de Páginas: 896
ANO 2015

sexta-feira, 10 de março de 2017

AS AFINIDADES ELETIVAS


Edward e Charlotte são um casal da aristocracia alemã que vivem tranquilamente em uma gigantesca propriedade rural. Ambos se encarregam de realizar reformas na propriedade a fim de ressaltar suas belezas naturais e seus aspectos idílicos. Essa harmonia se vê ameaçada quando Edward decide convidar um amigo de infância – o Capitão Otto – para passar um período no local. Charlotte inicialmente discorda da decisão de Edward, mas logo em seguida concorda sob a condição de que ela possa convidar Otilie – uma jovem órfã e filha de sua melhor amiga – para morar com o casal.
A introdução de ambos as figuras humanas na vida de Charlotte e Edward faz com que um se apaixone pelo convidado do outro. A atração que eles passam a sentir é incontrolável desafiando e colocando em cheque a real natureza de ligação afetiva estabelecida pelo casal. É um enredo que explora o predomínio da paixão sobre o comportamento racional tendo por analogia o conceito químico de afinidade. Esse é o conflito que se estabelece entre os personagens e se desenvolve de forma lenta, reflexiva e poética. Seria pouco produtivo fazer qualquer tipo de comentário sobre o desfecho da obra então vamos às criticas.
Definitivamente é um texto que possui um momento próprio para ser plenamente assimilado. Não é uma obra com valor de entretenimento, portanto não se trata de uma leitura para os momentos de tédio, pois isso certamente ampliara os pontos negativos do texto. É uma obra que possui uma linguagem fácil de ser compreendida, mas difícil de ser trabalhada pelo leitor. Desconstruir suas camadas literárias pode ser bem exaustivo em alguns momentos porque quase todos os elementos que compõem a história são muito irreais, excessivamente bucólicos, romantizados e alegóricos.
Toda obra que trabalha sobre os sentimentos de seus personagens e não sobre um acontecimento qualquer, precisa ter competência suficiente para cativar o lado mais irracional do leitor, ou seja, deve ter uma densidade dramática muito bem pronunciada e é neste ponto que surge um dos pontos fracos da obra de Goethe que é a sutileza narrativa com a qual ele tenta trabalhar algo tão passional como a atração física.
Tudo é muito poético, os diálogos são sempre carregados de muita ternura, falta vigor em alguns momentos. O enredo vende a ideia de uma reviravolta na vida de um casal por meio da presença de duas outras pessoas. O problema e que os personagens são muito passionais apenas ao nível dos sentimentos, essa paixão nunca se reflete em seus comportamentos. Em nenhum momento fica a sensação de uma reviravolta ou a iminência de rompimento. Essa sutileza deixa a narrativa um pouco morna, porem imprime profundidade nos personagens a medida em que seus dramas são constantemente sufocados por um comportamento blasé.
Na segunda parte do texto surge aquilo que a obra tem de melhor que é a profundidade dramática de seus personagens. Essa fase é construída por meio de trechos do diário de Otilie, que são de longe os momentos de reflexão mais intensos e interessantes do texto. Existem duas grandes ironias na obra: a primeira é que os seus momentos de maior maturidade são assinalados pelas palavras da mais jovem entre os personagens. Naturalmente se espera que personagens mais velhos sejam mais profundos, no entanto aqui eles são mais rasos – com exceção de Charlotte.
A segunda ironia é que os personagens estão sempre buscando melhorar a aparência do local onde vivem, estão sempre buscando a beleza aparente das coisas sendo que a verdadeira beleza de tudo está nos sentimentos dos próprios personagens. O belo é aquilo que os toca de forma intensa e que não possui uma forma física definida. Ao serem incapazes de ocultar esse sentimento eles reafirmam o conceito de que é impossível se manter indiferente diante daquilo que possui algum valor.
Trata-se de uma ótima obra da literatura alemã que apesar de sua narrativa pouco fluida ainda assim preserva todos os elementos que definem um grande clássico.
AUTOR
TIAGO R.CARVALHO
Título original: DIE WAHLVERWANDTSCHAFTEN
Tradução: Tercio Redondo
Páginas: 328
Selo: Penguin Companhia

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

JOANA D’ARC - UMA BIOGRAFIA


No ano de 1328 o rei da França Carlos IV, filho de Felipe IV, faleceu. Sua irmã Isabel assumiria o trono, mas Felipe de Valois, sobrinho de Felipe IV, reivindicou o trono para si através da Lei Salíca, que impedia que o trono fosse assumido pela linhagem feminina. Isabel, diante da impossibilidade de subir ao trono, nomeou seu filho, Eduado III – rei da Inglaterra – como sucessor do trono da França.
As cortes decidiram a favor de Felipe de Valois que assumiu o trono sob o titulo de Felipe VI. Eduardo III, no entanto, estava determinado a ser soberano da Inglaterra e da França. Em 1337 ele enviou suas tropas para combater Felipe VI dando inicio a chamada Guerra dos Cem Anos (1337-1453), o maior conflito europeu do período feudal.
Ao longo dos 116 anos de conflito nenhuma figura histórica se destacou tanto quanto a francesa Joana D’arc, personalidade historica que Donald Spoto resolveu retratar em sua incrível obra “Joana D’arc uma biografia”. Existem poucas informações sobre os primeiros anos de vida da heroína francesa, mas Spoto promove um resgate bem fiel e objetivo sobre não apenas a sua historia mas também de sua família. É um trabalho muito competente diante de tão poucas e contraditórias informações.
Não se sabe ao certo, por exemplo, se ela nasceu em 1411 ou 1412 e a própria data de seu nascimento – 6 de janeiro - foi estabelecida por razoes puramente simbólicas. O que se sabe é que Joana era filha de um respeitado proprietário de terras do vilarejo de Domrémy. A família vivia em uma residência confortável para o período e atualmente teria o status de classe media. Aparentemente Joana não foi alfabetizada. Era uma simples camponesa de hábitos religiosos sem nada que a destaca-se dos demais moradores de Domrémy.
A narrativa de Donald Spoto está muito longe de ser cansativa ou tendenciosa. Em alguns momentos de fato fica a sensação de ele busca construir a imagem de uma heroína, mas ele naturalmente se corrige ao analisar os feitos de Joana de forma muito objetiva deixando que o leitor os interprete da forma que achara mais adequada. O problema dessa abordagem é que o texto corre o risco de parecer vago, mas diante de tantas lacunas nos registros históricos o autor se saiu muito bem ao deixar de lado a pretensão de construir uma biografia definitiva.
Um ponto abordado a exaustão no texto é sobre as misteriosas vozes que Joana alegava ouvir. Segundo o depoimento da própria Joana, durante o seu julgamento, foi durante um dia do verão de 1424, por volta do meio dia, que ela ouviu pela primeira vez uma dessas vozes enquanto caminhava pelo jardim de sua casa. As vozes se seguiram de luz muito forte em meio à vegetação. Spoto confronta essa alegação a partir de dois pontos de vista: dos que acreditam se tratar de um fenômeno sobrenatural e dos que os que tentam explicá-los através da ciência.
O comportamento de Joana por muito tempo foi interpretado como uma manifestação de sua natureza supostamente lesbica. Esse absurdo é desconstruído aqui através da exposição de uma jovem pratica e sensata que se vestia como homem simplesmente para que fosse vista como um. Dessa forma ela se protegia de eventuais abusos sexuais, pois naquela época as únicas mulheres que acompanhavam os cavaleiros eram as prostitutas. Não é uma obra com olhar direcionado ao plano mais violento de sua historia e sim focada no elemento humano. Quem espera um texto com descrições violentas de batalhas pode achar a narrativa de Spoto meio “água com açúcar”. A Joana mulher têm mais espaço aqui do que a Joana guerreira. As batalhas aparecem mais como elementos de preenchimento sem muita relevância para o propósito do texto.
O único momento em que a narrativa se aventura numa linguagem mais belicista e durante a descrição da batalha de Orléans na qual Joana foi atingida por uma flecha que atravessou sua armadura entre o ombro e o pescoço. A segunda metade da obra se dedica inteiramente as descrições do julgamento de Joana, com muitos trechos dos registros feitos na ocasião. É talvez o momento que mais aproxima o leitor da verdadeira historia dessa icônica figura da historia da França que por muito tempo foi cercada de mitos e lendas.
A obra de Spoto é uma biografia excelente e reveladora que se inicia com a história de uma simples família de camponeses do vilarejo de Domrémy e termina com uma jovem, de 19 anos, acusada de heresia pela igreja católica, ardendo em meio às chamas na trágica manhã de 30 de maio de 1431, uma quarta-feira.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
JOANA D'ARC - UMA BIOGRAFIA
Autor: SPOTO, DONALD
Editora: PLANETA DO BRASIL
Nº de Páginas: 304

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O SOL DO BRASIL


Em 26 de março de 1816, Nicolas Antoine Taunay, filho do pintor e químico Pierre-Antoine Henry Taunay, desembarcou no Brasil junto com os artistas da chamada “Missão Artística Francesa” – liderada por Joachin Lebreton e patrocinada pelo rei Dom João VI.
Nascido em Paris no dia 10 de fevereiro de 1755, Taunay se interessou por arte já na infância. Sua forte miopia, que o levou a usar óculos com lentes excessivamente grossas por toda a vida, não o impediu de se tornar um dos mais talentosos paisagistas históricos de seu tempo. A obra “O sol do Brasil”, da autora Lilia Schwarcz, narra a trajetória desse pouco conhecido artista francês cujo talento é inquestionável.
Lilia Moritz Schwarcz é uma autora que possui uma notável elegância narrativa. Seus textos são de um vocabulário muito rico e rebuscado, mas não ao ponto de ser verborrágico. Em alguns momentos ela parece falar consigo mesma deixando de lado um pouco da sempre perene postura opinativa dos historiadores. Uma coisa que irrita profundamente os leitores de textos históricos e quando fica a impressão de que o autor estar entrando em um assunto do qual ele não domina completamente, pois fica superficial demais e muito mais adequado a uma revista que a um livro. Mas não é este o caso de Lilia Schwarcz.
Apesar de ser uma obra que vende um conteúdo voltado para a história do Brasil, e com um titulo de relativo apelo comercial, não se trata de um texto na mesma linha, por exemplo, que as obras de Laurentino Gomes. O texto não tem o foco concentrado nas aventuras dos artistas franceses na corte de Dom João. O foco aqui é a arte! Existem muitas passagens com analises criteriosas das obras, dos estilos e das tendências estéticas do período.
O leitor de “O sol do Brasil” deve, no mínimo, se interessar por arte. Cuidado com as falsas expectativas criadas pelo subtítulo, pois temos aqui o caso de uma obra onde a arte é colocada em um nível superior ao artista. O projeto gráfico da obra é primoroso. A qualidade do material é impressionante. Todas as paginas são impressas em papel Polen Soft com uma gramatura mais acentuada, a fonte do texto é boa embora o espaçamento possa desagradar alguns leitores. Muitas imagens belíssimas em preto e branco e também em cores.
A narrativa é bem cronológica começando com uma caracterização do país a partir dos boatos contados por portugueses, alemães e franceses que por aqui se aventuraram. A autora deixa bem clara, por exemplo, a influencia que a obra do alemão Hans Staden teve para o imaginário europeu. Esse é um ponto onde o texto mais incorpora a descrição histórica, mas o tom narrativo é mais contemplativo que instrutivo. O texto presume um certo conhecimento do leitor e embora seja bastante descritivo, não é o do tipo onde tudo é explicado. Na sequência a autora analisa o movimento neoclássico francês dando destaque para o seu maior ícone, o pintor Jacques Louis David, avaliando o papel da arte como ferramenta política no período napoleônico. Somente a partir daí é que o foco volta a se deslocar para o Brasil.
Lilia Schwarcz tem tudo àquilo que sua função exige: conhecimento, conteúdo e clareza conceitual, no entanto, esse excesso de gabarito é o que trás alguns problemas para o texto. Falta impulso narrativo, falta carisma na linguagem que é excessivamente formal. A narrativa é muito intermitente com muitos retrocessos que impedem que a obra seja lida com um fôlego único. Se você é um daqueles leitores que tem dificuldades de retomar um raciocínio interrompido pela intermitência descritiva esse livro certamente irá desagradá-lo.
Apesar dessa ultima ressalva a obra é de muita qualidade, muito conteúdo e muito interessante. Vale à pena dedicar tempo a este tipo de texto que foge um pouco dos padrões de preferência nacional. Se você gosta de arte certamente vai gostar de “O sol do Brasil”. Boa leitura!
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
Título original: O SOL DO BRASIL
Capa: Hélio de Almeida
Páginas: 464
Selo: Companhia das Letras

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

O ÚLTIMO DIA DO MUNDO: 1 DE NOVEMBRO DE 1755


“Que jogo de azar é a vida humana! (...) Isso deveria ensinar os homens a não perseguir outros homens; porque enquanto alguns santarrões embusteiros queimam alguns fanáticos, a terra se abre e engole a todos igualmente.”
- Voltaire (24 de novembro de 1755).
No dia 1 de novembro de 1755, dia de todos os santos, a ensolarada Lisboa foi sacudida por três tremores de terra. O primeiro fez os sinos das igrejas tocarem, despedaçou vitrais e colunas de mármore. Quarteirões inteiros desabaram soterrando centenas de pessoas: Era o inicio do maior desastre natural do século XVIII. Por volta das nove e meia da manhã veio o segundo tremor, ainda mais forte que o primeiro. Este lançou ao chão até mesmo as construções mais robustas. O terceiro tremor ocorreria poucos minutos depois. Lisboa já era uma pilha de escombros nesse momento e começava a circular a ideia de um possível castigo divino.
Um enorme incêndio, provocado pelas centenas de velas acessas naquele tradicional dia de orações, engoliu as ruínas da cidade. A brisa marinha ajudou a amenizar a propagação do fogo, mas o que parecia um sopro divino se converteu numa cruel realidade. Um forte vento começou a soprar de forma repentina da direção do mar. Uma serie de ondas enormes atingiram a parte baixa de Lisboa por volta das 11h da manha. Em apenas cinco minutos essas ondas destruíram tudo que encontraram pelo caminho. Lisboa estava completamente arrasada e dos seus escombros surgiria um intenso debate sobre Deus, o homem e a ciência.
“O último dia do mundo. Fúria, ruína e razão no grande terremoto de Lisboa de 1755”, do autor Nicholas Shrady, é um texto perturbador sobre um dos maiores desastres da historia lusitana. É um daqueles típicos livros onde você não consegue parar de ler simplesmente porque a informação que vem depois é ainda mais impressionante daquele que você acabou de ler. Eu certamente definiria sua narrativa como ardilosa e oscilante, pois em um primeiro momento temos a impressão de que o autor esta tentando segurar o leitor através do puro sensacionalismo e logo em seguido ele joga o texto em um rumo completamente diferente empregando um tom narrativo mais seco e objetivo.
Essa mudança brusca pode parecer um ponto negativo, mas não é o que acontece em “O ultimo dia do mundo”. A descrição do terremoto em si se resume a algumas poucas paginas logo no primeiro capitulo. O autor não emprega longas digressões até chegar ao clímax da obra, pelo contrario, ela joga toda a crueza daqueles momentos terríveis logo de cara isto porque o texto de Shrady trabalha sobre os desdobramentos do evento e não sobre o evento em si. O autor se beneficia através desse foco narrativo de uma quantidade infinitamente maior de material, por meio do qual ele faz questão de deixar clara a sua postura anticatolica.
Não se trata de um simples ataque a igreja, mas da construção de uma atmosfera de medo criada pela inquisição em uma época onde o cientificismo já havia se consolidado por meio da física de Newton e do deísmo da ilustração.
Logo no segundo capitulo vemos a primeira grande mudança narrativa quando o fenômeno natural cede espaço para o fenômeno humano: Sebastião Jose de Carvalho e Melo, o lendário Marques de Pombal. O autor reconstrói a imagem desse ícone lusitano que modernizou o ensino, a administração pública e travou um longo conflito com a igreja. Em nenhum momento busca-se construir uma personalidade de herói nacional. O marques é descrito de forma bidimensional como um homem que diante do caos provocado pelo terremoto ordenou a colocação de forcas para punir os acusados de saquear lojas e armazéns e que ao mesmo tempo condenava a crueldade da igreja católica.
O meio da obra é basicamente uma descrição dos fatos históricos mais relevantes da nação portuguesa. O Brasil aparece como uma importante fonte de recursos, principalmente ouro, o que permitiu a coroa portuguesa governar sem ter que recorrer as Cortes para a aprovação de verbas.
A atmosfera filosófica dominada pelo otimismo do período desmorona completamente diante das criticas pertinentes de Voltaire tendo como base o trágico terremoto. Esse é um dos pontos mais abordados pelo autor, e também é um dos momentos mais interessantes e polêmicos do texto. A obra “Candido e Otimismo” surge como uma importante base critica do filosofo francês que enxergava a realidade ao invés de projetar nela seus desejos.
Na última parte o texto retoma a narrativa a partir do Marques de Pombal e mostra suas tentativas de eliminar o senso comum puramente misticista que envolvia o terremoto. Falhas geológicas e placas tectônicas só seriam compreendidas mais de um século depois, mesmo assim Pombal conseguiu estabelecer, através dos principais luminares de sua época e também de séculos anteriores – como Robert Hooker que havia demonstrado a relação de elasticidade em objetos sólidos – uma base cientifica bastante satisfatória que esclarecesse o modo como os terremotos aconteciam. Foi um golpe de mestre, pois ele transformou em vitimas do acaso aqueles que a igreja definia como pecadores castigados.
“O último dia do mundo” é um texto denso no seu conteúdo, mas leve na sua narrativa. Agradável, intrigante, revelador e profundamente perturbador. Vale cada minuto de leitura!
AUTOR
TIAGO R.CARVALHO
Título: O Último Dia do Mundo
Autor: Nicholas Shrady
Editora: Objetiva
Especificações: 288 páginas

domingo, 12 de fevereiro de 2017


“A morte é um problema dos vivos.”.
- Norbert Elias
“Alemanha, 1945” do autor Richard Bessel trás a tona, de forma muito competente, os dramas políticos e humanos de uma Alemanha arrasada pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A pergunta que se faz é se esta obra é relevante para quem já possuiu um largo conhecimento sobre a Segunda Guerra Mundial? A resposta é sim!
Não se trata apenas mais uma obra sobre o tema e sim de um texto de aspecto singular quanto ao que ele se propõe fazer. Existem muitas informações interessantes aqui, a abordagem do autor é bem objetiva, clara sem recorrer a uma dramatização desnecessária ou piegas. Bessel parece compreender bem que o leitor de seu texto já possui uma familiaridade com o terrível contexto do conflito, ou seja, é um leitor que já absorveu a essência desumana do nazismo e também os desdobramentos brutais que o mesmo provocou.
Não esperem encontrar aqui uma abordagem sentimental e este talvez seja o grande mérito de Richard Bessel, pois ele conseguiu criar um texto onde o elemento humano é predominante porem o foco é mais político, geográfico e sociológico. Há uma oscilação constante entre as decisões tomadas em nível de governo e as conseqüências dessas decisões na vida do cidadão alemão comum. Bessel explora a individualidade apenas para mostrar o quanto o elemento humano é afetado por medidas completamente alheias a sua realidade.
O foco do texto são os meses imediatamente posteriores a rendição da Alemanha, mas a obra só entra nesse seguimento após um resumo dos últimos meses de combate, onde o pano de fundo é a defesa desesperada do território alemão. O sangrento mês de janeiro de 1945, o mais sinistro da historia da wermarcht quando 450 mil soldados alemães foram mortos, abre a seqüência de eventos narrativos que expõem o desabamento final do III reich.
O ponto forte desta obra impressionante é a abordagem do autor sobre os movimentos migratórios ocasionados pela fuga da população civil alemã das regiões onde os combates eram mais intensos. Aqui ele não se priva de absolutamente nada para compor seu quadro narrativo. Verdadeiras tragédias e desastres são apresentados sempre com o amparo de dados estatísticos. Números é algo que Richard Bessel usa e abusa em seu texto e é justamente esse recurso que expõe ao leitor a magnitude do conflito.
O campo de batalha urbano é explorado de forma tridimensional: a perda de referencia geográfica provocada pela destruição das ruas e construções, as conseqüências geradas pelo desaparecimento do Estado policial nazista, a forma como esses eventos foram assimilados por pessoas de diferentes faixas de idade, a desintegração da unidade familiar diante da realidade apocalíptica do pós guerra que naturalmente legitimava o abando da conduta moral e a satisfação imediata das necessidades mais primitivas.
Na segunda parte do texto o foco é a administração das potencias aliadas em suas respectivas zonas de ocupação, é e nesse ponto que “Alemanha 1945” emerge como uma obra ímpar e que talvez se compare, em mérito, apenas ao impressionante “Pós Guerra” de Tony Judt. Os dados referentes aos números de prisões efetuadas nas zonas de ocupação americana, soviética, francesa e britânica vão surpreender aqueles mais acostumados a aceitar a idéia de que a zona soviética foi a mais brutal em termos humanos.
O que mais impressiona, no entanto, são os dilemas enfrentados pelos aliados para alimentar a população alemã. A escassez de alimentos provocada, por exemplo, pela migração das zonas rurais é tão bem narrada pelo autor que causa um impacto muito mais significativo no leitor do que os combates propriamente ditos. Isso deu vazão a tendência alemã de se definirem, nos anos do pós guerra, como vitimas ignorando o sofrimento que o nazismo levou a tantos países ao longo do regime de Adolf Hitler. “Alemanha 1945” é uma obra de leitura obrigatória, atual e nada genérica. Vale muito à pena!
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
Título original: GERMANY 1945
Tradução: Berilo Vargas
Páginas: 504
Peso: 0.763 kg
Acabamento: Brochura
Selo: Companhia das Letras
Documentário que serve como complemento da obra:

A CAMAREIRA


“Sabe o que há de belo na faxina? (...) E que a sujeira sempre volta.”
O afeto é como o mercado publicitário: sua função é criar novas necessidades! O triunfo do individuo sobre a sociedade é a meta de muitos anônimos que atualmente compõem o mosaico urbano. Indivíduos que buscam uma forma de existência pouco comum e que se aventuram num mergulho constante das possibilidades. Nem sempre aquilo que está disposto nas prateleiras da sociedade satisfaz as minhas necessidades ou possui um valor acessível aos meus interesses. Diante da escassez por que não explorar novos meios de satisfação? O valor nem sempre se reveste da utilidade do produto, pois na maioria dos casos é a ausência de utilidade que confere valor as coisas.
Linda Maria Zapatek, ou simplesmente Lynn, nasceu em 1975, possui cabelos castanhos, olhos verdes, um metro e sessenta e cinco de altura. Desempregada ela mora de aluguel – que é pago por sua mãe - é que gosta de assistir “Tempos moderno” durante as noites: eis a protagonista da obra “A Camareira”, do autor alemão Markus Orths.
Logo de inicio somos expostos ao fluxo de pensamentos de uma personagem que confabula sobre os aspectos físicos de um edifício. Vidros enormes cobrem a fachada do imponente prédio sem que a privacidade da rotina em seu interior pudesse ser ocultada. “por que não paredes, pedra concreto?” - ela se pergunta.
Não se trata de uma narrativa prolixa e muito menos de um mero recurso de preenchimento da estética literária. É por meio dessa explanação descritiva do espaço geográfico que o autor constrói os elementos visuais que devem orientar a leitura através do seu contexto. Nessa obra em particular os detalhes dos cenários descritos pela própria personagem são relevantes porque são esses detalhes que estabelecem uma forma interessante de dialogo. Pessoalmente gosto muito desse tipo de introdução, na maioria dos casos ela imprime um ritmo de leitura agradável e cria uma valorização do individuo por meio do seu papel, uma espécie de nicho social.
Seu olhar atento discorre sobre as peculiaridades do que vê nas ruas: “Como seria se ninguém me notasse? Se as pessoas não vissem ao redor de mim, vissem através de mim. Como se eu não existisse (...). Cada dia é uma abreviação do tempo, cada passo, uma abreviação do caminho.” Para o leitor esse primeiro momento representa exatamente isto: cada pensamento de Lynn representa uma abreviação da extensão de sua personalidade. Ela finalmente consegue um emprego como arrumadeira de quarto de hotel onde se diverte fazendo deduções lógicas:
“Uma escova de dentes esquecida? O hospede terá de comprar uma nova. Um desodorante barato? Ele não dá valor à higiene do corpo. Fios de barba na pia: sinal de desatenção. Absorvente na nécessaire? Um cheiro de cólicas no ar. Um relógio masculino sobre o criado-mudo? O homem terá de perguntar as horas durante a viajem.”
Certo dia, enquanto divagava sobre o hospede do quarto 303, Lynn é surpreendida por seu retorno e imediatamente se esconde sob a cama. Nesse momento ele descobre uma nova forma de prazer: observar a privacidade alheia – a diversão perfeita para o desajustado social. Naqueles momentos de intimidade Lynn assistia a tudo, numa forma de vida cada vez mais distante do pueril. Era seu conceito próprio de amadurecimento, de crescimento, mas esse método não se pareava com o conceito de “maturidade” de seu tempo. Bisbilhotar a vida alheia era algo reprovável em uma mulher adulta, postura ridícula em termos de comportamento. Essa é uma situação no qual o mais absurdo dos comportamentos perde aquilo que faz dele um ato estúpido, pois o que permanece é apenas o instinto primitivo de saciar a curiosidade sobre uma realidade que não nos pertence.
Aquilo que ocorre entre quatro paredes, longe do crivo moralista e hipócrita da sociedade possui um valor diferenciado porque circula por diferentes meios e se expressa de diferentes formas. O desejo de Lynn em permanecer anônima, como expectadora, debaixo da cama, acompanha a idéia de identificação através da posse: por que devo permitir me identificar como detentora de algo cujo segredo é o que lhe atribui valor? O segredo é o que atribui valor a privacidade.
Lynn parecia sentir que a relação entre duas pessoas, sejam elas do mesmo sexo ou não, se baseava nas semelhanças que estas partilhavam aos olhos da sociedade, mas a força que mantinha aquela forma ilógica de coesão afetiva se expressava nas diferenças e estas só se manifestavam na privacidade aparente de quatro paredes. O concreto, neste caso, não apenas limitava o alcance do olhar, ele impedia que o poder do desejo físico ganha-se espaço junto a uma consciência moral disseminada onde o afeto figurava como a verdadeira força das relações humanas.
O que mais me chamou a atenção na obra “A camareira” é que a leitura de seu texto, e sua digestão posterior, permitem resgatar um tema bastante polemico que é a questão da natureza contraditória dos valores morais. A privacidade sempre foi objeto de fascinação dos seres humanos. O que as pessoas fazem entre quatro paredes ou mais precisamente o seu padrão de conduta sexual, sempre serviu de base para um julgamento moral, ainda que esse julgamento se expresse de forma velada.
Se nos propusermos trazer esse tipo de debate para o contexto social do momento, marcado por movimentos de reafirmação por direitos civis, como por exemplo, o direito de união civil de pessoas do mesmo sexo, veremos contradições nos argumentos que se opõem a normatização jurídica de tais direitos.Em primeiro lugar pessoas contrarias a união de casais do mesmo sexo invocam aspectos morais e religiosos como argumentos. Esses mesmos “defensores da moralidade” abraçam o direito da privacidade e alegam não se interessar pela vida particular de cada um. Nada mais contraditório!
A diferença entre um relacionamento hetero e um relacionamento homo se expressa em privado, na intimidade impenetrável de cada um. Como então podem alegar serem contrários a união de pessoas do mesmo sexo e ao mesmo tempo se dizem avessos a qualquer tipo de curiosidade sobre a vida particular de cada um? O suposto “pecado” ocorre entre quatro paredes, longe dos olhos e acessível apenas a imaginação. Como negar que nesse caso é a curiosidade que determina a conduta?
Porque a sociedade é tão permeável a critérios de valor moral? O corpo social é como uma arvore: à medida que cresce se ramifica e se torna mais complexo. A criação de condutas valorativas nesse contexto funciona como um elemento que unifica as pessoas em torno de um valor comum. E nessa associação coletiva - em que cada um aceita destruir a sua individualidade - que nascem os valores morais. É interessante como isso demonstra que mesmo adultos guardamos uma parcela daquilo que já fomos um dia como adolescentes para os quais os valores do grupo têm sempre uma prerrogativa mais elevada em relação aos valores individuais.
O texto de “A camareira” é a típica narrativa em que o personagem, ou os personagens, são projeções do meio em que eles se inserem. O ambiente urbano é muito significativo aqui e é através dele que os personagens dialogam com o leitor. O espaço geográfico funciona como conectivo no qual oscila realidade e ficção. É este recurso que facilita que o leitor se identifique e crie simpatia pela protagonista: uma mulher com uma aparência comum, uma historia comum, mas com hábitos e comportamentos incomuns. Uma camareira que encontrou diversão na sujeira banal da privacidade é algo perfeitamente lógico e nada incongruente. É nas entrelinhas do texto que podemos encontra seu objeto de reflexão: a questão da busca por satisfação e sua suposta incompatibilidade com a moral da sociedade civilizada.
A definição de prazer dada pela psicanálise freudiana é muito abrangente é não se resume apenas a atividade sexual. O prazer pode decorrer de uma leitura, de um passeio ou até mesmo de uma simples conversa. Por que então se condicionou a satisfação ao ato sexual? O filosofo Herbert Marcuse, em sua obra “Eros e Civilização”, concluiu que o método de produção da sociedade moderna, sempre havida por aprimoramentos e incremento produtivo, havia reprimido a busca pela satisfação individual. Para o funcionário dedicado e trabalhador era impossível encontrar prazer nos afazeres diários, pois estes eram cansativos, desgastantes, repetitivos e em muitos casos prejudiciais a saúde. O trabalhador reprimia suas vontades para assumir o papel de responsável e de chefe de família.
Reprimir as próprias necessidades é algo que não dura por muito tempo. O liberalismo sexual das décadas de 60 e 70 assinalou os limites impostos pela repressão da nova ordem mundial. Uma onda de hedonismo tomou conta da sociedade. A imagem do trabalhador disciplinado começava a cair por terra ameaçando o padrão produtivo, mas a reação capitalista foi imediata.
Imediatamente adotou-se o órgão genital, e tudo aquilo que fizesse referencia a ele, como estratégia de combate ao descompromisso do pensamento hedonista. Revista com mulheres nuas, filmes pornográficos, roupas mais provocantes e cartazes de roupas intimas foram criados. A ideia era de que o mercado oferecesse produtos que saciassem a busca por prazer individual afastando de vez o fantasma da indolência. A partir daí o prazer tornou-se um conceito atrelado a duas coisas: consumo e sexo.
Lynn conseguiu encontrar uma forma de romper essa repressão encontrando prazer dentro e fora dos limites da sexualidade. Ironicamente o liberalismo sexual aprisionou a sociedade ao definir as “rotas do prazer”. A obra de Markus Orths nos leva a refletir: a sociedade é uma mistura de estupidez e ousadia, a dificuldade é definir quem são os ousados e quem são os estúpidos. Boa leitura!
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
Título: A CAMAREIRA
Título Original: DAS ZIMMERMÄDCHEN
Páginas: 136
Editora:LePM
OBS: As duas obras de arte do texto são do pintor norte americano Tom Wesselmann, um dos maiores representantes da "Arte Pop", e cujas obras criticavam a transformação do erotismo em produto de consumo.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

MDNA


A musica rompeu a hegemonia do cinema como à forma de arte mais apreciada em todo e mundo sublinhando os limites deste quanto ao seu papel na emergente cultura de identidade urbana. Estamos em plena década de 80 dominada pelos agitos da disco music. Nas mais de mil danceterias espalhadas pelo centro da velha e falida metrópole de Nova Iorque as noites eram embaladas por musicas como “That´s the way” de KC e The Sunshine Band e “Stayin Alive” do Bee Gees.
Jeans desbotados e rasgados nos joelhos, jaquetas de couro, cabelos rebeldes domados por lenços coloridos e combinações destoantes era o que se via de mais comum. Pulseiras e correntes simbolizavam a agressividade juvenil acentuando o rompimento espontâneo para com as tradições familiares das décadas anteriores.
A noite era o berço da diversão, dos encontros, da troca de sensações, hora de exorcizar os demônios nas pistas de dança e saturar o espírito com aquilo que a vida tinha a oferecer aos jovens amantes da musica. Era nas ruas que o aspecto mais relevante da revolução cultural podia ser visualizado como algo puramente simbólico e de certa forma alegórico: a valorização da identidade individual em detrimento dos valores sociais coletivos.
Existem aqueles que enxergam no período uma evidente manifestação de fragmentação social, no entanto os termos aqui analisados, quando planamente compreendidos, demonstram que a sociedade se tornava mais organizada à medida que se diversificava. Essa diversificação ocorria sob uma forte tensão provocada e alimentada pela busca de elementos que sinalizassem as incongruências culturais de cada tribo urbana. Era importante delimitar o tipo de comportamento a partir das roupas. Estamos numa década onde você é o que você veste! Foi nesse meio que o furacão Madonna conquistou seu espaço sinalizando em seu corpo as marcas de seu tempo.
Who s that Girl? Quem era aquela garota que na adolescência não exalava carisma suficiente para permitir que se projetasse sobre si a imagem de futura super star? Quem era aquela garota magrela e baixinha que entre os exaustivos ensaios das aulas de dança tentava ganhar a vida como garçonete ou posando para fotos nuas como modelo de artistas plásticos? Seu passado comum tão pouco oferece uma explicação para o seu sucesso. Ela teve uma infância e uma adolescência sem eventos significativos, traumáticos sem duvida, mas nada que a coloque a margem de boa parte dos seres humanos.
Durante as noites Madonna se divertia dançando em boates gays – universo pelo qual já nutria fascinação. Nessa atmosfera receptiva as novas formas de “espontaneidade representativa” ela explorou sua bissexualidade, jogou fora a cartilha de idéias pré-fabricadas pelos costumes, destilou o naturalismo que existe por trás da auto-satisfação, reafirmou conceitos pouco ortodoxos, buscou a todo custo sua autopromoção sem se importar com valores morais. Cometeu erros e exageros, mas no fim acabou se aventurando pelas vias do sucesso.
Filha de imigrantes italianos e nascida em um meio impregnado pela força dogmática do catolicismo, Madonna havia perdido a mãe muito cedo. A experiência da perda moldou em sua personalidade uma aversão a fraqueza e fez com que encontra-se na dança uma perfeita forma de expressão para sua força. Aprendeu a esconder sua fragilidade por trás da imagem de mulher forte e dominadora, algo que lhe permitiu desfrutar de uma forma de independência que pode ser descrita como um fragmento que se desprende do conceito de liberdade. Passou a valorizar o estado de alerta constante e dizia que a tranqüilidade de espírito era uma “pequena morte”. Possuía um forte instinto de independência através do qual e deu forma a sua própria escala de valores e se orientou por seus próprios caminhos.
Madonna havia se preparado para perseguir seus desejos só não havia se preparado para pagar o preço. O que sua intempestividade juvenil não esperava encontrar em seu caminho era uma forma particular e brutal de violência contra seu sexo: certo dia ela encontrou as portas do local onde fazia suas aulas de dança fechadas e acabou sendo arrastada para o terraço de um dos prédios e violentada por um homem que poucos minutos antes havia lhe oferecido ajuda. O episodio sinaliza uma fase de transição em sua história. Aos poucos a dança perdeu seu encanto e o caminho para a afirmação no meio musical começou a se mostrar mais atraente.
Em “Madonna 50 anos” a autora Lucy O’Brien reconstrói os passos de uma das maiores estrelas da musica internacional. A garota ousada que chegou a Nova Iorque sozinha aos 19 anos com o sonho de se tornar bailarina foi aos poucos se apaixonando pelos clubes noturnos undergrounds e pelo estilo punk. “Ela é uma mulher de carne e osso, mas sua identidade mutante fez dela um quebra cabeças.” - escreveu Lucy O’Brien cujo mérito como escritora se deve a sua forma de abordagem: analisar a figura humana a partir de sua obra.
Segundo a autora, Madonna só se revela com sua configuração original durante seu trabalho, pois seria o único momento onde a hiper-conciência de sua própria imagem estaria ausente e seu pensamento estaria focado para fora dos limites dela mesma. Talvez seja esse o motivo que ela tenha optado por contar a historia do fenômeno pop de forma cronológica tendo suas musicas como marcações da passagem de tempo.
Em primeiro lugar e preciso definir que Lucy O’Brien é uma admiradora de Madonna, logo é natural que o texto de sua obra coloque em evidencia a figura da artista e defina suas musicas como um produto da assimilação de sua vida particular com as imperiosas determinações da fama. Nessa obra a estrela pop esta em maior destaque que a mulher por trás dela. O mérito desse tipo de foco e sua tendência natural de deixar de lado os boatos que sempre adornam figuras famosas e se concentrar nos fatos.
Madonna alcançou o sucesso desconstruindo idéias e articulando sua musica por meio dos seus sentimentos. Talvez o seu mais significativo salto de maturidade tenha ocorrido quando ela tinha apenas 15 anos. A vida como líder de torcida e a popularidade que vinha no rastro da “função” não mais saciavam suas ambições. O estilo adolescente de viver a margem do mundo adulto foi deixado para trás, e junto com seu interesse pela arte e pelo bale surgiu a fascinação pela dança. Christopher Flynn foi uma figura importante nessa fase de sua vida.
Chega a ser uma tarefa complexa definir até que ponto determinada musica ou álbum foi fruto da influência das tendências musicais do momento ou se foi algo puramente expressivo. Fica bastante evidente que seu trabalho é um misto de espontaneidade e planejamento. Definir o grau de influência entre um e outro é talvez a questão que a torna tão interessante como artista. Encarar o “fenômeno Madonna” como uma conjunção originaria de aspectos binários é de determinada forma algo não apenas irrelevante como também redundante afinal de contas existe algo verdadeiramente original no campo da arte que não possua certa dose de espontaneidade? Madonna sempre se mostrou tão espontânea que parece errado querer imprimir grande significado a sua obra.
Devo confessar que o texto de O’Brien me cativou logo nas primeiras paginas. A narrativa ágil da infância de Madonna logo cede espaço para o ponto mais interessante de sua historia: seus anos difíceis na falida e caótica Nova York dos anos 80. Para qualquer um que conheça a história de Madonna fica claro que a década de 80 foram seus anos gloriosos, embora tenha nesse período disputado seu espaço com outros grandes astros do pop.
A obra é não apenas uma biografia da artista, mas também de suas musicas. Um trecho interessante explica como Like a virgin se tornou um grande sucesso:
“Se você ouvir a bateria de Like a virgin vai perceber que é gorda, larga e espaçosa. Ela preenche o som da canção. Se tivesse sido feito diferente, a musica teria perdido autoridade. Sabíamos como o som mexeria com o publico de maneira subliminar – E muito do que nos atrai na musica está na persistência com que ela se agarra ao subconsciente.”
O álbum Like a virgin foi lançado em novembro de 1984. Esse talvez tenha sido o trabalho de Madonna que mais probabilidade teve de fracassar devido à mudança no estilo em relação ao seu trabalho anterior e também por ter sido lançado em um momento onde o mercado musical era dominado por artistas como Michael Jackson – que reinava absoluto com Thriller – e Prince que com o sucesso de Purple Rain ganhava cada vez mais destaque.
O mercado musical também enfrentava crises devido à redução do numero de adolescentes. À medida que a população envelhecia e os adolescentes se tornavam adultos as vendas de singles despencavam. Aquele era sem duvida um momento difícil para a carreira de qualquer artista. O funil provocado pela concorrência e pelo mercado em crise funcionou como uma espécie de seletor de astros. Foi nesse contexto que a MTV surgiu como um dos mais significativos meios de comunicação. Madonna se apoiou nessa crescente indústria de vídeo clipes e teve o mérito de saber usar sua sensualidade e desenvoltura em proveito próprio. Ela conseguiu direcionar a critica para além de seus limites vocais – algo da qual era plenamente consciente. A dança deu a ela uma noção valiosa quanto ao ritmo e seu visual diferenciado foi um prato cheio para a indústria de videoclipes da época.
Ela possuía estilo e um visual bastante favorável a comercialização, assim como sua mais forte concorrente: a lenda pop dos anos 80 Cindy Lauper que com os sucessos “Girls Just want to have fun” – cuja letra consiste num autêntico retrato dos desejos femininos do período – “True Color” e a imbatível “Time after Time”. Talvez seja mais claro identificar Cindy Lauper como sua mais significativa concorrente pelo fato de ambas imprimirem através de sua imagem e suas musicas a mesma proposta de transgressão e repudio ao conservadorismo.
Até que ponto seu engajamento político das ultimas décadas se contrastava com a aparente esterilidade política de suas musicas nos seus primeiros anos de carreira? Se considerarmos que suas musicas possuem uma mensagem fortemente carregada pelos sentimentos femininos veremos que desde o inicio sua musica carrega um certo posicionamento político na medida que ela propõe uma nova postura - sobretudo da população feminina - ao mesmo tempo que se constrói como um ícone capaz de moldar opiniões, embora essa não fosse sua intenção.
Madonna vivia o auge da geração Yuppie deflagrada pela era do neoliberalismo de Ronald Regan. Impostos reduzidos se traduziam em menos responsabilidade social por parte do governo, ambiente perfeito para o espírito empreendedor. Não é sem motivo que a ambição se tornou característica positiva para os jovens ávidos por ascensão social. Interessante ver que Madonna não confrontou os valores sociais desse período, pelo contrario até se identificou com eles... até compor Material Girl.
O sucesso de Material Girl fez com que a musica se consagrasse como um hino pop contrario a personalidade materialista, porem Dress you Up coloca em relevo a mesma questão de forma muito mais competente. A letra faz uma comparação entre as sensações experimentadas por aquilo que o dinheiro podia comprar, no caso roupas luxuosas, e aquilo que só se podia ser sentido através do afeto. As fortes batidas isoladas na introdução e que permanecem praticamente inalteradas preenchendo a canção conferem a esta um ritmo que acaba reforçando o vigor da letra.
Criticada por sua postura nada comum, contestada por suas opiniões, admirada por sua obra, imitada em seu estilo, odiada e de certa forma temida por sua ousadia. Modonna é talvez a celebridade que mais acumula conceitos. Ela cumpriu bem seu papel como representante de uma forma contemporânea de arte cuja construção se funde num misto de linguagem corporal e arranjo musical. Ela escapa a compreensão porque se reinventou de uma forma que sua postura e sua opinião não fizessem paralelo nos costumes. Nunca se posicionou a margem de seu mundo, sempre buscou o ângulo através do qual pudesse impactá-lo.
Sua natureza fortemente criativa e sinalizada por um de seus aspectos mais característicos: a tendência de se reinventar constantemente. O método caiu perfeitamente ao “estilo Madonna”, pois à medida que buscava uma nova imagem para si própria ela alimentava a figura da mulher forte e dominadora – algo que fazia questão de reafirmar constantemente – que não acompanhava as tendências, mas que as criava. “Eu não defendo um estilo de vida eu descrevo um”- disse ela durante uma entrevista coletiva.
Madonna que sempre soube usar o poder da linguagem corporal tinha consciência do papel do olhar como parte da expressão dos sentimentos. “True Blue” – escrita por ela e dedicada ao seu marido, na época o ator Sean Pen - faz uma alusão a cor dos olhos de Pean como um espelho de seus sentimentos verdadeiros. True Blue (Azul verdadeiro) tornou-se o álbum mais vendido no mundo em 1986. Lançado no mês de junho daquele ano ele enfrentou a concorrência direta do álbum True Color (Cores Verdadeiras) de Cindy Lauper, lançado apenas três meses depois.
Like a Prayer, o terceiro álbum de estúdio de Madonna, lançado por ocasião dos seus trinta anos, marca uma fase angustiante de sua vida. O álbum deve seu sucesso à forma sabia com a qual ela soube colocar seus sentimentos em paralelo ao momento econômico dramático da política neoliberal do presidente Ronald Regan. A ideia era se afastar da imagem pop vibrante de seu álbum anterior “True Blue” e mergulhar numa atmosfera angustiante sinalizada pelos cabelos castanhos e por vocais densos. Era o inicio de uma nova fase o que para Madonna não configurava um desafio uma vez que se trata de alguém acostumada a criar diferentes versões de si mesma.
“Like a Prayer” retoma a linguagem de “True Blue” sob uma perspectiva menos glamourosa e, portanto se caracteriza como uma projeção complementar do trabalho anterior. Essa perfeita transição entre duas fases marcantes de sua carreira é o que torna “Like a Prayer” o seu trabalho mais admirável e mais próximo de uma autêntica forma de arte, pois é nele que Madonna deposita a mais significativa carga emocional. Suas musicas exalam sentimentos que se constroem por meio da junção de uma sonoridade angustiante e de uma composição carregada de reflexão e confissão, tudo isso sem o toque maçante do recurso trágico. Dessa forma ela não apenas encerrava um capitulo de sua biografia como também reafirmava sua postura dominadora.
“Spanish eyes” é uma das mais marcantes faixas do álbum. Carregada de sentimentos a letra fala sobre a busca de consolo na fe como alivio para a dor produzida pela saudade. Em determinado momento da letra ela deixa claro o papel de sua musica como parâmetro de compreensão para seus sentimentos.
A extensão mais evidente de “True Blue” em “Like a Prayer” e a canção “Cherish” cuja letra foge dos temas mais densos das demais faixas do álbum. Enquanto “Cherish” configura uma projeção de “True Blue”, “Live to tell” é uma antecipação dos rumos tomados em “Like a Prayer”. Essa dupla conexão entre os trabalhos reflete a presença do produtor musical Patrick Leonard como co autor em ambos os discos.
Para quem quiser ler mais sobre a vida da cantora Madonna recomendo a leitura de "Madonna 50 anos", um livro cativante desde o seu inicio e recheado de historias sobre essa lenda do pop. Ótima leitura!!
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
Título: Madonna: 50 Anos
Subtítulo: A Biografia do Maior Ídolo da Música Pop
Autor: Lucy O'Brien
Editora: Nova Fronteira
Ano: 2008

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

OS ANOS 40 DE RACHEL JARDIM


A obra “Os anos 40 a ficção e o real de uma época” mostra o desenvolvimento de uma personagem a partir da reminiscência dos lugares e das pessoas que fizeram parte da sua vida. O tom narrativo é bem leve e fluido. Não existe aqui nenhum dos elementos que caracterizam negativamente a literatura brasileira para o publico mais geral como expressões regionalistas ou rebuscamento narrativo prolixo.
É um texto que remete o leitor ao seu próprio passado é e pouco provável que este não se identifique com algumas situações do enredo. A protagonista possui uma maturidade cativante que diminui com o passar do tempo. Ela é muito mais interessante nos momentos iniciais nos quais se descobre e apresenta ao leitor, de forma corajosa, alguns aspectos do seu mundo interior.
Em alguns momentos o numero excessivo de descrições de alguns personagens deixa a narrativa um pouco arrastada, mas nada que comprometa a conclusão da leitura. É uma obra surpreendentemente simples e ao mesmo tempo complexa dentro daquilo que ela se dispõe a fazer: uma mulher adulta tentando descrever de forma madura as inconstâncias da mente de uma garota vivendo em plena década de 40. Isso requer muita competência narrativa, pois em nenhum momento o autor pode deixar transparecer a sensação de uma lembrança fabricada ou romantizada.
Aqui surgem alguns problemas no enredo uma vez que o formalismo da linguagem não deixa transparecer a menina por trás dela. São poucos os momentos em que fica a sensação de que uma pré-adolescente esta falando, mas nos momentos em que a autora consegue incorporar a expressão sentimental de uma garota ela o faz de forma absurdamente competente. Ela realmente nos convence de que a criança que fomos um dia permanece viva dentro daquilo que somos hoje.
Acrescente-se a isto criticas ao movimento modernista, descrições geográficas de cidades como Juiz de Fora, Belo Horizonte e Rio de Janeiro acompanhadas de reflexões sobre as impressões deixadas por essas cidades em momentos de abruptas mudanças e de novas consolidações pessoais. Rachel Jardim presenteia o leitor com uma obra onde o presente busca no passado uma explicação para os rumos tomados: “Nunca soube ao certo se era um ser extremamente frágil ou extremamente forte. Até hoje não sei”.
AUTOR
TIAGO R.CARVALHO
OS ANOS 40 A FICÇÃO E O REAL DE UMA ÉPOCA
Autora: Rachel Jardim
Editora: Jose Olympio
189 paginas

domingo, 22 de janeiro de 2017

UTOPIA DA LIBERDADE


O conceito de liberdade opera uma inversão de formas de opressão: no regime despótico o Estado oprime a vontade, no liberalismo é a consciência que age com força opressora. Como a consciência é variável, e em muitos casos inexistente, tem-se a impressão de que na democracia existe liberdade.
O próprio conceito de liberdade traz em si a proposta de conflito na medida em que o homem se vê abrigado a adequar seus interesses pessoais com o coletivo, ou seja, o homem se torna um alquimista social cuja obrigação é transformar desejo – força sedutora do inconsciente – em vontade. Vontade e desejo são completos opostos: vontade surge da reflexão, da avaliação dos prós e contras; já o desejo é apenas a manifestação do pólo pulsional e primitivo.
A liberdade também possui sua dose de opressão e está se torna clara quando se compreende que o homem, e somente ele, é responsável por seus atos. É essa a força esmagadora que o homem “livre” - o Atlas da modernidade - carrega nos ombros.
O existencialismo define que primeiro o homem existe como um nada e posteriormente define seu nicho social. Trata-se da absoluta negação da essência criadora, do “dom” natural, da aptidão genealógica. O homem segue por caminhos que se definem por meio de suas escolhas. Só em retrospecto ele reconhece suas falhas. Tragicamente essas falhas só se tornaram visíveis quando adquirem o status de incorrigíveis.
A ideia de liberdade ainda se confunde com a de “cada um por si”. O Estado paternalista autoritário faz despertar a natureza rebelde do homem que mergulha no rumo da busca por liberdade sem saber que ruma para novas formas de opressão. Liberdade não é cada um por si! Cada atitude individual possui um eco coletivo, viver como um Robinson Cruzoe não é uma opção é apenas uma utopia.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

A ERA VITORIANA: PROGRESSO TECNOLÓGICO E REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


Em 1837, uma jovem de 18 anos foi coroada rainha da Inglaterra. Com apenas 1,47 de altura a rainha Vitoria marcaria sua época como uma das gigantes da monarquia britânica. Entre junho de 1837 a janeiro de 1901 o império britânico, sob o seu reinado, expandiria seus limites e se apoiaria na Revolução Industrial para elevar o padrão de vida da classe media.
Nestes 63 anos de reinado a Inglaterra registrou um crescimento demográfico assustador, passando de 16,8 milhões para 30,5 milhões num período entre 1851 a 1901. Esse crescimento assustador, em parte ocasionado pelo progresso tecnológico, ocasionou verdadeiros desastres urbanos como epidemias, expansão da pobreza e da violência. Londres emergiu como a grande metrópole européia, marcada pelo contraste entre a opulência dos mais ricos e a extrema miséria dos mais pobres.
Essa concentração assustadora de necessidade e prosperidade industrial fez de Londres uma singularidade absoluta entre as metrópoles européias. A gigantesca cidade permanecia imersa numa nevoa sulfurosa proveniente das chaminés industriais. As ruas cobertas de sujeira e estrume de cavalos, o asfalto impregnado por uma substancia negra que lembrava a graxa de sapato, os prédios cobertos por uma fina camada de fuligem. Essa era a imagem da grande metrópole moderna, industrializada e em rápido crescimento.
A região de maior concentração demográfica se localizava no norte do país: as áreas em torno das cidades de Manchester, Bradford, Preston e Livepool eram conhecidas como verdadeiros formigueiros humanos. A região era dominada por minas de carvão e apresentava concentração demográfica de 150 a 300 habitantes por quilometro quadrado (referentes ao ano de 1801). Algumas cidades como Londres, Birmingham, Bristol, Gloucester, Nostingham, Sheffield, Exeter e Newcastle também apresentava o mesmo índice demográfico. Em uma de suas viagens ao complexo industrial de Birmingham a jovem, e ainda adolescente, princesa Vitoria deixou registrado o que viu:
“Os homens, mulheres e crianças, o campo e as casas são todos escuros. O campo está desolado em toda parte. O carvão em toda parte e a grama toda arruinada e negra.”
O predomínio da indústria têxtil, como principal matriz produtiva, permaneceu durante toda a era vitoriana. 40% de toda a mão de obra era empregada nas indústrias de tecido de algodão em 1880. A indústria têxtil cresceu em função do comercio colonial; a conquista destes mercados alem mar foram determinantes, pois o mercado interno era bastante reduzido no que diz respeito ao consumo de tecidos.
Em 1814 a Inglaterra exportava quatro jardas de tecido de algodão para cada três consumidas no mercado domestico; em 1850 a proporção já era de treze para oito. A indústria têxtil predominava em cidades como New Lanark, Leeds, Todmorden, Blackburn, Bury, Bolton, Mancchester, Steckport, Cromford, Bersham, Coalbrookdale, Broseley, Bilton, Penydarram. Cidades como Glasgow, Prestonpans, Tipton e Birmingham formavam o emaranhado urbano de industrias químicas, cuja importância no período era equivalente ao setor têxtil, embora os rendimentos do segundo fossem infinitamente superiores.
O que seria de fato uma sociedade capitalista? Um exemplo de sociedade capitalista é aquela que reúne o seguinte conjunto de características:
1 - Predomínio da mão de obra assalariada, ou seja, o proletariado não sendo dono dos meios de produção vende sua força de trabalho.
2 - Meios de produção (fabricas, industrias) concentradas nas mãos de uma classe social: Burguesia.
3 - Produção em massa: tudo aquilo que é produzido é feito para se tornar uma mercadoria.
4 - Divisão do trabalho e alto consumo de energia.
Duas coisas eram fundamentais para a criação de uma sociedade capitalista: uma classe de proprietários dotados de capital necessário para investir no setor produtivo e mão de obra excedente. A revolução agrícola inglesa foi levada a cabo pensando-se em acumular capital – que mais tarde poderia ser empregado em determinados setores industriais -, em aumentar a produção de alimentos, indispensáveis na alimentação das massas urbanas em rápido crescimento e funcionar como reserva de mão de obra, o que manteria os salários do ramo industrial baixos. A política dos Cercamentos foi utilizada para solucionar um antigo dilema do mundo rural: a relação entre camponeses e os donos da terra.
No período anterior ao inicio da Revolução Industrial – iniciada por volta de 1760, embora seja quase impossível afirmar quando de fato a mesma tenha se iniciado – a terra era um bem comum e, portanto cultiva por toda a parcela camponesa da sociedade. Com o inicio do capitalismo industrial a terra se tornou um bem de produção, graças a sua associação com a indústria têxtil, cuja matéria prima era a lã proveniente da criação de ovelhas. A política dos cercamentos permitiu aos grandes criadores cercar áreas proporcionais ao numero de ovelhas que possuíam. Isso levou a expulsão de milhares de camponeses de suas terras que migraram para as cidades. Pode-se dizer que o capitalismo definiu o campo como um setor produtivo subordinando as cidades, ou melhor, subordinou ao comercio e as necessidades industriais.
A mecanização do setor manufatureiro era infinitamente mais vantajoso que a mecanização agrícola, cujos resultados eram contrários as expectativas do agricultor. Com a mecanização das colheitas a matéria prima inundava o mercado manufatureiro em uma escala gigantesca. Isso provocava queda do valor da matéria prima, ao mesmo tempo que elevava o lucro dos industriais, pois o manufatureiro gastava cada vez menos com matéria prima, mas mantinha o preço dos manufaturados constante.
Era um mecanismo extremamente favorável ao setor industrial, pois “forçava” o agricultor a elevar a produção, mesmo contra sua vontade, pois somente com a elevação da produção o agricultor conseguiria realizar a aquisição dos manufaturados de que necessitava. No setor industrial o processo se inverte: quanto mais o industrial investia em tecnologia de produção mais caro seus produtos se tornavam, mais barato se tornava a produção do mesmo produto e mais baixo o valor do salário, pois uma tecnologia mais eficiente reduz uma pequena fração da mão de obra.
No período de 1830 a 1850 a Inglaterra apresentou um crescimento assustador na produção de dois itens básicos no contexto da industrialização: carvão e ferro. A produção de ferro subiu de 680 mil para impressionantes 2.250.000 toneladas. As minas de carvão estavam espalhadas pela região central e norte do país e sua produção passou de 15 milhões de toneladas para 49 milhões no mesmo período. Esse aumento na produção de ferro e carvão deveu-se a expansão das linhas de férreas que apesar de apresentarem um lucro de apenas 3,7% continuou a receber investimentos de uma classe media que havia acumulado mais dinheiro do que era capaz de gastar.
A gigantesca maquina industrial britânica consumia energia equivalente a um milhão de cavalos (HP), produzia 1800 metros de tecido de algodão anualmente, 50 milhões de toneladas de carvão e exportava 170 milhões de libras esterlinas anuais na forma de mercadorias. Hoje esses valores são desprezíveis se considerarmos o valor envolvido no comercio globalizado, mas na época eles fizeram da Inglaterra uma singularidade absoluta em termos de economia industrializada.
O florescimento das cidades portuárias, como Manchester, Liverpool, Bristol e Glasgow, esta relacionada ao papel das exportações na economia do país. Os lucros produzidos pela indústria de tecidos eram gigantescos e estes só começaram a cair por volta de 1815, como parte de um processo natural dos ciclos econômicos (ascensão, consolidação e decadência). Os lucros caíram ainda mais nos anos seguintes, pois o preço da matéria prima variava e o aumento do número de indústrias elevava a oferta forçando os industriais a reduzir o preço para evitar a perda de mercado.
Parte do sucesso do setor têxtil se deve ao pacto colonial que proibia a criação de manufaturas nas colônias para evitar a concorrência com os produtos da metrópole. Em muitos casos o progresso industrial britânico foi alavancado pela conquista de novos mercados alem de suas fronteiras. A Índia possuía um setor manufatureiro bastante desenvolvido e operante. Organizada por padrões familiares a mesma foi arrasada pelo colonialismo britânico, cuja industria mais desenvolvida fornecia produtos de melhor qualidade a preços inferiores. Com o desmantelamento do setor têxtil a Índia, tradicional exportadora de manufaturados, se tornou um grande consumidor dos produtos ingleses.
A SOCIEDADE VITORIANA
A sociedade era extremamente moralista e machista. O homem dominava o mercado de trabalho e a mulher via seu papel relegado ao de funcionaria domestica. Não havia espaço para posturas radicais quanto à estrutura padrão do lar. O homossexualismo era reprovado pela sociedade de forma vigorosa. Um dos mais famosos casos envolvendo homossexualismo no período foi à condenação do escritor Oscar Wilde a dois anos de trabalhos forçados por sodomia.
As convenções vitorianas relacionadas ao casamento eram rígidas e bastante desfavoráveis a figura feminina. Todas as propriedades herdadas pela mulher eram automaticamente repassadas ao marido após o casamento, que inclusive tinha o direito de “educar” sua esposa por meio de golpes de vara, desde que esta não fosse mais grossa do que seu polegar. John Stuart Mill foi um ardoroso critico daquilo que chamava de “escravidão da mulher”
Para o estilo de vida burguês, predominante na era vitoriana, o lar era a expressão máxima do individualismo e das conquistas particulares. Era o limite físico entre o idílio privado a o caos do crescimento desordenado e desumano da sociedade do lado de fora. Era o contraste entre a união familiar e o individualismo social, entre o calor fraterno do circulo familiar e o frio da miséria que percorria as ruas. Nesse sentido nenhuma festa poderia representar melhor esse estilo de vida do que o natal. A arvore de natal, criada na Alemanha, tornou-se o símbolo maximo da Inglaterra vitoriana.
O lar burguês era a representação máxima de status. As casas eram entulhadas de manufaturados: tapetes cobriam todos os cômodos, estofamentos cobriam todas as cadeiras, as paredes eram cobertas por quadros com moldura elaborada. A intenção era expor ao visitante o luxo da realidade burguesa em contraste com a pobreza do mundo exterior. Isso servia para estabelecer uma distancia social entre os moradores da residência e os membros da classe proletariada.
Pode-se dizer que a moda vitoriana era essencialmente paradoxal. Se por um lado buscava reprimir qualquer vestígio de erotismo, por outro buscava evidenciar determinadas características sexuais secundarias. Os homens “bem nascidos” usavam a tradicional cartola com terno justo na cintura, um relógio preso a corrente no bolso e a bengala – este último um adorno indispensável. As mulheres andavam completamente cobertas, mesmo nos dias muito quentes – pouco comuns no continente europeu, mas freqüente nos trópicos coloniais. O que não podia ser coberto era evidenciado: os homem usavam barbas e bigodes exuberantes, as mulheres usavam penteados volumosos, saias que aumentavam a proeminência das ancas e afinavam a cintura. A tradicional luva de camurça e o guarda chuva estavam sempre presentes.
A moda do período se dividiu em duas vertentes: a Early Victorian (1837 – 1860) e a Mid To Late Victorian (1860 – 1901). Num primeiro momento a tendência era valorizar ombros estreitos, cinturas baixas e mangas compridas. As roupas eram claras e o espartilho considerado indispensável, não apenas esteticamente falando, mas também como adereço com propriedades medica. As roupas eram tão vistosas que entre anáguas, xales e outros adornos as mulheres chegavam a carregar mais de 15 quilos de tecidos no corpo.
Como estereótipo de beleza estavam aquelas que possuíam lábios pequenos, pele branca, olhos grandes e negros e cabelos ricamente cacheados. No segundo momento, durante o Mid To Late Victorian, os chapéus femininos se tronaram comuns, bem como tecidos listrados e saias volumosas atrás e retas na parte frontal. Em 1861 a morte do príncipe Albert levou a rainha Vitoria a mergulhar no luto. Na moda o luto da realeza ditou um novo estilo: vestidos com tecidos escuros. Seria a indústria química de corantes a responsável por atender esses novos anseios da moda. A moralidade burguesa era terrivelmente machista quando se tratava de comportamento sexual. Das mulheres solteiras era exigida a castidade, das casadas nada menos que a obediência e a fidelidade cega. Aos homens era reservada uma parcela de infidelidade, tida como natural. Em certos pontos a escala de valores e o senso de moralidade burguesa chegavam a ser hilariantes: no Palácio de Buckingham a rainha Vitoria mandou aumentar o comprimento das tolhas para que as pernas das mesas não ficassem expostas.
Obviamente que esse puritanismo não se aplicava nas ruas, principalmente quando se tratava do relacionamento entre burgueses entediados com sua vida particular e a parcela mais pobre da sociedade. O próprio número exorbitante de prostitutas na Londres vitoriana reforça essa afirmação. Em 1864 chegou a ser aprovada uma lei que visava controlar as doenças venéreas entre a população pobre. Segundo o seu texto os policiais podiam realizar a internação forçada de qualquer prostituta em hospitais até que a mesma se recuperasse completamente. Hoje sabemos que a Sífilis é uma doença incurável que afeta inclusive o sistema nervoso.
O individuo diagnosticado com Sífilis possui uma expectativa de vida de apenas 10 anos, período no qual a doença apresenta alternadamente momentos de melhora e piora dos sintomas, mas que ainda sim era capaz de transmitir a doença. Essa lei, chamada “Contagious Diseases Acts”, revela não só a ignorância em relação as doenças venéreas, como expõe a tendência vitoriana de sustentar uma sociedade de aparências seletivas, tanto no plano social como no domestico.
O casamento era não apenas um costume burguês, mas também uma potente ferramenta econômica. Ao se casar o individuo perdia sua capacidade de romper com os costumes e de transgredir o padrão social vigente. O casamento gerava indivíduos que contraiam dividas, geravam filhos, se tornavam funcionários dedicados e obcecados pelo aprimoramento profissional além de consumidores vorazes de bens de consumo e de bens duráveis. Viver solitário era o mesmo que estar à margem da sociedade, ou seja, um exemplo de alguém que não conseguiu se inserir no estilo de vida tido como “normal”.
Apesar do puritanismo aparente da sociedade o consumo de ópio era bastante difundido por todas as classes. As colônias britânicas nas índias forneciam toneladas do produto ao império. A droga era consumida como medicamento e como distração social. A própria rainha vitoria era consumidora de ópio, que segundo testemunhas era consumido misturado com cocaína na forma de pastilhas.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
PARA SABER MAIS:
IDIOMA Português
EDITORA: Paz E Terra
NÚMERO DE PÁGINAS: 540

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