quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A COLHER QUE DESAPARECE


Em química é comum atribuir nomes da mitologia aos elementos devido a suas propriedade. Na mitologia grega Tântalo foi condenado a sofrer eternamente de sede ainda que seu corpo estivesse mergulhado em um rio. Sempre que ele se curvava para beber de suas águas estas se afastavam de sua boca.
O elemento de numero atômico 73 recebeu esse nome devido a sua característica de não se misturar facilmente em água. O Tântalo é um elemento que normalmente se encontra no solo misturado a outros metais, geralmente é encontrado associado ao Nióbio. Na mitologia grega Nióbia era filha de Tântalo e por isso o elemento de numero atômico 41 recebeu foi batizado de Nióbio – pois ambos possuem propriedades físicas e químicas semelhantes.
Tântalo e Nióbio são elementos resistentes a corrosão, ou seja, são difíceis de sofrerem oxidação (perda de elétrons). Isso torna a ambos excelentes alternativos para a produção de baterias de aparelhos eletrônicos como celulares uma vez que ambos seguram bem uma carga elétrica. O principal fornecedor de Nióbio na década de 90 era a República Democrática do Congo – antigo Zaire. Tribos do Zaire estavam em guerra com rivais de Ruanda, na África Central. Em 1996 os terríveis massacres de Ruanda sinalizaram ao mundo o caráter brutal do conflito. O governo do Zaire precisava de dinheiro para manter a guerra e os massacres e esse dinheiro veio das empresas de componentes eletrônicos européias e ocidentais.
No Zaire o Tântalo e o Nióbio era retirados do solo de forma simples e rudimentar: bastava uma simples pá para recolher o barro cinzento que ficava nas margens dos rios e que era chamado de Coltran – basicamente uma mistura rica em Nióbio. Centenas de família se embrenharam nas matas em busca do ouro barrento que sustentava a guerra. Como passavam dias, e em alguns casos vários meses, no meio das matas as pessoas buscavam meios alternativos para se alimentar. A caça ao gorila africano atingiu o auge neste período.
Os garimpeiros passaram a se alimentar de carne de gorila para não morrer de fome. Esse contato entre humanos e gorilas provocou a ameaça de extinção do ultimo e alguns pesquisadores acreditam que foi esse contato que promoveu o desenvolvimento do vírus HIV – um vírus que se desenvolveu inicialmente nas células do gorila africano. O contato de seres humanos portadores de vírus patogenos a sua espécie - como a gripe comum – pode ter entrado em contato com o vírus HIV primitivo do gorila. Desse contato uma provável mutação permitiu ao vírus HIV adquirir receptores que permitissem sua entrada em células humanas, dando inicio a uma das maiores tragédias da historia do homem.
Essa é apenas uma das centenas de historias que preenchem a interessante obra de S.Kean “A colher que desaparece”. Como alguém apaixonado por química, como eu, a historia dos elementos químicos sempre foi um foco de minha atenção. O Nióbio vem ganhando destaque junto a mídia devido a expectativa representada por sua exploração econômica. Resta a nos torcer para que o seu passado sangrento não volte a se repetir.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A COLHER QUE DESAPARECE
Autor: KEAN, SAM
Tradutor: CARINA, CLAUDIO
Editora: ZAHAR
Ciências Exatas - Química
Ano: 2011
Nº de Páginas: 370

domingo, 13 de agosto de 2017

UMA HISTORIA DA ÓPERA


“Carmen” é uma opera cômica que termina em tragédia. A história se passa em Sevilha onde a cigana Carmen, uma mulher promiscua, convence Jose a abandonar sua carreira no exercito e se aliar ao bando de contrabandistas. Foi uma das óperas de maior sucesso do século XIX, mas parte de seu sucesso se deveu a um fato macabro de sua historia.
Em 2 de junho de 1875, durante a 33ª apresentação de “Carmen” a cantora Celestine Gelli-Marie desmaiou no palco após sentir uma forte dor no lado direito do corpo. O fato aconteceu durante o terceiro ato, no exato instante em que Celestine encenava a icônica cena do taro marcada pela aparição da carta da morte.
Após recobrar a consciência Celestine conseguiu terminar o espetáculo, mas logo em seguida caiu em prantos. Enquanto ainda tentava se recuperar do ocorrido chegou a noticia de que Bizet, autor da ópera “Carmen”, havia falecido poucas horas antes. Essa é outras historias estão presentes em “Uma historia da ópera”, de Carolyn Abbate e Roger Parker. Um texto ambicioso que se propõe a discutir os mais de quatrocentos anos de história da ópera, uma arte cuja beleza emerge do seu aspecto irreal.
O questionamento inicial que os autores levantam é bem interessante: para se apreciar a ópera é necessário que o publico entenda o idioma no qual ela é encenada? Alguns especialistas acreditam que não. Isto porque ao serem pronunciadas como musicas algumas palavras perdem o seu significado semântico. Entre os elementos que contribuem para essa perda está o som dos instrumentos que tanto servem como moldura para a voz humana como em determinados momentos suplantam essa mesma voz.
Existe de fato uma pretensão poética nas letras de algumas musicas, porem os significados dos mesmos versos mudam de acordo com a forma na qual são pronunciados: na poesia a beleza está no significado da palavra, na musica é o som dessa palavra que se destaca, portanto a musica explora muito mais o elemento estético da língua do que o seu significado verbal.
Outro ponto levantado pelos autores é o fato de a ópera ser tão exótica e, por conseqüência, estranha. Um dos elementos que essa arte busca é a fuga da realidade, provocar o esquecimento e isso inclui o abandono temporário da obsessão moderna pelo aspecto do visual perfeito. E dessa forma que, segundo os autores, a ópera apela para algo que transcende a estreita dimensão cognitiva humana.
Uma das coisas de que eu senti falta no início apareceu por volta da pagina duzentos, que é a contextualização histórica. Até esse momento os autores se detiveram nos aspectos mais técnicos da ópera. Mozart, como já era de se esperar, aparece como figura central. O compositor, no entanto, não tem tanto destaque quanto suas peças e seus trabalhos. Os aspectos biográficos surgem apenas como elementos de transição o que é muito bom tendo em vista aquilo que a obra tem como pretensão: narrar à história da ópera e não a história de seus ícones.
A contextualização do romantismo alemão na ópera é inserido no texto através de uma passagem belíssima da obra “Orlando”, de Virginia Woolf. Era meia noite de 31 de dezembro de 1799:
“O relógio deu meia noite, nuvens cobriram o céu a partir do norte, soprava um vento frio, a luz de mil velas douradas se extinguiu, e, subitamente, aqueles que estavam vestidos com diamantes e calções de seda branca e rendas prateadas e cetim cor de pêssego se envolveram em sombrios veludos e ornamentos feitos de contas de âmbar negro. O século XIX tinha chegado.”
A ópera alemã do século XIX tinha um aspecto xenofóbico bem evidente, e é por meio da contextualização que os autores explicam o porquê dessa hostilidade alemã para com os demais povos. As constantes invasões napoleônicas, por exemplo, criaram a imagem de uma nação violada, corrompida. Isso é muito interessante porque explica o anti-semitismo de alguns grandes ícones da ópera alemã como Richard Wagner – ícone supremo e símbolo maximo de admiração de Adolf Hitler, o cabo austríaco que em seus anos de juventude era um assíduo freqüentador das casas de ópera de Viena.
O problema maior aqui é a abrangência do publico alvo. Os autores obviamente criaram uma obra que fosse relevante para os críticos e também para o publico mais leigo. O resultado foi uma quebra no impulso narrativo devido a sua intermitência. Em um momento estamos lendo sobre a vida de um grande compositor e sobre a relevância de determinada ópera e no momento seguinte somos jogados numa tempestade entediante de análises puramente técnicas e incompreensíveis para qualquer leigo.
O que os autores fazem de melhor é apresentar ao leitor o material que este tem em mãos. O capitulo inicial é absurdamente bem escrito. Certamente é um texto que cumpre o que promete, pois desde o inicio fica claro que ele dialoga com todo tipo de leitor. Nas ultimas cem paginas a narrativa se torna mais truncada com muitas análises técnicas e com contextualizações ocasionais. Em uma delas os autores exploram a influencia da psicanálise de Freud nas encenações operísticas do final do século XIX.
Ao termino da leitura fica de fato a sensação de que a obra é direcionada a um publico familiarizado com o mundo da ópera, embora isso não signifique que não possa ser lido por um leigo que procura em textos desse gênero informações, como por exemplo, sobre a rotina dos atores, figurinos, detalhes arquitetônicos, histórias de bastidores, enfim o trivial associado a um resumo das óperas. Tudo isso está presente na obra porem de forma mais minimalista, o que predomina é a análise técnica: libretos, orquestrações, etc. Um ótimo texto onde a arte é sempre superior ao artista.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
UMA HISTORIA DA OPERA
Autor: ABBATE, CAROLYN e PARKER, ROGER
Tradutor: GEIGER, PAULO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2015
Nº de Páginas: 656

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

BIOGRAFIA INTIMA DE LEOPOLDINA


“nós, pobres princesas, somos como dados cuja sorte se joga e cujo destino depende do resultado. Dirás que sou uma verdadeira filosofa, mas o fogo da juventude se apaga facilmente quando as pessoas se tornam prudentes por experiência própria”.
- Leopoldina
“A biografia intima de Leopoldina” do cientista político Marsilio Cassoti, talvez venha resgatar a imagem real da princesa do Brasil, considerada até então como coadjuvante no processo de independência. Leopoldina foi tão determinante no processo quanto o próprio imperador Dom Pedro I. Lamentavelmente a historiografia brasileira encerrou-a dentro dos moldes da estrangeira feia, desleixada, subordinada ao marido e restrita ao papel de mãe. Na obra de Cassotti vemos despertar uma jovem de beleza austríaca, inteligente e apaixonada por mineralogia e ciência. As primeiras cem paginas narram o período de formação de Leopoldina desde a infância até o momento em que ela finalmente desembarca no Brasil. Apesar de ser um texto fácil de ler acredito que essas primeiras paginas possam, de alguma forma, entediar leitores menos familiarizados com biografias de personalidades históricas. Não foi esse o meu caso!
Leopoldina teve no Brasil o que se pode definir como uma vida monótona e marcada por humilhações devido a infidelidades do seu marido. Ela se refugiava na natureza, se empenhava nas aulas de piano, português e latim. Adorava passar as tardes na famosa “cascatinha do tijuco” ou cavalgando. Esse estilo de vida pacato não tornava sua historia desinteressante embora não se possa dizer que possua o mesmo vigor que a historia de sua famosa tia, a extravagante rainha francesa Maria Antonieta.
A admiração por Leopoldina surge diante da narrativa de uma noite chuvosa quando uma princesa, ostentando um ventre com cinco meses de gestação, se levanta da cama preocupada com a perspectiva de um ataque das tropas portuguesas enviadas de Lisboa. Enquanto Leopoldina pensava na situação política, Dom Pedro se perdia nos braços de sua amante, a famosa Domitila de Castro. Na manha seguinte, 2 de setembro, a revelia de Dom Pedro, Leopoldina reuniu o Conselho de Estado. Foi esse conselho, marcado pela presença dominante de Jose Bonifacio de Andrada e Silva, outro ícone admirável da historia do Brasil, que deu inicio ao processo de separação de Portugal. Logo após e reunião do conselho Leopoldina escreveu a Dom Pedro:
“(...)O Conselho de Estado vos aconselha a ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças se partirmos agora para Lisboa. Sabemos bem o que tem sofrido nosso país. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito. O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com vosso apoio ou sem vosso apoio, ele fará sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrecerá.”
Após ler a carta de Leopoldina, Dom Pedro se restringiu ao gesto patético de dizer a seu assistente: “Dize à guarda que acabo de fazer a independência completa do Brasil. Estamos separados de Portugal!”
O tom político que a obra assume em determinado momento pode frustrar um pouco aqueles que esperavam de fato uma biografia “intima” da princesa do Brasil. No entanto após os acontecimentos do processo de independência a narrativa volta à esfera privada de Leopoldina, começando com a perda de seu mais poderoso aliado: Jose Bonifacio, que caluniado por seus rivais ousou levantar suspeitas sobre Domitila. Irritado com as alegações de Bonifacio o imperador acabou por demiti-lo do cargo de Ministro.
Leopoldina passou a se refugiar cada vez mais na natureza, passou a se importar ainda menos com sua aparência e a buscar na solidão das cavalgadas a resposta para seus dilemas. Na madrugada do dia 1º para 2 de dezembro ela sofreu um aborto espontâneo. Seu estado foi ficando cada vez mais critico até que na manha de 11 de dezembro de 1826 sua historia chegou ao fim. Tinha apenas 29 anos de idade.
A jovem princesa do Brasil certamente não tem o reconhecimento que deveria ter. Foi uma mulher admirável que certamente teria tido uma vida muito mais gloriosa como princesa de um país que valoriza-se mais as artes e o conhecimento. Sua tragédia talvez se deva ao fato de ser uma jovem princesa em um país ainda mais jovem. Ótimo Livro!!!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A BIOGRAFIA INTIMA DE LEOPOLDINA
Autor: CASSOTTI, MARSILIO
Editora: PLANETA DO BRASIL
Ano: 2015
Nº de Páginas: 304

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A BIBLIOTECA ESQUECIDA DE HITLER


Timothy Riback
É muito comum ouvir criticas sobre a saturação do mercado literário com obras sobre Hitler e o nazismo. Embora reconheça que existe uma atenção desproporcional das editoras brasileiras pelo tema, em função do seu apelo comercial, existem muitas obras que apesar de falarem de um mesmo evento o fazem de diferentes ângulos de modo que um funciona como complemento do outro.
O problema é que um mercado literário monotemático acaba deixando de lado inúmeros outros temas igualmente relevantes e que em alguns casos tratam de eventos pré e pós segunda guerra mundial (1939-1945). Isso é muito significativo, pois se cria um publico informado sobre os eventos da guerra, mas incapaz de identificar os elementos que levaram a ela ou compreender seus desdobramentos. Se existe uma obra que explora uma face até então desconhecida do ditador austríaco é “A biblioteca esquecida de Adolf Hitler” do historiador Timothy W. Riback.
É um texto sem grandes pretensões e direcionado a todo tipo de publico, inclusive o mais leigo. Não existe predomínio da política aqui e embora a obra se permita fazer uma breve biografia de Hitler à idéia é mostrar como ele moldou seu pensamento buscando amparo nos livros. Riback não oferece a imagem de um homem influenciado pelos livros, muito pelo contrario: Hitler já possuía suas convicções políticas e raciais e o que ele fazia era buscar nos livros autores que partilhassem dos mesmos pontos de vista.
O autor explora uma face mais humana de Hitler e nos mostra que ele não era um completo fanático nacionalista que considerava tudo que fosse alemão superior aos demais; ele, por exemplo, considerava Shakespeare muito superior a Goethe.
É um livro fácil de ler, muito interessante, com uma abordagem diferenciada e bem menos carregado de tensão que as demais obras sobre Hitler trazem em seu núcleo. Ótimo texto de um autor que resolveu se lembrar de algo que todos haviam se esquecido: o papel da leitura na vida de todos nos.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A BIBLIOTECA ESQUECIDA DE HITLER OS LIVROS QUE MOLDARAM SUA VIDA
Autor: RYBACK, TIMOTHY W.
Tradutor: KORYTOWSKI, IVO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2009
Nº de Páginas: 328

terça-feira, 25 de julho de 2017

CãozinhO


Foi-se embora o meu cãozinho!
Meu cãozinho se foi!
Meu herói... minha heroína;
Partiu com um dilacerante adeus
E me deixou aqui;
cheio de saudades;
cheio de lembranças;
que nunca morrem;
que nunca me deixam;
e que nunca me permitiram ser novamente
o que eu era antes dele.
TIAGO R. CARVALHO

sexta-feira, 14 de julho de 2017

FOI-SE O MARTELO!


Em um primeiro momento me parece ser bastante contraditória a posição do Partido Comunista Soviético em se auto proclamar como um produto do marxismo e ao mesmo tempo ser profundamente ideológico. Isto porque o próprio Karl Marx tinha um conceito bastante negativo quanto às ideologias. Ele as considerava como um mecanismo de coerção social que dificultava a percepção do que ele chamava de alienação.
Marx considerava como ideologia o conjunto de idéias e normas que condicionavam o comportamento dos indivíduos aos interesses da classe dominante. No sistema soviético supostamente não existiam classes, mas apenas uma: a do proletariado. Uma única classe com uma ideologia tornava o cidadão soviético alheio a todos os aspectos de sua vida. Era a forte ideologia do partido comunista que impedia que essa condição alienada torna-se obvia.
O que num primeiro momento me pareceu contraditório posteriormente se tornou bastante lógico: o responsável pela transfiguração da essência negativa do conceito marxista de ideologia para algo positivo foi o próprio Vladimir Lenin que criou a idéia de uma ideologia proletária oposta a opressiva ideologia burguesa. Na teoria um antagonismo, na pratica apenas mais do mesmo.
Relançado pela Companhia das Letras, em função do centenário da revolução russa, a obra “O tumulo de Lenin”, do jornalista norte americano David Remnick, é um mergulho político nos momentos finais do regime soviético. Corrupção, inflação, burocracia partidária, produtividade insuficiente, diferenças culturais e étnicas, escassez generalizada e altos gastos com industria bélica na manutenção da linha de frente da guerra fria fizeram o gigante vermelho desmoronar.
Não é uma obra que se detém em informações, ou seja, ela presume que seu leitor tenha certo conhecimento dos fatos apresentados. O quadro histórico é apresentado sem muitos esclarecimentos, o que é muito bom tendo em vista o que o texto de propõe a ser. O autor constrói uma espécie de crônica sobre o que ele viu em diversas cidades da União Soviética no período de 1985 a 1991.
O livro é recheado de entrevistas que oscilam do cidadão comum ao mundialmente conhecido físico Andrei Sakarov. É por meio dessas entrevistas que Remnick resgata alguns lampejos da trágica historia russa do século XX. Esse é sem duvida um dos grandes méritos da obra pois a forma como o autor transita entre o passado é o presente é construída por meio de uma narrativa artificiosa e agradável.
O tema central é basicamente a política de Mikhail Gorbatchev que promoveu a desfragmentação da União Soviética e a sua posterior transição de um regime socialista para um democrático. A narrativa se articula em torno da Perestróika e tenta mostrar a polaridade política entre os que defendiam a necessidade de reformas e a linha dura do partido comunista.
Alguns capítulos possuem nomes de obras clássicas da literatura como “Gente Pobre” de Dostoievski e “Ilusões Perdidas” de Balzac. Outros fazem uma espécie de paralelo entre o que existia na literatura e o que podia ser visto na União Soviética, como é o caso do impressionante capitulo “A revolução subterrânea” no qual a realidade dos mineiros da cidade siberiana de Mezhdurechensk é comparada a dos mineiros da fantástica obra de Emile Zola: “Germinal”.
O “Tumulo de Lenin” é uma obra excelente, e eu diria que é mais um grande acerto da Companhia das Letras. Grande em todos os sentidos, pois a obra possui 670 paginas de texto (excluindo as paginas com notas e referencias). O projeto gráfico é bem simples e com poucas fotos.
Não é uma obra que agradaria a todo tipo de leitor, pois apesar de ser um texto bem fácil ele possui uma boa dose de política, sobretudo nas ultimas paginas quando o foco passa para a tentativa de golpe de Estado dos conservadores e o ataque ao prédio do Parlamento Russo. Mas para quem se interessa pelo tema chega a ser muito satisfatório ler sobre ícones como Boris Yeltsin e Gorbatchev em meio ao turbilhão político que marcou o final do século XX e sobre o qual se ergueu o século seguinte que já nasceu em meio a incertezas e cercado por todo tipo de violência. Grande livro, ótima narrativa e um excelente resgate histórico.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
O TUMULO DE LENIN
OS ULTIMOS DIAS DO IMPERIO SOVIETICO Autor: REMNICK, DAVID
Tradutor: COUTO, JOSE GERALDO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2017
Nº de Páginas: 712

terça-feira, 4 de julho de 2017

LONDRES 1854: COLERA


“Todo limite é um começo tanto quanto um final”
– George Eliot
No século XIX Londres era a maior de todas as metrópoles. Marca indelével da atividade humana a nível geográfico e social; um verdadeiro formigueiro humano cujo crescimento desordenado havia criado um falso ecossistema: a matéria era consumida, mas não reciclada. Em 1854 dois milhões de londrinos, amontoados entre ruas fedorentas, cobertas de lixo e sufocadas pela poluição das fabricas, estariam diante de uma das mais terríveis epidemias de Cólera de sua história.
O surto teve inicio no dia 28 de agosto de 1854, nas imediações da rua Broad Street, mais precisamente no numero 40, onde vivia a família Lewis. O bebe de Sarah Lewis havia começado a apresentar sinais de febre e diarréia. Fazia muito calor naqueles dias e a população da cidade sufocava debaixo de quase 30°C. Sarah despejava diariamente a água que utilizava para lavar as fraudas de seu bebe em uma fossa que ficava diante de sua casa e a poucos metros da bomba de água que abastecia a rua.
O fato de haver uma fossa bem ao lado da bomba de água não preocupava os moradores do bairro que apreciavam a água da Broad Street devido a sua alta concentração de dióxido de carbono, o que tornava seu gosto mais agradável. O que esses mesmo moradores não sabiam é que estavam consumindo água contaminada com alta concentração de vibrio Cholerae – a bactéria causadora da cólera.
As bactérias presentes nas fezes do bebe Lewis haviam se misturados ao solo lodoso que ficava entre a bomba e a fossa. Com facilidade elas atravessaram o revestimento de cimento do poço de água e aberto caminho até suas águas. O Vibrio Cholerae precisava apenas de um meio para chegar ao intestino humano. Dentro do corpo a bacteria se associam a uma proteína que facilita sua proliferação exponencial: a cada unidade de tempo seu numero dobra.
Assim que chegar ao intestino a bactéria começa a produzir uma toxina que altera o metabolismo celular do revestimento intestinal. O corpo perde a capacidade de absorver água. A presença da toxina no intestino provoca uma reação imunológica que leva o organismo a tentar eliminar o seu conteúdo através de uma diarréia com intensa perda de líquidos. A diarréia associada aos vômitos ocasiona uma desidratação severa. Como conseqüência o sangue se torna mais grosso, a pressão sanguínea cai e o coração passa a trabalhar em um ritmo mais intenso para compensar a perda. Orgãos não vitais entram em colapso.
A vitima começa a sentir formigamentos nos pés e nas mãos, conseqüência da contração dos vasos sanguíneos. O corpo retira sangue das extremidades e passa a enviá-los aos órgãos mais vitais. Os rins passam a trabalhar mais intensamente, porem, logo entram em colapso devido ao aumento de substancias tóxicas liberadas pelo metabolismo celular. A perda de água leva ao aumento da concentração desses resíduos. Com a falha dos rins a febre se torna mais intensa. O cérebro passa a reconhecer o acumulo de resíduos do metabolismo celular como agentes patogênicos. O hipotálamo em resposta eleva a temperatura corporal. Por fim o próprio cérebro entra em colapso devido à falta de organização. A vitima entra em coma e em seguida morre.
Em um período de apenas 10 dias mais de 500 pessoas morreriam dessa forma nas imediações da rua Broad Street. Steven Johnson resgata essa tragédia em sua magnífica obra “O mapa Fantasma”. Em uma narrativa que se assemelha a um thriller cientifico, Johnson reconstrói os passos de dois homens: o medico John Snow e o padre Henry Whitehead. Ambos, valendo-se de dados estáticos, conhecimentos científicos e mapas, conseguiram traçar os caminhos da epidemia e determinar pela primeira vez que a Cólera era ocasionada pela ingestão de água contaminada e não por odores fétidos.
A obra de Johnson foi uma das mais gratificantes surpresas de leitura que tive em 2016. O texto me cativou desde as primeiras linhas com seu tom fluido é informativo. O texto começa contando um pouco sobre os limpadores de fossa que trabalhavam nas ruas de Londres. Apresenta informações sobre as tentativas de melhorias sanitárias na metrópole, como, por exemplo, a implantação de vasos sanitários nas residências. Tudo evolui até o momento em que ocorre o inicio da epidemia e essa transição é feita de forma absurdamente competente por parte do autor.
Ao estabelecer a narrativa do tema central o texto nos apresenta seus dois protagonistas. A partir daí o ritmo narrativo é intermitente e oscila entre informações sobre a Cólera é sobre o empenho de Snow e Whitehead para chegar à origem da epidemia. O final da obra é um magnífico quadro geral da tragédia humana que a cólera representou para diversas cidades no século XIX e que só foi vencida pela união entre medicina, engenharia e ciência.
O autor também explora os perigos que as grandes densidades urbanas do século XXI representam para suas populações seja a nível de ataques terroristas ou a nível microscópico como, por exemplo, a proximidade entre um simples vírus da gripe de um vírus de alta letalidade. Em alguns casos onde ocorrem epidemias periódicas do Ebola as organizações de saúde aconselham a vacinação da população contra a gripe comum. Segundo Johnson essa medida é para impedir que os dois vírus infectem um mesmo individuo o que poderia ocasionar troca de material genético entre os agentes patogenos e resultar em formas mutantes e ainda mais letais de novos vírus.
“O mapa fantasma” é uma excelente obra, com conteúdo atual e ao mesmo tempo um retrato vivo do passado.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
O MAPA FANTASMA - COMO A LUTA DE DOIS HOMENS CONTRA O COLERA MUDOU
Autor: JOHNSON, STEVEN
Subtítulo: COMO A LUTA DE DOIS HOMENS CONTRA O COLERA MUDOU
Editora: ZAHAR
Ano: 2008
Nº de Páginas: 276

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