terça-feira, 25 de julho de 2017

CãozinhO


Foi-se embora o meu cãozinho!
Meu cãozinho se foi!
Meu herói... minha heroína;
Partiu com um dilacerante adeus
E me deixou aqui;
cheio de saudades;
cheio de lembranças;
que nunca morrem;
que nunca me deixam;
e que nunca me permitiram ser novamente
o que eu era antes dele.
TIAGO R. CARVALHO

sexta-feira, 14 de julho de 2017

FOI-SE O MARTELO!


Em um primeiro momento me parece ser bastante contraditória a posição do Partido Comunista Soviético em se auto proclamar como um produto do marxismo e ao mesmo tempo ser profundamente ideológico. Isto porque o próprio Karl Marx tinha um conceito bastante negativo quanto às ideologias. Ele as considerava como um mecanismo de coerção social que dificultava a percepção do que ele chamava de alienação.
Marx considerava como ideologia o conjunto de idéias e normas que condicionavam o comportamento dos indivíduos aos interesses da classe dominante. No sistema soviético supostamente não existiam classes, mas apenas uma: a do proletariado. Uma única classe com uma ideologia tornava o cidadão soviético alheio a todos os aspectos de sua vida. Era a forte ideologia do partido comunista que impedia que essa condição alienada torna-se obvia.
O que num primeiro momento me pareceu contraditório posteriormente se tornou bastante lógico: o responsável pela transfiguração da essência negativa do conceito marxista de ideologia para algo positivo foi o próprio Vladimir Lenin que criou a idéia de uma ideologia proletária oposta a opressiva ideologia burguesa. Na teoria um antagonismo, na pratica apenas mais do mesmo.
Relançado pela Companhia das Letras, em função do centenário da revolução russa, a obra “O tumulo de Lenin”, do jornalista norte americano David Remnick, é um mergulho político nos momentos finais do regime soviético. Corrupção, inflação, burocracia partidária, produtividade insuficiente, diferenças culturais e étnicas, escassez generalizada e altos gastos com industria bélica na manutenção da linha de frente da guerra fria fizeram o gigante vermelho desmoronar.
Não é uma obra que se detém em informações, ou seja, ela presume que seu leitor tenha certo conhecimento dos fatos apresentados. O quadro histórico é apresentado sem muitos esclarecimentos, o que é muito bom tendo em vista o que o texto de propõe a ser. O autor constrói uma espécie de crônica sobre o que ele viu em diversas cidades da União Soviética no período de 1985 a 1991.
O livro é recheado de entrevistas que oscilam do cidadão comum ao mundialmente conhecido físico Andrei Sakarov. É por meio dessas entrevistas que Remnick resgata alguns lampejos da trágica historia russa do século XX. Esse é sem duvida um dos grandes méritos da obra pois a forma como o autor transita entre o passado é o presente é construída por meio de uma narrativa artificiosa e agradável.
O tema central é basicamente a política de Mikhail Gorbatchev que promoveu a desfragmentação da União Soviética e a sua posterior transição de um regime socialista para um democrático. A narrativa se articula em torno da Perestróika e tenta mostrar a polaridade política entre os que defendiam a necessidade de reformas e a linha dura do partido comunista.
Alguns capítulos possuem nomes de obras clássicas da literatura como “Gente Pobre” de Dostoievski e “Ilusões Perdidas” de Balzac. Outros fazem uma espécie de paralelo entre o que existia na literatura e o que podia ser visto na União Soviética, como é o caso do impressionante capitulo “A revolução subterrânea” no qual a realidade dos mineiros da cidade siberiana de Mezhdurechensk é comparada a dos mineiros da fantástica obra de Emile Zola: “Germinal”.
O “Tumulo de Lenin” é uma obra excelente, e eu diria que é mais um grande acerto da Companhia das Letras. Grande em todos os sentidos, pois a obra possui 670 paginas de texto (excluindo as paginas com notas e referencias). O projeto gráfico é bem simples e com poucas fotos.
Não é uma obra que agradaria a todo tipo de leitor, pois apesar de ser um texto bem fácil ele possui uma boa dose de política, sobretudo nas ultimas paginas quando o foco passa para a tentativa de golpe de Estado dos conservadores e o ataque ao prédio do Parlamento Russo. Mas para quem se interessa pelo tema chega a ser muito satisfatório ler sobre ícones como Boris Yeltsin e Gorbatchev em meio ao turbilhão político que marcou o final do século XX e sobre o qual se ergueu o século seguinte que já nasceu em meio a incertezas e cercado por todo tipo de violência. Grande livro, ótima narrativa e um excelente resgate histórico.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
O TUMULO DE LENIN
OS ULTIMOS DIAS DO IMPERIO SOVIETICO Autor: REMNICK, DAVID
Tradutor: COUTO, JOSE GERALDO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2017
Nº de Páginas: 712

terça-feira, 4 de julho de 2017

LONDRES 1854: COLERA


“Todo limite é um começo tanto quanto um final”
– George Eliot
No século XIX Londres era a maior de todas as metrópoles. Marca indelével da atividade humana a nível geográfico e social; um verdadeiro formigueiro humano cujo crescimento desordenado havia criado um falso ecossistema: a matéria era consumida, mas não reciclada. Em 1854 dois milhões de londrinos, amontoados entre ruas fedorentas, cobertas de lixo e sufocadas pela poluição das fabricas, estariam diante de uma das mais terríveis epidemias de Cólera de sua história.
O surto teve inicio no dia 28 de agosto de 1854, nas imediações da rua Broad Street, mais precisamente no numero 40, onde vivia a família Lewis. O bebe de Sarah Lewis havia começado a apresentar sinais de febre e diarréia. Fazia muito calor naqueles dias e a população da cidade sufocava debaixo de quase 30°C. Sarah despejava diariamente a água que utilizava para lavar as fraudas de seu bebe em uma fossa que ficava diante de sua casa e a poucos metros da bomba de água que abastecia a rua.
O fato de haver uma fossa bem ao lado da bomba de água não preocupava os moradores do bairro que apreciavam a água da Broad Street devido a sua alta concentração de dióxido de carbono, o que tornava seu gosto mais agradável. O que esses mesmo moradores não sabiam é que estavam consumindo água contaminada com alta concentração de vibrio Cholerae – a bactéria causadora da cólera.
As bactérias presentes nas fezes do bebe Lewis haviam se misturados ao solo lodoso que ficava entre a bomba e a fossa. Com facilidade elas atravessaram o revestimento de cimento do poço de água e aberto caminho até suas águas. O Vibrio Cholerae precisava apenas de um meio para chegar ao intestino humano. Dentro do corpo a bacteria se associam a uma proteína que facilita sua proliferação exponencial: a cada unidade de tempo seu numero dobra.
Assim que chegar ao intestino a bactéria começa a produzir uma toxina que altera o metabolismo celular do revestimento intestinal. O corpo perde a capacidade de absorver água. A presença da toxina no intestino provoca uma reação imunológica que leva o organismo a tentar eliminar o seu conteúdo através de uma diarréia com intensa perda de líquidos. A diarréia associada aos vômitos ocasiona uma desidratação severa. Como conseqüência o sangue se torna mais grosso, a pressão sanguínea cai e o coração passa a trabalhar em um ritmo mais intenso para compensar a perda. Orgãos não vitais entram em colapso.
A vitima começa a sentir formigamentos nos pés e nas mãos, conseqüência da contração dos vasos sanguíneos. O corpo retira sangue das extremidades e passa a enviá-los aos órgãos mais vitais. Os rins passam a trabalhar mais intensamente, porem, logo entram em colapso devido ao aumento de substancias tóxicas liberadas pelo metabolismo celular. A perda de água leva ao aumento da concentração desses resíduos. Com a falha dos rins a febre se torna mais intensa. O cérebro passa a reconhecer o acumulo de resíduos do metabolismo celular como agentes patogênicos. O hipotálamo em resposta eleva a temperatura corporal. Por fim o próprio cérebro entra em colapso devido à falta de organização. A vitima entra em coma e em seguida morre.
Em um período de apenas 10 dias mais de 500 pessoas morreriam dessa forma nas imediações da rua Broad Street. Steven Johnson resgata essa tragédia em sua magnífica obra “O mapa Fantasma”. Em uma narrativa que se assemelha a um thriller cientifico, Johnson reconstrói os passos de dois homens: o medico John Snow e o padre Henry Whitehead. Ambos, valendo-se de dados estáticos, conhecimentos científicos e mapas, conseguiram traçar os caminhos da epidemia e determinar pela primeira vez que a Cólera era ocasionada pela ingestão de água contaminada e não por odores fétidos.
A obra de Johnson foi uma das mais gratificantes surpresas de leitura que tive em 2016. O texto me cativou desde as primeiras linhas com seu tom fluido é informativo. O texto começa contando um pouco sobre os limpadores de fossa que trabalhavam nas ruas de Londres. Apresenta informações sobre as tentativas de melhorias sanitárias na metrópole, como, por exemplo, a implantação de vasos sanitários nas residências. Tudo evolui até o momento em que ocorre o inicio da epidemia e essa transição é feita de forma absurdamente competente por parte do autor.
Ao estabelecer a narrativa do tema central o texto nos apresenta seus dois protagonistas. A partir daí o ritmo narrativo é intermitente e oscila entre informações sobre a Cólera é sobre o empenho de Snow e Whitehead para chegar à origem da epidemia. O final da obra é um magnífico quadro geral da tragédia humana que a cólera representou para diversas cidades no século XIX e que só foi vencida pela união entre medicina, engenharia e ciência.
O autor também explora os perigos que as grandes densidades urbanas do século XXI representam para suas populações seja a nível de ataques terroristas ou a nível microscópico como, por exemplo, a proximidade entre um simples vírus da gripe de um vírus de alta letalidade. Em alguns casos onde ocorrem epidemias periódicas do Ebola as organizações de saúde aconselham a vacinação da população contra a gripe comum. Segundo Johnson essa medida é para impedir que os dois vírus infectem um mesmo individuo o que poderia ocasionar troca de material genético entre os agentes patogenos e resultar em formas mutantes e ainda mais letais de novos vírus.
“O mapa fantasma” é uma excelente obra, com conteúdo atual e ao mesmo tempo um retrato vivo do passado.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
O MAPA FANTASMA - COMO A LUTA DE DOIS HOMENS CONTRA O COLERA MUDOU
Autor: JOHNSON, STEVEN
Subtítulo: COMO A LUTA DE DOIS HOMENS CONTRA O COLERA MUDOU
Editora: ZAHAR
Ano: 2008
Nº de Páginas: 276

quinta-feira, 22 de junho de 2017

CAMINHOS DE FERRO


A guerra floreia o horizonte das possibilidades, pois vive-se o presente com tamanha intensidade que pensar no futuro se torna um alivio. A historia da “grande guerra patriótica” não é a historia do comunismo, do socialismo ou do stalinismo, pois a realidade da guerra anulou o elemento critico do povo soviético frente a seus valores ideológicos.
“A guerra não tem rosto de mulher”, obra da escritora bielorrussa Svetlana Aleksievitch, chegou ao Brasil com uma forte publicidade que vendia a imagem de uma obra predominantemente trágica. De fato o texto possui um tom dramático bem pronunciado, no entanto, existe uma alternância entre momentos mais densos e outros mais palatáveis ao leitor menos familiarizado como a crueza tradicional de narrativas do gênero. Existem sim momentos de alivio cômico, mas esses momentos não são tão evidentes. É um humor mais contido. O leitor deve saber onde buscar esse humor. É aquela velha história: “seria cômico se não fosse trágico.”
O grande mérito de Svetlana foi conseguir organizar uma obra com ritmo narrativo lento sem que isso sacrifica-se a intensidade do texto. É uma obra que possui um vigor absurdo e natural. Quem já se habituou a escrita de Svetlana sabe que em suas obras o elemento humano predomina. É por meio da intercalação de dramas particulares que ela constrói um quadro mais amplo de determinado evento. O que ela trás de inovador é a ausência do olhar patriótico e glamoroso com o qual tradicionalmente têm se tratado o tema da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), sobretudo por Hollywood.
Esse típico olhar, eu diria romantizado da guerra, não existe aqui. A abordagem de Svetlana é muito mais brutal muito mais realista. Ela opta por um estilo narrativo que explora a forma como os eventos foram assimilados pelos sobreviventes sem se importar muito com o rigor da narrativa histórica. Como ela mesma escreveu logo em seu primeiro capitulo “o ser humano é maior do que a guerra.”
O conflito adquire uma dimensão própria por meio da ótica feminina. Tudo fica muito mais subjetivo e, por conseguinte, muito mais intenso. É uma nova imagem do conflito ainda mais brutal do que aquela destilada pela ótica masculina insensível aos dramas pessoais e escrava do sensacionalismo patriótico. A adaptação das mulheres a um ambiente naturalmente hostil ao seu sexo foi descrita pela autora de forma genérica, mas ainda assim cativante.
“A guerra não tem rosto de mulher” é uma obra impressionante do inicio ao fim e que nos mostra que em uma guerra cada um busca meios próprios de justificar sua brutalidade. É um texto duro, intenso e em muitos momentos difícil de ler. Em determinados momentos me peguei refletindo sobre como retratar um povo que sobreviveu a tamanha brutalidade. Antigas imagens do período soviético me vieram à mente é subitamente compreendi que o melhor símbolo para aquele povo é a locomotiva: pois tanto um quanto o outro percorreram caminhos de ferro.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A GUERRA NAO TEM ROSTO DE MULHER
Autor: ALEKSIEVITCH, SVETLANA
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano de Edição: 2016
Nº de Páginas: 392

segunda-feira, 12 de junho de 2017

ILÍADA E ODISSEIA: UM BREVE COMENTÁRIO DE LEITURA


Ler a obra de Homero me fez enxergar o que é abordar com maestria o mesmo acontecimento através de dois pontos distintos: um coletivo e o outro pessoal. Na “ilíada” a guerra é retratada em um plano geral, épico. Na "Odisséia" ocorre uma focalização das conseqüência do conflito a nível mais particular. É uma espécie de contração narrativa muito bem construída.
A “Ilíada” é sem duvida um texto mais grandioso e menos cansativo que a “Odisséia” porque oscila o foco narrativo. É uma obra cujo tema principal é o próprio Aquiles, mas cuja grandiosidade é sinalizada pela guerra de Tróia. Outros personagens se destacam e o elemento humano se torna mais presente.
Os dramas de consciência de Aquiles deram o tom de profundidade que uma obra clássica precisa e as passagens sobre as batalhas são sempre muito violentas, grandiosas e alegóricas. Não é uma violência gratuita, pelo contrario, ela direciona o leitor para o mesmo tipo de drama vivido pelo protagonista e o leva a seguinte duvida: Por gloria pessoal e pura vaidade é justificável que tais atos sejam encenados? As perdas são proporcionais aos ganhos da vitoria?
Apesar de ser um texto mais difícil de ser lido – em função da quebra de linearidade cronológica do enredo – a linguagem poética dos versos funcionou melhor na “Odisséia” do que na “Ilíada”. A “Odisséia” possui um apelo sentimental infinitamente mais pronunciado: a saudade do lar, a perda dos amigos, as dificuldades enfrentadas para o retorno ao lar as decisões difíceis. Seu enredo definitivamente favorece ao tom poético e introspectivo.
O que torna a “Odisséia” um texto mais complexo é a sua estrutura narrativa. As inversões no tempo são elementos difíceis de se associar ao arco evolutivo dos personagens. Fica mais difícil acompanhar as mudanças de postura e de comportamento dos personagens de forma satisfatória.
Tem-se dito que a “Odisséia” é um poema machista, porem eu discordo. Homero soube bem ressaltar tanto as qualidades do sexo masculino quanto do feminino: A astuciosa Penélope não pode ser vista senão como o retrato feminino da inteligência; a facilidade com que Circe encanta, por meio de sua beleza, a tripulação de Odisseu parece buscar sublinhar, mesmo que de forma não intencional, uma fraqueza masculina diante do poder sedutor da mulher.
O aspecto machista da “Odisséia” aparece porque a própria mitologia possuía uma construção que atualmente pode ser encarada como machista. Quase todos os monstros haviam sido mulheres que foram castigadas. Ate mesmo o cristianismo é carregado de concepções machistas: Eva a mulher responsável por condenar a humanidade a ser expulsa do Eden.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
Odisseia e Ilíada - Caixa
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Capa dura: 958 páginas
Editora: Nova Fronteira;
Idioma: Português

quarta-feira, 26 de abril de 2017

VOZES DO DESASTRE


Ao meio dia de 26 de abril de 1986 o vice Ministro de Energia, A. Makhunin expediu um relatório que foi entregue ao secretario geral do partido comunista soviético, Mikhail Gorbachev:
“Em 26.04.86, à 1h21, na Chernobyl AES [Usina de Energia Atômica], em seguida ao desligamento do reator do Bloco 4 e durante a remoção dos componentes para manutenção, ocorreu uma explosão na parte superior do reator. As 3h30 o incêndio foi debelado. O pessoal da AES está tomando medidas para resfriar a zona ativa do reator. Na opinião da terceira administração Principal do Ministério da Saúde da URSS, providencias especiais, inclusive a evacuação dos habitantes da cidade, não são necessárias.”
RELATO DE UMA SOBREVIVENTE
“Há uma região de Minsk de que eu gosto muito, fica no bairro dos correios, na rua Volodárski. Ali, embaixo do relógio, começamos a nos encontrar. Eu morava perto da fabrica têxtil e tomava o ônibus numero 5, que não parava exatamente nos correios, mas um pouco mais a frente, próximo a uma loja de roupas intimas infantis. O ônibus sempre avança lentamente na curva, que era justamente o que eu precisava. Eu sempre retardava um pouco minha chegada só para passar de ônibus por ele, vê-lo da janela e suspirar por aquele rapaz tão belo estar me esperando. Durante aqueles dois anos, não me dava conta de nada, nem do inverno, nem do verão. Ele me levava a concertos, para ouvir minha cantora preferida, Edit Piékha. Não saiamos para dançar. Ele não sabia. E nos beijávamos o tempo todo. Ele me chamava de “minha pequena”. No dia do meu aniversario...outra vez no dia do meu aniversario. É estranho mas as coisas mais importante da minha vida ocorreram nessa data; depois disso, como não acreditar no destino! Marcamos um encontro às cinco. Estou embaixo do relógio esperando e ele não chega. As seis estou desolada e em lagrimas, ando na direção do meu ponto de ônibus; atravesso a rua e decido olhar em volta, como se pressentisse, e ele estava La, atravessando o semáforo vermelho, e corre até mim vestido com uma roupa especial do trabalho e de botas. Não o liberaram antes. Assim é como eu mais gostava, em roupas de caça e jaqueta; tudo fica bem nele. Fomos para a casa dele (...) decidimos comemorar o meu aniversario num restaurante, mas não conseguimos, já era tarde e todos estavam cheios. (...) Passamos em uma loja, compramos uma garrafa de champanhe, um sortido de pasteis e vamos ao parque, celebrar lá. Sob as estrelas, sob o céu! Assim era ele! Passamos a noite num banco do parque Gorki, até o amanhecer.”
Essa história não acaba bem, pois o homem aprendeu a controlar o fogo, mas não as suas conseqüências. Esse é o trecho do relato de Valentina Timofiéevna Apanassiévitch, esposa de um dos liquidadores de Chernobyl. O desfecho dessa história revela que a felicidade humana é de fato uma redoma de vidro. Lançado pelo selo Companhia das Letras a obra “Vozes de Tchernobyl”, da ganhadora do premio Nobel Svetlana Aleksiévitch, é um retrato perturbador da tragédia. O foco aqui é a tragédia humana em face do poder destrutivo de uma era dominada pelo poder do átomo.
O tom dramático do texto é bem pronunciado o que costuma desagradar alguns leitores que tem por esse recurso narrativo certa dose de hostilidade. De fato é comum encontrar em alguns textos o emprego do recurso dramático como disfarce para uma linguagem rasa e desinteressante, mas definitivamente isso não acontece aqui. Svetlana deu um novo tratamento à tragédia de seu tempo resgatando um passado onde o homem era agente e ao mesmo tempo vitima de suas atitudes.
Não e fácil perceber os artifícios com os quais a autora prende a atenção do leitor. O mais evidente de todos é sem duvida o elemento emocional que ela busca ressaltar os relatos que preenchem sua obra. Esse tipo de abordagem não é fácil de se fazer sem correr o risco de cair numa narrativa repetitiva e pouco verossímil. Um texto cuja base são memórias nem sempre é aceito de forma plena, isso porque os relatos quase sempre se divergem e em alguns casos se contradizem. Acontece que esse tipo de material nas mãos de uma grande escritora, como é o caso de Svetlana, se transforma em um texto perturbador, humano e nada convencional.
Não existe uma abordagem técnica do evento, ou seja, não espere encontrar aqui um relato cronológico dos eventos que levaram ao acidente, o foco da autora não é o fato em si, mas os seus desdobramentos. Intermitência é algo que define bem a forma com os relatos estão dispersos na obra: um relato mais intenso e seguido por outro com certa dose de alivio cômico. É uma alternância muito bem vinda que alem de mostrar a tragédia por diversos ângulos impede que a leitura se torne cansativa, embora não se possa dizer que essa é uma obra agradável de ler. Existem muitas passagens fortes e difíceis de serem digeridas.
Definitivamente não é uma obra que adota o convencionalismo como meio de expressão. A idéia de um texto composto por relatos esta longe de ser algo original, mas a originalidade aqui esta no foco da autora e não no formato do texto. Svetlana reconstrói o passado a partir de sua base, onde estão os anônimos que a escreveram e que a encenaram longe dos holofotes da fama. Seus protagonistas são as vozes que nunca foram ouvidas.
É essa busca de verdades no anonimato que faz a obra de Svetlana ir muito alem do acidente em si. A tragédia é sempre acompanhada pelos elementos negativos característicos do governo soviético: descaso do poder público, negligencia, baixo nível sócio educacional, burocracia política, crueldade gratuita e violência. Quanto a esses temas a autora não emprega uma abordagem direta, mas sim reflexiva. O baixo nível educacional, por exemplo, é retrato através de relatos de sobreviventes que se mostravam incapazes de compreender e ate de acreditar na existência de radiação. Uma onda eletromagnética sem cor, sem cheiro e que fosse capaz de destruir um organismo vivo e contaminar o solo de suas plantações parecia algo de outro mundo.
Os próprios lideres soviéticos eram medíocres quanto aos temas científicos. Acostumados às escolas onde se ensinava apenas marxismo e política se mostraram incapazes de compreender a extensão dos danos provocados por uma tragédia daquele tipo. A obra de Svetlana é um texto espetacular que retrata a tragédia de seu povo e também a face de um regime político que já via no horizonte o colapso de seu próprio sistema.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
VOZES DE TCHERNÓBIL
Svetlana Aleksiévitch
Páginas: 384
Selo: Companhia das Letras

sábado, 25 de março de 2017

PARAÍSO PERDIDO


Temos aqui um texto difícil de ler e com uma complexidade que vai desde palavras difíceis a uma métrica poética nada convidativa. É um texto custoso de se ler, arrastado, mas isso não significa que seja ruim, muito pelo contrario: trata-se de um texto desafiador. Talvez não seja um épico tão conhecido, como é o caso da “Ilíada” e da “Odisséia”, porque não se trata de um enredo completamente original. Ele é basicamente a história do Genesis bíblico, mas que se articula de forma genial através das palavras irônicas de um dos maiores poetas da literatura inglesa.
É sempre complicado fazer uma critica de “Paraiso Perdido” sem correr o risco de ser mal compreendido. Uma critica é uma analise dos elementos que compõem a obra, como enredo, tradução, estruturação, fluidez narrativa etc. Uma critica focada apenas nos elementos mais técnicos se torna improdutiva porque restringe seu publico alvo. Para construir uma critica mais atrativa são os elementos de criação artística que devem ser evidenciados, como por exemplo, os personagens. E é ai que começa toda a problemática em torno da obra de John Milton, pois o protagonista é ninguém menos que satã.
A forma como Milton o construiu fez dele não apenas o mais interessante como também o mais humano dos personagens. Ele é cruel, irônico, ambicioso, manipulador, mas também tem seus momentos de angustia, arrependimento onde reconhece seu caráter e a natureza egoísta de suas intenções depravadas. Os cinco solilóquios de satã (IV,32-113,358-92,505-35;IX,99-178,472-93.) são os momentos mais intrigantes da obra. São estes os trechos onde fica evidente a assinatura de um texto literário de qualidade.
A reflexão, aquele momento em que o individuo dá atenção a sua voz interior, é talvez o mais importante alicerce do caráter. São os conselhos auto gerados que definem a nobreza moral de cada um. Por essa perspectiva Satã surge no poema como uma figura desprovida de qualquer traço de empatia. É um personagem melancólico, ambicioso e inseguro, mas que se vale de sua astucia e perspicácia para confrontar seus dilemas.
Absorver as imagens por trás dos versos brancos de Milton não é uma tarefa das mais fáceis, principalmente se você não for um leitor habitual de poesia. O estranhamento inicial é completamente natural, mas depois de algumas paginas consegue-se acompanhar tranquilamente o estilo do autor. O conteúdo da obra é absurdamente polemico, isto porque se trata de um poema épico onde o mau e o bem se confundem em diversos momentos como em um trecho do Livro V onde o anjo Rafael diz a Adão e Eva que Deus exige obediência cega. Isso faz com que Deus seja visto como uma figura que governa através da subjugação. A tirania dos céus da qual Satã se refere está implícita nas palavras de Rafael que diz que Adão e Eva são “livres” para escolherem se obedecem ou não a Deus. No caso de optarem por não obedecer seriam castigados.
Nenhum castigo deveria ser aplicado a aqueles que têm “liberdade” de escolha. O castigo pressupõe a ideia de que um dos caminhos é errado, mas quem define, neste caso, o certo e o errado é o próprio Deus de forma arbitraria. Satã governa pela astucia e pela ganância: engana, corrompe, manipula. Deus governa pela submissão e pela ameaça de punição. Deus assume a figura de um ditador e Satã a de um político demagogo, cruel e vaidoso.
Milton ataca a ideia de superioridade da espécie humana, algo muito pregado pela ortodoxia cristã. Deus fez dos anjos príncipes para que estes o idolatrassem, mas um terço deles se revoltou contra Deus. Deus fez dos homens príncipes para que reinassem sobre as demais formas de vida “irracionais” e sobre a natureza. A tirania do homem sobre a natureza fez com que esta se revoltasse contra o homem. Deus fez do homem um espelho de seus próprios erros! Essa é a face humana que Deus assume de forma velada no poema e que o distancia do ser onipotente e abstrato criado pelas impressões iniciais. Até quando as pessoas vão continuar ignorando que o Genesis é na verdade uma lição para conter o senso torpe de superioridade que o homem nutre por sua própria espécie?
Esse épico sem par possui uma grandiosidade literária que por muito tempo foi ocultada pela interpretação simplista e errada de seu texto. Definitivamente não é um texto que idolatra a figura de Satã. Ele apenas reconhece seu inegável papel dentro da filosofia cristã.
A obra em si é um dos maiores feitos da literatura universal, mas a edição da Editora 34 deixa muito a desejar em seu projeto gráfico. Com tradução de Daniel Jonas, a obra de 10.565 versos em edição bilíngue, conta com mais de cinqüenta ilustrações do genial Gustav Doré, o problema é que a editora ampliou em excesso essas ilustrações. O resultado final foi lamentável: as ilustrações originais possuem um aspecto tenebroso e assustador. Ao retalhar e ampliar essas mesmas imagens a editora conseguiu transformá-las em algo tosco e até mesmo infantil. Existem também alguns erros grotescos nas notas de rodapé. Em um dele, por exemplo, o editor cometeu o erro de dizer que na obra “Odisséia” a feiticeira Circe e a deusa Calipso eram a mesma divindade. Um absurdo!
Deixando de lado os aspectos negativos da edição o que resta é um livro intrigante, reflexivo, profundo e desafiador. Um autêntico exemplo de obra prima e de superação intelectual. Nota 1000!!!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
PARAISO PERDIDO (EDIÇAO BILINGUE)
Autor: Milton
JohnTradutor: JONAS, DANIEL
Ilustrador: DORE, GUSTAVE
EDITORA 34
Nº de Páginas: 896
ANO 2015

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