quarta-feira, 30 de agosto de 2017

DO INFERNO


A história de Jack, o Estripador, o primeiro serial killer a ter destaque na imprensa e que aterrorizou a Londres vitoriana do final do século XIX, é o tema desta graphic novel de Alan Moore e Eddie Campbell. “Do Inferno” possui um tom inicial de suspense que evolui de intensidade à medida que o enredo se constrói.
Não é um enredo que tenta domesticar sua historia, ou seja, não existe o menor esforço de atenuar os aspectos mais chocantes e desagradáveis. Tudo é muito visceral, intenso e sem eufemismos. O tom bem pronunciado de erotismo de alguns trechos contribui e muito para a história. Não se trata de uma mera exposição barata de cenas de sexo e sim de algo que cria uma intimidade entre o leitor e os personagens.
Alan Moore sabe bem a história que possui em mãos. Em nenhum momento fica a sensação de que ele não sabe para onde ir. Quem possui um conhecimento razoável sobre os eventos de 1888 em Whitchapel (bairro pobre de Londres onde Jack fez suas vitimas) vai identificar muitos fatos reais que foram inseridos na versão de Moore de modo que criasse uma explicação valida, embora conveniente do ponto de vista narrativo, para as lacunas deixadas pelos eventos reais. É obvio que se trata de uma ficção, mas existem sim elementos que são encadeados de forma coerente de modo que em muitos momentos agente se pergunta: ok, por que não?
Alan Moore levou uma década para concluir essa magnífica obra que é também um retrato da população pobre da Londres do século XIX. E comum encontrarmos textos que exploram a Londres vitoriana porem de uma perspectiva mais aristocrática, ou seja, as residências ricamente mobiliadas com seus jardins ingleses e costumes burgueses. Aqui essa imagem idílica aparece apenas como elemento de realce para mostrar o distanciamento enorme entre as classes sociais do período.
O resultado é um texto muito bem feito e envolvente, pois é importante ressaltar: o fato de um texto ser bom não necessariamente se traduz em uma boa experiência de leitura. Existem livros que possuem um conteúdo excepcional, porem são chatos. Definitivamente isso não acontece em “Do inferno”. Foi um texto que me prendeu desde o inicio!
Os grupos de personagens são muito bem construídos desde as prostitutas com seus diálogos expositivos ao inspetor Aberline, um personagem que não possui vigor ou carisma, mas que se torna interessante devido à ligação que estabelece com uma das mulheres do grupo. O príncipe Albert – neto da Rainha Victoria - têm uma grande relevância, pois é em torno dele que o enredo se constrói, porem ele é de longe o personagem mais apagado.
Willian Gull é sem duvida o mais profundo e enigmático de todos. Na pele do assassino Jack ele consegue elevar a historia ao nível da catarse. Um fato que aparentemente se resume as ações de um louco se transforma numa divagação filosófica que resume o século XIX e projeta o violento século XX. Suas divagações são excepcionais e a sua teoria sobre uma “arquitetura da historia” é algo que nos leva a questionar elementos como a linearidade do tempo.
Nenhum dos personagens mais relevantes é unidimensional, ou seja, todos eles apresentam certo desenvolvimento. A empatia do leitor por esses personagens surge gradualmente de forma que a arte rústica dos traços de Eddie Campbell - que no inicio pode dificultar um pouco o entendimento - se torna completamente irrelevante depois de algumas paginas. Muito tem se falado sobre os desenhos de Campbell. Alguns gostam outros nem tanto, mas o fato é que o aspecto de “rascunho” dos desenhos me agradou bastante.
De fato não é uma arte que prima por uma estética perfeita. Inicialmente pode ser um pouco complicado identificar certos personagens. Um leitor menos detalhista certamente vai se perder em algumas passagens ao se perguntar, por exemplo, se o personagem de determinado quadro é o mesmo do quadro anterior. No entanto, esse obstáculo acaba criando uma atmosfera de mistério que se justifica diante do desfecho. Quem leu sabe do que estou falando!
Existem alguns cortes bruscos – por pura conveniência narrativa - em alguns diálogos que podem confundir um pouco os leitores menos familiaridades com HQs. A linguagem é bruta, agressiva, obscena e sempre acompanha o tom dos elementos que ela busca narrar. O problema é que exatamente onde a obra acerta ela também apresenta falhas: as gírias na linguagem dos personagens são muito atuais e distante da fala do século XIX.
Em determinados momentos os personagens não parecem pertencer ao período no qual os eventos ocorrem deixando a sensação de uma caracterização moderna do passado. Por outro lado o uso da linguagem mais atual parece buscar estabelecer uma ligação entre os eventos daquele período é o século posterior. É exatamente essa relação entre o século XIX e o XX que fazem de “Do inferno” uma obra prima magistral.
O desfecho da obra acompanha aquilo que o texto vinha desenvolvendo, ou seja, não ocorre uma grande reviravolta no enredo embora exista um pequeno twist no final que obviamente não direi qual é. Isso faz sentido, pois não existe nenhum mistério em “Do inferno”. O assassino é revelado logo no inicio de modo que o que fica para o final é uma retomada de fatos reais que levam o próprio leitor a repensar o propósito do texto. O objetivo de Alan Moore não foi falar sobre Jack, o estripador. Ele utilizou a história do assassino para abordar outro tema. O que fica após a leitura é a questão: Seria Jack ou o século XX um produto do inferno?
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
DO INFERNO
Autor: MOORE, ALAN
Tradutor: MARTINS, JOTAPE
Ilustrador: CAMPBELL, EDDIE
Editora: EDITORA VENETA
Assunto: HQs - Quadrinhos
Idioma: PORTUGUÊS
Ano: 2014 Encadernação: CAPA DURA
Altura: 28,00 cm
Largura: 21,00 cm
Comprimento: 3,90 cm
Nº de Páginas: 592

terça-feira, 22 de agosto de 2017

AGENDA DE EVENTOS COMPANHIA DAS LETRAS


Eventos de lançamento de Lima Barreto: Triste visionário Lilia Moritz Schwarcz promove nesta semana diversos eventos de lançamento de Lima Barreto: Triste visionário, biografia do autor de Triste fim de Policarpo Quaresma. Confira as datas e cidades.
Debate na UFRJ
Segunda-feira, 21 de agosto, às 17h
Lilia Moritz Schwarcz conversa sobre Lima Barreto com André Botelho, Beatriz Resende e Flávio Gomes.
Local: Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ - Largo São Francisco de Paula,1 - Rio de Janeiro, RJ Aula de lançamento em São Paulo
Terça-feira, 22 de agosto, às 19h30
Uma aula sobre a vida e a obra de Lima Barreto na inauguração do teatro do Sesc 24 de Maio. Retirada de ingressos a partir das 18h30 no foyer do teatro.
Local: Sesc 24 de Maio - Rua 24 de Maio, 109 - São Paulo, SP
Lançamento de Inquebrável
Fernando Fernandes e Pablo Miyazawa lançam Inquebrável pela Editora Paralela. Confira locais e datas dos eventos. São Paulo
Terça-feira, 22 de agosto, às 19h
Local: Saraiva do Shopping Pátio Paulista - Rua Treze de Maio, 1947 - São Paulo, SP
Rio de Janeiro
Quinta-feira, 24 de agosto, às 19h
Local: Livraria da Travessa do Shopping Leblon - Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 - Rio de Janeiro, RJ
Sempre um Papo com Luiz Eduardo Soares
Terça-feira, 22 de agosto, às 19h
Luiz Eduardo Soares, autor de Rio de Janeiro, participa de mais um encontro do Sempre um Papo.
Local: Auditório da Cemig - Rua Alvarenga Peixoto, 1220, Santo Agostinho - Belo Horizonte, MG
Lançamento de Chic profissional
Terça-feira, 22 de agosto, às 19h30
Gloria Kalil autografa Chic profissional em Curitiba.
Local: Livrarias Curitiba do Shopping Palladium - Av. Presidente Kennedy, 4121 - Curitiba, PR
Sessão de autógrafos com Raphael Montes
Quinta-feira, 24 de agosto, às 18h30
Raphael Montes, que está relançando Suicidas pela Companhia das Letras, autografa seus livros no Rio.
Local: Livraria da Travessa Botafogo - Rua Voluntários da Pátria, 97 - Rio de Janeiro, RJ
Marília Garcia autografa Câmera lenta
Quinta-feira, 24 de agosto, às 19h
Marília Garcia lança em São Paulo seu novo livro de poemas, Câmera lenta.
Local: Tapera, Taperá - Av. São Luís, 187, loja 29, Galeria Metrópole - São Paulo, SP
Ana Maria Machado na FLIM
De 25 a 27 de agosto
Autora de Ponto de Fuga e Um mapa todo seu, Ana Maria Machado é a autora homenageada da Festa Literária de Santa Maria Madalena, no Rio de Janeiro.
Autores do Grupo Companhia das Letras no Seminário Fazer Pensar Brasil
Sexta-feira, 25 de agosto, das 9h às 18h30
José Miguel Wisnik, Lilia Moritz Schwarcz, Pedro Meira Monteiro, André Botelho, Ricardo Teperman e Lira Neto participam do Seminário Fazer Pensar Brasil. O evento também contará com lançamento de Lima Barreto: Triste visionário.
Local: Instituto brincante - Rua Purpurina, 412, Vila Madalena - São Paulo, SP
ENTRADA FRANCA | Sujeito à lotação
Pré-inscrição: http://bit.ly/FazerPensarBrasil
Informações: http://bit.ly/FazerPensarBrasil_Eevento
Programação sujeita a alterações. Consulte o calendário atualizado Blog da Companhia

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A COLHER QUE DESAPARECE


Em química é comum atribuir nomes da mitologia aos elementos devido a suas propriedade. Na mitologia grega Tântalo foi condenado a sofrer eternamente de sede ainda que seu corpo estivesse mergulhado em um rio. Sempre que ele se curvava para beber de suas águas estas se afastavam de sua boca.
O elemento de numero atômico 73 recebeu esse nome devido a sua característica de não se misturar facilmente em água. O Tântalo é um elemento que normalmente se encontra no solo misturado a outros metais, geralmente é encontrado associado ao Nióbio. Na mitologia grega Nióbia era filha de Tântalo e por isso o elemento de numero atômico 41 recebeu foi batizado de Nióbio – pois ambos possuem propriedades físicas e químicas semelhantes.
Tântalo e Nióbio são elementos resistentes a corrosão, ou seja, são difíceis de sofrerem oxidação (perda de elétrons). Isso torna a ambos excelentes alternativos para a produção de baterias de aparelhos eletrônicos como celulares uma vez que ambos seguram bem uma carga elétrica. O principal fornecedor de Nióbio na década de 90 era a República Democrática do Congo – antigo Zaire. Tribos do Zaire estavam em guerra com rivais de Ruanda, na África Central. Em 1996 os terríveis massacres de Ruanda sinalizaram ao mundo o caráter brutal do conflito. O governo do Zaire precisava de dinheiro para manter a guerra e os massacres e esse dinheiro veio das empresas de componentes eletrônicos européias e ocidentais.
No Zaire o Tântalo e o Nióbio era retirados do solo de forma simples e rudimentar: bastava uma simples pá para recolher o barro cinzento que ficava nas margens dos rios e que era chamado de Coltran – basicamente uma mistura rica em Nióbio. Centenas de família se embrenharam nas matas em busca do ouro barrento que sustentava a guerra. Como passavam dias, e em alguns casos vários meses, no meio das matas as pessoas buscavam meios alternativos para se alimentar. A caça ao gorila africano atingiu o auge neste período.
Os garimpeiros passaram a se alimentar de carne de gorila para não morrer de fome. Esse contato entre humanos e gorilas provocou a ameaça de extinção do ultimo e alguns pesquisadores acreditam que foi esse contato que promoveu o desenvolvimento do vírus HIV – um vírus que se desenvolveu inicialmente nas células do gorila africano. O contato de seres humanos portadores de vírus patogenos a sua espécie - como a gripe comum – pode ter entrado em contato com o vírus HIV primitivo do gorila. Desse contato uma provável mutação permitiu ao vírus HIV adquirir receptores que permitissem sua entrada em células humanas, dando inicio a uma das maiores tragédias da historia do homem.
Essa é apenas uma das centenas de historias que preenchem a interessante obra de S.Kean “A colher que desaparece”. Como alguém apaixonado por química, como eu, a historia dos elementos químicos sempre foi um foco de minha atenção. O Nióbio vem ganhando destaque junto a mídia devido a expectativa representada por sua exploração econômica. Resta a nos torcer para que o seu passado sangrento não volte a se repetir.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A COLHER QUE DESAPARECE
Autor: KEAN, SAM
Tradutor: CARINA, CLAUDIO
Editora: ZAHAR
Ciências Exatas - Química
Ano: 2011
Nº de Páginas: 370

domingo, 13 de agosto de 2017

UMA HISTORIA DA ÓPERA


“Carmen” é uma opera cômica que termina em tragédia. A história se passa em Sevilha onde a cigana Carmen, uma mulher promiscua, convence Jose a abandonar sua carreira no exercito e se aliar ao bando de contrabandistas. Foi uma das óperas de maior sucesso do século XIX, mas parte de seu sucesso se deveu a um fato macabro de sua historia.
Em 2 de junho de 1875, durante a 33ª apresentação de “Carmen” a cantora Celestine Gelli-Marie desmaiou no palco após sentir uma forte dor no lado direito do corpo. O fato aconteceu durante o terceiro ato, no exato instante em que Celestine encenava a icônica cena do taro marcada pela aparição da carta da morte.
Após recobrar a consciência Celestine conseguiu terminar o espetáculo, mas logo em seguida caiu em prantos. Enquanto ainda tentava se recuperar do ocorrido chegou a noticia de que Bizet, autor da ópera “Carmen”, havia falecido poucas horas antes. Essa é outras historias estão presentes em “Uma historia da ópera”, de Carolyn Abbate e Roger Parker. Um texto ambicioso que se propõe a discutir os mais de quatrocentos anos de história da ópera, uma arte cuja beleza emerge do seu aspecto irreal.
O questionamento inicial que os autores levantam é bem interessante: para se apreciar a ópera é necessário que o publico entenda o idioma no qual ela é encenada? Alguns especialistas acreditam que não. Isto porque ao serem pronunciadas como musicas algumas palavras perdem o seu significado semântico. Entre os elementos que contribuem para essa perda está o som dos instrumentos que tanto servem como moldura para a voz humana como em determinados momentos suplantam essa mesma voz.
Existe de fato uma pretensão poética nas letras de algumas musicas, porem os significados dos mesmos versos mudam de acordo com a forma na qual são pronunciados: na poesia a beleza está no significado da palavra, na musica é o som dessa palavra que se destaca, portanto a musica explora muito mais o elemento estético da língua do que o seu significado verbal.
Outro ponto levantado pelos autores é o fato de a ópera ser tão exótica e, por conseqüência, estranha. Um dos elementos que essa arte busca é a fuga da realidade, provocar o esquecimento e isso inclui o abandono temporário da obsessão moderna pelo aspecto do visual perfeito. E dessa forma que, segundo os autores, a ópera apela para algo que transcende a estreita dimensão cognitiva humana.
Uma das coisas de que eu senti falta no início apareceu por volta da pagina duzentos, que é a contextualização histórica. Até esse momento os autores se detiveram nos aspectos mais técnicos da ópera. Mozart, como já era de se esperar, aparece como figura central. O compositor, no entanto, não tem tanto destaque quanto suas peças e seus trabalhos. Os aspectos biográficos surgem apenas como elementos de transição o que é muito bom tendo em vista aquilo que a obra tem como pretensão: narrar à história da ópera e não a história de seus ícones.
A contextualização do romantismo alemão na ópera é inserido no texto através de uma passagem belíssima da obra “Orlando”, de Virginia Woolf. Era meia noite de 31 de dezembro de 1799:
“O relógio deu meia noite, nuvens cobriram o céu a partir do norte, soprava um vento frio, a luz de mil velas douradas se extinguiu, e, subitamente, aqueles que estavam vestidos com diamantes e calções de seda branca e rendas prateadas e cetim cor de pêssego se envolveram em sombrios veludos e ornamentos feitos de contas de âmbar negro. O século XIX tinha chegado.”
A ópera alemã do século XIX tinha um aspecto xenofóbico bem evidente, e é por meio da contextualização que os autores explicam o porquê dessa hostilidade alemã para com os demais povos. As constantes invasões napoleônicas, por exemplo, criaram a imagem de uma nação violada, corrompida. Isso é muito interessante porque explica o anti-semitismo de alguns grandes ícones da ópera alemã como Richard Wagner – ícone supremo e símbolo maximo de admiração de Adolf Hitler, o cabo austríaco que em seus anos de juventude era um assíduo freqüentador das casas de ópera de Viena.
O problema maior aqui é a abrangência do publico alvo. Os autores obviamente criaram uma obra que fosse relevante para os críticos e também para o publico mais leigo. O resultado foi uma quebra no impulso narrativo devido a sua intermitência. Em um momento estamos lendo sobre a vida de um grande compositor e sobre a relevância de determinada ópera e no momento seguinte somos jogados numa tempestade entediante de análises puramente técnicas e incompreensíveis para qualquer leigo.
O que os autores fazem de melhor é apresentar ao leitor o material que este tem em mãos. O capitulo inicial é absurdamente bem escrito. Certamente é um texto que cumpre o que promete, pois desde o inicio fica claro que ele dialoga com todo tipo de leitor. Nas ultimas cem paginas a narrativa se torna mais truncada com muitas análises técnicas e com contextualizações ocasionais. Em uma delas os autores exploram a influencia da psicanálise de Freud nas encenações operísticas do final do século XIX.
Ao termino da leitura fica de fato a sensação de que a obra é direcionada a um publico familiarizado com o mundo da ópera, embora isso não signifique que não possa ser lido por um leigo que procura em textos desse gênero informações, como por exemplo, sobre a rotina dos atores, figurinos, detalhes arquitetônicos, histórias de bastidores, enfim o trivial associado a um resumo das óperas. Tudo isso está presente na obra porem de forma mais minimalista, o que predomina é a análise técnica: libretos, orquestrações, etc. Um ótimo texto onde a arte é sempre superior ao artista.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
UMA HISTORIA DA OPERA
Autor: ABBATE, CAROLYN e PARKER, ROGER
Tradutor: GEIGER, PAULO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2015
Nº de Páginas: 656

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

BIOGRAFIA INTIMA DE LEOPOLDINA


“nós, pobres princesas, somos como dados cuja sorte se joga e cujo destino depende do resultado. Dirás que sou uma verdadeira filosofa, mas o fogo da juventude se apaga facilmente quando as pessoas se tornam prudentes por experiência própria”.
- Leopoldina
“A biografia intima de Leopoldina” do cientista político Marsilio Cassoti, talvez venha resgatar a imagem real da princesa do Brasil, considerada até então como coadjuvante no processo de independência. Leopoldina foi tão determinante no processo quanto o próprio imperador Dom Pedro I. Lamentavelmente a historiografia brasileira encerrou-a dentro dos moldes da estrangeira feia, desleixada, subordinada ao marido e restrita ao papel de mãe.
Na obra de Cassotti vemos despertar uma jovem de beleza austríaca, inteligente e apaixonada por mineralogia e ciência. As primeiras cem paginas narram o período de formação de Leopoldina desde a infância até o momento em que ela finalmente desembarca no Brasil. Apesar de ser um texto fácil de ler acredito que essas primeiras paginas possam, de alguma forma, entediar leitores menos familiarizados com biografias de personalidades históricas. Não foi esse o meu caso!
Leopoldina teve no Brasil o que se pode definir como uma vida monótona e marcada por humilhações devido a infidelidades do seu marido. Ela se refugiava na natureza, se empenhava nas aulas de piano, português e latim. Adorava passar as tardes na famosa “cascatinha do tijuco” ou cavalgando. Esse estilo de vida pacato não tornava sua historia desinteressante embora não se possa dizer que possua o mesmo vigor que a historia de sua famosa tia, a extravagante rainha francesa Maria Antonieta.
A admiração por Leopoldina surge diante da narrativa de uma noite chuvosa quando uma princesa, ostentando um ventre com cinco meses de gestação, se levanta da cama preocupada com a perspectiva de um ataque das tropas portuguesas enviadas de Lisboa. Enquanto Leopoldina pensava na situação política, Dom Pedro se perdia nos braços de sua amante, a famosa Domitila de Castro. Na manha seguinte, 2 de setembro, a revelia de Dom Pedro, Leopoldina reuniu o Conselho de Estado. Foi esse conselho, marcado pela presença dominante de Jose Bonifacio de Andrada e Silva, outro ícone admirável da historia do Brasil, que deu inicio ao processo de separação de Portugal. Logo após e reunião do conselho Leopoldina escreveu a Dom Pedro:
“(...)O Conselho de Estado vos aconselha a ficar. Meu coração de mulher e de esposa prevê desgraças se partirmos agora para Lisboa. Sabemos bem o que tem sofrido nosso país. O rei e a rainha de Portugal não são mais reis, não governam mais, são governados pelo despotismo das cortes que perseguem e humilham os soberanos a quem devem respeito. O Brasil será em vossas mãos um grande país. O Brasil vos quer para seu monarca. Com vosso apoio ou sem vosso apoio, ele fará sua separação. O pomo está maduro, colhei-o já, senão apodrecerá.”
Após ler a carta de Leopoldina, Dom Pedro se restringiu ao gesto patético de dizer a seu assistente: “Dize à guarda que acabo de fazer a independência completa do Brasil. Estamos separados de Portugal!”
O tom político que a obra assume em determinado momento pode frustrar um pouco aqueles que esperavam de fato uma biografia “intima” da princesa do Brasil. No entanto após os acontecimentos do processo de independência a narrativa volta à esfera privada de Leopoldina, começando com a perda de seu mais poderoso aliado: Jose Bonifacio, que caluniado por seus rivais ousou levantar suspeitas sobre Domitila. Irritado com as alegações de Bonifacio o imperador acabou por demiti-lo do cargo de Ministro.
Leopoldina passou a se refugiar cada vez mais na natureza, passou a se importar ainda menos com sua aparência e a buscar na solidão das cavalgadas a resposta para seus dilemas. Na madrugada do dia 1º para 2 de dezembro ela sofreu um aborto espontâneo. Seu estado foi ficando cada vez mais critico até que na manha de 11 de dezembro de 1826 sua historia chegou ao fim. Tinha apenas 29 anos de idade.
A jovem princesa do Brasil certamente não tem o reconhecimento que deveria ter. Foi uma mulher admirável que certamente teria tido uma vida muito mais gloriosa como princesa de um país que valoriza-se mais as artes e o conhecimento. Sua tragédia talvez se deva ao fato de ser uma jovem princesa em um país ainda mais jovem. Ótimo Livro!!!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A BIOGRAFIA INTIMA DE LEOPOLDINA
Autor: CASSOTTI, MARSILIO
Editora: PLANETA DO BRASIL
Ano: 2015
Nº de Páginas: 304

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A BIBLIOTECA ESQUECIDA DE HITLER


Timothy Riback
É muito comum ouvir criticas sobre a saturação do mercado literário com obras sobre Hitler e o nazismo. Embora reconheça que existe uma atenção desproporcional das editoras brasileiras pelo tema, em função do seu apelo comercial, existem muitas obras que apesar de falarem de um mesmo evento o fazem de diferentes ângulos de modo que um funciona como complemento do outro.
O problema é que um mercado literário monotemático acaba deixando de lado inúmeros outros temas igualmente relevantes e que em alguns casos tratam de eventos pré e pós segunda guerra mundial (1939-1945). Isso é muito significativo, pois se cria um publico informado sobre os eventos da guerra, mas incapaz de identificar os elementos que levaram a ela ou compreender seus desdobramentos. Se existe uma obra que explora uma face até então desconhecida do ditador austríaco é “A biblioteca esquecida de Adolf Hitler” do historiador Timothy W. Riback.
É um texto sem grandes pretensões e direcionado a todo tipo de publico, inclusive o mais leigo. Não existe predomínio da política aqui e embora a obra se permita fazer uma breve biografia de Hitler à idéia é mostrar como ele moldou seu pensamento buscando amparo nos livros. Riback não oferece a imagem de um homem influenciado pelos livros, muito pelo contrario: Hitler já possuía suas convicções políticas e raciais e o que ele fazia era buscar nos livros autores que partilhassem dos mesmos pontos de vista.
O autor explora uma face mais humana de Hitler e nos mostra que ele não era um completo fanático nacionalista que considerava tudo que fosse alemão superior aos demais; ele, por exemplo, considerava Shakespeare muito superior a Goethe.
É um livro fácil de ler, muito interessante, com uma abordagem diferenciada e bem menos carregado de tensão que as demais obras sobre Hitler trazem em seu núcleo. Ótimo texto de um autor que resolveu se lembrar de algo que todos haviam se esquecido: o papel da leitura na vida de todos nos.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A BIBLIOTECA ESQUECIDA DE HITLER OS LIVROS QUE MOLDARAM SUA VIDA
Autor: RYBACK, TIMOTHY W.
Tradutor: KORYTOWSKI, IVO
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano: 2009
Nº de Páginas: 328

terça-feira, 25 de julho de 2017

CãozinhO


Foi-se embora o meu cãozinho!
Meu cãozinho se foi!
Meu herói... minha heroína;
Partiu com um dilacerante adeus
E me deixou aqui;
cheio de saudades;
cheio de lembranças;
que nunca morrem;
que nunca me deixam;
e que nunca me permitiram ser novamente
o que eu era antes dele.
TIAGO R. CARVALHO

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