quinta-feira, 22 de junho de 2017

CAMINHOS DE FERRO


A guerra floreia o horizonte das possibilidades, pois vive-se o presente com tamanha intensidade que pensar no futuro se torna um alivio. A historia da “grande guerra patriótica” não é a historia do comunismo, do socialismo ou do stalinismo, pois a realidade da guerra anulou o elemento critico do povo soviético frente a seus valores ideológicos.
“A guerra não tem rosto de mulher”, obra da escritora bielorrussa Svetlana Aleksievitch, chegou ao Brasil com uma forte publicidade que vendia a imagem de uma obra predominantemente trágica. De fato o texto possui um tom dramático bem pronunciado, no entanto, existe uma alternância entre momentos mais densos e outros mais palatáveis ao leitor menos familiarizado como a crueza tradicional de narrativas do gênero. Existem sim momentos de alivio cômico, mas esses momentos não são tão evidentes. É um humor mais contido. O leitor deve saber onde buscar esse humor. É aquela velha história: “seria cômico se não fosse trágico.”
O grande mérito de Svetlana foi conseguir organizar uma obra com ritmo narrativo lento sem que isso sacrifica-se a intensidade do texto. É uma obra que possui um vigor absurdo e natural. Quem já se habituou a escrita de Svetlana sabe que em suas obras o elemento humano predomina. É por meio da intercalação de dramas particulares que ela constrói um quadro mais amplo de determinado evento. O que ela trás de inovador é a ausência do olhar patriótico e glamoroso com o qual tradicionalmente têm se tratado o tema da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), sobretudo por Hollywood.
Esse típico olhar, eu diria romantizado da guerra, não existe aqui. A abordagem de Svetlana é muito mais brutal muito mais realista. Ela opta por um estilo narrativo que explora a forma como os eventos foram assimilados pelos sobreviventes sem se importar muito com o rigor da narrativa histórica. Como ela mesma escreveu logo em seu primeiro capitulo “o ser humano é maior do que a guerra.”
O conflito adquire uma dimensão própria por meio da ótica feminina. Tudo fica muito mais subjetivo e, por conseguinte, muito mais intenso. É uma nova imagem do conflito ainda mais brutal do que aquela destilada pela ótica masculina insensível aos dramas pessoais e escrava do sensacionalismo patriótico. A adaptação das mulheres a um ambiente naturalmente hostil ao seu sexo foi descrita pela autora de forma genérica, mas ainda assim cativante.
“A guerra não tem rosto de mulher” é uma obra impressionante do inicio ao fim e que nos mostra que em uma guerra cada um busca meios próprios de justificar sua brutalidade. É um texto duro, intenso e em muitos momentos difícil de ler. Em determinados momentos me peguei refletindo sobre como retratar um povo que sobreviveu a tamanha brutalidade. Antigas imagens do período soviético me vieram à mente é subitamente compreendi que o melhor símbolo para aquele povo é a locomotiva: pois tanto um quanto o outro percorreram caminhos de ferro.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A GUERRA NAO TEM ROSTO DE MULHER
Autor: ALEKSIEVITCH, SVETLANA
Editora: COMPANHIA DAS LETRAS
Ano de Edição: 2016
Nº de Páginas: 392

segunda-feira, 12 de junho de 2017

ILÍADA E ODISSEIA: UM BREVE COMENTÁRIO DE LEITURA


Ler a obra de Homero me fez enxergar o que é abordar com maestria o mesmo acontecimento através de dois pontos distintos: um coletivo e o outro pessoal. Na “ilíada” a guerra é retratada em um plano geral, épico. Na "Odisséia" ocorre uma focalização das conseqüência do conflito a nível mais particular. É uma espécie de contração narrativa muito bem construída.
A “Ilíada” é sem duvida um texto mais grandioso e menos cansativo que a “Odisséia” porque oscila o foco narrativo. É uma obra cujo tema principal é o próprio Aquiles, mas cuja grandiosidade é sinalizada pela guerra de Tróia. Outros personagens se destacam e o elemento humano se torna mais presente.
Os dramas de consciência de Aquiles deram o tom de profundidade que uma obra clássica precisa e as passagens sobre as batalhas são sempre muito violentas, grandiosas e alegóricas. Não é uma violência gratuita, pelo contrario, ela direciona o leitor para o mesmo tipo de drama vivido pelo protagonista e o leva a seguinte duvida: Por gloria pessoal e pura vaidade é justificável que tais atos sejam encenados? As perdas são proporcionais aos ganhos da vitoria?
Apesar de ser um texto mais difícil de ser lido – em função da quebra de linearidade cronológica do enredo – a linguagem poética dos versos funcionou melhor na “Odisséia” do que na “Ilíada”. A “Odisséia” possui um apelo sentimental infinitamente mais pronunciado: a saudade do lar, a perda dos amigos, as dificuldades enfrentadas para o retorno ao lar as decisões difíceis. Seu enredo definitivamente favorece ao tom poético e introspectivo.
O que torna a “Odisséia” um texto mais complexo é a sua estrutura narrativa. As inversões no tempo são elementos difíceis de se associar ao arco evolutivo dos personagens. Fica mais difícil acompanhar as mudanças de postura e de comportamento dos personagens de forma satisfatória.
Tem-se dito que a “Odisséia” é um poema machista, porem eu discordo. Homero soube bem ressaltar tanto as qualidades do sexo masculino quanto do feminino: A astuciosa Penélope não pode ser vista senão como o retrato feminino da inteligência; a facilidade com que Circe encanta, por meio de sua beleza, a tripulação de Odisseu parece buscar sublinhar, mesmo que de forma não intencional, uma fraqueza masculina diante do poder sedutor da mulher.
O aspecto machista da “Odisséia” aparece porque a própria mitologia possuía uma construção que atualmente pode ser encarada como machista. Quase todos os monstros haviam sido mulheres que foram castigadas. Ate mesmo o cristianismo é carregado de concepções machistas: Eva a mulher responsável por condenar a humanidade a ser expulsa do Eden.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
Odisseia e Ilíada - Caixa
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Capa dura: 958 páginas
Editora: Nova Fronteira;
Idioma: Português

quarta-feira, 26 de abril de 2017

VOZES DO DESASTRE


Ao meio dia de 26 de abril de 1986 o vice Ministro de Energia, A. Makhunin expediu um relatório que foi entregue ao secretario geral do partido comunista soviético, Mikhail Gorbachev:
“Em 26.04.86, à 1h21, na Chernobyl AES [Usina de Energia Atômica], em seguida ao desligamento do reator do Bloco 4 e durante a remoção dos componentes para manutenção, ocorreu uma explosão na parte superior do reator. As 3h30 o incêndio foi debelado. O pessoal da AES está tomando medidas para resfriar a zona ativa do reator. Na opinião da terceira administração Principal do Ministério da Saúde da URSS, providencias especiais, inclusive a evacuação dos habitantes da cidade, não são necessárias.”
RELATO DE UMA SOBREVIVENTE
“Há uma região de Minsk de que eu gosto muito, fica no bairro dos correios, na rua Volodárski. Ali, embaixo do relógio, começamos a nos encontrar. Eu morava perto da fabrica têxtil e tomava o ônibus numero 5, que não parava exatamente nos correios, mas um pouco mais a frente, próximo a uma loja de roupas intimas infantis. O ônibus sempre avança lentamente na curva, que era justamente o que eu precisava. Eu sempre retardava um pouco minha chegada só para passar de ônibus por ele, vê-lo da janela e suspirar por aquele rapaz tão belo estar me esperando. Durante aqueles dois anos, não me dava conta de nada, nem do inverno, nem do verão. Ele me levava a concertos, para ouvir minha cantora preferida, Edit Piékha. Não saiamos para dançar. Ele não sabia. E nos beijávamos o tempo todo. Ele me chamava de “minha pequena”. No dia do meu aniversario...outra vez no dia do meu aniversario. É estranho mas as coisas mais importante da minha vida ocorreram nessa data; depois disso, como não acreditar no destino! Marcamos um encontro às cinco. Estou embaixo do relógio esperando e ele não chega. As seis estou desolada e em lagrimas, ando na direção do meu ponto de ônibus; atravesso a rua e decido olhar em volta, como se pressentisse, e ele estava La, atravessando o semáforo vermelho, e corre até mim vestido com uma roupa especial do trabalho e de botas. Não o liberaram antes. Assim é como eu mais gostava, em roupas de caça e jaqueta; tudo fica bem nele. Fomos para a casa dele (...) decidimos comemorar o meu aniversario num restaurante, mas não conseguimos, já era tarde e todos estavam cheios. (...) Passamos em uma loja, compramos uma garrafa de champanhe, um sortido de pasteis e vamos ao parque, celebrar lá. Sob as estrelas, sob o céu! Assim era ele! Passamos a noite num banco do parque Gorki, até o amanhecer.”
Essa história não acaba bem, pois o homem aprendeu a controlar o fogo, mas não as suas conseqüências. Esse é o trecho do relato de Valentina Timofiéevna Apanassiévitch, esposa de um dos liquidadores de Chernobyl. O desfecho dessa história revela que a felicidade humana é de fato uma redoma de vidro. Lançado pelo selo Companhia das Letras a obra “Vozes de Tchernobyl”, da ganhadora do premio Nobel Svetlana Aleksiévitch, é um retrato perturbador da tragédia. O foco aqui é a tragédia humana em face do poder destrutivo de uma era dominada pelo poder do átomo.
O tom dramático do texto é bem pronunciado o que costuma desagradar alguns leitores que tem por esse recurso narrativo certa dose de hostilidade. De fato é comum encontrar em alguns textos o emprego do recurso dramático como disfarce para uma linguagem rasa e desinteressante, mas definitivamente isso não acontece aqui. Svetlana deu um novo tratamento à tragédia de seu tempo resgatando um passado onde o homem era agente e ao mesmo tempo vitima de suas atitudes.
Não e fácil perceber os artifícios com os quais a autora prende a atenção do leitor. O mais evidente de todos é sem duvida o elemento emocional que ela busca ressaltar os relatos que preenchem sua obra. Esse tipo de abordagem não é fácil de se fazer sem correr o risco de cair numa narrativa repetitiva e pouco verossímil. Um texto cuja base são memórias nem sempre é aceito de forma plena, isso porque os relatos quase sempre se divergem e em alguns casos se contradizem. Acontece que esse tipo de material nas mãos de uma grande escritora, como é o caso de Svetlana, se transforma em um texto perturbador, humano e nada convencional.
Não existe uma abordagem técnica do evento, ou seja, não espere encontrar aqui um relato cronológico dos eventos que levaram ao acidente, o foco da autora não é o fato em si, mas os seus desdobramentos. Intermitência é algo que define bem a forma com os relatos estão dispersos na obra: um relato mais intenso e seguido por outro com certa dose de alivio cômico. É uma alternância muito bem vinda que alem de mostrar a tragédia por diversos ângulos impede que a leitura se torne cansativa, embora não se possa dizer que essa é uma obra agradável de ler. Existem muitas passagens fortes e difíceis de serem digeridas.
Definitivamente não é uma obra que adota o convencionalismo como meio de expressão. A idéia de um texto composto por relatos esta longe de ser algo original, mas a originalidade aqui esta no foco da autora e não no formato do texto. Svetlana reconstrói o passado a partir de sua base, onde estão os anônimos que a escreveram e que a encenaram longe dos holofotes da fama. Seus protagonistas são as vozes que nunca foram ouvidas.
É essa busca de verdades no anonimato que faz a obra de Svetlana ir muito alem do acidente em si. A tragédia é sempre acompanhada pelos elementos negativos característicos do governo soviético: descaso do poder público, negligencia, baixo nível sócio educacional, burocracia política, crueldade gratuita e violência. Quanto a esses temas a autora não emprega uma abordagem direta, mas sim reflexiva. O baixo nível educacional, por exemplo, é retrato através de relatos de sobreviventes que se mostravam incapazes de compreender e ate de acreditar na existência de radiação. Uma onda eletromagnética sem cor, sem cheiro e que fosse capaz de destruir um organismo vivo e contaminar o solo de suas plantações parecia algo de outro mundo.
Os próprios lideres soviéticos eram medíocres quanto aos temas científicos. Acostumados às escolas onde se ensinava apenas marxismo e política se mostraram incapazes de compreender a extensão dos danos provocados por uma tragédia daquele tipo. A obra de Svetlana é um texto espetacular que retrata a tragédia de seu povo e também a face de um regime político que já via no horizonte o colapso de seu próprio sistema.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
VOZES DE TCHERNÓBIL
Svetlana Aleksiévitch
Páginas: 384
Selo: Companhia das Letras

sábado, 25 de março de 2017

PARAÍSO PERDIDO


Temos aqui um texto difícil de ler e com uma complexidade que vai desde palavras difíceis a uma métrica poética nada convidativa. É um texto custoso de se ler, arrastado, mas isso não significa que seja ruim, muito pelo contrario: trata-se de um texto desafiador. Talvez não seja um épico tão conhecido, como é o caso da “Ilíada” e da “Odisséia”, porque não se trata de um enredo completamente original. Ele é basicamente a história do Genesis bíblico, mas que se articula de forma genial através das palavras irônicas de um dos maiores poetas da literatura inglesa.
É sempre complicado fazer uma critica de “Paraiso Perdido” sem correr o risco de ser mal compreendido. Uma critica é uma analise dos elementos que compõem a obra, como enredo, tradução, estruturação, fluidez narrativa etc. Uma critica focada apenas nos elementos mais técnicos se torna improdutiva porque restringe seu publico alvo. Para construir uma critica mais atrativa são os elementos de criação artística que devem ser evidenciados, como por exemplo, os personagens. E é ai que começa toda a problemática em torno da obra de John Milton, pois o protagonista é ninguém menos que satã.
A forma como Milton o construiu fez dele não apenas o mais interessante como também o mais humano dos personagens. Ele é cruel, irônico, ambicioso, manipulador, mas também tem seus momentos de angustia, arrependimento onde reconhece seu caráter e a natureza egoísta de suas intenções depravadas. Os cinco solilóquios de satã (IV,32-113,358-92,505-35;IX,99-178,472-93.) são os momentos mais intrigantes da obra. São estes os trechos onde fica evidente a assinatura de um texto literário de qualidade.
A reflexão, aquele momento em que o individuo dá atenção a sua voz interior, é talvez o mais importante alicerce do caráter. São os conselhos auto gerados que definem a nobreza moral de cada um. Por essa perspectiva Satã surge no poema como uma figura desprovida de qualquer traço de empatia. É um personagem melancólico, ambicioso e inseguro, mas que se vale de sua astucia e perspicácia para confrontar seus dilemas.
Absorver as imagens por trás dos versos brancos de Milton não é uma tarefa das mais fáceis, principalmente se você não for um leitor habitual de poesia. O estranhamento inicial é completamente natural, mas depois de algumas paginas consegue-se acompanhar tranquilamente o estilo do autor. O conteúdo da obra é absurdamente polemico, isto porque se trata de um poema épico onde o mau e o bem se confundem em diversos momentos como em um trecho do Livro V onde o anjo Rafael diz a Adão e Eva que Deus exige obediência cega. Isso faz com que Deus seja visto como uma figura que governa através da subjugação. A tirania dos céus da qual Satã se refere está implícita nas palavras de Rafael que diz que Adão e Eva são “livres” para escolherem se obedecem ou não a Deus. No caso de optarem por não obedecer seriam castigados.
Nenhum castigo deveria ser aplicado a aqueles que têm “liberdade” de escolha. O castigo pressupõe a ideia de que um dos caminhos é errado, mas quem define, neste caso, o certo e o errado é o próprio Deus de forma arbitraria. Satã governa pela astucia e pela ganância: engana, corrompe, manipula. Deus governa pela submissão e pela ameaça de punição. Deus assume a figura de um ditador e Satã a de um político demagogo, cruel e vaidoso.
Milton ataca a ideia de superioridade da espécie humana, algo muito pregado pela ortodoxia cristã. Deus fez dos anjos príncipes para que estes o idolatrassem, mas um terço deles se revoltou contra Deus. Deus fez dos homens príncipes para que reinassem sobre as demais formas de vida “irracionais” e sobre a natureza. A tirania do homem sobre a natureza fez com que esta se revoltasse contra o homem. Deus fez do homem um espelho de seus próprios erros! Essa é a face humana que Deus assume de forma velada no poema e que o distancia do ser onipotente e abstrato criado pelas impressões iniciais. Até quando as pessoas vão continuar ignorando que o Genesis é na verdade uma lição para conter o senso torpe de superioridade que o homem nutre por sua própria espécie?
Esse épico sem par possui uma grandiosidade literária que por muito tempo foi ocultada pela interpretação simplista e errada de seu texto. Definitivamente não é um texto que idolatra a figura de Satã. Ele apenas reconhece seu inegável papel dentro da filosofia cristã.
A obra em si é um dos maiores feitos da literatura universal, mas a edição da Editora 34 deixa muito a desejar em seu projeto gráfico. Com tradução de Daniel Jonas, a obra de 10.565 versos em edição bilíngue, conta com mais de cinqüenta ilustrações do genial Gustav Doré, o problema é que a editora ampliou em excesso essas ilustrações. O resultado final foi lamentável: as ilustrações originais possuem um aspecto tenebroso e assustador. Ao retalhar e ampliar essas mesmas imagens a editora conseguiu transformá-las em algo tosco e até mesmo infantil. Existem também alguns erros grotescos nas notas de rodapé. Em um dele, por exemplo, o editor cometeu o erro de dizer que na obra “Odisséia” a feiticeira Circe e a deusa Calipso eram a mesma divindade. Um absurdo!
Deixando de lado os aspectos negativos da edição o que resta é um livro intrigante, reflexivo, profundo e desafiador. Um autêntico exemplo de obra prima e de superação intelectual. Nota 1000!!!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
PARAISO PERDIDO (EDIÇAO BILINGUE)
Autor: Milton
JohnTradutor: JONAS, DANIEL
Ilustrador: DORE, GUSTAVE
EDITORA 34
Nº de Páginas: 896
ANO 2015

sexta-feira, 10 de março de 2017

AS AFINIDADES ELETIVAS


Edward e Charlotte são um casal da aristocracia alemã que vivem tranquilamente em uma gigantesca propriedade rural. Ambos se encarregam de realizar reformas na propriedade a fim de ressaltar suas belezas naturais e seus aspectos idílicos. Essa harmonia se vê ameaçada quando Edward decide convidar um amigo de infância – o Capitão Otto – para passar um período no local. Charlotte inicialmente discorda da decisão de Edward, mas logo em seguida concorda sob a condição de que ela possa convidar Otilie – uma jovem órfã e filha de sua melhor amiga – para morar com o casal.
A introdução de ambos as figuras humanas na vida de Charlotte e Edward faz com que um se apaixone pelo convidado do outro. A atração que eles passam a sentir é incontrolável desafiando e colocando em cheque a real natureza de ligação afetiva estabelecida pelo casal. É um enredo que explora o predomínio da paixão sobre o comportamento racional tendo por analogia o conceito químico de afinidade. Esse é o conflito que se estabelece entre os personagens e se desenvolve de forma lenta, reflexiva e poética. Seria pouco produtivo fazer qualquer tipo de comentário sobre o desfecho da obra então vamos às criticas.
Definitivamente é um texto que possui um momento próprio para ser plenamente assimilado. Não é uma obra com valor de entretenimento, portanto não se trata de uma leitura para os momentos de tédio, pois isso certamente ampliara os pontos negativos do texto. É uma obra que possui uma linguagem fácil de ser compreendida, mas difícil de ser trabalhada pelo leitor. Desconstruir suas camadas literárias pode ser bem exaustivo em alguns momentos porque quase todos os elementos que compõem a história são muito irreais, excessivamente bucólicos, romantizados e alegóricos.
Toda obra que trabalha sobre os sentimentos de seus personagens e não sobre um acontecimento qualquer, precisa ter competência suficiente para cativar o lado mais irracional do leitor, ou seja, deve ter uma densidade dramática muito bem pronunciada e é neste ponto que surge um dos pontos fracos da obra de Goethe que é a sutileza narrativa com a qual ele tenta trabalhar algo tão passional como a atração física.
Tudo é muito poético, os diálogos são sempre carregados de muita ternura, falta vigor em alguns momentos. O enredo vende a ideia de uma reviravolta na vida de um casal por meio da presença de duas outras pessoas. O problema e que os personagens são muito passionais apenas ao nível dos sentimentos, essa paixão nunca se reflete em seus comportamentos. Em nenhum momento fica a sensação de uma reviravolta ou a iminência de rompimento. Essa sutileza deixa a narrativa um pouco morna, porem imprime profundidade nos personagens a medida em que seus dramas são constantemente sufocados por um comportamento blasé.
Na segunda parte do texto surge aquilo que a obra tem de melhor que é a profundidade dramática de seus personagens. Essa fase é construída por meio de trechos do diário de Otilie, que são de longe os momentos de reflexão mais intensos e interessantes do texto. Existem duas grandes ironias na obra: a primeira é que os seus momentos de maior maturidade são assinalados pelas palavras da mais jovem entre os personagens. Naturalmente se espera que personagens mais velhos sejam mais profundos, no entanto aqui eles são mais rasos – com exceção de Charlotte.
A segunda ironia é que os personagens estão sempre buscando melhorar a aparência do local onde vivem, estão sempre buscando a beleza aparente das coisas sendo que a verdadeira beleza de tudo está nos sentimentos dos próprios personagens. O belo é aquilo que os toca de forma intensa e que não possui uma forma física definida. Ao serem incapazes de ocultar esse sentimento eles reafirmam o conceito de que é impossível se manter indiferente diante daquilo que possui algum valor.
Trata-se de uma ótima obra da literatura alemã que apesar de sua narrativa pouco fluida ainda assim preserva todos os elementos que definem um grande clássico.
AUTOR
TIAGO R.CARVALHO
Título original: DIE WAHLVERWANDTSCHAFTEN
Tradução: Tercio Redondo
Páginas: 328
Selo: Penguin Companhia

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

JOANA D’ARC - UMA BIOGRAFIA


No ano de 1328 o rei da França Carlos IV, filho de Felipe IV, faleceu. Sua irmã Isabel assumiria o trono, mas Felipe de Valois, sobrinho de Felipe IV, reivindicou o trono para si através da Lei Salíca, que impedia que o trono fosse assumido pela linhagem feminina. Isabel, diante da impossibilidade de subir ao trono, nomeou seu filho, Eduado III – rei da Inglaterra – como sucessor do trono da França.
As cortes decidiram a favor de Felipe de Valois que assumiu o trono sob o titulo de Felipe VI. Eduardo III, no entanto, estava determinado a ser soberano da Inglaterra e da França. Em 1337 ele enviou suas tropas para combater Felipe VI dando inicio a chamada Guerra dos Cem Anos (1337-1453), o maior conflito europeu do período feudal.
Ao longo dos 116 anos de conflito nenhuma figura histórica se destacou tanto quanto a francesa Joana D’arc, personalidade historica que Donald Spoto resolveu retratar em sua incrível obra “Joana D’arc uma biografia”. Existem poucas informações sobre os primeiros anos de vida da heroína francesa, mas Spoto promove um resgate bem fiel e objetivo sobre não apenas a sua historia mas também de sua família. É um trabalho muito competente diante de tão poucas e contraditórias informações.
Não se sabe ao certo, por exemplo, se ela nasceu em 1411 ou 1412 e a própria data de seu nascimento – 6 de janeiro - foi estabelecida por razoes puramente simbólicas. O que se sabe é que Joana era filha de um respeitado proprietário de terras do vilarejo de Domrémy. A família vivia em uma residência confortável para o período e atualmente teria o status de classe media. Aparentemente Joana não foi alfabetizada. Era uma simples camponesa de hábitos religiosos sem nada que a destaca-se dos demais moradores de Domrémy.
A narrativa de Donald Spoto está muito longe de ser cansativa ou tendenciosa. Em alguns momentos de fato fica a sensação de ele busca construir a imagem de uma heroína, mas ele naturalmente se corrige ao analisar os feitos de Joana de forma muito objetiva deixando que o leitor os interprete da forma que achara mais adequada. O problema dessa abordagem é que o texto corre o risco de parecer vago, mas diante de tantas lacunas nos registros históricos o autor se saiu muito bem ao deixar de lado a pretensão de construir uma biografia definitiva.
Um ponto abordado a exaustão no texto é sobre as misteriosas vozes que Joana alegava ouvir. Segundo o depoimento da própria Joana, durante o seu julgamento, foi durante um dia do verão de 1424, por volta do meio dia, que ela ouviu pela primeira vez uma dessas vozes enquanto caminhava pelo jardim de sua casa. As vozes se seguiram de luz muito forte em meio à vegetação. Spoto confronta essa alegação a partir de dois pontos de vista: dos que acreditam se tratar de um fenômeno sobrenatural e dos que os que tentam explicá-los através da ciência.
O comportamento de Joana por muito tempo foi interpretado como uma manifestação de sua natureza supostamente lesbica. Esse absurdo é desconstruído aqui através da exposição de uma jovem pratica e sensata que se vestia como homem simplesmente para que fosse vista como um. Dessa forma ela se protegia de eventuais abusos sexuais, pois naquela época as únicas mulheres que acompanhavam os cavaleiros eram as prostitutas. Não é uma obra com olhar direcionado ao plano mais violento de sua historia e sim focada no elemento humano. Quem espera um texto com descrições violentas de batalhas pode achar a narrativa de Spoto meio “água com açúcar”. A Joana mulher têm mais espaço aqui do que a Joana guerreira. As batalhas aparecem mais como elementos de preenchimento sem muita relevância para o propósito do texto.
O único momento em que a narrativa se aventura numa linguagem mais belicista e durante a descrição da batalha de Orléans na qual Joana foi atingida por uma flecha que atravessou sua armadura entre o ombro e o pescoço. A segunda metade da obra se dedica inteiramente as descrições do julgamento de Joana, com muitos trechos dos registros feitos na ocasião. É talvez o momento que mais aproxima o leitor da verdadeira historia dessa icônica figura da historia da França que por muito tempo foi cercada de mitos e lendas.
A obra de Spoto é uma biografia excelente e reveladora que se inicia com a história de uma simples família de camponeses do vilarejo de Domrémy e termina com uma jovem, de 19 anos, acusada de heresia pela igreja católica, ardendo em meio às chamas na trágica manhã de 30 de maio de 1431, uma quarta-feira.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
JOANA D'ARC - UMA BIOGRAFIA
Autor: SPOTO, DONALD
Editora: PLANETA DO BRASIL
Nº de Páginas: 304

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O SOL DO BRASIL


Em 26 de março de 1816, Nicolas Antoine Taunay, filho do pintor e químico Pierre-Antoine Henry Taunay, desembarcou no Brasil junto com os artistas da chamada “Missão Artística Francesa” – liderada por Joachin Lebreton e patrocinada pelo rei Dom João VI.
Nascido em Paris no dia 10 de fevereiro de 1755, Taunay se interessou por arte já na infância. Sua forte miopia, que o levou a usar óculos com lentes excessivamente grossas por toda a vida, não o impediu de se tornar um dos mais talentosos paisagistas históricos de seu tempo. A obra “O sol do Brasil”, da autora Lilia Schwarcz, narra a trajetória desse pouco conhecido artista francês cujo talento é inquestionável.
Lilia Moritz Schwarcz é uma autora que possui uma notável elegância narrativa. Seus textos são de um vocabulário muito rico e rebuscado, mas não ao ponto de ser verborrágico. Em alguns momentos ela parece falar consigo mesma deixando de lado um pouco da sempre perene postura opinativa dos historiadores. Uma coisa que irrita profundamente os leitores de textos históricos e quando fica a impressão de que o autor estar entrando em um assunto do qual ele não domina completamente, pois fica superficial demais e muito mais adequado a uma revista que a um livro. Mas não é este o caso de Lilia Schwarcz.
Apesar de ser uma obra que vende um conteúdo voltado para a história do Brasil, e com um titulo de relativo apelo comercial, não se trata de um texto na mesma linha, por exemplo, que as obras de Laurentino Gomes. O texto não tem o foco concentrado nas aventuras dos artistas franceses na corte de Dom João. O foco aqui é a arte! Existem muitas passagens com analises criteriosas das obras, dos estilos e das tendências estéticas do período.
O leitor de “O sol do Brasil” deve, no mínimo, se interessar por arte. Cuidado com as falsas expectativas criadas pelo subtítulo, pois temos aqui o caso de uma obra onde a arte é colocada em um nível superior ao artista. O projeto gráfico da obra é primoroso. A qualidade do material é impressionante. Todas as paginas são impressas em papel Polen Soft com uma gramatura mais acentuada, a fonte do texto é boa embora o espaçamento possa desagradar alguns leitores. Muitas imagens belíssimas em preto e branco e também em cores.
A narrativa é bem cronológica começando com uma caracterização do país a partir dos boatos contados por portugueses, alemães e franceses que por aqui se aventuraram. A autora deixa bem clara, por exemplo, a influencia que a obra do alemão Hans Staden teve para o imaginário europeu. Esse é um ponto onde o texto mais incorpora a descrição histórica, mas o tom narrativo é mais contemplativo que instrutivo. O texto presume um certo conhecimento do leitor e embora seja bastante descritivo, não é o do tipo onde tudo é explicado. Na sequência a autora analisa o movimento neoclássico francês dando destaque para o seu maior ícone, o pintor Jacques Louis David, avaliando o papel da arte como ferramenta política no período napoleônico. Somente a partir daí é que o foco volta a se deslocar para o Brasil.
Lilia Schwarcz tem tudo àquilo que sua função exige: conhecimento, conteúdo e clareza conceitual, no entanto, esse excesso de gabarito é o que trás alguns problemas para o texto. Falta impulso narrativo, falta carisma na linguagem que é excessivamente formal. A narrativa é muito intermitente com muitos retrocessos que impedem que a obra seja lida com um fôlego único. Se você é um daqueles leitores que tem dificuldades de retomar um raciocínio interrompido pela intermitência descritiva esse livro certamente irá desagradá-lo.
Apesar dessa ultima ressalva a obra é de muita qualidade, muito conteúdo e muito interessante. Vale à pena dedicar tempo a este tipo de texto que foge um pouco dos padrões de preferência nacional. Se você gosta de arte certamente vai gostar de “O sol do Brasil”. Boa leitura!
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
Título original: O SOL DO BRASIL
Capa: Hélio de Almeida
Páginas: 464
Selo: Companhia das Letras

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