quinta-feira, 31 de outubro de 2013

CRONICA DE UM DIA


O sono agradável das primeira horas da manhã é interrompido pelo som desagradável e constante do despertador - exemplo notável de tormento individual. Você olha para o relógio e vê que são 6:30 da manhã e para piorar está chovendo! O cansaço do dia anterior foi tão grande que somente nessa hora você finalmente percebe que dormiu de meias. Os olhos parecem ter vontade própria pois insistem em ignorar sua ordem para permanecerem abertos enquanto o corpo implora por mais alguns minutos na cama. Não têm jeito: é hora de entrar na ativa! A solução parece ser entra debaixo de um chuveiro quente o mais rápido possível antes que a preguiça volte a dar conselhos – engraçado como ela é uma ótima conselheira. Depois do ritual matinal você entra no “busão” e segue para o seu destino. Logo que chega ao centro da cidade você procura uma casa lotérica, pois a conta de luz já venceu.
As casas lotéricas são verdadeiros antros de infelicidade: somos obrigados a ficar horas em uma fila que aparentemente não anda. Como não adianta ficara olhando para os caixas - acredite eles não irão funcionar mais rapidamente só porque você teima em ficar olhando com cara de poucos amigos – o jeito é procurar distração no ambiente ao redor. Na maioria das vezes só olhamos no entorno depois de já ter conferido umas trinta vezes o valor e a data de vencimento da conta ou boleto. Quando as filas se estendem até a rua é possível se distrair olhando a multidão, tão diversificada que é quase impossível cair na monotonia.
Ali se vê desfilar todo tipo de caricatura social; alguns seguem a passos largos, outros falam ao telefone, outros seguem com um semblante congelado graças aos fones nos ouvidos. Poucos parecem distraídos, a maioria carrega um pesado semblante de preocupação. Alguns param em frente às casas lotéricas e parecem refletir se vale ou não a pena enfrentar aquela fila. Um senhor aperta os olhos para conferir os números da mega sena, outro preenche os cartões escolhendo os números com tamanha concentração como se estivessem diante de uma prova de matrizes matemáticas, e enquanto isso a fila não andou nem um passo sequer!
A mulher na sua frente parece discutir sobre alguma greve com um senhor mau humorado e com hipertricose auricular evidente. Duas adolescentes, um pouco mais a frente na fila e carregando mochilas enormes, conversam sobre o termino do namoro de uma terceira, que por estar ausente parece mais presente do que nunca. Cansado daquele assunto juvenil você percorre a fila com os olhos e percebe uma mulher lutando para encontrar o celular que não para de tocar dentro da bolsa. Subitamente você sente um empurrão de alguém que se aproxima do caixa para perguntar alguma coisa, relacionada a um boleto ou conta, e enquanto observa um senhor conferindo o troco com certa dificuldade, pois de forma enigmática ele insiste em não larga o guarda chuvas. Nesse meio tempo e possível escutar a voz da mulher, que se encontra imediatamente atrás de você na fila, conversando ao telefone e dizendo algo do gênero: “Mas você precisar conversar com ele porque isso pode dar confusão”. Finalmente chega a sua vez de ser atendido e você não demora mais do que dois minutos para fazer o que têm que fazer. Indignado você se pergunta o porquê de tamanha demora, mas está tão feliz por finalmente sair dali que nem se importa mais com isso.
Seguindo pelas ruas em meio ao barulho caótico do transito você se encontra cercado por fragmentos de conversas incompreensíveis. Confesso que me divirto um pouco graças a essa impossibilidade de compreender fragmentos fonéticos soltos pela espontaneidade dos interlocutores. Deixando de lado o humor baseado na vida alheia você tenta compensar o tempo perdido acelerando o passo. Infelizmente sua estratégia não é muito vantajosa porque parece que todos os sinais estão abertos para o transito e você é obrigado a parar no limite de cada quarteirão. Ai você pensa: pronto é só esperar o sinal abrir e eu atravesso correndo! Leva uma eternidade para o sinal abrir - na realidade parece que ele só abre depois que algum carro passa e deixa seu tênis encharcado pela água da sarjeta. Quando finalmente os carros param e você se prepara para colocar em pratica seu preparo físico inexistente, no estilo cem metros rasos, você percebe que atravessar a rua era apenas um detalhe, pois a grande questão é se desviar da muralha de pessoas que vem no sentido contrario.
Quase sempre, exatamente no meio da rua, você dá de cara com alguém que insiste em seguir para a esquerda enquanto você também escolheu esse caminho. Quando você muda para o lado oposto percebe que a outra pessoa também fez a mesma coisa – quase como uma sombra! Se alguém observar essa cena de longe vai acreditar que está vendo duas pessoas estranhas ensaiando passos de dança - no estilo dois pra lá dois pra cá - bem no meio da rua. Quando você finalmente consegue atravessar a bendita rua se depara com uma multidão de anunciadores de calçada querendo te oferecer cartões de credito, serviços dentários, panfletos de alistamento militar, cursos profissionalizantes, corte de cabelos, etc. Os anúncios são tão automáticos que chegam a oferecer serviço de cabeleireiro a pessoas que não possuem um fio sequer deles sobre a cabeça!
Depois de finalmente atravessar essa confusão você se da conta de que precisa comprar um remédio na farmácia. Como não é difícil encontrar uma delas no centro de BH você rapidamente consegue encontrar uma loja, em cuja fachada está escrito “Drogaria”. Você então entra, passa por um setor generoso nas ofertas de analgésicos, se aproxima do balcão e entrega a receita para o farmacêutico. Enquanto ele confere você aproveita para ficar próximo do umidificador de ar – nos dias muito quentes isso não é possível, pois é quase certo que alguém já esteja diante dele quando você chegar. O vendedor olha a receita, volta os olhos para o computador, retira um crachá do bolso, anota algo em um pequeno bloco de papel – sempre com aquelas canetas em que você tem que apertar a parte de trás - digita algo no teclado e em seguida desfere o golpe final: ele se nega a vender o medicamento porque encontrou alguma irregularidade na receita. Uma assinatura torta, um carimbo com CRM muito claro, o CID da doença ausente, tudo é motivo para reprovar a bendita receita, cujo propósito seria aliviar algum sofrimento físico seu, mas que no fim acaba lhe causando muita dor de cabeça. Nesse exato momento você consegue entender o porquê de tantas ofertas generosas de analgésicos logo na entrada!
Alguns já exigem o CPF do medico e o endereço do hospital! Daqui a algum tempo não ficaria surpreso se passarem a pedir exames de sangue, facebook e Instagran do medico que receitou o medicamento. Depois de algum tempo você finalmente consegue encontrar uma farmácia que lhe forneça o medicamento; quando se dirige ao caixa para pagar o dito cujo você percebe que todas as barras de chocolate e biscoitos são colocadas nas prateleiras próximas. Coincidência? É claro que não! Depois de todo esse vai e vem um pouquinho de chocolate para adoçar o dia surge como uma oferta irresistivel. Isso sim é propaganda conativa!
Ao sair você não gasta mais do que alguns segundos para devorar a barra de chocolate e percebe que deveria ter comprado uma segunda. A vontade de comer era tanta que você só percebe que está chovendo no quarteirão seguinte. O jeito e parar em algumas daquelas feirinhas e compra um guarda chuvas, mas como hoje é um daqueles dias em que você não deveria ter se levantado da cama, o vendedor só têm aquelas sombrinhas de péssima qualidade e pra piorar são todas coloridas com flores – parecendo uma propaganda de primavera-verão. De volta as ruas, tentando caminhar o mais rápido possível, lutando contra a multidão de guarda chuvas e contra a chuva de impropérios dos pedestres, você se depara com um trecho da calçada coberto por ardósia ou algo semelhante. Temendo uma queda vergonhosa você reduz o passo e, instintivamente, contrai os dedos dentro do tênis – como se isso fosse lhe ajudar a não escorregar.
Finalmente você chega ao trabalho é logo é recebido por um nível de atenção hostil bem característico dos chefes em relação aos funcionários atrasados. Depois de se desculpar e inventar algo como “estava preso no transito”, ou “tive de pegar um taxi, pois está tudo engarrafado” você se encaminha ao banheiro, confiante de que suas desculpas funcionaram, mas intrigado porque durante toda a explicação o seu chefe não tirava os olhos dos seus dentes. Quando chega ao banheiro e se olha no espelho percebe aquele fragmento de chocolate entre o incisivo central e o incisivo lateral. Envergonhado você corre para a sua mesa e mergulha no trabalho na esperança de que o tempo não demore a passar.
Finalmente chega às 18 horas! Você se engrandece diante da certeza de que dali a algumas horas estará em casa. De volta as ruas você chega ao ponto de ônibus lotado. Com a visão já marejada, pelo dia de trabalho, enxergar o número dos ônibus fica mais difícil, se você for míope então fica ainda mais complicado. O ônibus finalmente chega e te leva arrastado para casa, pois é essa a impressão que dá! Aquela dor de cabeça chata do fim do dia já nem incomoda tanto, pois o funk, tocado “democraticamente” dentro do ônibus, é infinitamente mais desagradável. Nesse momento você percebe que a “democracia” conseguiu entrar no ônibus, o bom senso deve ter ficado no ponto e a ética... essa deve morar em outra cidade!
Chegar em casa é libertador! Livre das obrigações você se entrega a ociosidade e as distrações, pois, apesar de tudo, o bom humor não te abandonou. Os acontecimentos do dia se tornam motivos de risadas e é nessa hora que você percebe que não se conhece por completo e que tem no maximo uma opinião sobre si mesmo.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

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