domingo, 22 de janeiro de 2017

UTOPIA DA LIBERDADE


O conceito de liberdade opera uma inversão de formas de opressão: no regime despótico o Estado oprime a vontade, no liberalismo é a consciência que age com força opressora. Como a consciência é variável, e em muitos casos inexistente, tem-se a impressão de que na democracia existe liberdade.
O próprio conceito de liberdade traz em si a proposta de conflito na medida em que o homem se vê abrigado a adequar seus interesses pessoais com o coletivo, ou seja, o homem se torna um alquimista social cuja obrigação é transformar desejo – força sedutora do inconsciente – em vontade. Vontade e desejo são completos opostos: vontade surge da reflexão, da avaliação dos prós e contras; já o desejo é apenas a manifestação do pólo pulsional e primitivo.
A liberdade também possui sua dose de opressão e está se torna clara quando se compreende que o homem, e somente ele, é responsável por seus atos. É essa a força esmagadora que o homem “livre” - o Atlas da modernidade - carrega nos ombros.
O existencialismo define que primeiro o homem existe como um nada e posteriormente define seu nicho social. Trata-se da absoluta negação da essência criadora, do “dom” natural, da aptidão genealógica. O homem segue por caminhos que se definem por meio de suas escolhas. Só em retrospecto ele reconhece suas falhas. Tragicamente essas falhas só se tornaram visíveis quando adquirem o status de incorrigíveis.
A ideia de liberdade ainda se confunde com a de “cada um por si”. O Estado paternalista autoritário faz despertar a natureza rebelde do homem que mergulha no rumo da busca por liberdade sem saber que ruma para novas formas de opressão. Liberdade não é cada um por si! Cada atitude individual possui um eco coletivo, viver como um Robinson Cruzoe não é uma opção é apenas uma utopia.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

A ERA VITORIANA: PROGRESSO TECNOLÓGICO E REVOLUÇÃO INDUSTRIAL


Em 1837, uma jovem de 18 anos foi coroada rainha da Inglaterra. Com apenas 1,47 de altura a rainha Vitoria marcaria sua época como uma das gigantes da monarquia britânica. Entre junho de 1837 a janeiro de 1901 o império britânico, sob o seu reinado, expandiria seus limites e se apoiaria na Revolução Industrial para elevar o padrão de vida da classe media.
Nestes 63 anos de reinado a Inglaterra registrou um crescimento demográfico assustador, passando de 16,8 milhões para 30,5 milhões num período entre 1851 a 1901. Esse crescimento assustador, em parte ocasionado pelo progresso tecnológico, ocasionou verdadeiros desastres urbanos como epidemias, expansão da pobreza e da violência. Londres emergiu como a grande metrópole européia, marcada pelo contraste entre a opulência dos mais ricos e a extrema miséria dos mais pobres.
Essa concentração assustadora de necessidade e prosperidade industrial fez de Londres uma singularidade absoluta entre as metrópoles européias. A gigantesca cidade permanecia imersa numa nevoa sulfurosa proveniente das chaminés industriais. As ruas cobertas de sujeira e estrume de cavalos, o asfalto impregnado por uma substancia negra que lembrava a graxa de sapato, os prédios cobertos por uma fina camada de fuligem. Essa era a imagem da grande metrópole moderna, industrializada e em rápido crescimento.
A região de maior concentração demográfica se localizava no norte do país: as áreas em torno das cidades de Manchester, Bradford, Preston e Livepool eram conhecidas como verdadeiros formigueiros humanos. A região era dominada por minas de carvão e apresentava concentração demográfica de 150 a 300 habitantes por quilometro quadrado (referentes ao ano de 1801). Algumas cidades como Londres, Birmingham, Bristol, Gloucester, Nostingham, Sheffield, Exeter e Newcastle também apresentava o mesmo índice demográfico. Em uma de suas viagens ao complexo industrial de Birmingham a jovem, e ainda adolescente, princesa Vitoria deixou registrado o que viu:
“Os homens, mulheres e crianças, o campo e as casas são todos escuros. O campo está desolado em toda parte. O carvão em toda parte e a grama toda arruinada e negra.”
O predomínio da indústria têxtil, como principal matriz produtiva, permaneceu durante toda a era vitoriana. 40% de toda a mão de obra era empregada nas indústrias de tecido de algodão em 1880. A indústria têxtil cresceu em função do comercio colonial; a conquista destes mercados alem mar foram determinantes, pois o mercado interno era bastante reduzido no que diz respeito ao consumo de tecidos.
Em 1814 a Inglaterra exportava quatro jardas de tecido de algodão para cada três consumidas no mercado domestico; em 1850 a proporção já era de treze para oito. A indústria têxtil predominava em cidades como New Lanark, Leeds, Todmorden, Blackburn, Bury, Bolton, Mancchester, Steckport, Cromford, Bersham, Coalbrookdale, Broseley, Bilton, Penydarram. Cidades como Glasgow, Prestonpans, Tipton e Birmingham formavam o emaranhado urbano de industrias químicas, cuja importância no período era equivalente ao setor têxtil, embora os rendimentos do segundo fossem infinitamente superiores.
O que seria de fato uma sociedade capitalista? Um exemplo de sociedade capitalista é aquela que reúne o seguinte conjunto de características:
1 - Predomínio da mão de obra assalariada, ou seja, o proletariado não sendo dono dos meios de produção vende sua força de trabalho.
2 - Meios de produção (fabricas, industrias) concentradas nas mãos de uma classe social: Burguesia.
3 - Produção em massa: tudo aquilo que é produzido é feito para se tornar uma mercadoria.
4 - Divisão do trabalho e alto consumo de energia.
Duas coisas eram fundamentais para a criação de uma sociedade capitalista: uma classe de proprietários dotados de capital necessário para investir no setor produtivo e mão de obra excedente. A revolução agrícola inglesa foi levada a cabo pensando-se em acumular capital – que mais tarde poderia ser empregado em determinados setores industriais -, em aumentar a produção de alimentos, indispensáveis na alimentação das massas urbanas em rápido crescimento e funcionar como reserva de mão de obra, o que manteria os salários do ramo industrial baixos. A política dos Cercamentos foi utilizada para solucionar um antigo dilema do mundo rural: a relação entre camponeses e os donos da terra.
No período anterior ao inicio da Revolução Industrial – iniciada por volta de 1760, embora seja quase impossível afirmar quando de fato a mesma tenha se iniciado – a terra era um bem comum e, portanto cultiva por toda a parcela camponesa da sociedade. Com o inicio do capitalismo industrial a terra se tornou um bem de produção, graças a sua associação com a indústria têxtil, cuja matéria prima era a lã proveniente da criação de ovelhas. A política dos cercamentos permitiu aos grandes criadores cercar áreas proporcionais ao numero de ovelhas que possuíam. Isso levou a expulsão de milhares de camponeses de suas terras que migraram para as cidades. Pode-se dizer que o capitalismo definiu o campo como um setor produtivo subordinando as cidades, ou melhor, subordinou ao comercio e as necessidades industriais.
A mecanização do setor manufatureiro era infinitamente mais vantajoso que a mecanização agrícola, cujos resultados eram contrários as expectativas do agricultor. Com a mecanização das colheitas a matéria prima inundava o mercado manufatureiro em uma escala gigantesca. Isso provocava queda do valor da matéria prima, ao mesmo tempo que elevava o lucro dos industriais, pois o manufatureiro gastava cada vez menos com matéria prima, mas mantinha o preço dos manufaturados constante.
Era um mecanismo extremamente favorável ao setor industrial, pois “forçava” o agricultor a elevar a produção, mesmo contra sua vontade, pois somente com a elevação da produção o agricultor conseguiria realizar a aquisição dos manufaturados de que necessitava. No setor industrial o processo se inverte: quanto mais o industrial investia em tecnologia de produção mais caro seus produtos se tornavam, mais barato se tornava a produção do mesmo produto e mais baixo o valor do salário, pois uma tecnologia mais eficiente reduz uma pequena fração da mão de obra.
No período de 1830 a 1850 a Inglaterra apresentou um crescimento assustador na produção de dois itens básicos no contexto da industrialização: carvão e ferro. A produção de ferro subiu de 680 mil para impressionantes 2.250.000 toneladas. As minas de carvão estavam espalhadas pela região central e norte do país e sua produção passou de 15 milhões de toneladas para 49 milhões no mesmo período. Esse aumento na produção de ferro e carvão deveu-se a expansão das linhas de férreas que apesar de apresentarem um lucro de apenas 3,7% continuou a receber investimentos de uma classe media que havia acumulado mais dinheiro do que era capaz de gastar.
A gigantesca maquina industrial britânica consumia energia equivalente a um milhão de cavalos (HP), produzia 1800 metros de tecido de algodão anualmente, 50 milhões de toneladas de carvão e exportava 170 milhões de libras esterlinas anuais na forma de mercadorias. Hoje esses valores são desprezíveis se considerarmos o valor envolvido no comercio globalizado, mas na época eles fizeram da Inglaterra uma singularidade absoluta em termos de economia industrializada.
O florescimento das cidades portuárias, como Manchester, Liverpool, Bristol e Glasgow, esta relacionada ao papel das exportações na economia do país. Os lucros produzidos pela indústria de tecidos eram gigantescos e estes só começaram a cair por volta de 1815, como parte de um processo natural dos ciclos econômicos (ascensão, consolidação e decadência). Os lucros caíram ainda mais nos anos seguintes, pois o preço da matéria prima variava e o aumento do número de indústrias elevava a oferta forçando os industriais a reduzir o preço para evitar a perda de mercado.
Parte do sucesso do setor têxtil se deve ao pacto colonial que proibia a criação de manufaturas nas colônias para evitar a concorrência com os produtos da metrópole. Em muitos casos o progresso industrial britânico foi alavancado pela conquista de novos mercados alem de suas fronteiras. A Índia possuía um setor manufatureiro bastante desenvolvido e operante. Organizada por padrões familiares a mesma foi arrasada pelo colonialismo britânico, cuja industria mais desenvolvida fornecia produtos de melhor qualidade a preços inferiores. Com o desmantelamento do setor têxtil a Índia, tradicional exportadora de manufaturados, se tornou um grande consumidor dos produtos ingleses.
A SOCIEDADE VITORIANA
A sociedade era extremamente moralista e machista. O homem dominava o mercado de trabalho e a mulher via seu papel relegado ao de funcionaria domestica. Não havia espaço para posturas radicais quanto à estrutura padrão do lar. O homossexualismo era reprovado pela sociedade de forma vigorosa. Um dos mais famosos casos envolvendo homossexualismo no período foi à condenação do escritor Oscar Wilde a dois anos de trabalhos forçados por sodomia.
As convenções vitorianas relacionadas ao casamento eram rígidas e bastante desfavoráveis a figura feminina. Todas as propriedades herdadas pela mulher eram automaticamente repassadas ao marido após o casamento, que inclusive tinha o direito de “educar” sua esposa por meio de golpes de vara, desde que esta não fosse mais grossa do que seu polegar. John Stuart Mill foi um ardoroso critico daquilo que chamava de “escravidão da mulher”
Para o estilo de vida burguês, predominante na era vitoriana, o lar era a expressão máxima do individualismo e das conquistas particulares. Era o limite físico entre o idílio privado a o caos do crescimento desordenado e desumano da sociedade do lado de fora. Era o contraste entre a união familiar e o individualismo social, entre o calor fraterno do circulo familiar e o frio da miséria que percorria as ruas. Nesse sentido nenhuma festa poderia representar melhor esse estilo de vida do que o natal. A arvore de natal, criada na Alemanha, tornou-se o símbolo maximo da Inglaterra vitoriana.
O lar burguês era a representação máxima de status. As casas eram entulhadas de manufaturados: tapetes cobriam todos os cômodos, estofamentos cobriam todas as cadeiras, as paredes eram cobertas por quadros com moldura elaborada. A intenção era expor ao visitante o luxo da realidade burguesa em contraste com a pobreza do mundo exterior. Isso servia para estabelecer uma distancia social entre os moradores da residência e os membros da classe proletariada.
Pode-se dizer que a moda vitoriana era essencialmente paradoxal. Se por um lado buscava reprimir qualquer vestígio de erotismo, por outro buscava evidenciar determinadas características sexuais secundarias. Os homens “bem nascidos” usavam a tradicional cartola com terno justo na cintura, um relógio preso a corrente no bolso e a bengala – este último um adorno indispensável. As mulheres andavam completamente cobertas, mesmo nos dias muito quentes – pouco comuns no continente europeu, mas freqüente nos trópicos coloniais. O que não podia ser coberto era evidenciado: os homem usavam barbas e bigodes exuberantes, as mulheres usavam penteados volumosos, saias que aumentavam a proeminência das ancas e afinavam a cintura. A tradicional luva de camurça e o guarda chuva estavam sempre presentes.
A moda do período se dividiu em duas vertentes: a Early Victorian (1837 – 1860) e a Mid To Late Victorian (1860 – 1901). Num primeiro momento a tendência era valorizar ombros estreitos, cinturas baixas e mangas compridas. As roupas eram claras e o espartilho considerado indispensável, não apenas esteticamente falando, mas também como adereço com propriedades medica. As roupas eram tão vistosas que entre anáguas, xales e outros adornos as mulheres chegavam a carregar mais de 15 quilos de tecidos no corpo.
Como estereótipo de beleza estavam aquelas que possuíam lábios pequenos, pele branca, olhos grandes e negros e cabelos ricamente cacheados. No segundo momento, durante o Mid To Late Victorian, os chapéus femininos se tronaram comuns, bem como tecidos listrados e saias volumosas atrás e retas na parte frontal. Em 1861 a morte do príncipe Albert levou a rainha Vitoria a mergulhar no luto. Na moda o luto da realeza ditou um novo estilo: vestidos com tecidos escuros. Seria a indústria química de corantes a responsável por atender esses novos anseios da moda. A moralidade burguesa era terrivelmente machista quando se tratava de comportamento sexual. Das mulheres solteiras era exigida a castidade, das casadas nada menos que a obediência e a fidelidade cega. Aos homens era reservada uma parcela de infidelidade, tida como natural. Em certos pontos a escala de valores e o senso de moralidade burguesa chegavam a ser hilariantes: no Palácio de Buckingham a rainha Vitoria mandou aumentar o comprimento das tolhas para que as pernas das mesas não ficassem expostas.
Obviamente que esse puritanismo não se aplicava nas ruas, principalmente quando se tratava do relacionamento entre burgueses entediados com sua vida particular e a parcela mais pobre da sociedade. O próprio número exorbitante de prostitutas na Londres vitoriana reforça essa afirmação. Em 1864 chegou a ser aprovada uma lei que visava controlar as doenças venéreas entre a população pobre. Segundo o seu texto os policiais podiam realizar a internação forçada de qualquer prostituta em hospitais até que a mesma se recuperasse completamente. Hoje sabemos que a Sífilis é uma doença incurável que afeta inclusive o sistema nervoso.
O individuo diagnosticado com Sífilis possui uma expectativa de vida de apenas 10 anos, período no qual a doença apresenta alternadamente momentos de melhora e piora dos sintomas, mas que ainda sim era capaz de transmitir a doença. Essa lei, chamada “Contagious Diseases Acts”, revela não só a ignorância em relação as doenças venéreas, como expõe a tendência vitoriana de sustentar uma sociedade de aparências seletivas, tanto no plano social como no domestico.
O casamento era não apenas um costume burguês, mas também uma potente ferramenta econômica. Ao se casar o individuo perdia sua capacidade de romper com os costumes e de transgredir o padrão social vigente. O casamento gerava indivíduos que contraiam dividas, geravam filhos, se tornavam funcionários dedicados e obcecados pelo aprimoramento profissional além de consumidores vorazes de bens de consumo e de bens duráveis. Viver solitário era o mesmo que estar à margem da sociedade, ou seja, um exemplo de alguém que não conseguiu se inserir no estilo de vida tido como “normal”.
Apesar do puritanismo aparente da sociedade o consumo de ópio era bastante difundido por todas as classes. As colônias britânicas nas índias forneciam toneladas do produto ao império. A droga era consumida como medicamento e como distração social. A própria rainha vitoria era consumidora de ópio, que segundo testemunhas era consumido misturado com cocaína na forma de pastilhas.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
PARA SABER MAIS:
IDIOMA Português
EDITORA: Paz E Terra
NÚMERO DE PÁGINAS: 540

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