sábado, 21 de dezembro de 2013


Era por volta das quatro horas da ensolarada tarde de 1 de julho de 1798, quando as primeiras vozes gritando “Terra!” partiram das centenas de embarcações no mar mediterrâneo. O brilho do sol nas águas calmas do litoral davam a paisagem um tom amarelado, cor de ouro, bem característico do país ao qual estavam prestes a conhecer. Os homens a bordo correram para as amuradas, alguns portando lunetas ou outras formas rudimentares de instrumentos óticos, na tentativa de vislumbrar o território cuja civilização fascinará tantos outros. O que viram ao longo da costa foi uma imenso mar de areia branca e uma cidade bem no meio do horizonte. Apesar de não ser a visão idílica e faraônica que tantos imaginaram, não havia duvida: finalmente haviam alcançado à costa do Egito.
A cidade na qual observavam era a histórica Alexandria. Seu lendário farol não existia mais, pois havia desabado durante um terrível terremoto. No local de suas fundações eram visíveis as muralhas brancas do Forte Qaitbey, construído em 1480 por um sultão mameluco. Devido a presença da marinha britânica no Mediterrâneo os franceses não podiam perder tempo. Imediatamente iniciaram os preparativos para o desembarque.
Ao anoitecer os navios, abarrotados de homens e equipamentos, oscilavam em meio às ondas da baía, que naquela altura já haviam começado a mostrar a fúria das águas do mediterrâneo. Por volta da meia noite, com o céu coberto de nuvens e relâmpagos, o cônsul francês da cidade de Alexandria partiu em um pequeno bote em direção aos navios. Foi recebido por ninguém menos que Napoleão Bonaparte, a bordo do L’Orient, o maior navio de guerra da marinha francesa que pesava incríveis duas mil toneladas e era armado com cento e vinte canhões. As noticias repassadas ao general francês não era das melhores: navios britânicos foram vistos ao longo da costa e uma grande esquadra britânica estaria de volta ao porto em aproximadamente três dias. A essa altura uma furiosa tempestade desabava ao longo do litoral fazendo as embarcações sacudirem de forma violenta.
Napoleão decidiu não esperar o fim da tempestade e ordenou o desembarque imediato. Em meio a escuridão noturna os homens começaram a descer pelas laterais dos navios rumo aos botes. As ondas tornavam a tarefa quase impossível, e muitos chegaram a ser lançados no mar. A esses pobres desafortunados nada restava alternativa senão gritar por socorro, mas a escuridão indescritível da noite tornava impensável qualquer resgate em meio à fúria das ondas. Levaria quatro horas para que os primeiros barcos finalmente chegassem à praia. Durante a madrugada o mar se acalmou e as centenas de marujos ensopados nas areias contemplavam com admiração a imagem da imensa frota de mais de duzentas embarcações, tendo ao fundo o céu rosado das primeiras horas da manhã. Aqueles que se aproximaram das muralhas do Forte Qaitbey, ficaram impressionados com a construção. No subterrâneo havia um labirinto de túneis e câmaras usadas como deposito de armas. Napoleão se instalou no Forte assim que desembarcou. Ele imediatamente analisou um mapa do Egito e compreendeu que rumar para o Cairo pelo rio Nilo seria muito perigoso devido a presença de navios britânicos no mediterrâneo. A solução seria despachar seus soldados rumo ao Cairo em uma marcha através das tórridas areias do deserto do Saara.
Liderando a marcha, Napoleão foi seguido por 30 mil soldados, usando os típicos uniformes azuis do exercito francês, com chapéus tricornio e botas completamente inadequadas a marcha prolongada. No dia 8 de julho, essa imensa massa humana mergulha no mar ardente das areias lendárias do deserto. O calor era tão intenso que as botas começaram a desmanchar, soldados começaram a perder a disciplina, alguns desmaiavam de sede outros simplesmente acabavam com o próprio sofrimento através de uma bala na cabeça. Para os mais supersticiosos, o mar revoltoso durante o desembarque era um pressagio de que aquela expedição não acabaria bem. Mal sabiam eles que suas previsões estavam certas e que aquela aventura pelas lendárias terras dos faraós seria não apenas desastrosa, mas também inesquecível.
A magnífica obra “Miragem - os cientistas de Napoleão e suas descobertas no Egito” retrata a expedição francesa ao Egito no ano de 1798, em plena Revolução Francesa. A França, mergulhada no caos político e financeiro da revolução, não tinha meios de empreender uma derrota armada a Inglaterra - sua histórica rival. A solução seria ocupar o Egito e atrapalhar o comercio britânico com suas colônias orientais. Para isso foram reunidos 34 mil soldados, 16 mil marinheiros e cento e cinqüenta artistas e cientistas parisienses que deveriam explorar e catalogar as riquezas do Egito. Matemáticos, botânicos, zoólogos, químicos, naturalistas, médicos, astrônomos, engenheiros, físicos e pintores iriam compor esse inusitado grupo de cientistas, acostumados a trabalhar na solidão de seus laboratórios e que na maioria dos casos nunca haviam utilizado uma arma de fogo na vida. Alguns foram convidados pelo próprio Napoleão, como o renomado químico Claude Louis Berthllet, o matemático Gaspard Monge - criador da Geometria descritiva, o químico e pintor Nicolas Jacques Conté, o medico René Nicolas Desgenettes, o matemático Jean Joseph Fourier - tido como um dos maiores gênios das ciências exatas de sua época, o zoólogo Etienne Saint-Hilaire e o engenheiro Jean Baptiste Prosper Jollois.
A jornalista Nina Burleigh criou uma obra magnífica que mistura ciência e historia, adornada por uma narrativa rápida, clara e agradável. Durante a leitura vemos a difícil travessia do Saara, tempestades de areia impressionantes, a celebre Batalha das Pirâmides, a lendária Batalha do Nilo - durante a qual ocorreu a colossal explosão do navio francês L’Oriente, a conturbada vida na cidade do Cairo, a descoberta da Esfinge de Gize – completamente coberta de areia quando os franceses a encontraram, a descoberta de múmias nas tumbas do Vale dos Reis, a jornada em meio a antigas fortalezas dos Cavaleiros Templários, a luta pela procura de água, a sangrenta Batalha de Jafa, os assassinatos em massa cometidos por Napoleão nas praias da península do Sinai, a descoberta da Pedra de Roseta – encontrada por soldados franceses enquanto escavavam próximos a uma muralha e cuja tradução seria fundamental para a compreensão do hieróglifos, o cerco a cidade de Acre, a Peste que devastou o exercito francês e a fuga vergonhosa de Napoleão abandonando seus soldados a própria sorte. A ironia final e que a maioria das descobertas acabaria mais tarde em um museu britânico. A obra de Nina Burleigh é um trabalho fascinante que aborda a conturbada relação entre o ocidente e o oriente, entre os progressos científicos das nações civilizadas e as belezas do mundo árabe.
AUTOR: TIAGO RODRIGUES CARVALHO
- MIRAGEM - OS CIENTISTAS DE NAPOLEAO E SUAS DESCOBERTAS NO EGITO
Autora: BURLEIGH, NINA
Editora: Landscape
312 paginas

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