sábado, 6 de abril de 2013

O DUPLO


Atualmente a perda da personalidade é um evento natural e corriqueiro; quase uma característica indissociável da modernidade. O ser multifacetado é predominante no mundo globalizado e a “mascara” tornou-se o acessório fundamental do cidadão moderno. Boa parte das relações interpessoais, em planos sociais distintos, só são possíveis em função da aplicação pratica deste adorno teatral que deixou os palcos e se estabeleceu como alegoria social. Existe um lado de nos mesmos que apresentamos a sociedade e um lado que reprimimos por medo de reprovação, vergonha ou por simples excentricidade.
A concorrência desenfreada do mundo moderno, seja no plano profissional ou amoroso, tem contribuído para o estabelecimento do núcleo fundamental dos distúrbios da psique. A hipocrisia, que tanto vemos desfilar nas ruas, está presente em nos mesmos de forma dominadora e imperativa. Temos medo de reconhecer nossas descrenças e assumir determinados sentimentos “socialmente imorais” por simples medo de não nos adequarmos no perfil de um cidadão “normal”. Essa necessidade de aceitação leva a formação de um individuo com muitas personalidades - um tema já muito explorado pela literatura.
Na novela “O Duplo” o escritor russo Fiodor Dostoievski aborda a personalidade dual como tema principal. A narrativa se passa em São Petersburgo, cidade palco de muitos dos romances do escritor, e narra os dramas de Yakov Pietrovitch Golyadkin, conselheiro titular de uma repartição pública, em essência um burocrata de segunda categoria que luta para ser aceito na sociedade. Já no primeiro capitulo o autor nos apresenta um personagem desorientado – quase uma marca registrada dos personagens do Dostoievski – que se prepara para comparecer a uma festa de aniversario na casa do conselheiro de estado Beriendêiev. No caminho ele resolve fazer uma visita a seu medico, ficando implícita pelo menos uma das patologias que acometem o personagem. Golyadkin chega ao cumulo de exigir que o cocheiro da carruagem de aluguel use uma libré – tecido usado pelos cocheiros dos aristocratas – numa tentativa desesperada de se aproximar da classe que julgava superior a sua.
Ao chegar à residência de Beriendêiev, Golyadkin é informado pelos serviçais de que não poderia ser recebido junto aos demais convidados. Inconformado ele deixa o local e pouco depois retorna pela porta dos fundos somente para ser novamente expulsos pelos próprios convidados. Sentindo-se humilhado ele vaga pelas gélidas ruas cobertas de gelo e assoladas pelo vento invernal em meio a lampiões tremeluzentes da velha São Petersburgo enquanto digere a idéia de sua própria insignificância social.
Nesse momento o típico personagem dostoievskano surge com seus intermináveis conflitos internos e sua auto-reprovação aguda. Enquanto percorre as ruas Golyadkin se encontra na dependência da vergonha e da auto-reprovação. Seu desprezo por si próprio atinge tamanha intensidade que vemos a situação evoluir de um ego ferido para uma condição patológica, num misto de comicidade e tragicidade.
Em determinado momento, enquanto atravessava à ponte Izmáilovski, Golyadkin percebe que está sendo seguido por uma estranha figura humana. Poucos minutos depois vem o choque: o homem que o seguia era na verdade ele mesmo; o seu duplo! Golyadkin, literalmente, fugia de si mesmo, fugia da ilusão de sua própria mente numa autentica demonstração patológica de auto-reprovação.
Existe uma tese da psicologia que analisa uma estranha particularidade da psique humana: todo individuo alimenta uma inveja de si próprio. No caso de Golyadkin o sentimento de inveja por seu objeto fátuo, isto é seu ideal de si próprio, evolui com a narrativa de um turbilhão paranóico e culmina num sentimento destrutivo de ódio onde a ilusão termina como vencedora absoluta.
A narrativa é cronológica sem recuos temporais, mas possui algumas características levemente desagradáveis, como o comportamento do personagem principal em repetir exaustivamente o nome do interlocutor com o qual dialoga (característica presente em outros personagens do autor), mas isso não compromete a abordagem genial de Dostoievski. O desfecho carregado de tristeza é bastante coerente com o enredo e a leitura e sem duvida agradável, e em certos momentos bastante cômica. Vale à pena conferir mais está maravilhosa obra do gênio Dostoievski.
AUTOR: TIAGO RODRIGUES CARVALHO
O DUPLO - Fiodor Dostoievski
Editora 34
Tradução de Paulo Bezerra

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