segunda-feira, 19 de agosto de 2013

ARTE URBANA: A MUSICA COMO REFLEXO SOCIAL


De todas as formas de arte existentes, nenhuma esteve mais associada à tecnologia que a musica. A revolução tecnocientífica, iniciada durante a Revolução Industrial, tornou a arte onipresente por meio da musica. O LP de 78 rotações por minuto se consolidou durante a década de 50. O aparelho toca discos, em função de seu aspecto pouco pratico, determinou um estilo peculiar de apreciar a musica sempre em coletivo. A fita cassete permitiu uma postura mais seletiva por parte dos ouvintes ao tornar possível gravar apenas o conteúdo apreciado. Os fones de ouvido ganharam espaço na década de 70; grandes e desajeitados permitiram, pela primeira vez, que a musica fizesse parte de um universo ainda mais particular e, portanto, passasse a retratar determinadas situações ao longo de uma vida. Os fones inovaram ao subordinar a critica ao subjetivo e não mais ao coletivo uma vez que eliminou a influencia externa na determinação do gosto musical. Os modernos aparelhos eletrônicos como celulares e Ipods ampliaram a margem das preferências musicas uma vez que permitiu ouvi-las numa esfera privada e, portanto a prova do escárnio alheio.
WALKMAN - INOVAÇÃO TECNOLOGICA NA DECADA DE 70
A musica é talvez um dos ramos artísticos com mais subdivisões que qualquer outra. Sua falta de homogeneidade decorreu da impossibilidade de definir, por exemplo, que o Rock era melhor que o Blues. Na realidade é justamente a ausência de um órgão definidor entre o que é bom e o que é ruim que permitiu a explosão de gêneros musicais, que só se consolidaram graças a uma postura menos exigente do público mais jovem quanto ao conteúdo das letras. As raízes da arte musical na sociedade são tão profundas que em certos aspectos se torna impossível enxergar os limites entre o social e o artístico. Se considerarmos que vivemos os séculos onde a vida humana sofreu as maiores transformações já registradas não fica difícil entender porque a musica se expandiu gritantemente em suas subdivisões, cada uma visando atender as necessidades do subjetivo.
Ao longo dos séculos a “humanização” da musica se tornou obrigatória. Musicas admiradas pela sonoridade dos instrumentos passaram a exigir a presença da voz humana como principal órgão fonador embora também exigisse um igual aprimoramento musical por parte dos instrumentos cada vez mais dependentes da tecnologia – em parte devido ao público gigantesco dos grandes shows. Nos séculos XVII e XVIII a poesia – a arte mais individual de todas – fazia parte da rotina da maioria da população jovem. Poemas clássicos inspiravam jovens de forma tão significativa que em alguns momentos teve efeitos trágicos, como o conhecido “Efeito Werther” – uma onda de suicídios que assolou jovens de classe media na Europa do século XVIII em função do romance escrito por Goethe. No século XX a musica estava presente na vida dos jovens em sua forma mais coletiva: a banda. Boa parte dos jovens, senão a maioria sonhou em fazer parte de uma banda. Bastava um único violão para que o sonho parecesse mais próximo da realidade.
APRESENTAÇÃO DA BANDA ROLLING STONES
Hoje a musica possui múltiplas formas de admiração, ou múltiplos aspectos onde a opinião pode ser aplicada. Apreciamos não apenas o conjunto ritmo letra, como uma unidade indivisível, mas também cada um dos aspectos de modo distinto e interdependentes. Musicas com apenas duas notas musicas e um ritmo constante foram imortalizadas por suas letras, hora questionadoras, horas reflexivas. Outras são admiradas apenas pela fonética agradável, como nos casos em que o idioma é pouco familiar. Isso reflete uma singularidade da sociedade contemporânea quanto a permeabilidade aos novos estilos, excluindo-se e claro uma pequena parcela mais ortodoxa e menos liberal: a ausência de um conceito pré-estabelecido que limita o gosto a alguns ou apenas a um único estilo.
A explosão do número de gêneros musicais pode ser explicada, em partes, por fatores antagônicos: A ascensão de novos estilos ocorre em função do conflito de opostos. O predomínio alternado entre o Rock e o Axé, entre o Funk e o Sertanejo, entre a musica popular e o seu oposto juvenil criaram uma tendência natural de evoluir sob o impulso da competição. A chamada “Invasão britânica”, iniciada na década de 50 por representantes do estilo Rock, beat e pop, surgiu como resposta ao sucesso estrondoso de artistas americanos como Bill Haley, Chuck Berry e Elvis Presley. A invasão iniciada pelos Beatles terminaria com ícones como Rolling Stones, Led Zeppelin, Pet Shop Boys, The Cure, Eurythmics, The Who e Pink Floyd.
Assim como as artes visuais a musica estreitou os laços com o meio social ao expor uma de suas aplicações mais convenientes: como ferramenta política. Na Inglaterra boa parte do conteúdo das musicas da década de 70 tinham um conteúdo político evidente. “Nikita” de Elthon John, por exemplo, criticava abertamente o regime socialista soviético. Porem seria no funeral da princesa de Gales, Ladi Diana, que o peso de sua musica como ferramenta política seria colocada a prova. A canção “Candle in the Wind”, cantada pelo astro durante o funeral, propagou por todo o mundo o drama da população britânica e apagou, ao menos em parte, o constrangimento por trás das intrigas no núcleo da família real. A monarquia inglesa cambaleava sob o impacto de intrigas, traições e escândalos que desagradavam profundamente o contribuinte na medida em que evidenciava a arrogância da casa real para com um de seus símbolos mais adorados: uma ex-professora cujo casamento de conto de fadas aproximou a monarquia de seu povo. Em meio à turbulência da política inglesa a musica criou, dentro de um contexto puramente político, uma moldura dramática que apesar de obscura e pouco expressiva atendeu aos propósitos políticos da monarquia. Não deixa de ser uma ironia que diante de tal cenário político uma canção chamada “Vela ao vento” tenha orientado os rumos da política inglesa dividida entre a rigidez dos costumes monárquicos e o parlamento, cada vez mais ávido por atender aos anseios populares.
MADONNA - RETRATO MUSICAL DA SOCIEDADE AMERICANA DOS ANOS 80
Nos EUA o estilo Heavy Metal conquistou o público na década de 80. Iron Maiden, Scorpions e Metalica se estabeleceram como ponta de lança do movimento com sons pesados e solos de guitarra característicos. Outros estilos de Rock também fizeram história na década de 80 como Bon Jovi, A-há, U-2, The Police e Duran-Duran. Michael Jackson, Madonna e Withney Houston iniciaram no mesmo período carreiras cujo sucesso e influência, tanto no mundo da musica quanto fora dele, extrapolaram a mais otimista das expectativas. Madonna, por exemplo, era o retrato musical do estilo de vida americano nos anos 80. A economia americana havia saído da recessão e uma febre hedonista tomou conta da população. Uma onda de gastos desenfreados caracterizou a sociedade americana do período. Em parte essa postura de negligenciar o futuro e viver o momento também teve forte influencia da corrida armamentista entre EUA e URSS. O medo de um holocausto nuclear empurrou o cidadão americano para o consumo exagerado e a busca por satisfação imediata. As economias familiares despencaram diante da mídia conativa que estimulava o consumo de roupas, jóias, eletrodomésticos e bebidas. Nesse ambiente de intenso fluxo de capital a canção “Material Girl”, do polemico album "Like a Virgin", de Madonna, fez um tremendo sucesso ao retratar o estilo de vida da sociedade norte americana.
COLDPLAY - A BANDA DE ROCK ALTERNATIVO INGLESA DE MAIOR SUCESSO DOS ÚLTIMOS TEMPOS
No ano 2000 a musica britânica ressurgiu com força total: o Coldplay lançou seu primeiro CD – Parachutes – abrindo caminho para o sucesso internacional e cedendo espaço ao estilo Rock Alternativo, já popularizado na década de 90. Nos anos seguintes nomes como McFly, Amy Winehouse, James Blunt, Robbie Willians e Adele elevaram a musica britânica ao seu lugar de destaque.
RENATO RUSSO - VOCALISTA DO LEGIÃO URBANA
No Brasil o período de transição da década de 70 para a década de 80 ficou marcado por ícones como Titãns, RPM, 14-Bis, Legião Urbana, Kid Abelha, Cazuza e Barão Vermelho. A MPB, embora tenha surgido na década de 60 só se consolidaria em meados da década de 80. A musica sertaneja, tão admirada no país, consiste numa adaptação do estilo “Sertanejo de raiz” – bem menos adornado de eufemismos – a um estilo mais urbano onde as privações e realidades do “mundo caipira” estão ausentes.
O Funk praticamente eliminou sua característica mais notável de consolidar o drama social como foco de criação artística. O estilo de vida das grandes comunidades carentes não mais cumpre seu papel como inspirador na elaboração das letras, mas como exemplo de que as comunidades não são um aspecto admirável e representativo de identidade nacional, mas um dos seus aspectos mais reprováveis. Essa é sem duvida a base do chamado “Funk ostentação” que de modo agressivo expôs seus objetivos ao invés dos dramas. Nisso vemos uma característica histórica da musica: sua forma de expressar uma nova postura social através do seu conteúdo mais ou menos agressivo. A oscilação entre a passividade e a incisão retrata o pendulo social cada vez mais irregular.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

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