quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O POLEMICO FANTASIA (1940) DA DISNEY


Sempre fui fascinado pelo clássico de 1940 dos estúdios Disney “Fantasia”. A animação é dividida em oito partes, cada qual acompanhada de uma melodia clássica. A “grosso modo” pode se dizer que se trata de vários “curtas” dentro de um “longa”. A proposta foi colocar a musica erudita como complemento para a arte visual, e o resultado ficou bem interessante. A musica aqui não funciona como um fator que compensa um enredo superficial – como ocorre em muitos desenhos da Disney – mas contribui para o desenvolvimento da animação. A sonoridade é relevante para o enredo que se desenvolve.
Alguns críticos o definem como uma das obras mais sombrias e polemicas da Disney. Bruxaria, figuras femininas nuas, elementos de preconceito racial, almas que ardem no fogo do inferno é a aparição do diabo em uma das sequências finais fazem de “Fantasia” uma animação pesada, polemica e madura dentro de sua pretensão inovadora. Não se enganem pela imagem infantil do Mickey com chapéu de mago, pois não se trata de uma animação para crianças e isto é importante ressaltar: nem toda animação é direcionada somente ao publico infantil!
É obvio que existe um exagero na alegação de que “Fantasia” seria uma animação criada somente para adultos. A obra é bem diversificada quanto ao seu publico alvo: no plano visual existe um maior apelo ao público infantil, já no plano sonoro o foco é mais adulto. Dentro daquilo que o longa se propõe a fazer, ou seja, criar uma forma de entretenimento que promova algum grau de interpretação e apreciação artística poderíamos dizer que sua compreensão plena exige de fato um espectador adulto, por isso ela é mais direcionada a este publico, mas não somente a este.
“Fantasia” estreou nos Estados Unidos no dia 13 de novembro de 1940. Desnecessário dizer que a data de estréia foi responsável pelos primeiros elementos de superstição popular atribuído a animação. No Brasil a estréia ocorreu no dia 25 de dezembro do mesmo ano.
Logo na seqüência inicial, embalada pela Tocata e Fuga em Ré Menor de Johann Sebastian Bach, fica claro o caráter inovador da obra. Partes de violinos dançam ao sabor das possibilidades da musica. A sensação inicial é de pura imersão no universo associativo entre arte visual e sonora com uma paleta de cores que oscila entre tons de laranja e vermelho intenso. Abstração e musica erudita funcionam bem como elemento introdutório, embora possa se tornar desinteressante para o expectador mais leigo.
O segundo trecho da animação é uma reinterpretação do bale Quebra Nozes de Tchaikovsky. Fadas se movem em meio à escuridão da noite fazendo com que as flores liberem um néctar brilhante – néctar é uma solução liberada por glândulas especificas dos vegetais cuja composição inclui açucares, o que casou perfeitamente com a belíssima melodia de Tchaikovsky “Dança da fada açucarada”.
Essa sequência sempre foi a minha preferida da obra, tanto pela beleza das imagens quanto pelas lembranças que elas me despertam: a época do jardim de infância quando tínhamos que fazer folhas e flores de plantas em papel crepom e cartolina e depois pregar lantejoulas em suas bordas :)
Todo o segundo ato consiste em uma mistura de bale clássico, dança russa, patinação artística e dança do ventre. Como pano de fundo temos a passagem das quatro estações do ano. As imagens das folhas amareladas e vermelhas do outono sendo carregadas pelo vento ao som da “Valsa da flores” de Tchaikovsky é um dos mais belos momentos da animação. Com Tchaikovsky o longa encerra seus dois primeiros segmentos é começa a entrar em uma campo mais denso.
No trecho sobre o “Aprendiz de feiticeiro”, considerado como o primeiro flerte da animação com temas ligados ao misticismo e a bruxaria, Mickey transforma uma vassoura em um funcionário obediente. Esse é talvez o primeiro momento em que o espectador encontra brechas para suposições mais adultas e ate mesmo maliciosas. Uma delas é na semelhança das vassouras que aparecem na animação com um objeto fálico.
Tradicionalmente vassouras são elementos associados às bruxas. Muitas crianças cresceram com a imagem inocente de bruxas velhas, com narizes compridos e chapéus pontudos voando sobre vassouras. Quando buscamos o fundamento dessa caracterização é que compreendemos a conotação profundamente sexual de sua linguagem visual. Para a igreja católica as bruxas de fato existiam. Milhares de mulheres foram condenadas como feiticeiras e submetidas a brutal execução na fogueira. Buscando associar a imagem dessas mulheres ao pecado a igreja criou o conceito visual de que elas voavam esfregando suas partes intimas em um cabo de vassoura, impregnado de óleos vegetais, colocado entre suas pernas.
Nenhum trecho causou mais polemica - e não sem motivo - que o da pastoral campestre de Beethoven. Seres mitológicos dominam a sequência que logo nos primeiros minutos mostra centauras femininas se banhando nuas em um rio. Na sequência surge uma centaura negra lixando o casco de uma centaura branca e loira. Aqui temos um estereótipo racista típico da década na qual o filme foi lançado (não se esqueçam de que a animação é de 1940). Muitas pessoas se recusam a acreditar, mas o famoso Walt Disney, o suposto gênio por trás do mágico universo Disney, era um homem machista, preconceituoso e racista.
Nas edições posteriores as cenas com as centauras negras (com exceção de uma) foram censuradas. Em alguns trechos elas foram apagadas das imagens em outros a cena foi captada em um plano mais fechado ocultando sua visualização.
O seguimento final da animação é o mais denso de todos: a aparição do demônio no monte calvo. As cenas de almas sendo invocadas de um vilarejo medieval aos pés da montanha e sendo levadas para adorar a figura de satã é bastante tenebrosa. Apesar de toda a critica que esse trecho tenha recebido, confesso que achei uma das melhores partes da animação. A ousadia das cenas, onde figuras femininas nuas aparecem ardendo em chamas, o tom de cores azulado e meio escuro e a belíssima composição de Modest Mussorgsky, “Uma noite no monte calvo”, criam um clima perfeito de angustia que engrandece a obra por lhe imprimir mais profundidade.
O dia 31 de outubro é tradicionalmente considerado como dia das bruxas (Halloween). A data, no entanto, varia conforme a tradição: na Alemanha e nos países escandinavos o dia das bruxas (Noite de Wallpurgis) é no dia 30 de abril. No leste europeu a data é comemorada no dia 23 de junho, véspera do dia de São João. Mussorgsky era um homem solitário, alcoólatra, depressivo e constantemente acometido por crises epiléticas – quase um equivalente musical do gênio Dostoievski.
Após assistir a uma peça de teatro chamada “A bruxa”, Mussorgsky começou a pensar numa peça cujo tema seria a bruxaria. Em 1867 ele compôs “Noite de São João no monte calvo” – o nome de “São João” foi utilizado em referencia ao dia das bruxas da tradição eslava. A composição nunca chegou a ser tocada durante a vida de Mussorgski graças aos conselhos de seu amigo Balakirev, que a considerava muito polemica. Ao associar a nebulosa composição do gênio russo à imortalizada “Ave Maria” de Schubert criou-se um belíssimo e perfeito contraste como elemento de encerramento.
A animação possui um arco evolutivo muito bom: de inicio explora elementos da abstração em seguida sede espaço para a fantasia com uma ótica infantil acerca dos fenômenos da natureza. Em um terceiro ato invade o polemico campo da magia e da feitiçaria em uma bela metáfora sobre o desejo de dominação do homem – tema que é novamente levantado de forma polemica em um seguimento posterior. O que vem a seguir é um resgate dos conceitos científicos da evolução da vida na terra que vai até a extinção dos dinossauros. Em seguida ocorre a retomada dos elementos fantásticos através de um tratamento mitológico da musica de Bethoven – e esta proximidade entre ciência e mitologia foi muito bem elaborada.
O seguimento que retrata a evolução da vida termina antes do surgimento do homem, portanto, ao colocar o seguimento seguinte como uma composição mitológica encenada por vários casais de centauros é como se o longa buscasse uma aproximação entre o homo sapiens é a sua origem no animal. Para os gregos da antiguidade os centauros eram os únicos monstros com qualidades positivas: eram sábios, cultos e fortes.
O que me fez associar os centauros que aparecem na animação ao homo sapiens foi à cena na qual a centaura negra aparece na condição de subordinada em uma clara referência a escravidão: talvez a mais lamentável forma de exploração criada pelo homem. Dentre todas as outras formas de vida apenas o homo sapiens foi capaz de criar parâmetros de distinção racial em sua própria espécie é aceita-las como natural.
Outro ponto que me fez associar os centauros ao homem foram os elementos do enredo daquele seguimento: Centauras nuas vivendo idilicamente em uma paraíso natural é quase uma referência direta ao Genesis é a visão bíblica do surgimento do homem a partir de Adão e Eva. A inovação aqui é que não é uma serpente que leva a corrupção para o coração do homem, mas sim o deus grego Dionisio, que na mitologia representa a divindade do vinho, da insanidade e da busca pelo prazer. Ate mesmo um icônico Zeus aparece em meio as nuvem é destrói aquele paraíso mitológico mandando uma tempestade e lançando raios sobre o gorducho Dionisio.
O trecho sobre a dança das horas é uma abordagem cômica da passagem do tempo e isto é muito interessante uma vez que a passagem do tempo nunca foi algo divertido para as pessoas, muito pelo contrario sempre foi fonte de preocupação. O tempo passa, nos envelhecemos, as oportunidades se vão e os sonhos se desconstroem. “Fantasia” é uma animação que carrega as marcas de seu tempo, ou seja, um período conturbado, com muitas questões sociais e políticas opostas. Dentre todas as obras do universo Disney, “Fantasia” certamente emerge como um trabalho polemico, mas cujo mérito artístico é inquestionável.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
Segue o link de um interessante video-reportagem sobre "Fantasia":

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