sábado, 26 de novembro de 2016

O FANTASMA DA ÓPERA


O “Fantasma da Ópera”- “Le Fantôme de l'Opéra” em francês - é um clássico da literatura mundial que ganhou destaque nos últimos anos graças ao musical de Andrew Lloyd Webber e do filme de 2004 dirigido por Joel Schumacher. Escrito por Gaston Leroux e lançado em 1905 a história se passa na Paris do final do século XIX, ou mais precisamente na belíssima Ópera Garnier.
Tudo começa quando o corpo de um funcionário é encontrado com marcas de enforcamento em uma das dependências da ópera e imediatamente surgem rumores sobre o suposto fantasma. Uma estranha e misteriosa figura parece habitar os subterrâneos do edifício. De tempos em tempos eventos estranhos acontecem sem que possam ser explicados. Um sinistro envelope com um bilhete escrito em tinta vermelha exige dos novos administradores da opera o pagamento de uma mensalidade e que o camarote de numero 5 nunca fosse alugado. Intrigados os administradores Armand Moncharmin e Firmin Richard resolvem não atender as exigências e é ai que o enredo começa a se desembrulhar em acontecimentos cômicos e trágicos.
A ópera Garnier de Paris sempre foi um monumento cercado de mistérios. Foi a 13ª casa de opera construída na cidade – um número carregado de superstições. As obras foram interrompidas durante o trágico cerco prussiano a Paris em 1871 e durante a sangrenta comuna. A construção se estendeu a vários metros abaixo do solo o que provocou infiltrações de água em suas fundações. A água foi mantida pelos engenheiros e algumas paredes foram impermeadas para represá-las. Um lago artificial de fato existe nos porões da Ópera Garnier e a existência desse lago deu vazão a inúmeras lendas.
A historia do “Fantasma da Opera” é um mito, mas o autor, Gaston Leroux, constrói o texto de forma a convencer o leitor de que se tratou de um acontecimento real. O ponto negativo da edição da editora LePM é a ausência de um texto introdutório que aborde o contexto histórico no qual a obra foi escrita. Uma falha grave a nível editorial!
O enredo é linear o que permite que os personagens adquiram profundidade, mas isto não acontece! Não existe um arco evolutivo, os personagens não se desvinculam da imagem inicial, eles são excessivamente planos, rasos e isto de certa forma parece corresponder à intenção do autor em humanizar a figura do fantasma em detrimento dos demais personagens. É a clássica narrativa que trabalha sobre a ideia de os vivos serem mais perigosos que os “mortos”.
Ao contrario do que pode parecer essa ausência de profundidade funciona bem para o enredo do “O Fantasma da Ópera”, que não tem a pretensão de criar uma obra de caráter psicológico muito profundo. Personagens muito densos dentro dessa moldura poderiam resultar em um texto muito arrastado - de fato existem momentos maçantes, mas nada que resulte numa avaliação muito negativa.
Os aspectos que me desagradaram nesta obra não foram poucos, embora isso não retire o seu mérito. Em primeiro lugar fica a sensação de que o espaço físico onde se passa a historia - a ópera Garnier - não foi bem aproveitado. A narrativa foca muito em alguns diálogos desnecessários e deixa de explorar a geografia de onde o enredo se desenvolve.
Outro ponto que me desagradou foi à forma banal como o autor tratou do episodio da queda do famoso lustre. A historia supostamente foi escrita inspirada em um acontecimento real: o lustre de varias toneladas desabou depois que seu cabo de sustentação se rompeu durante uma apresentação. Algumas pessoas ficaram feridas e uma morreu – exatamente a mulher que estava no assento de numero 13. Esse acontecimento trágico não teve o destaque que se espera de um fato que motiva o surgimento de uma obra. Fica a sensação de que foi um ato banal, um mero preenchimento de fundo para uma história bem menos interessante, e em alguns momentos bastante irritante: o romance de Raoul, visconde de Chagny, e Christine Daaé, a soprano por quem o fantasma nutria um amor platônico.
Raoul é de longe o personagem mais insuportável do texto. Sua obsessão pelo misterioso “Anjo da musica” irrita até mesmo o mais paciente dos leitores. O problema com relação ao romance entre os dois personagens e que o leitor parece sempre tangente a essa relação. Não existe uma ligação convincente para amor que eles encenam, embora possuam uma ligação que remeta ao passado de ambos.
O livro começa muito bem, o autor soube trabalhar o clima de mistério das primeiras paginas nas quais a figura do fantasma é construída através das conversas de bastidores dos artistas da ópera. Isso funciona bem em textos do gênero onde o leitor deve ser seduzido pelo mistério logo nas primeiras paginas.
O personagem do fantasma adquire algumas camadas de personalidade a partir da segunda metade da obra. Neste aspecto o autor acertou em cheio ao deixar sua historia para o final, pois isto alimenta aquele mistério que é o combustível natural de enredos do gênero. Um fato intrigante é a oposição entre a avaliação que os personagens fazem e a do próprio autor com relação ao fantasma. A todo o momento ele é descrito como um monstro, um ser repulsivo, um assassino, mas o que o próprio autor parece querer dizer é o oposto disto. Essa busca por humanizar um ser, que para muitos pertence ao mundo dos mortos, pode ser um foco interessante de interpretação psicológica do significado da obra.
O texto perde um pouco desse fôlego após alguns capítulos iniciais e passa a oscilar entre trechos interessantes e empolgantes e outros nada interessantes e muito pouco emocionantes. Apesar de todas as falhas é um texto que vale a pena ser lido principalmente por seu desfecho que apesar de triste consegue retratar bem os propósitos de uma bela ópera.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

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