sexta-feira, 18 de setembro de 2015


A ironia pode ser definida como uma importante ferramenta social pois como diria Florbela Espanca “a ironia é a expressão mais perfeita do pensamento.” Dizer o contrário do que se pensa é afastar-se de si mesmo e admirar uma figura construída como ideal de si próprio. Isso pode ser entendido tanto como um narcisismo incontido como uma baixa alto estima. Sócrates era defensor da ironia como ferramenta de linguagem, pois a mesma associada a pratica da maiêutica permite compreender a magnitude do nível de conhecimento do seu interlocutor, em síntese esse comportamento pode ser descrito como um teste para saber com quem de fato estamos nos relacionando. A ironia é a mais bela e admiravel forma de sutileza que circunscreve a sempre retorica comunicação humana. Ser irônico é, portanto, o mesmo que ser cauteloso.
Todo homem é uma forma de duplo oposto de si mesmo: é o exemplo de coexistência entre racional e irracional, entre razão e emoção. É por isso que o conceito de relativo é perfeitamente aplicável ao homem. Sua essência é na verdade seu caráter ambíguo: a predominância alternada ora de uma postura ora de outra. E por isso que muitas vezes o individuo que diante de nós se apresenta cauteloso, assume aos olhos de outro a postura de radical.
A linguagem não mascara o pensamento dos irônicos, mas pelo contrario. Ela é uma expressão berrante que indica o grau de distanciamento entre o que dizemos e o que pensamos; é o único recurso de linguagem humana que é compreendida em sua plenitude apesar de sua origem nitidamente contraditória. O pensamento é compreendido a partir de sua expressão verbal contraria. Em síntese a ironia é nada além de uma forma de sinceridade adornada de muito humor.
Tememos ser desagradáveis; somos obcecados por aceitação social e por isso não dizemos o que realmente pensamos. A verdade é algo que sufocamos diariamente em nome do convívio social. Buscamos em cada frase não a verdade, mas a mentira por trás dela. Estamos sempre buscando significado oculto de cada frase; sempre tentando entender o que não foi dito, o que se esconde por trás da massa cuidadosamente ordenada de palavras. Buscamos a resposta no silencio criado pelo decoro social! O grande drama dessa questão é que a linguagem do silencio não pode ser compreendida da forma usual, ou seja, pela interpretação de palavras não ditas. O silencio não existe! Ele é apenas um emaranhado de palavras ditas de forma diferenciada e que revela muito além daquilo que se espera dele.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

O principal obstáculo que se impõe diante da tentativa de se compreender as civilizações antigas é a tendência quase natural que temos de classificá-las como inferiores ao invés de diferentes. Essa ótica etnocêntrica cria uma abordagem que inevitavelmente encerra todas as formas de cultura, religiosidade e de ciência numa forma estéril e menor de representação.
Os mitos, na medida em que são vistos como lendas, fabulas, em síntese como o conjunto de crenças nas quais esta ausente um encadeamento lógico racional que lhe preste a função de amparo argumentativo, são interpretados simplesmente como uma forma incorreta de religiosidade. Os mitos não necessitam da lógica porque sua adesão à cultura de cada povo acorre através da fé e não de um método rigoroso e técnico de interpretação. Trata-se de uma crença estéril porque é aceita sem questionamento e que se insere de forma insidiosa através dos costumes.
Qual seria então o real valor existente por trás dos mitos, sejam eles gregos, romanos, egípcios ou escandinavos? Se encararmos as lendas como uma tentativa particularizada de explicação da realidade como ela é, certamente enxergaríamos ai tanto sei valor cientifico como artístico, uma vez que consiste na busca por formas abstratas de representação, ainda que pouco racional, da realidade.
Os mitos, portanto, se caracterizam como uma criação artística que na tentativa de explicar o mundo acabou revelando as essências da psique humana. É nesse contexto que a frase do pintor Pablo Picasso expõe toda a sua grandeza e genialidade: “A arte é uma mentira que nos mostra a realidade.”
A idealização e aceitação desses mitos como uma verdade institucionalizada pela vontade nos revela a origem emocional por trás de tais historias. O mundo, com toda a sua amplitude e grandeza é por demais caótico para que seja compreendido em sua plenitude. O conhecimento é intuitivo e começa a partir das partes que compõem o todo. O método de compreensão consiste na constante fragmentação da realidade no plano mental, onde a mesma é reduzida a fragmentos menores através dos quais são feitas afirmações e exclusões arbitrarias cujos resultados são as variadas formas de fé que vemos pelo mundo. Em resumo os mitos revelam aquilo que queremos e o que tememos, na medida em que da vazão as necessidades essências do homem que encerra no seu âmago as inconstâncias de sua natureza primitiva.
Pode se dizer que os mitos gregos da antiguidade representam a primeira tentativa metafórica e mais elevada de representação psicológica. Não faltam exemplos de mitos que possam servir de representação da mecânica do inconsciente, dentre os quais estão os famosos doze trabalhos de Hercules. Segundo a lenda Hercules teria sido encarregado de matar o gigantesco e feroz leão que vinha aterrorizando o vale da região da Némeia. O monstro era impenetrável as flechas e lanças dos mortais graças a uma porção mágica feita por Selene, uma feiticeira que havia sido expulsa da cidade e que havia prometido se vingar de seus habitantes.
Quando Hercules finalmente conseguiu encontrar a fera no interior de uma caverna ele a teria estrangulado, pois suas armas não eram capazes de ferir o monstro. Na ocasião Hercules teria se lembrado dos conselhos da deusa Minerva – deusa da sabedoria - que disse para que usasse a inteligência ao invés da força.
O mito de Hercules e o Leão da Némeia é uma representação metafórica de que somente o uso da razão é capaz de sufocar a fera que existe dentro de cada um. De como nosso ego - representado pela pele do leão - se acha inatingível; e de como nos tornamos mais fortes quando enfrentamos aquilo que de certa forma é o oposto do que somos, nossa nêmeses. Na pratica a alegoria da pele do leão nos mostra que apesar da recusa em se revelar completamente para o outro, ninguém é completamente impenetrável.
De acordo com a concepção freudiana de inconsciente os mecanismos que o delimitam se articulam na busca pelo consenso, pelo equilíbrio. Da vontade, em constante atrito com a realidade, surge o que somos. Nascemos acolhidos pelos braços da contradição, talvez esteja ai a explicação para nossa natureza complexa. Verdades ou mentiras os mitos cumprem perfeitamente sua função: ensina-nos a enxergar quem somos e nos mostra que na maioria das vezes as mentiras dizem apenas verdades.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

domingo, 30 de agosto de 2015

A IRRACIONALIDADE ILUSORIA DO COMPORTAMENTO


Nada cuja origem seja o homem pode ser considerado irracional. A mais ilusória falta de sentido por trás de determinado comportamento possui um amparo de ordem racional, ainda que esta forma particular de racionalidade não esteja alinhada com aquela amplamente difundida e generalizada. Aquele que de certa forma não se enquadra no modelo arbitrário de perfeição, isto é, o diferente, o exótico, o “anormal” consegue se dissociar da massa por que reserva para si a incompreensão como característica. Esses indivíduos são habilidosos na arte de ocultar a estrutura inconsciente que ordena o seu comportamento: o motivo!
Descobrir o que leva alguém a tomar determinadas atitudes é o mesmo que enxergar aquilo que constrói a articulação central de sua personalidade, como indivíduo, e de sua identidade, como ser social. É justamente ali, na origem subjetiva de seu comportamento que alguma lógica real pode ser encontrada. Como diria o gênio Charlie Chaplin "Muitas vezes um rosto é doce por causa do sal de suas lagrimas"; não há nenhum paradoxo nessa frase, apenas a constatação de que a dor nos modela a face.
Se deseja compreender alguém, decifrar o enigma de sua existência, enxergar sua forma altamente particularizada de beleza, não tenha medo...aproxime-se, sinta sua respiração, escute atenciosamente suas palavras – mesmo aquelas que não foram ditas – e olhe no fundo dos seus olhos. Tenha a ousadia de buscar as respostas no leito frio do improvável. Quando finalmente conseguir compreender aquilo que inicialmente parecia incompreensível, vai saber que loucura, futilidade, timidez, arrogância e até as formas mais variadas de grosseria, são apenas reflexos produzidos pela alma humana quando insistimos em direcionar nosso olhar para o lugar errado.
Se quiser ver o que ninguém mais viu tem que ter a coragem de se posicionar onde ninguém esteve. Existe um ângulo, apenas um, de onde é possível desnudar a alma de qualquer pessoa e compreender a magnitude de seus sentimentos. Apesar de não se tratar de ciência, mas de pura metafisica, a compreensão do incompreensível consiste, segundo as palavras de Albert St Georce, em “(...)ver algo que todos veem, e então pensar o que ninguém pensou".
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

segunda-feira, 20 de julho de 2015

RETRATO DE UM REVOLUCIONÁRIO


Filho de um advogado desregrado e instável, que abandonou a família após a morte de sua esposa, Maximilien François Marie Isidore de Robespierre não parecia ser um exemplo de ícone político que o destino lhe reservará. Poucos ousariam prever que o menino pálido, frágil e retraído, que preferia às leituras solitárias as brincadeiras com os amigos, se tornaria um dos mais influentes personagens da historia de seu país, ao lado de nomes como o de Napoleão e Joana D’arck.
Em sua obra de estréia, Ruth Scurr compôs um magnífico retrato daquele que muitas vezes foi considerado o pai do totalitarismo e das modernas formas de estado policial. A obra é dividida em quatro partes que abrangem tanto o homem político como o homem comum. Na primeira vemos uma narrativa focada em seus anos de formação, desde o seu nascimento no dia 6 de maio de 1758, na pequena cidade de Arras, a separação dos irmãos, seus estudos no Louis Le Grand, a formação em Direito e sua pacata vida como advogado provinciano, que gostava de escrever poemas melosos nas horas vagas e era um admirador fervoroso das obras de Rousseau. Até os seus 32 anos de idade Robespierre levou uma vida aparentemente comum, sem nada que o evidenciasse dos demais membros de uma burguesia em evidente emergência.
Em 1789, o rei Luís XVI, assolado pela terrível crise financeira, que há anos solapava seu reino, convocou os Estados Gerais – o maior órgão deliberativo da França. Robespierre, que havia alcançado o cargo de juiz episcopal de Arras, é eleito como representante do terceiro estado. Em Paris ele inicia seus primeiro passos rumo à política e acaba mergulhando no turbilhão irrefreável da Revolução Francesa. Da segunda parte em diante a narrativa se concentra nesse conturbado período de sua vida.
Em um texto veloz, bem típico das modernas biografias, vemos o memorável juramento do Jeu de Paume, a queda da Bastilha, a criação do clube dos Jacobinos, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, as cenas de violência revolucionaria nas ruas da suja e miserável Paris, a fuga da família real, a queda da monarquia e a criação da primeira República francesa, a celebre Batalha de Valmy, as execuções de Luís XVI e Maria Antonieta, o confronto com os girondinos e com os Dantonistas, seu ingresso no Comitê de Salvação Publica, o inicio do chamado período do Terror, a decretação da infame “Lei de 22 Prairial” e sua morte trágica na guilhotina aos 36 anos de idade.
“Pureza Fatal” nos apresenta ao homem que apesar de seus 1,60m de altura ficaria conhecido como um dos gigantes da esquerda política, comprovando a máxima de Napoleão que dizia que “o tamanho de um homem era determinado por seu destino não por sua natureza”. Que apesar da voz frágil seria um dos maiores oradores da Revolução e cuja retórica afiada seria sua principal ferramenta política.
Em 26 de junho de 1794 (8 Termidor - segundo o calendário revolucionário) quando subiu a tribuna para pronunciar o ultimo discurso que faria na vida, o “Incorruptível” – como também era chamado - destilou seu ódio contra todos aqueles considerados “inimigos do povo”. No dia seguinte, com a mandíbula estraçalhada por um tiro de mosquete, não se sabe se por uma frustrada tentativa de suicídio ou se por um disparo acidental, ele galgou os íngremes degraus do cadafalso rumo à justiça da “navalha nacional”. Naquele momento deve ter se lembrado de suas próprias palavras proferidas no dia anterior: “A morte não é o sono eterno, mas o inicio da imortalidade.”
POR TIAGO RODRIGUES CARVALHO
PUREZA FATAL - ROBESPIERRE E A REVOLUÇÃO FRANCESA
Autor: SCURR, RUTH
Editora: RECORD
Ano de Lançamento: 2009
Número de páginas: 448

quinta-feira, 30 de abril de 2015


“O perfume vive no tempo, tem sua juventude, a sua maturidade e a sua velhice. É somente quando nas três diferentes idades o seu aroma é igualmente agradável ele pode ser considerado realizado.”
- Giuseppe Baldini
Qual seria a magnitude da influência das emoções na mente? Quais seriam os reais limites do poder das sensações? Somos subjulgados pelos sentidos; nossa visão, nossa audição, nosso olfato compõem um complexo conjunto orgânico capaz de absorver e interpretar os aspectos organolépticos da matéria física e a partir daí transformar um aspecto mecânico, perfeitamente racionalizável, em um fato emocional, cuja essência máxima se encontra fora dos limites aplicáveis aos métodos de racionalização pragmática.
Para nos comunicar usamos palavras cuidadosamente ordenadas em frases através das quais expressamos uma realidade concreta e às vezes uma realidade fabricada pelo nosso ego. De todas as formas de comunicação humana, e de interação social, aquela que mais causa impacto é o nosso cheiro, nosso perfume, algo que pode ser definido como uma das inúmeras camadas sobrepostas que constituem o alfabeto ininteligível do individuo como ser. Trata-se de uma dimensão sensitiva de nossos aspectos imateriais, uma projeção involuntária de nossos corpos, aquilo que revela o que tentamos esconder.
Na conturbada França do século XVIII, Jean Baptiste Grenouille, um jovem abandonado pela mãe logo após seu nascimento, vive atormentado devido a uma estranha habilidade: conseguia sentir os odores de tudo que a natureza havia criado, desde os seres vivos até dos objetos inanimados. Reconhecia o cheiro dos insetos, das aves, dos peixes ainda que estivessem dentro de um lago profundo, era capaz de reconhecer o odor de uma planta a quilômetros de distancia, farejava uma tempestade horas antes de a chuva cair, conseguia distinguir o aroma que cada pessoa emanava ao ficar alegre, oprimida ou com medo. Em síntese era capaz de sentir e reter em sua memória o cheiro de cada objeto existente quer seja de uma pessoa em particular até de um simples prego enferrujando em uma construção antiga.
Atormentado pelo fedor insuportável dos mercados de Paris, com suas ruas imundas, fedorentas, cobertas de excrementos, restos de peixes e outras iguarias provenientes do comercio, Grenouille aos poucos é atraído pelo inebriante odor das perfumarias nas margens do rio Sena. É ali que conhece Giuseppe Baldini, um famoso fabricante de perfume que lhe ensina a delicada arte da extração do óleo responsável pelo cheiro das flores. Ao dominar o processo químico de destilação e fabricação de perfumes, Grenouille parte para a busca do que considerava seu propósito maior: produzir o perfume perfeito, aquele capaz de seduzir e dominar qualquer pessoa.
Do simples jovem, dotado de uma singular habilidade olfativa, vemos o surgimento de um assassino que procura extrair a essência dos corpos de suas vitimas movido pela obcessão de produzir o “aroma perfeito”. O substrato filosófico para o crime e sutilmente fornecido pelo autor através da exposição da obsessão de Jean Baptiste por controlar sua própria inexpressividade diante do mundo dos odores, uma vez que o personagem não é capaz de sentir seu próprio cheiro. À medida que a leitura evolui vemos sua incapacidade em contornar aquilo que o tornava diferente, reprovável, não para os demais, mas para si próprio.
O autor brilhantemente conseguiu elaborar uma narrativa tensa, curta, com diálogos diretos sem, no entanto, sacrificar uma abordagem insidiosa quanto aos aspectos de construção psicológica do personagem principal. Durante a leitura tudo parece evoluir de forma natural se distanciando da típica narrativa literária mal acabada. Trata-se de um romance que reforça a dicotomia corpo-essência dos seres, que explora a sensualidade, o puro e simples erotismo que se molda a partir da superficialidade. A obra de Patrick Suskind nos arrebata desde o inicio, com um texto intrigante, exótico e envolvente, características inerentes aos mais impressionantes perfumes.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
Autor: SUSKIND, PATRICK
Tradutor: KOTHE, FLAVIO R.
Editora: BEST BOLSO
Ano: 2012

domingo, 24 de agosto de 2014

A REVOLUÇÃO COMO METÁFORA: AS TRÊS FACES DE UMA AMIZADE


“(...) ficava em uma janela das Tulherias, observando as carroças fazer seu percurso de morte; às vezes às seguia ate o final do trajeto e misturava-se a multidão. Ouviu falar de esposas que denunciavam seus maridos ao Tribunal, e maridos que denunciavam as esposas; mães que ofereciam os filhos à justiça Nacional e filhos que traíam os pais. Viu mulheres com bebes recém-nascidos amamentando até a carroça chegar. Viu homens e mulheres escorregarem e caírem sobre o sangue derramado de seus amigos, e os carrascos erguerem-nos pelos braços amarrados. Viu cabeças pingando sangue serem levantadas para a multidão olhar. - Por que você se força a ver essas coisas? – alguém lhe perguntou. - Estou aprendendo a morrer.”
- Herault de Séchelles
“Você acha que lealdade é encobrir os fatos, fingir que a razão e a justiça prevalecem? (...)Porque fizemos a revolução? Pensei que fosse para combater a opressão. Pensei que fosse para nos libertar da tirania. Mas isso é tirania. (...) Já ouve quem matasse pelo poder, por ganância e por ânsia de sangue, mas mostre outra ditadura que mata com eficiência, mas se encanta com a virtude e ostenta seus ideais sobre túmulos abertos. Nos dizemos que fazemos tudo para preservar a Revolução, mas a Revolução nada mais é agora que um cadáver que ainda vive.”
- Camile Desmoulins a Robespierre.
“Você é um aleijado(...) Não é Couthon que é aleijado, é você. Será que não sabe, Robespierre, não sabe que há algo errado com você? Nunca se pergunta o que Deus omitiu na sua criação? (...) Não sei se você é real, vejo-o andar e falar, mas será que existe vida aí dentro?”
- Danton a Robespierre
“Eu tenho vida! Eu tenho vida. A meu modo.”
- Robespierre a Danton
Na Paris de 1789 a violência é justificada! Sua aparente amoralidade desaparece diante do novo significado que lhe é atribuído pela ideologia revolucionária. O resultado não poderia ser diferente de um quadro urbano violento, radical e intolerante; moldura perfeita para um romance histórico de tirar o fôlego.
Em "A sombra da Guilhotina" a escritora Hilary Mantel narra os eventos por trás da Revolução Francesa a partir de três dos seus mais conhecidos artífices: Camille Desmoulins (jornalista competente e escritor talentoso), Maximilien Robespierre (figura idealista e dono de uma retórica afiada) e Jacques Danton (advogado provinciano e agitador sem igual). Trata-se de um imenso romance político recheado de traições, idealismos, paixões e diálogos empolgantes.
A intercalação da narrativa em primeira e terceira pessoa é apenas um dos inúmeros pontos positivos da obra. A autora utiliza a narração onisciente como amparo para interações verbais recheadas de ironia e sarcasmo, quebrando um pouco da formalidade dos romances escritos sobre a pressão da veracidade dos fatos históricos. A onisciência, e a forma como foi articulada, deixou a narrativa não apenas envolvente, e ágil, mas também artificiosa.
A revolução serve como pano de fundo para a relação de amizade dos três protagonistas. À medida que acompanhamos os primeiros anos de vida dos três jovens, consagrados pela historia graças à ousadia com que levaram a termo seus propósitos, vemos a Revolução se aproximar lentamente no rastro deixado por uma monarquia desestruturada e financeiramente arrasada. Passando pela infância e pela adolescência será logo nos primeiros anos da vida adulta que vemos a tensão se estabelecer no seio da relação de amizade entre eles. “Vejo o espinho da rosa. Nesses buquês que você me oferece.”, teria escrito Robespierre em um de seus poemas.
Mas nem só de protagonistas se faz uma grande obra. A grande quantidade de personagens do núcleo paralelo amadurece muito ao longo do texto. Lucile, esposa de Camile, uma espécie de personagem tampão e entediante no inicio acaba por finalmente conquistar seu espaço; Gabriele, esposa de Danton, vitima da fama de libertinagem de seu marido; a intempestiva Théroigne de Méricourt e o que dizer da inigualável Manon Roland, autodidata, dona de uma inteligência notável, leitora apaixonada de Rousseau e Plutarco, cuja infelicidade gerada por um casamento com um homem de idade avançada não a impediu de participar ativamente do contexto político de sua época. “Liberdade, quantos crimes se cometem em seu nome!” – teria dito diante da iminente execução na guilhotina.
Marat, personagem que a própria autora considera como seu “convidado especial”, devido a suas aparições ocasionais, protagoniza um dos momentos mais intensos de toda a obra: Ao propor o fim da imunidade parlamentar dos deputados ele buscava alargar as margens de atuação do Tribunal Revolucionário para o centro do cenário político.
O lendário verão de 1793 marcaria o fim da aparente unanimidade política, destroçada pelo peso implacável da institucionalização do Terror. É aqui que as divergências entre Danton, Robespierre e Desmoulins se manifestam no plano da política. A amizade, construída pela admiração recíproca, aos poucos se torna mais intensa, não pela afeição inicial, mas pelo medo justificado a partir do nascimento da rivalidade. Em síntese Hilary Mantel conseguiu demonstrar o poder devastador da polaridade como essência das relações humanas.
A autora faz ressonância às palavras de Rousseau, pois assim como o rigor da matemática nasceu do caos e da falta de lógica, quase sempre são os bons sentimentos mal dirigidos que culminam com a implantação do mal. “São vocês, idealistas, que se tornam os maiores tiranos.” – profetiza Danton em dado momento.
Em meio à pseudo-realidade da soberania popular, impulsionada pelo peso das circunstancias, vemos a luta de três homens, cuja relação, edificada sob um passado regido pela monarquia, se desfaz numa luta desesperada diante da “justiça, imediata, severa, e inflexível” do Tribunal Revolucionário, tendo a paixão como arma e a Revolução como metáfora. Nenhum deles jamais ousou imaginar em seus anos de juventude que um dia veriam nascer a tão sonhada liberdade a sombra da guilhotina.
AUTOR: TIAGO RODRIGUES CARVALHO
SOMBRA DA GUILHOTINA, A
Autor: MANTEL, HILARY
Tradutor: WHATELY, VERA
Editora: RECORD
Número de páginas: 784

AS CORES DA ALMA: VAN GOGH - UMA VIDA


“A arte é o coeficiente individual do erro (...) no esforço de atingir a expressão da forma.”
- W. Sickert
“O que caracterizava sua obra como um todo é seu excesso, excesso de força, de nervosismo, a violência de expressão.”
- Albert Aurier
A religião deixa um vazio que a ciência, apesar de sua lógica, não consegue preencher. Seria a arte a única capaz de ocupar essa lacuna da típica inconstância da alma? O mundo humano é predominantemente simbólico. Nossa forma de comunicação, escrita ou verbal, se baseia em relações de semelhança, arbitrariamente definidas, entre o objeto e seu signo linguístico. O que torna a arte, sobretudo as visuais, uma forma única de expressão inconsciente da psique humana é justamente a liberdade que o artista tem em redefinir essas relações de semelhança entre o objeto real e a imagem que se faz dele através de diferentes perspectivas.
A história da arte não poderia ser escrita senão por aqueles, que de alguma forma, ousaram distorcer a realidade por meio de seus traços e suas cores. Vincent Van Gogh, o “gênio louco” como também é conhecido, se tornou um dos mais fascinantes representantes das artes visuais de seu tempo. O garoto estranho, de cabelos ruivos flamejantes, “teimoso”, “desobediente” e de “temperamento difícil” não era nada promissor aos olhos de seu pai, um rigoroso pastor protestante. Ninguém poderia imaginar que aquela existência sem raízes da sua juventude culminaria num artista incompreendido que pintava uma realidade individual e ao mesmo tempo abstrata.
Após vários anos de pesquisa, Steven Naifeh e Gregory White Smith concluíram aquela que já esta sendo chamada de a biografia definitiva sobre o “poeta dos ciprestes e girassóis”. Em “Van Gogh, a vida” eles apresentam um imenso quadro descritivo sobre a vida de um das mais intrigantes personalidades da história da arte. A obra causou polemica, principalmente na Holanda, devido à proposta ousada dos autores de questionar o suicídio de Van Gogh, alegando que o ato teria sido acidental.
Apesar dessa proposta contra-factual a obra é sem duvida uma das mais belas e bem escritas biografias já lançadas. Através da imensa quantidade de correspondências trocadas entre Vincent e seu irmão Theo, Naifeh e Smith pintam um quadro absurdamente realista da vida assolada por tragédias desse gênio que sempre admirou da beleza da luz, mas que habitou na escuridão indescritível do inconsciente.
A obra, ricamente ilustrada, aborda o relacionamento difícil de Vincent com o pai, suas obsessões religiosas, a reprovação materna, a indiferença dos parentes, a vida oscilante entre os bordeis parisienses e o ateliê de pintura, a revolução artística representada pelo Impressionismo, seus relacionamentos amorosos, suas repentinas crises epiléticas e depressivas, as constantes internações nos hospitais psiquiátricos até o seu suicídio na tarde de 29 de julho de 1890.
Em “Van Gogh, a vida” temos o retrato de um homem que ao mergulhar numa espiral de auto-reprovação terminou como espectador de sua própria loucura e de sua fragilidade diante de uma sociedade demente e marginalizada. Sua sensibilidade foi capaz de capturar a inconstância das formas e condensá-la numa forma única de representação visual. Seu exagero nas cores, sobretudo do amarelo, cor do sol e das chamas, e do azul, cor do céu e dos mares, se deve a essa luta constante para encontrar a luz de infinitas possibilidades que estava além de sua realidade abstrata. Sua arte emerge como um contorno claro e berrante de seus aspectos inconscientes. “Em minha loucura, meus pensamentos singraram muitos mares.” – teria escrito Vincent em uma carta para seu irmão Theo.
Ao longo da leitura nos maravilhamos em pensar que mente humana encontrou nas artes visuais um meio de manifestar aquilo que a torna uma singularidade absoluta dentre as criações da natureza, isto é sua lógica fundamental, e ao mesmo tempo sua nêmeses, cujo irracionalismo típico é capaz de permitir as maiores alegrias e provocar as maiores tragédias. O contraste de cores, nesse caso, não pode ser visto apenas com um recurso estético, ele representa aquilo que caracteriza a essência humana: o conflito.
A arte de Van Gogh não possuí um fim em si mesma; a profusão de cores desaparece assim que desviamos os olhos de suas telas, mas o sublime permanece. Em suas pinceladas vemos a simples ilusão por trás do obvio. Aquele que durante a vida teve a solidão como companheira e a arte como amparo não poderia imaginar que construía sobre seus fracassos o paradoxo artististico mais impressionante de todos: sua história foi na realidade sua mais grandiosa obra prima!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
VAN GOGH - A vida
Steven Naifeh e Gregory White Smith
Páginas: 1128
Acabamento: Capa dura
Selo: Companhia das Letras

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