quarta-feira, 12 de outubro de 2016

TECNOLOGIA: CIMENTO DA ÉTICA?


Somente em retrospecto é possível avaliar o grau de influência de um determinado fato social dentro do seu contexto de atuação. A sociologia surge, portanto, como uma forma mais elevada de estudo, eu diria genealógico, dos núcleos de valores éticos coletivamente aceitos. Se nos propusermos um resgate dos fundamentos metafísicos que preenchem os valores éticos da atualidade veremos que a imagem do progresso tecnológico como fundador da moral coletiva é incorreta. O progresso tecnológico não determinou as regras de conduta social ela apenas expôs os benefícios dessa conduta dentro de uma sociedade altamente industrializada.
Um dos valores éticos mais valorizados é o do individuo esforçado e trabalhador. Encarado desta forma é fácil se deixar levar pela conclusão de que a linha de montagem - introduzida nas indústrias no final do século XX sob os símbolos do Fordismo e do Taylorismo - criou o conceito moral de trabalhador. O que esse método criou foram exemplos do conceito, mas não o conceito em si. Indivíduos que abraçassem essa ética trabalhariam mais, produziriam mais e, ao menos em teoria, seriam mais beneficiados.
O que se observa na grande maioria da população é que os valores ligados ao trabalho possuem uma base religiosa, nos que possuem alguma forma de crença no sobrenatural, e uma base psicológica, entre os desprovidos de qualquer crença. Para os mais religiosos o trabalho possui valor porque é através dele que se fundamenta a idéia de existência posterior, ou seja, somente através do trabalho o homem agrada a Deus e conquista seu lugar no paraíso.
Para os ateus o valor do trabalho se origina na idéia de superação, isto é, numa forma discreta de satisfazer seu próprio ego através da determinação de um objetivo e da sua posterior conquista. Alguns preferem ver nisto um mecanismo inconsciente de controle cujo objetivo seria preencher o vazio deixado pela ausência da fé. Mas quando se trata da mecânica da mente não parece haver motivos para buscar a lógica em meio ao fluxo inconsciente de idéias. Para o ateu a idéia do imprevisível, do indeterminado é muito perene. Essa proximidade constante da duvida cria uma tensão que oprime e sufoca o individuo. A realidade sempre se manifesta entre o individuo e os seus desejos, e a forma mais satisfatória de contornar essa realidade é fortalecendo o ego diante dela.
Fortalecer o ego significa superar a própria idéia de insignificância, criar a ilusão de que nenhum objetivo está aquém do seu esforço, de que todos os aspectos da sua vida podem ser moldados segundo a sua vontade. De alguma forma esses valores podem parecer vazios, é de fato o são, mas não deixa de ser interessante observar como o vazio é capaz de funcionar perfeitamente como elemento motivador.
O progresso tecnológico é quase sempre condicionado ao progresso da ciência. No entanto, a ciência ligada à indústria consiste numa valorização da ciência com valor pratico e não a ciência verdadeira, ou seja, aquela cujo objetivo é compreender os mecanismos da natureza. Para o industrial de nada vale compreender que a matéria se constitui de átomos se essa descoberta não direcionasse a alguma forma de ganho financeiro. Para o industrial a ciência não possui um fim em si mesma, ela é apenas um degrau para a dominação da natureza e transformação de seus elementos em recursos.
Diante de um evento trágico poderíamos dizer que a tecnologia age no sentido oposto aos valores morais. Diante de uma cena como uma mulher sendo agredida muitos diriam que o celular poderia contribuir com os valores éticos, pois seria a forma mais rápida de se invocar a força policial. Na pratica a realidade é bem outra! Adepto do papel de espectador é bem mais provável que diante de tal cena o celular seja utilizado para registrar o fato que posteriormente seria propagado pelas redes sociais com o irônico titulo: “Violência contra a mulher! Até quando continuaremos indiferentes diante desta realidade?”.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A OUTRA VOLTA DO PARAFUSO


O terror quase sempre se manifesta por meio da morte. O medo do desconhecido e da perda são fenômenos que caracterizam narrativas góticas. Alguém sempre morre! É preciso uma vitima que desencadeie o processo do medo. Em “A outra volta do parafuso” a primeira vitima é a inocência.
Em uma noite de 25 de dezembro um grupo de amigos se reúne em uma velha casa de Londres para contar historias de terror. Um deles, chamado Douglas, relata conhecer a mais terrível de todas. Trata-se da história de uma governanta – cujo nome não é mencionado em nenhum momento – contratada para trabalhar em uma enorme propriedade na região de Bly, Inglaterra. Sua função seria cuidar da pequena Flora e do encantador Miles, sobrinhos do rico proprietário da mansão, um homem aparentemente muito ocupado que a encarrega de tomar todas as decisões necessárias para cuidar das duas crianças. Pouco depois de sua chegada em Bly a governanta começa a ser atormentada pela visão de dois fantasmas e é em torno destas misteriosas aparições que o enredo se desenvolve.
Mesmo não tendo achado a narrativa cativante e a história muito envolvente ainda assim considero “A outra volta do parafuso” uma grande obra é uma das mais assustadoras historias que já li. A grandeza desta obra somente começa a emergir quando a leitura chega ao fim, isto porque somente após concluir o texto e que podemos desconstruir suas camadas literárias e enxergar a surpreendente interpretação psicológica por trás do texto.
Existem basicamente duas linhas de interpretação para a obra de Henry James. A primeira parte do principio de que os fantasmas vistos pela governanta de fato existiam e a história se resumiria portanto a uma mulher assombrada por dois seres do além que agem em conjunto com as duas crianças. Nessa interpretação encontramos espaço tanto para o debate quanto a existência de vida após a morte, quanto para a questão do grau de inocência das duas crianças. Ate que ponto dois seres aparentemente inofensivos podem se tornar a fonte do mal?
A segunda linha de interpretação parte do principio de que os fantasmas não existiam e que, portanto, eram uma projeção mental da própria governanta no sentido de tornar legitimo suas atitudes. É exatamente essa linha de interpretação que torna “A outra volta do parafuso” uma história assustadora: a governanta era naturalmente ruim é o seu desejo incontrolável de fazer o mal sobrepujava sua vontade de fazer o bem. Inconscientemente ela criava a existência de duas figuras assustadoras para que por meio delas pudesse torturar as duas crianças através do medo. Temer o que não se vê: eis o poder cruel da sugestão. Era ela que torcia cada vez mais o parafuso da espiral de paranóias de sua mente.
Em primeiro lugar nenhum outro personagem viu, ou alegou já ter visto em outra ocasião qualquer, um ou os dois fantasmas alegados pela governanta. Ao longo do texto os dois fantasmas são associados a dois antigos empregados da residência: a Sra. Jessel, preceptora anterior da pequena Flora, e o Sr. Quint, antigo funcionário e muito próximo de Miles. O Sr. Quint e a Sra. Jessel pareciam ter tido um caso amoroso que naturalmente chegou ao fim com a morte de ambos.
No entanto, quem diz que as duas figuras vistas pela governanta são os fantasmas de Quint e Jessel é outra funcionaria da propriedade, a Sra. Grose. É ela quem associa a descrição física da governanta aos dois antigos empregados. A própria Sra. Grose nunca chegou a ver os dois fantasmas, nem mesmo na ocasião em que a governanta se encontra na sua presença e alega ter uma das figuras assombrosas diante de seus olhos. Ocasião esta em que pela primeira vez levantamos duvidas sobre a sanidade da personagens. Alguns outros mistérios do enredo contribuem para desviar nossa atenção como o fato do pequeno Miles ter sido expulso da escola depois de ter dito “algumas coisas”.
Se atentarmos para as etapas de construção do estado de paranóia veremos o quanto a obra de Henry James é atual. A mídia hoje está cheia de exemplos de indivíduos que matam ou perseguem figuras publicas. São indivíduos solitários que encontram na imaginação o amparo para sua existência privada do contato humano. O que ocorre na mente de tais indivíduos? Seria uma pretensão absurda afirmar qualquer coisa sobre a mente humana, mas existem teorias que são no mínimo bastante satisfatórias. Inicialmente essas pessoas criam em sua mente um ideal de beleza e de personalidade. Junta-se um nariz perfeito e um cabelo loiro em um corpo de silhueta definida. Um sorriso alegre, um olhar melancólico e uma voz suave dão forma e uma personalidade humilde e carismática! Pronto, está construído o monstro que cada dr. Victor Frankestein se predispõe a construir a partir de seus gostos cognitivos.
Acontece é que na grande maioria dos casos essas pessoas possuem uma imaginação tão deficiente que para criar esses ícones máximos de admiração busca-se um elemento de referência, que pode ser tanto um rosto quanto um estilo de vida considerados como perfeitos. Com o passar do tempo essa realidade fabricada se torna cada vez mais distante, cada vez mais impossível de ser alcançada. Nesse momento o sonho se transforma em pesadelo. O que antes era um objetivo torna-se fonte de sua tormenta. Adquire-se um ódio que não pode ser contido e que acaba sendo direcionado para aquele objeto que anteriormente havia sido fonte de admiração. Busca-se matar o próprio ídolo, como bem disse J.D. Salinger.
Mas onde exatamente essa teoria se aplica ao enredo de “A outra volta do parafuso”? O primeiro contato que a governanta tem com um dos supostos fantasmas revela muito dos elementos que fomentam esse estado de paranóia construído pela necessidade de afeto:
“Tudo começou numa tarde, bem no meio da minha hora: as crianças estavam na cama e eu saíra para dar minha caminhada. Um dos pensamentos que, como não reluto nem um pouco em revelar agora, costumava acompanhar-me nesses passeios era o de que seria tão encantador quanto uma historia encantadora encontrar alguém de repente. Alguém apareceria na curva de uma alameda e pôr-se-ia diante de mim, sorriria e demonstraria sua aprovação.”
Em seu momento de lazer ela sonha encontrar alguém em seu caminho, alguém com quem possa dividir suas experiências e seus sentimentos. A casa ficava em uma região afastada, cercada por bosques, seria muito difícil encontrar alguém simplesmente vagando por ali. Essa certeza massacrava seu desejo, pois entre o desejo e o mundo existe a realidade. Seu sonho de encontrar alguém tinha a imagem de uma figura afetuosa, mas o que ela viu naquele dia foi o pesadelo de uma figura assombrosa em uma das torres da propriedade. Esse pesadelo foi se tornando cada vez mais apreensivo à medida que as aparições foram aumentando e a história do passado da própria residência, ou melhor dizendo, das pessoas que moravam lá, foram sendo desvendados pela governanta. Sua paranóia se intensifica com o enredo.
Imagine um ponto preto no centro de uma tela branca. Se a tela tiver sua área reduzida o ponto ocupará mais espaço no seu interior ainda que seu tamanho não se altere. Esse exemplo é muito utilizado nas artes visuais para exemplificar que qualquer forma de percepção visual se altera de acordo com as modificações do espaço que delimita essa percepção. Através da transposição deste conceito do campo das artes visuais para a literatura torna-se possível compreender a influência do enredo sobre a psicologia dos próprios personagens. O enredo, como moldura, circunscreve o contexto e a percepção desse contexto ocorre pelos personagens por meio de sua própria consciência.
Em determinado momento a evolução do processo de paranóia chega a expor o senso de vulnerabilidade da própria governanta que atribui significados arbitrários aos acontecimentos e passa a estabelecer uma relação de causa e efeito. Ela chega a se convencer de que os espíritos dos antigos empregados possuem maior domínio sobre as crianças do que ela própria.
Trata-se de uma historia fácil de ser resumida, mas difícil de ser comentada sem recorrer a spoilers. Para não quebrar o interesse do leitor pela obra me limitarei apenas ao que já disse ate aqui. Para terminar posso dizer apenas que quem se propuser a ler está estranha obra de Henry James, com a atenção necessária para compreender o seu significado, vai se surpreender com uma história de fantasmas onde os vivos são infinitamente mais assustadores que os mortos.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
A OUTRA VOLTA DO PARAFUSO
Autor: JAMES, HENRY
Tradutor: BRITTO, PAULO HENRIQUES
Editora: PENGUIN COMPANHIA
Nº de Páginas: 200

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A ESTRADA DE VASSILI GROSSMAN


O ucraniano Vassili Semiônovitch Grossman nasceu em Berdítchev no dia 12 de dezembro de 1905 – ano da morte de Anton Tchekov - seu escritor favorito. Nascido em uma família de judeus, Grossman foi criado pela mãe após a separação de seus pais. Ela ganhava a vida como professora de francês, o que deu a Grossman uma boa fluência no idioma. Entre 1910 e 1912 morou na Suíça e em 1914 começou a cursar o ensino médio em Kiev. Em 1929 formou-se em Química pela Universidade Estatal de Moscou. Nessa época Grossman já estava fascinado pela literatura, porem seu pai, um engenheiro químico, incentivava o filho a buscar uma atividade mais solida do que as letras.
Grossman trabalhou como engenheiro de segurança em uma mina e como professor de química. Em 1931 foi diagnosticado com tuberculose. Mudou-se para Moscou e começou a trabalhar como engenheiro em uma fabrica de lápis. Nesse período ela já começava a ganhar a vida como escritor. Em 1934 seu conto “Na cidade de Berdítchev” foi publicado por uma prestigiada editora e rapidamente recebeu elogios de escritores consagrados como Issaac Bábel e Maksim Gorki.
No ano anterior ele havia se divorciado de sua primeira esposa, e em 1936 casou-se com Olga Mikhailovna, com a qual manteve um caso amoroso desde o ano anterior. Em 1938, logo após o auge do grande terror stalinista, Olga foi presa. Grossman assumiu a guarda de seus dois filhos e chegou a enviar cartas a Nikolai Yejov – chefe do NKVD, a policia política soviética - defendendo a esposa. Ela seria libertada ainda naquele ano. Sua vida seria conturbada, o pior ainda estava por vir. Aquele século marcaria sua vida profundamente, e sua escrita seria o reflexo disso.
Vassili Grossman
Lançado recentemente pela editora Alfaguara a obra “A estrada” reúne contos, cartas e relatos jornalísticos intercalados por textos sobre a biografia de Grossman. Inicialmente estranhei um pouco essa mistura de textos literários com textos de não ficção, no entanto, a obra possuía uma divisão bastante didática.
Dividida em cinco partes a obra abrange textos que circunscrevem toda a vida do autor. A primeira parte começa com uma introdução biográfica, escrita por Robert Chandler e Yury Bit-Yunan, e inclui três contos escritos ao longo da década de 1930. O primeiro deles é “Na cidade de Berdítchev” que se passa durante a guerra Russo-Polonesa (1919-1921) e conta a história de Vavílova, uma intempestiva comissária do exercito vermelho irritada por seu afastamento dos combates por causa de sua gravidez.
Vavílova enxergava o filho em sua barriga como uma doença e na tentativa de “curar” o seu estado físico havia recorrido a cavalgadas, esforço físico carregando toras de pinheiro, ingestão de iodo e chá de ervas. Apesar dos seus esforços o filho continuava crescendo em seu ventre como uma força irrefreável da natureza. O conto termina com Vavílova abandonando o filho recém nascido para se juntar ao exercito vermelho. Mais um órfão criado pelas obrigações para com o Estado soviético. O contexto remete imediatamente a obra de Issaac Bábel, “Exercito de cavalaria”.
Na segunda parte estão quatro textos - dois contos e dois de não ficção – escritos durante a segunda guerra mundial e nos primeiros anos do pós-guerra. Quando o conflito bateu as portas da União Soviética, em 22 de junho de 1941, Grossman tinha apenas 35 anos, mas foi classificado como inapto para o combate. Enviado ao front como correspondente de guerra ele redigiu textos impressionantes sobre o que testemunhou. E nesta segunda parte que estão os dois textos que mais me impressionaram: “O inferno de Treblinka” e “A madona sistina”.
“O inferno de Treblinka” é indescritivelmente apavorante. A descrição metódica dos métodos empregados no campo de extermínio de Treblinka, na Polônia, desde a chegada dos prisioneiros, amontoados em vagões de trem, até a incineração dos corpos chega a ser difícil de ler. Por vários anos me dediquei a ler livros sobre o Holocausto e nas muitas obras que li vi o pior da humanidade, vi o que as pessoas são capazes de fazer umas as outras. Cheguei ao ponto de achar que não me impressionaria com mais nada em relação ao tema, mas quando li o texto de Grossman percebi que o Holocausto ainda me reservava uma serie de surpresas negativas.
Os métodos de coerção psicológica e dominação da vontade individual, a brutalidade gratuita dos guardas que se divertiam atirando nas pessoas, o que acontecia dentro das câmaras de gás, filas de pessoas nuas sendo atacadas por cães treinados, tudo isso é descrito de uma forma tão viva que provoca arrepios.
Os homens da SS foram especialmente cruéis com aqueles que vinham da rebelião do gueto de Varsóvia. Separaram do grupo as mulheres e crianças, levando-as não para as câmaras de gás, mas para os locais de incineração de cadáveres. Mães enlouquecidas de terror eram forçadas a conduzir os filhos para o meio das grelhas incandescentes, onde milhares de corpos mortos retorciam-se nas chamas e na fumaça, onde cadáveres se agitavam e crispavam como se estivessem vivos, onde as barrigas de defuntas grávidas rebentavam com o calor, e os filhos mortos antes de nascer ardiam no ventre aberto das mães. (...) As crianças agarravam as mães com gritos ensandecidos: “Mamãe, o que vai acontecer conosco, vamos ser queimados?” Nem Dante viu um quadro assim em seu inferno.
“A madona sistina” foi talvez o texto que mais me surpreendeu. Ao vislumbrar a pintura de Rafael - gênio do renascimento italiano – exposta temporariamente em Moscou em 1955, Grossman mergulhou no turbilhão do seu passado e descreveu a imagem como um retrato da afetividade materna em meio a tragédia de seu tempo. Viu no rosto da criança uma maturidade mais expressiva que no rosto da mãe e lembrou-se das cenas lamentáveis dos campos de extermínio, onde crianças consolavam suas mães em prantos diante das câmaras de gás. “Seremos vingados”, diziam aquelas pequenas almas ainda presas aos seus corpos prestes a serem queimados como lixo. Na serenidade do rosto da madona viu a aceitação do destino que se desnudava diante dos olhos. “O que é humano no homem vai ao encontro de seu destino, e, para cada época, há um destino especifico, diferente do da época precedente. O que há em comum entre esses destinos é que eles são sempre duros.” A bela representação artística de Rafael era o retrato das vitimas do sangrento século XX.
"A Madona sistina" de Rafael
A terceira parte possui seis contos, dentre os quais está “A estrada”, conto que dá nome a coletânea. Neste texto o personagem principal é uma mula chamada Giu que servia ao exercito italiano, durante a invasão da União soviética, transportando canhões de artilharia. Diante da imensidão do território russo, do cansaço que tomava conta de suas quatro patas, da lama, da chuva e do frio, Giu agia com indiferença as adversidades. “Para Giu, ser ou não ser tornara-se indiferente; era como se uma mula tivesse resolvido o dilema de Hamlet.”
Os dois contos que mais gostei da terceira parte são “O alce” e “A cachorra”. No primeiro Grossman volta a buscar o conceito de amor materno através do comportamento de um alce, cuja cabeça adorna a casa do homem moribundo que o matou. Em “A cachorra” ele conta a história de um vira-lata, apanhada nas ruas de Moscou, que é enviada ao espaço. Aqui ele aborda a questão da perda da inocência da ciência, uma das maiores calamidades da era moderna, pois a tecnologia deu nova dimensão ao conceito de violência. Grossman contrasta o comportamento inocente da pobre cachorrinha com as ambições cientificas do período:
Sua infância fora sem teto e sem comida, mas a infância é a época mais feliz da vida. Especialmente boa foi a primavera, os dias de maio na periferia da cidade. O cheiro de terra e grama fresca enchia a alma de felicidade. A sensação de alegria era aguda, quase insuportável; quase não tinha vontade de comer, de tão feliz que estava. (...) Parava com as patas dianteiras na frente de um dente-de-leão e, com alegre voz infantil, convidava a flor a participar da correria (...)
Na quarta parte estão reunidas as duas cartas de despedida que Grossman escreveu a sua mãe, Iekaterina Savêlievna, após sua morte. A primeira foi escrita em 15 de setembro de 1950 – data do nono aniversario de morte de Iekaterina. A segunda foi escrita em 15 de setembro de 1961, vinte anos após a morte de sua mãe. Alguns textos também estão presentes na obra “Um escritor na guerra”, lançado pela editora Objetiva, porem, os textos presentes em “A estrada” estão mais completos.
Na última parte estão reunidos algumas cartas e dados biográfico do autor, bem como o conto “Descanso eterno”, no qual Grossman conceitua a morte:
Não é possível ver, nem observar a alma do morto, seu amor e pesar nos túmulos, nas inscrições das lapides, nas flores, nos montículos das sepulturas. A pedra, a musica, o pranto em sua memória, as orações são importantes para transmitir seus mistérios. Diante do caráter sagrado desse mistério silencioso, são desprezíveis todos os tambores e trombones do Estado, a sabedoria da historia, a pedra dos monumentos, o clamor das palavras e as orações memoriais. Eis a morte.
Trata-se de um excelente livro que trás em suas paginas as marcas da genialidade literária ucraniana. Vale muito a pena ser lido!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
Autor: GROSSMAN, VASSILI
Tradutor: PERPETUO, IRINEU FRANCO
Editora: ALFAGUARA BRASIL
Ano de Edição: 2015
Nº de Páginas: 336

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O PODER DO VERDE


Na mitologia egípcia Osíris – deus que representa a fertilidade, o renascimento e a vida, é reconhecido nos hieróglifos por uma de suas características mais evidentes: a cor verde. O verde sempre foi uma cor associada à vida, naturalmente responsável por invocar a imagem da natureza. No extremo oposto está o vermelho: cor símbolo da paixão, do pathos – palavra grega que significa sofrimento –, do amor, forma singular de obsessão por outra pessoa. Vermelho é a cor do sangue... vermelho é a cor da morte.
O leitor do presente texto não deve ter deixado de estranhar o fato de o titulo do texto está em desacordo com a imagem de um quadrado vermelho. Não se trata de daltonismo, mas de um simples experimento: se observar por alguns segundos, sem desviar o olhar, para a imagem acima e em seguida foca a visão em uma parede branca, assim que você começar a piscar verá diante de seus olhos o mesmo quadrado, porem com uma cor verde. Até aqui nada de assustador, trata-se apenas de um fenômeno desencadeado por cores complementares e perfeitamente explicado pela óptica. A experiência tola que descrevi acima serve para explicar uma reflexão filosófica que tive há algum tempo: a de que a imagem da vida é também a imagem da morte!
Aquele que por muito tempo permanece diante da imagem da morte começa a buscar, inconscientemente, a imagem da vida. Cirurgiões que passam horas olhando para o sangue vermelho de seus pacientes passam a sofrer distúrbios visuais e enxergar manchas verdes azuladas. É por isso que os lençóis e roupas usadas pelos médicos em salas de cirurgia são azuis ou, como na maioria dos casos, verdes. A dimensão subjetiva entre a cor que simboliza a vida e a cor que simboliza a morte parece ter profunda influência nos mecanismos que levaram o homem a associar ambas as cores aos extremos opostos que caracterizam a eterna contingência felicidade-tristeza. Criamos nossos próprios padrões de beleza, fazemos generalizações arbitrarias da realidade, retalhamos, reduzimos ou ampliamos os significados dessa mesma realidade obedecendo a mecanismos inconscientes que na maioria dos casos são incapazes de compreender seu papel num primeiro momento. A associação entre um fenômeno e o seu significado se opera de forma inconsciente.
Outra forma de expressão, puramente particular, que se constrói de forma inconsciente é a inspiração artística. Os maiores nomes das artes plásticas e da literatura que marcaram o século XIX construíram toda a sua filosofia criativa a partir de uma bebida famosa, cuja cor lhe renderia inúmeros apelidos como “musa dos olhos verdes” ou simplesmente “fada verde”. Trata-se do polemico absinto. Cinco da tarde era a chamada de “hora verde” pelos parisienses da belle epoque. Era exatamente nessa hora que o consumo de absinto atingia o auge dando inicio a rodada de prazeres que se estendia por toda a noite.
O poder do absinto se devia ao seu elevado teor alcoólico (70%) é a presença de uma substancia estimulante que provocava uma forma leve de alucinação: a Turjona. Seu nome vem do grego “apsinthion” que significa “intragável” devido ao gosto fortemente amargo. A Artemísia, planta utilizada em sua fabricação, era muito utilizada na antiguidade para combater febres, principalmente as provocadas pela Malaria – doença que assolou os egípcios nos tempos dos faraós. Uma ironia a parte, pois o chá de Artemísia empregado pelos egípcios possuía a mesma coloração verde de seu deus Osíris.
Na Roma antiga era comum dar aos vencedores das corridas de bigas uma infusão da erva de Artemísia para mostrar que a vitoria não ocorria sem certa dose de amargura. Aqui mais uma vez o caráter filosófico do absinto, e portanto do verde, reaparece: vitoria como resultado do sofrimento assim como a morte é resultado da vida.
Não se sabe ao certo quando o absinto, bebida como atualmente é conhecida, foi inventada. Acredita se que tenha sido criada no século XVIII por volta de 1792. Henri Louis Pernoud, famoso fabricante de bebidas, construiu uma fabrica para produção de absinto em Pontarlier, próximo a fronteira com a Suíça. Em 1896 a fabrica chegava a produzir 125 mil litros de absinto por dia. Em 1910 cerca de 36 milhões de litros de absinto foram consumidos em toda a França. Vale lembrar que o absinto francês do século XIX era infinitamente mais forte que o atual.
Os parisienses recorriam a inúmeras substâncias entorpecentes e ou alucinógenas. A morfina era muito utilizada pelas mulheres, o éter era um recurso mais barato para aqueles dispostos a embarcar numa forma única de transcendência química depois de uma breve cheirada. Em alguns locais era possível comprar morango em caldas de éter. Não é sem motivo que muitos incêndios provocados por vapores de éter ocorreram durante o século XIX.
O absinto contem grandes quantidades de Turjona, um terpeno tóxico que provoca convulsões decorrentes de uma super estimulação do sistema nervoso autônomo. O acido Gamma-aminobutirico é uma substancia que regula as transmissões entre as sinapses neurais e a Turjona, presente no absinto, inibe a ação do acido Gamma-aminobutirico provocando um aumento das transmissões sinápticas desencadeando tremores e excitação. Caso seja consumido associado a algum outro estimulante, como a Nicotina, o processo pode levar a contrações musculares e convulsões. O absinto já é classificado como Speedball - substancia formada pela combinação entre estimulante e entorpecente. A Turjona age como estimulante e o álcool como entorpecente. Curiosamente o álcool acaba impedindo que o consumidor ingira uma dose letal de Turjona.
Na mais famosa obra de Robert Louis Stevenson, “O medico e o monstro”, o Dr. Jekyll cria uma formula capaz de separar o bem do mal: sais brancos eram adicionados a uma substancia com odor de éter e aos poucos a mistura assumia uma coloração verde. Beber aquilo libertava sua alma do seu alter ego, representado pela figura do Sr. Hyde. Jekyll sentia uma necessidade incontrolável de permitir que os rugidos reprimidos de sua alma se libertassem. Edward Hyde, um demônio do inconsciente, lutava para se sobrepor a Jekyll, e este, fatigado pelo esforço de reprimir seu pólo pulsional, se rendia ao seu vicio.
Jekyll serve como exemplo literário para um fenômeno químico psicológico da modernidade: o dependente químico não se torna escravo de uma substância, mas da personalidade que esta mesma substancia produz. Um viciado em morfina se torna dependente do seu estado sob o efeito analgésico da droga, ou seja, da ausência da dor e não da substancia química em si. “Os poderes de Hyde pareciam haver crescido com a debilidade de Jekyll” – escreveu Stevenson em sua obra. De fato o vicio se torna mais intenso a medida que debilita sua vitima. Em alguns momentos a descrição de Jekyll de suas crise que antecediam as recaídas se assemelham ao delirium tremens observado em vitimas do alcoolismo:
“Fui acometido de uma vertigem, uma náusea horrível e um tremor mortal. Essas sensações passaram, me deixando a beira de um desmaio; depois, quando também a tonteira se dissipou, comecei a tomar consciência de uma mudança na natureza de meus pensamentos, uma maior audácia, em desprezo pelo perigo, uma dissolução dos laços do dever.”
Outro ponto levantado pela obra de Stevenson, embora de forma bastante sutil, e o do aspecto benéfico e ao mesmo tempo nocivo da química. A mesma substancia capaz de provocar dor também a alivia. A Heroína, por exemplo, é um dos mais poderosos anestésicos já produzidos pelo homem! Quem poderia imaginar que um remédio tão “heróico” se tornaria um “vilão”? Infelizmente, conforme já foi dito por Joe Schawarcz e reforçado no conto de Stevenson, as pessoas tendem a se concentrar nos aspectos negativos durante suas avaliações deixando de lado inúmeros aspectos benéficos. Os monstros nascem amparados por aqueles que diante da luz somente enxergam sombras.
Por que Stevenson descreveria a substancia criada por Jekyll como verde pálida? Seria uma referencia ao absinto? Seria apenas um adorno estético sem nenhum significado subjacente? Na época o verde era considerado uma cor estética, pois combinava com as cores que predominavam em meio a decoração da década de 1890. Seria o “sal branco” uma referência ao açúcar utilizado pelos adeptos do absinto? Aqui já embarcamos no terreno falho da conjectura da criação literária.
Voltando ao ponto inicialmente exposto no texto, isto é a relação entre vida e morte, fica claro que a vida urbana é plena de sensações para aqueles que se permitem embarcar em variados níveis de transcendência; o perigo, neste caso, é o principal combustível e o verde a mais inebriante das cores. Existe uma frase, utilizada em referencia ao absinto, que descreve perfeitamente o paradoxo da filosofia da vida como reflexo da morte: “mata, mas te faz viver”.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
Para saber mais sobre a historia do absinto:
ABSINTO - UMA HISTORIA CULTURAL
Autor: BAKER, PHIL
Editora: NOVA ALEXANDRIA
Ano: 2010
Nº de Páginas: 228

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A DECADÊNCIA DEMOCRÁTICA E A INÉRCIA SOCIAL DO VOTO


O século XX sinalizou a brusca incorporação de mecanismos sociais que solaparam a crença no liberalismo. O enfraquecimento das instituições e dos valores jurídicos liberais, que se desenvolveram ao longo de todo o século anterior e cuja solidez era amplamente reafirmada, consistiu talvez no primeiro grande golpe na atmosfera positivista da virada do século. A ideia de um governo representativo no lugar de um absoluto se apresentava com uma lógica cujos mecanismos pareciam já consolidados e aceitos pela ampla maioria, excluindo-se e claro os mais radicais defensores do centralismo político que pareciam ver pouca ou nenhuma vantagem na ampliação das bases do poder.
A lei parecia ter encontrado o perfeito tom jurídico que lhe permitisse funcionar como garantia dos valores sociais constitucionalizados. Excluindo-se a atmosfera de tensão política característica da virada do século, nada mais parecia indicar, pelo menos em contornos bem nítidos, que os métodos de governo autoritário voltariam a ganhar espaço. De certa forma o aprimoramento dos diversos ramos da ciência, ou seja, dos métodos políticos, econômicos e sociais deram forma a um otimismo que praticamente subestimou o poder devastador que o nacionalismo teria. A partir da década de 1920 a civilização liberal começou a desmoronar diante da associação detonante entre nacionalismo e militarismo. Ironicamente o golpe desferido nesse período contra os valores liberais veio da direita política e não da esquerda. O movimento trabalhista já era de fato um significativo e poderoso recurso das massas, porem os marxistas social-democratas se ateram aos valores democráticos e os comunistas ainda eram uma minoria dispersa. Embora se temesse uma onda de revoltas desencadeadas pelos comunistas o golpe não viria através da foice e do martelo. Nos vinte anos que marcaram a desfragmentação do liberalismo nenhum governo liberal-democratico caiu por meio de movimentos da esquerda.
Com pouca freqüência foi levantado o papel inegável da direita como desencadeadora dos métodos autoritários de governo do inicio do século XX. A alegação recorrente de que a linha anti democrática adotada pela direita seria uma resposta ao movimento da esquerda é falha por desconsiderar o elemento humano e sua tendência de canalizar as experiências pessoais e traduzi-las a termos políticos. A maioria dos lideres da direita radical foram moldados nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Foi ali, na lama das trincheiras que o ultra nacionalismo característico de sua linguagem política dos anos posteriores nasceu. A primeira grande guerra forneceu a base moral para o fanatismo político que arrasou a primeira metade do século XX.
Um fato interessante e que a direita não direcionou seu ódio apenas aos comunistas, mas a todo movimento contrario ao estatus quo da sociedade. Defendiam o conservadorismo adotando métodos radicais. A perda gradual de poder representativo de um Estado abre caminho para a explosão de diversos núcleos de opinião. Indivíduos incapazes de avaliar corretamente o contexto político do momento passam a construir generalizações que pouco a pouco alimentam as desconfianças e expõem os limites da democracia.
O grande drama da democracia moderna não são suas falhas como doutrina, mas seus métodos: sua base se constrói sobre os elementos da burocracia representativa, cujos membros não possuem credibilidade junto à opinião publica. O voto não mais cumpre o seu papel como legitimador do poder público. Atualmente o voto é mais uma inércia social do que um ato de cidadania.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

terça-feira, 26 de julho de 2016

ANA KARÊNINA NO JARDIM DAS CEREJEIRAS


“Eu penso que, se há em cada cabeça um juízo, haverá um tipo de amor para cada coração.”
- Ana Karênina
A estrutura escolhida por Tolstoi coloca em relevo as marcas que caracterizam o romance. Pode-se dizer que as tramas que ocorrem paralelamente possuem um ritmo intermitente bem pronunciado através de capítulos curtos e ágeis. Em um dado momento estamos lendo sobre as dificuldades da vida no campo e, subitamente, somos jogados em meio aos dilemas da sociedade urbana.
O principal tema do romance “Ana Karênina” não me parece ser o adultério, mas a sociedade russa do final do século XIX, polarizada entre os costumes da alta sociedade e os do meio rural. O adultério, tema invocado logo nas primeiras paginas, se insere na trama como uma espécie de reflexo adversativo dos valores referentes à reciprocidade arcaica das relações familiares.
Apesar do titulo a obra possui três protagonistas – cuja importância no contexto se define a partir do ponto de vista do leitor. O fato de Tolstoi ter optado por nomear seu romance com o nome de um dos personagens parece remeter a importância que o autor atribui aos dilemas enfrentados por esse personagem. Diante desta premissa literária, aparentemente, temos a impressão de que a personagem de Ana teria como objetivo fazer coro aos valores cristão na imagem do pecador que sofre por violar os mandamentos superiores.
Encarar as mais de 400 paginas do romance com essa idéia pré concebida certamente resultará numa compreensão pobre: a de que o livro conta a história de uma mulher que comete adultério e que em função disso passa a ser julgada pela sociedade. Tolstoi, como um dos grandes representantes da literatura russa, famosa por sua profundidade psicológica e por personagens construídos em três dimensões – físico, psicológico e religioso – vai muito além da impressão inicial. Em Ana Karênina, Tolstoi se iguala a Shakespeare ao mostrar que a tragédia humana nasce sob o amparo de seus desejos e de suas escolhas motivadas pelos sentidos.
Confesso que durante a leitura não senti empatia pela personagem de Ana. Suas falhas como esposa foram, ate certo ponto, compreensíveis dada à tendência de Aleksei (seu marido) de agir como um ser sobre-humano. O que mais destrói o apego do leitor pela personagem e a sua tendência insuportável de incorporar a imagem da figura trágica. A altiva e impulsiva Ana aos poucos sede espaço para uma mulher chorona, viciada em morfina e que a todo custo busca justificar seu comportamento obsessivo a partir do comportamento alheio.
Diametralmente oposto a Ana está Levin, talvez o mais fascinante personagem da obra. As leis do desenvolvimento estariam presentes nas relações de dependência entre o homem e o meio ambiente? Essa pode parecer uma pergunta bastante atual, no entanto, ela é o núcleo da obra escrita por Levin que ao buscar as relações de dependência entre homem e natureza acabou colocando a sociedade agrária russa do final do século XIX como a questão central do desenvolvimento industrial do século posterior.
Outro gênio da literatura russa que adotou um olhar semelhante sobre a sociedade agrícola de seu país foi Anton Tchékhov. Posso dizer que me encantei pela prosa de Tchékhov. Eu ainda não havia tido o prazer de mergulhar em sua obra até que recentemente li “O jardim das Cerejeiras”, sua ultima e mais famosa peça. Escolhida para ser representada pelo Teatro de Artes de Moscou logo após a noticia da vitoria sobre a Alemanha Nazista, em maio de 1945, a peça consistia num marco simbólico da historia russa. Misteriosamente ela possui um forte componente transicional, uma autêntica introdução artística a mudanças sociais e políticas: foi a ultima peça a ser encenada em São Petersburgo antes da tomada do poder pelos Bolcheviques.
Trata-se de uma peça curta, de quatro atos, que mantém uma linguagem absurdamente cômica até a mudança para um tom mais dramático no final. A história gira em torno de uma família da decadente aristocracia russa cujo drama se constrói a partir da venda da propriedade onde está o outrora produtivo jardim das cerejeiras. Logo no inicio percebemos o uso metafórico do jardim como retrato do passado rural da sociedade russa. A nostalgia desencadeada pela proximidade do leilão retrata o sentimento dominante entre as tradicionais famílias aristocráticas diante das incertezas trazidas pelo século que se descortinava. Retrato de seu tempo o jardim simboliza um passado cujos moldes não se encaixavam dentro da nova realidade.
“O jardim das cerejeiras” marca o fim da carreira de Tchékhov e também o fim de uma longa era da historia russa ligada ao campo. As sombras em meios aos pés de cerejeira contrastam com a beleza contemplativa e ao mesmo tempo condenada ao esquecimento. O lugar que tantas lembranças guardava se encontrava diante daquela forma de morte que acomete os despossuídos de alma: o esquecimento.
Tolstoi e Tchékhov construíram obras de inigualável grandiosidade e cuja mensagem é bastante clara: Quando deixamos para traz o passado algo de belo se perde. A natureza tem seus métodos de deixar sua marca. O jardim, segundo Tchékhov, ou o campo, segundo Tolstoi, é o coração do homem: assolado pelos ventos e inconstante devido às mudanças provocadas pelo tempo. Possui uma beleza enraizada no solo fértil da esperança da primavera. É generoso com aqueles que se dedicam ao seu cultivo. O passado que se oculta as sombras de suas arvores às vezes parece morto como folhas secas e às vezes doce como uma cereja.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

quarta-feira, 13 de julho de 2016

INTERPRETAÇÃO DA MUSICA “I STARTED A JOKE” – BEE GEES


I started a joke
Which started the whole world crying
But I didn't see
That the joke was on me
I started to cry
Which started the whole world laughing
Oh, if I'd only seen
That the joke was on me
I looked at the skies
Running my hands over my eyes
And I fell out of bed
Hurting my head from things that I'd said
'Till I finally died
Which started the whole world living
Oh, if I'd only seen that the joke was on me
A canção “I Started a Joke”("Eu comecei uma piada") é um dos maiores sucessos do Bee Gees. Lançada como Single em 1968 a letra possui um forte traço reflexivo. A própria melodia que preenche a canção possui um ritmo que acompanha o forte sentimentalismo do vocal. Interpretações diversas já foram feitas de seus versos, mas gosto de interpretar essa canção como uma espécie de lamento, uma desolação sentimental diante da estupidez e do conservadorismo humano, traços marcantes de nossa sociedade.
Eu comecei uma piada
Que fez o mundo inteiro chorar
Mas eu não vi
Que a piada era eu
Nesta primeira parte o individuo toma consciência da realidade. Ele chama de piada porque era engraçado como ninguém ainda não havia enxergado aquilo. Era tão obvio, embora muito pouco lógico e improvável, mesmo assim era obvio. Mas aquela era uma verdade negra, nebulosa, difícil de aceitar. Uma vez exposta causaria sofrimento, medo, incerteza, exporia um aspecto da vida que destrói os sonhos por meio da idéia de destino. O que a voz marcada pelos versos não parecia compreender e que para a maioria das pessoas a sua revelação seria motivo de riso, chacota, pois seria infinitamente mais conveniente e fácil enxergar no meio da multidão um louco ao invés de um gênio.
Eu comecei a chorar
O que fez o mundo inteiro rir
Ah, se eu apenas tivesse visto
Que a piada era eu
Seu desespero crescia à medida que era massacrado pela opinião dos demais. Riam de suas palavras e ele sofria por compreender que sabia mais do que os outros e isso trazia para si próprio a necessidade de uma atitude! Mas onde encontrar forças para seguir apresentando sua verdade?
Eu olhei para o céu
Passando as mãos sobre os meus olhos
E eu caí da cama
Machucando a cabeça com as coisas que eu disse
Aparentemente ele busca nas supostas divindades algo que lhe sirva de amparo. Recorre aos céus na busca por um raio de luz que ilumine a ignorância dos demais. Mas a ajuda não vem e aos poucos ele se convence de que tudo não passou de um sonho. Sua racionalidade começa a ser questionada, não pelos outros, mas por si próprio. A loucura da realidade de alguém que sufoca sua voz interior em nome do senso comum acaba por levá-lo ao delírio. Sua mente havia sido machucada...a ignorância humana parecia não ter cura.
Até que eu finalmente morri
O que fez o mundo inteiro viver
Ah, se eu apenas tivesse visto que a piada era eu
Após a sua morte, após a morte daquilo que ele tanto tentou mostrar, o mundo segue vivendo como se ele nunca ouves se existido. Talvez em algum momento, em um ligeiro lapso, alguém se lembre de sua vida e diga: sim, de fato alguém já tentou trilhas as raias desse caminho, mas não era um sujeito serio... ele apenas contava piadas.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

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