sábado, 14 de maio de 2016

FRONTEIRAS


Dizem que a morte perde seu caráter trágico quando é anunciada pelo tempo natural e não pelo tempo humano... grande bobagem! O que torna a morte uma tragédia não é a forma como ela ocorre, mas o rompimento definitivo que ela cria em relação a aqueles que amamos.
A morte seria o fim da vida ou o inicio de outra? Tudo depende do ponto de vista: para alguns a linha que contorna o horizonte não é o fim do caminho, mas o inicio do céu; não é onde a esperança acaba, mas onde ela começa. O que é uma tragédia para uns se torna a renovação para outros. O ultimo capitulo de um livro pode significar apenas o primeiro de sua sequência. Para alguns a escuridão da noite, com seus mistérios e enigmas, possui mais beleza que a clareza, às vezes, assustadora do dia.
Temo a morte por que ela anula meus propósitos, mas a admiro pelo seu significado. A beleza da vida consiste em colocar o tempo como a única unidade da medida de todas as coisas. O tempo não necessita de reduções teóricas da realidade, de abstrações pragmáticas para que se explique sua natureza. O tempo não passa do mesmo modo para todas as pessoas, mas todas as pessoas encontram no tempo um mesmo destino: o fim de seu significado de existência. Por isso não acredito em eternidade, essa fabula da vaidade humana tira o que de belo preenche a vida.
As fronteiras não existem enquanto negarmos ao passado seu direito de existir. Para que serve o passado? Para que se lembrar daquilo que sua existência transcende? A história redefine as fronteiras daquilo que um dia foi e daquilo que um dia será, pois seguir em frente sem tentar compreender o passado é o mesmo que começar do zero e ter pela frente o inconveniente dos mesmos erros.
AUTOR:
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

sexta-feira, 6 de maio de 2016


“A noite arrancou o rabo armado de Behemoth, arrancou seu pelo e o espalhou em tufos pelos pântanos. Aquele gato que divertia o príncipe das trevas revelou-se um jovem magrinho, um demônio pajem, o melhor bobo da corte que existia no mundo. Agora estava calmo e voava silenciosamente, estendendo seu rosto jovem para a luz da lua. Ao lado de todos brilhando com sua armadura, voava Azazello. A lua transformou seu rosto também. O canino ridículo sumiu sem deixar vestígios, e o olhar caolho revelou-se falso. Os dois olhos de Azazello eram iguais, vazios e negros, e o rosto era branco e frio. Agora Azazello voava em sua aparência verdadeira, como um demônio do deserto sem água, demônio assassino.”
O improvável aconteceu em uma quente tarde de primavera! A cidade de Moscou se acolhia perante a iminente chegada do véu da noite. A luz lentamente dava lugar às sombras e a beleza dessa transição riscava a linha do horizonte em um simbólico por do sol. Naquela tarde, dois homens conversavam diante do Patriarchi Prudý (Lago do Patriarca em russo): Mikhail Berlioz era editor de uma conceituada revista de arte e Ivan Nikolaievitch era um jovem e promissor poeta.
Berlioz haviam estranhado o fato de o lugar estar completamente deserto, mas pelo menos podia contar com a brisa úmida do lago, pois o dia havia sido realmente muito quente. De alguma forma ele parecia sentir uma espécie de renascimento diante daquelas águas. De fato é essa a sensação provocada quando mergulhamos nas águas calmas de um lago e sem que saibamos compreender nossa mente parece resgatar a sensação de nossos primeiros meses de vida no útero materno. Renascimento... não poderia haver expressão mais apropriada para o destino de pelo menos um daqueles dois homens que conversavam inocentemente numa quente tarde de primavera.
Mikhail Berlioz havia encomendado a Nikolaiev um poema cuja essência deveria ser a negação categórica da existência de Yeshua Há-Notzri. Ate aqui nada de interessante parecia se desprender da conversa daqueles dois cidadãos. Aparentemente se tratava de dois insignificantes ateus tentando fazer da arte uma forma de expressão para aquilo que consideravam ser a sua verdade.
“ – Não há nenhuma religião oriental – dizia Berlioz – na qual, por via de regra, uma virgem não de a luz um deus. Os cristãos, sem inventar nada de novo, criaram da mesma forma seu Jesus que, na realidade, nunca esteve entre os vivos. É a isso que você deve dar mais ênfase.”
Nesse momento um individuo estranho, já na casa dos quarenta, alto, moreno, usando um terno riscado e cuja característica mais marcante era o fato de ter um dos olhos verde e o outro preto, apareceu solitário e se sentou em um banco ao lado dos dois homens. Ficou claro para ambos que aquela figura recém surgida estava interessada na conversa.
O enigmático homem aproximou-se e educadamente acabou se metendo na conversa. Aos poucos a impressão inicial provocada por sua aparência foi se desfazendo devido a sua forma interessante de expressar a incapacidade dos homens de se governarem:
“(...) como é que pode o ser humano governar, se não apenas não tem condições de fazer qualquer plano (...) como também é incapaz de garantir quer seu dia de amanha? (...) imagine por exemplo, que o senhor comece a governar, dispondo de sua vida e da vida de outras pessoas e então passe a tomar gosto pela coisa e, de repente, o senhor hum... hum... descobre que esta com câncer de pulmão (...) pronto, seu governo chegou ao fim! Não lhe interessa o destino de mais ninguém, somente o seu.”
A partir desta inocente conversa o misterioso homem faz duas previsões: antes que o dia chegasse ao fim Mikhail Berlioz encontraria a morte num trágico acidente e Ivan Nikolaievitch seria internado em um hospício acusado de ser esquizofrênico. É no vácuo dos dois acontecimentos que se desenvolve o enredo da obra “O Mestre e Margarida” do escritor ucraniano Mikhail Bulgakov, considerado pela critica especializada como um dos maiores romances do século XX.Não é sem motivo que a obra inspirou diversas canções dentre as quais está Sympathy For The Devil, dos Rolling Stones.
A história se passa em plena Moscou da década de 30, já nos primeiros anos do regime de Josef Stalin, quando ninguém menos que o próprio diabo, que na obra atende pelo nome de Woland, resolve fazer uma visita a cidade. Em seus passos pela capital soviética Woland mudara completamente o destino de todos que cruzarem seu caminho, especialmente o do “mestre” - um escritor e autor de um romance sobre Pôncio Pilatos - e da bela Margarida Nikolaievna – mulher que no passado havia sido amante do “mestre” e que naquele momento estava presa a uma união infeliz.
Woland não viaja sozinho, e a representação figurativa de cada um dos personagens de seu séquito de desordeiros é construída a partir de alegorias onde fica subjacente o aspecto estratégico e casual dos jogos de carteados e xadrez: Azazello, o ruivo flamejante que com seu chapéu no estilo inglês, seu característico canino a mostra e sua paixão por armas de fogo, encarna a figura de um autêntico valete de espadas. Koroviev, também chamado de Fagot, é um apaixonado por baralhos – palavra cujo significado é “confusão”. Seu gosto pelo extravagante e a combinação de seu terno xadrez com o chapéu de jóquei e um pincenê rachado criam a imagem de um autentico palhaço macabro; nenhuma carta o simboliza com mais clareza que o coringa. Behemoth, um enorme e sarcástico gato preto que caminha sobre duas patas e fala como um humano surge como um Ás de espadas e Hella, a feiticeira cuja característica mais marcante é o fato de sempre andar nua assume o papel da enigmática Dama de espadas.
Em um texto recheado de alegorias o enredo se desenvolve como em uma partida de xadrez: Woland – o rei – é uma das “peças” mais inativas de seu grupo sendo seus movimentos articulados pelas “peças” de apoio: Koroviev (Bispo), Behemoth (Cavalo), Azazello (Torre) e Hella (Rainha). Todos aqueles que estão vulneráveis ao infernal grupo figuram como meros peões que são descartados segundo as necessidades. Behemoth representa à lógica e a estratégia do xadrez numa das mais gritantes ironias de um texto literário uma vez que o xadrez é um jogo que não sofre influencia da sorte, aqui representado por um animal que simboliza o azar.
O texto é dividido em duas partes: na primeira Woland e seu grupo espalham o caos entre os cidadãos da velha Moscou e expõem o caráter puramente amoral de uma sociedade doente e amedrontada. Na segunda ocorre um dos momentos mais memoráveis do texto: o baile de despedida do diabo, cuja anfitriã é a impressionável Margarida e cujos convidados estão todos mortos.
Inicialmente e preciso definir que a obra de Bulgakov é, sobretudo, um romance critico que ataca os mecanismos ideológicos e repressivos do regime soviético responsáveis por criar a atmosfera perfeita para um autentico “baile do demônio”. O mérito de Bulgakov foi conseguir traduzir o clima de tensão numa linguagem satírica e absurdamente cômica.
É interessante como Bulgakov remanejou a posição das peças no embate entre o bem e o mal. Em uma partida de xadrez onde tradicionalmente as peças pretas simbolizam o mal e as brancas o bem resta aos frágeis mortais o papel de tabuleiro: mero substrato sobre o qual se desenvolve o confronto. A própria alternância entre quadrados brancos e pretos fornece um perfeito simbolismo para o caráter dual dos seres humanos. Mas essa é uma visão tradicional do eterno confronto bíblico e Bulgakov inverteu a posição natural das peças para mostrar a natureza absurda daquela “partida”: aos homens foi dado o poder de julgar a existência de cristo colocando-os em confronto direto com o próprio demônio.
Com um conteúdo tão polemico fica difícil projetar a imensidão da linguagem cômica da obra. Mas acreditem os leitores, trata-se de um dos textos mais engraçados que já tive o imenso prazer de ler. A textura da linguagem é muito clara, os personagens possuem intensa expressividade e a narrativa, que de tempos em tempos rompe seu segmento cronológico, possui uma linearidade de eventos que se encadeiam de forma simples e que não se expandem excessivamente para alem dos limites da trama principal. Os personagens parecem ter sido construídos por uma perspectiva expressionista quase caricatural. Isto de alguma forma rompe com a densidade do principal tema da obra, mascarada pela visita do diabo, tornando mais natural o surgimento do humor como recurso narrativo.
Apesar de sua linguagem claramente satírica trata-se mais de uma obra moralizante do que provocativa; mais conservadora do que revolucionaria. Definindo-a por esses termos fica implícita a noção de que toda a problemática criada em relação à obra se deva talvez menos o fato de que no enredo a maldade do homem se sobreponha a versão do mal representada por Woland, do que o senso elevado de moralidade apresentado pela figura do demônio. Essa visão critica ainda é muito pouco palatável para os leitores mais ortodoxos e acostumados a negar-se o acesso a obras cujos dogmas religiosos apresentem alguma forma de inversão.
O titulo da obra tem sido objeto de intensa curiosidade quanto ao seu real significado. Existem infinitas interpretações, mas tratando-se de uma obra de arte da literatura russa, conhecida por sua profundidade psicológica e por seus múltiplos significados, fica a critério do leitor – e esse é um dos pontos mais interessantes da obra - interpretar o titulo por seus próprios meios. Até o mais perspicaz dos leitores teria dificuldades para explicar o objetivo da utilização do nome Margarida. Essa dificuldade decorre do fato de que seu significado não é bem definido pelo autor, mas apenas sugerida por detalhes ao longo do texto.
Para começar a historia se passa durante a primavera – estação mais florida do ano – conhecida por suas belas noites de lua cheia onde o astro terrestre brilha intensamente como uma perola na imensidão do céu noturno. O próprio significado da palavra “Margarida” em latim quer dizer “pérola”. Coincidência? Eu acho que não! Pérola é um objeto que cristaliza sua beleza ao redor de um núcleo imperfeito. Para quem não sabe é necessário que alguma forma de impureza - como um grão de areia, por exemplo - entre na ostra para que a mesma a envolva pela camada nacarada que dará forma a pérola.
Através do processo a natureza nos mostra que a mais bela das formas possui uma origem imperfeita. Essa alegoria de certa forma parece se alinhar com a idéia de que o bem e o mau são termos que se alternam em sua função sendo, portanto, distintos porque se opõem, mas unificados em seus propósitos. O próprio desfecho impressionante do texto, quando um pacto é firmado entre Deus e o Diabo, toca num ponto bastante controverso: o de que algo bom poderia se originar do mal.
Quando se pensa no termo “ostracismo” tudo começa a fazer ainda mais sentido, ainda mais quando se leva em consideração o fato de que o texto de Bulgakov é uma critica ao regime despótico do ditador Josef Stalin. Ostracismo – palavra associada à pérola – era o nome dado a uma forma de punição aplicada a políticos que de alguma forma ameaçassem a democracia de Atenas no século V a.c. Interessante como essa linha de interpretação esbarra em outra coincidência: Hella a bruxa que anteriormente associei a carta da Dama de Espadas – que no baralho representa a deusa grega Atena.
Outra interessante relação entre o nome Margarida e o contexto da obra esta diretamente relacionada ao mais icônico personagem. A flor Margarida em inglês é chamada de “Daisy”, nome retirado da expressão “day’s eye” que se traduz como “olho do dia”. Essa flor, símbolo da primavera, apresenta a estranha característica de se fechar durante as noites, momento no qual o “olho da noite” brilha suprema em meio à escuridão. A lua sempre foi um elemento associado ao gato preto, devido aos seus hábitos noturnos, e a bruxaria.
Os surrealistas diziam que a razão criava a ciência, mas que a arte nascia da parcela ilógica do subconsciente. Se a ciência fez da verdade o seu propósito a fé fez do medo a sua arma. Enquanto uma iludia o homem com falsas promessas a outra o aprisionava com mentiras. Ambas cometiam erros as medidas de seus meios e nenhuma das duas parecia compreender a real extensão de sua ignorância. Bulgakov brinca com isso em sua obra: o ser instruído e racional que se diz ateu tem sua vida virada de ponta a cabeça por aqueles que sua lógica julga não existir.
Bulgakov soube sublinhar a insatisfação da sociedade quanto ao regime político de sua época por meio de uma textura literária que remete a reflexão sem, no entanto, sacrificar o humor - responsável pela fluidez natural do texto. O recurso da sátira como amparo de criticas têm o beneficio da leveza narrativa – recheada de elementos fantásticos e surreais que são interrompidos de tempos em tempos por trechos do romance sobre Pôncio Pilatos escrito pelo “Mestre”, são estes os capítulos nos quais o autor mantém um flerte com a realidade.
Bulgakov estreitou os limites do conceito entre bem e mal, tão exagerados pelo maniqueísmo típico do século XX, e acabou redefinindo a figura do Diabo a conceitos abstratos como ignorância, inveja, cobiça e repressão. Parecia querer dizer que a realidade repressiva de 1930 naturalmente legitimava qualquer forma narrativa fantástica, pois a realidade do regime stalinista era a realidade do absurdo.
Verdades redefinidas pelas dobras inconvenientes do tecido social e moldadas segundo uma visão puramente individual fazem de “O Mestre e Margarida” um dos maiores triunfos do socialismo soviético. Perdoe-me o leitor se não contive meu sarcasmo, mas Bulgakov desperta nosso lado critico. Qual é minha avaliação sobre a obra? Espetacular!!!!
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
O MESTRE E MARGARIDA
BULGAKOV, MIKHAIL AFANASEVICH
Editora: ALFAGUARA BRASIL
Ano: 2010
Nº de Páginas: 456

segunda-feira, 21 de março de 2016

CRISE NA DEMOCRACIA A VIOLENCIA COMO RECURSO CIVIL


“Como explicar que o homem, um animal tão predominantemente construtivo, seja tão apaixonadamente propenso a destruição? Talvez porque seja uma criatura volúvel, de reputação duvidosa. Ou talvez porque seu único propósito na vida seja perseguir um objetivo, algo que, ao ser atingido, não é mais vida, mas o princípio da morte.”
- Dostoievski
Qual seria o melhor conceito para se definir um cidadão? Os adeptos enlouquentes do capitalismo dirão que antes de ser cidadão é preciso ser consumidor. Os socialistas certamente dirão que ser cidadão e sacrificar os interesses particulares em prol do coletivo. Aqui um intrigante debate filosófico não passa despercebido: até que ponto a sociedade “perfeita”, embora seja praticamente impossível encontrar um conceito de perfeição que se aplique a todos, se constrói a partir da perda de identidade de cada um de seus integrantes? Ora sacrificar seus interesses, sonhos e desejos segundo as imposições coletivas de uma massa de anônimos não seria exatamente isso? Essa forma de governo do coletivo exige que cada um de seus membros antes destrua a si mesmo como requisito fundamental.
Os conservadores dirão que cidadão e aquele que se pronuncia através do voto; os perfeccionistas complementam essa forma de classificação dizendo que votar apenas não basta, é preciso votar de forma facultativa e consciente. Em ambos os casos esses ideólogos da cidadania parecem ignorar que o voto antes tido como um símbolo de luta pela democracia hoje é sinônimo de demagogia, manipulação e pior: símbolo de medida improdutiva, ineficaz e de pouco valor. Pode se dizer que o voto foi elevado as alturas graças a sua origem num passado de revoltas. Uma definição mais filosófica, embora não menos política, considera cidadão aquele com poder para influenciar no destino político do Estado do qual faz parte. Restringir o papel do cidadão ao ato de votar reforça os mecanismos que contribuem para a exclusão dos temas políticos e econômicos da pauta diária da população. Como um subproduto, bastante conveniente para alguns segmentos, dessa política “disciplinante” vemos a manutenção do conformismo e a valorização da tendência de direcionar os acontecimentos para o caminho do imprevisível.
Cidadão sempre foi um termo sem definição clara, isso porque existem muitos conceitos, naturalmente antagônicos e com uma hierarquização particularizada, e muito pouco consenso. A associação explosiva entre cidadania e agressividade não é um fenômeno moderno. A violência com a qual os homens escrevem sua própria história é o exemplo mais claro de que a “cultura da violência” se mantém e se aprimora ao longo do tempo, se é que se pode considerar um comportamento irracional passível de aprimoramento.
As formas mais comuns de violência, principal protagonista da caótica novela urbana, solapam diariamente a crença do individuo no poder de contenção das leis vigentes. O aumento do nível de transgressão social é sempre interpretado como uma consequência do pouco poder efetivo do ordenamento jurídico. É justamente nesse contexto que a violência se consolida como argumento e passa a gerar as expectativas que a alimentam. Nada apavora mais o homem do que a perspectiva de uma iminente perda de controle. A genuína incapacidade de lapidar a realidade segundo um padrão particular ditado por aspectos variados, ou seja, a vulnerabilidade diante do caos imposto pela intrigante aleatoriedade aparente das circunstancias está entre as formas mais expressivas de tormento. O homem só compreende a extensão real de sua insignificância quando percebe que o sentido que tanto procura por traz de cada evento é uma ilusão. É aqui que encontramos os limites de atuação da razão. A violência e o acaso são filhos do mesmo berço. Se for de fato o acaso que rege a vida humana, pode-se dizer que a violência é o produto da assimilação dessa verdade aparente. É do silencio delineado pela aparente ausência de sentido das circunstancias que o homem alimenta o barulho incessante de suas frustrações.
O poder repressor teria criado a violência ou seria está uma consequência do autoritarismo? Para responder essa pergunta seria necessário fazer uma distinção clara entre a violência física e a violência política, adotada como mecanismo de coerção social. Ambas não partilham dos mesmos parâmetros de compreensão. A violência inata do homem, resquício de sua origem primitiva, tem sua origem tanto nos aspectos inconscientes de seu ser quanto nos aspectos do meio que o delimita. Essa interpretação, bastante limitada do conceito moderno de violência, não necessariamente remete a uma conclusão equivocada. Em algumas situações é preciso limitar, encerrar os fatos em seus devidos limites, para compreender.
A violência sempre esteve à margem das ações humanas a única variável é quanto ao seu grau de expressão. Na maioria dos casos surge como uma resposta ao medo. Diante do vazio assustador do imprevisível o aspecto primitivo da natureza humana se faz presente através da falsa noção de segurança que um comportamento violento é capaz de invocar. Durante a Revolução Francesa (1789-1799) a política de Terror adotada pelos jacobinos se deveu ao medo de que a guerra com as monarquias européias, associada à atividades contra-revolucionárias, pudesse resultar na destruição da jovem republica francesa. Os expurgos deflagrados na extinta URSS entre os anos de 1937-1938 pelo ditador Josef Stalin foram motivados pelo medo de uma suposta guerra entre as potencias capitalistas aliadas à Alemanha contra o socialismo soviético. Cada um dá vida a seus próprios demônios! Chega a ser irônico o fato de que o homem sempre recorre a guerra quando busca a paz.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

OS DEVANEIOS DO CAMINHANTE SOLITARIO


Desde o surgimento do chamado Estado moderno - final do século XIV - a centralização do poder nas mãos dos monarcas europeus era sinalizada, dentre outras coisas, pela concessão de monopólios, criação de moedas, exércitos, leis e impostos. Esse predomínio de “poder de direito divino” cambaleou até o século XVIII, quando se tornou pratica a sistematização da razão como método e a secularização do pensamento político. O poder passou a exigir uma base racional para sua legitimidade. Essa imposição deu vazão a perspectivas políticas variadas - divergentes em alguns pontos, mas que partilham de uma origem comum: a existência do chamado contrato social.
Filho de um simples relojoeiro genebriano, Jean Jacques Rousseu tornou-se um dos protagonistas de seu tempo ao revalidar a temática do contrato social. Essa nova concepção da política forneceu o impulso filosófico que caracterizou as revoltas do século XVIII. É inegável a influência da filosofia de Rousseau nos eventos do chamado “século das luzes”. Sua posição política é amplamente exposta em obras celebres como O contrato social e Discurso sobre a origem e os fundamentos das desigualdades entre os homens.
Em Os devaneios do caminhante solitário, Rousseau deixou de lado o fenômeno político para se concentrar no fenômeno humano. O texto - de apenas 134 paginas - registra suas caminhadas realizadas nos arredores de Paris entre os anos de 1776 e 1778. Em muitos momentos vemos um autor amargurado e desiludido narrar às dificuldades criadas pela chegada da velhice. Em outros um homem que se rendeu aos encantos da natureza divagar sua admiração pelas flores e seus tormentos morais. A valorização do ambiente natural surge na obra como um dos traços mais marcantes da escola literária do Arcadismo – onde a simplicidade da beleza da natureza era empregada como oposição as extravagâncias da aristocracia.
Esteticamente o texto é dividido de forma que cada capitulo consiste em uma caminhada – dez no total - de um determinado dia. Na quinta caminhada, Rousseau fala sobre a felicidade e sua relação com as lembranças. Conclui que nenhum sentimento ou forma de admiração pode ser constante. O fluxo contínuo da mudança acompanha as formas de afetos aos quais somos permeáveis. Na sétima caminhada, Rousseau faz uma revelação no mínimo inusitada para um homem que se imortalizou na figura de um dos maiores pensadores de seu tempo: “o devaneio me relaxa e me diverte, a reflexão me cansa e me entristece; pensar foi sempre para mim uma ocupação penosa e sem encanto.”
A oitava caminhada é um dos textos mais reflexivos e profundos da obra. Rousseau julga o comportamento humano e condena as opiniões por considerá-las como produto das paixões. O ato em si não é avaliado a revelia das intenções por trás dos mesmos: “Em todos os males que nos acometem, olhamos mais para a intenção do que para o efeito. Uma telha que cai de um teto pode nos machucar muito, mas não nos fere mais que uma pedra atirada de propósito por uma mão maldosa”.
Em sua ultima caminhada Rousseau fala pela primeira vez sobre madame de Warens - que apesar de ter apenas 28 anos já era chamada de senhora. Seu relacionamento com madame de Warens é um dos temas mais controversos de sua historia pois na ocasião Rousseau tinha apenas 16 anos. O texto possui um tom agradável e é por si apenas bastante revelador. Vele muito apena ser lido e admirado.
AUTOR
TIAGO R. CARVALHO
OS DEVANEIOS DO CAMINHANTE SOLITARIO
Editora: L&PM EDITORES
Coleção: L&PM POCKET
Idioma: PORTUGUÊS
Ano: 2008
Nº de Páginas: 141

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016


Atualmente quando se invoca a questão do natal na Inglaterra vitoriana as opiniões se divergem e em muitos casos se complementam. Para alguns se trata da imagem de um conto de fadas com ruas cobertas de neves, pinheiros decorados, padarias abertas, bolos de frutas e famílias reunidas diante da lareira. Para outros se trata de uma espécie de hipocrisia social institucionalizada uma vez que o natal fornecia os meios através dos quais se reafirmava os ideais da tradicional família burguesa, com seus costumes aparentemente imiscíveis dentro do contexto de uma revolução industrial que havia exacerbado as discrepâncias entre riqueza e pobreza nas grandes metrópoles urbanas. No que se refere a sociedade inglesa do século XIX a “questão natalina”, portanto, preserva no seu cerne aquilo que a caracterizava e aquilo que fez dela uma singularidade absoluta: a dualidade.
Perspectivas opostas como método de interpretação e estudo eram algo que se difundiria ao longo de toda a segunda metade do século XIX, sobretudo nas ciências não exatas como a psicanálise freudiana. O inconsciente, o sobrenatural, o fantástico eram temas recorrentes sendo natural sua incorporação gradual aos meios de criação artística. E nesse contexto que se inserem as historias de fantasmas, características pelo tratamento com o qual a morte é encarada. Para os conservadores vitorianos a morte não era o fim da existência terrena, mas o limiar de uma nova forma de existência, daí porque as historias de fantasmas e terror, chamadas narrativas góticas, escritas para as noites de inverno, serem tão amplamente consumidas
Não há duvidas de que “O medico e o monstro” é um produto que carrega marcas indeléveis de seu tempo. Em 1885, Robert Louis Stevenson, na época com 35 anos de idade e com problemas financeiros, recebeu de seu editor a proposta para criar uma narrativa para o mercado de historias góticas do natal. O resultado foi um dos mais famosos textos já escritos, cuja idéia central serviu de amparo para inúmeras adaptações, seja no cinema ou nos desenhos infantis.
Em “O medico e o monstro” vemos a estranha relação entre o Dr. Jekyll e o Sr. Hyde; indivíduos completamente opostos, mas que mantém uma estranha relação de amizade. Trata-se de uma obra onde o mistério consiste no fator determinante de sua grandeza, portanto quanto menos o leitor souber maior o impacto ao final da leitura. Stevenson explorou a dimensão da subjetividade empregando conceitos científicos de sua época. Conceitos da química, como as reações entre ácidos e bases que resultam na formação de sais – mais estáveis do que seus reagentes – são empregados de forma sutil na construção de uma parábola do dualismo psicofísico da natureza humana.
Hyde é o retrato da vontade humana libertada de todo o racionalismo e de qualquer censo moral fabricado pela orientação dos moldes sociais. A instabilidade desencadeada pela dissociação entre ele e o Dr. Jekyll nos leva a questionar a real relevância de nossos aspectos inconscientes na construção daquilo que somos: Seria de fato um benefício abrir mão de nossa essência primitiva? O grau de dependência entre o irracional e o racional, entre a paixão e a razão não seria uma exigência a nossa preservação?
A natureza humana preserva sua contingência e a manifesta continuamente: ora estamos alegres, ora estamos tristes, às vezes desejamos o bem e às vezes o mal, somos capazes de realizar atos altruístas e também de cometer as maiores barbáries. Essa prevalência intermitente de opostos vai de encontro ao determinismo cientifico do século XIX. Jekyll, um homem racional e de mentalidade cientifica, resolve desafiar sua própria contingência moral ao se propor criar uma substancia capaz de separar nosso lado bom do ruim.
Jekyll e Hyde ambíguos na medida de suas adversidades, e sobrepostos por sua contingência, são as bases para um questionamento no mínimo polemico: existe de fato um conflito de ordem destrutiva entre o bem e o mal ou ambos consistem num engendramento preciso e equilibrado que uma vez desfeito se torna destrutivo? Seria o ser humano perfeito uma síntese dos contrários?
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
Editora: PENGUIN COMPANHIA
Idioma: PORTUGUÊS
Ano de Edição: 2015
Nº de Páginas: 160

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016


Para os cidadãos da Grécia antiga os “três grandes” poderiam significar Poseidon, Zeus e Hades, mas para aqueles que viveram e testemunharam o arrasador século XX, eram as imagens de Churchill, Roosevelt e Stalin que simbolizava a figura das três maiores potencias de sua época. Na obra “Os três Grandes”, Jonathan Fenby esmiúça a relação entre os três lideres que estavam à frente da maior coalizão armada da historia. Em um texto extraordinariamente bem escrito e amparado por vasta documentação histórica, vemos a narrativa oscila das questões diplomáticas para os dramas particulares de cada um dos três ícones da historia mundial.
Durante exatos 2174 dias esses três homens – exceto Roosevelt que morreria poucos meses antes do fim do conflito - suportaram a tensão imposta pelo maior acontecimento do século XX. Foram responsáveis por conduzir a maior mobilização de massas da historia, provocaram uma intensa mecanização e um salto tecnológico gigantesco. Para Fenby os verdadeiros protagonistas no cenário político foram Roosevelt, Stalin, Churchill e Hitler. Mussoline, Mão Tse Tung, Chiang Kai-Shek, Charles de Gaule, Tojo e Hiroito compunham o elenco de apoio.
Ocorreram apenas duas reuniões entre os três lideres, e ambas próximas do território soviético. Fenby explica que esse pouco contato entre os representantes da mais importante coalizão militar do ultimo século se deveu ao medo de Stalin de voar. Quando a aliança entre os três se formou, Churchill já estava com sessenta e sete anos, Stalin tinha sessenta e dois e Rossevelt cinquenta e nove. A narrativa de Fenby é ágil, empolgante e não se limita a questões políticas, explorando também o lado humano.
Winston Leonard Spencer Churchill é descrito como o mais impulsivo dos três. Um autêntico produto da sociedade inglesa e do imperialismo vitoriano, muito distante do tradicional gentleman. Descrito como um “grosseirão” de hábitos deploráveis e modos pouco ortodoxos. Sempre com seu charuto a mão era um alcoólatra inveterado. Sua crença exacerbada na suposta superioridade dos anglo-saxões o definia como uma versão inglesa - embora menos genocida – de Hitler. Durante um almoço em Washington, Churchill teria dito ao presidente americano: “Somos superiores.” Foi o líder que mais se movimentou durante a guerra fazendo viagens para a França, através do oceano infestado de submarinos alemães, e até para Moscou.
Roosevelt era a síntese dos Estados Unidos: um aristocrata populista que resgatou o país da grande depressão após o colapso financeiro de 1929. Foi o único dos três a frequentar uma universidade. Como homem político Roosevelt é descrito como um manipulador, visionário e determinado. Como pessoa surge como um homem egoísta, inescrupuloso e desconfiado. Apesar da fachada carismática do líder americano o mesmo possuía uma natureza dominada por um ostracismo singular. Era avesso a qualquer forma de intimidade com terceiros e plenamente convencido de suas capacidades intelectuais. Harry Truman, que assumiu a presidência após a morte de Rossevelt, o descreveu como o “homem mais frio que já conheci.”
Iosef Vissarionovich Djungashvili, ou simplesmente Stalin, aparece como o rústico “urso” soviético. De origem humilde, Stalin era filho de um sapateiro alcoólatra com uma lavadeira. Um ex-seminarista que durante a juventude roubava bancos para financiar o partido de Lenin. Segundo Fenby, Stalin foi um homem que havia se reinventado - mudará seu próprio nome e a sua data de nascimento – e que assumiu o comando de um país rural e o converteu em uma super potencia nuclear. Sua praticidade e desprezo pela vida fizeram dele um dos maiores genocidas de todos os tempos. Hitler era apenas um aluno ao seu lado. Averell Harriman o considerava mais realista que Churchill, mais bem informado que Roosevelt e o mais eficaz comandante dos três.
Stalin era um homem baixo, possuía apenas 1,65m, rosto marcado pela varíola, possuía olhos cor de mel e mãos enormes - quase um vilão dos quadrinhos com suas desproporções. A maioria dos que o conheceram notaram seu habito de nunca encarar alguém diretamente nos olhos. Desconfiado e extremamente vingativo era capaz de manter seu ódio por anos e usá-lo posteriormente. Metódico ao extremo Stalin era um burocrata exemplar, possuía uma memória admirável e era mestre em fazer perguntas incisivas que evidenciassem a fraqueza de seus interlocutores. Roosevelte era mais adepto aos textos escritos do que das performances orais. O presidente americano era fascinado por sua coleção de selos - avaliada em 80 mil dólares - e geralmente terminava seus trabalhos antes do jantar, ao contrario de Stalin e Churchill que costumavam trabalhar até as primeiras horas da madrugada. Stalin se levantava as 11 da manha, assim como Churchill que tinha o habito de ler os jornais na cama enrolado em seu roupão multicolorido de algodão. Churchill era um homem mimado, mas de certa forma benevolente, ao contrario de Stalin, que gostava de humilhar seus subordinados em situações regadas a bebidas.
Roosevelt gostava de fazer exercícios, apesar da sua limitação física causada pela Poliomielite. Churchill gostava de trabalhos de alvenaria e pintura, Stalin era apaixonado por jardinagem e se divertia com seus canteiros de rosas e plantações de limões, mas era avesso a pratica de exercícios, principalmente a natação.
Stalin era o típico sujeito manipulador que gostava mais de prestar atenção nas conversas a sua volta do que falar, economizava palavras que talvez por deixarem de ser ditas diziam muita coisa. Churchill falava compulsivamente. Segundo relatos o Primeiro ministro inglês teria falado ininterruptamente em uma reunião de cúpula das oito da noite até uma e meia da madrugada. Roosevelt era divagador nato. Em muitas situações permanecia neutro diante de um debate retórico, permitindo-se apenas uma rápida, às vezes nem tanto, divagação ao final do mesmo onde pesava as considerações de ambas as partes para um consenso final. Era a típica, e calculada imagem do presidente americano no cenário internacional: uma espécie de arbitro das questões diplomática.
Preparar coquetéis era uma das paixões de Roosevelt. Gostava de bebidas suaves, como martinis e outros destilados associados a frutas. Churchill tinha o habito de tomar uísque logo pela manha. No almoço tomava seu costumeiro brandy, no jantar era acompanhado por vinho ou champanhe e antes de dormir tomava mais algumas doses de uísque. Em certa ocasião, na embaixada britânica no Cairo, teria pedido vinho branco para o café da manha logo depois de já ter tomado dois scotchs. Ao regressar do seu primeiro encontro com Roosevelt Churchil teria pedido um licor para acompanha-lo durante o almoço, depois de alguns minutos pediu conhaque. Quando o garçon o lembrou de que já havia pedido o licor em menos de dez minutos o primeiro ministro respondeu: “Eu sei, quero o brandy para limpa-lo.”
Stalin gostava de vinhos georgianos, mas evitava a tradicional vodka. Preferia embebedar as pessoas a sua volta para “soltar-lhes a língua”. Seus grandes banquetes no Kremlin eram regados a bebidas e Stalin incentivava aqueles que o cercava a consumir destilados enquanto ele permanecia com sua dose de vinho diluído em água.
A narrativa se inicia com a descrição do famoso jantar em Teerã, no dia 29 de novembro de 1943, e segue intercalando os dilemas pessoais e as questões diplomáticas enfrentadas pelos três ícones. Fenby foi capaz de envolver os aspectos político – tão maçantes para a maioria dos leitores – com uma linguagem não apenas clara, mas também cativante. Em suas 487 paginas vemos como um dos maiores eventos do século XX culminaria nos temores da guerra fria
AUTOR TIAGO R. CARVALHO
Editora: NOVA FRONTEIRA -
Idioma: PORTUGUÊS
Ano: 2009
Nº de Páginas: 487

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A CIÊNCIA DO EXTERMINIO


Aparentemente estável e glorioso, o mundo burguês da segunda metade do século XIX já dava sinais de que o século seguinte seria dominado pela violência, pelo preconceito e, sobretudo, pelo medo. De certa forma o próprio progresso cientifico contribuiu para a intolerância e a destruição sem precedentes que se seguiria: Poícare, ao definir que o tempo e o espaço não eram constantes desafiou a mecânica clássica de Newton, rompendo a suposta estabilidade do mundo físico; Pasteur apavorou a sociedade com a descoberta de que as doenças - muitas delas letais - eram causadas por agentes invisíveis a olho nu; Darwin havia exposto sua teoria da sobrevivência do mais adaptável, criando parâmetros biológicos sobre o qual se assentaram os defensores de uma aparente “superioridade” intelectual de determinados seguimentos sociais; e o que dizer da teoria da degeneração genética do medico francês Benedicte Morel, um especialista em epilepsia latente, cujos resultados seriam visíveis somente no século XX, sob a forma de campos de extermínio.
Espantosa sob todos os pontos de vista, a perspectiva nazista é o reflexo de toda a confluência dos aspectos científicos que emergiram no século XIX em meio a uma sociedade naturalmente militarista e orgulhosa de seus feitos. A falta de ética com a qual a ciência alemã foi conduzida após a chegada de Hitler ao poder fez com que o nazismo ditasse a mais significativa ameaça de retrocesso mental, cientifico e ideológico de sua época. John Cornwell nos apresenta na obra “Os cientistas de Hitler – Ciência, guerra e o pacto com o demônio” um retrato da ciência alemã no período pré e pós Hitler, desde os avanços na manipulação de compostos orgânicos, passando pelos dilemas da física quântica e a descoberta da divisão do átomo até o inicio da era atômica.
A política de higiene racial na Alemanha é brilhantemente abordada por Cornwell que faz um paralelo com o surgimento da Eugenia em 1869, passando pelas políticas americanas e britânicas, que com seus entusiastas do método de “seleção genética”, alimentaram a noção abstrata de valor baseada em atributos físicos - essência fundamental do nazismo. As pesquisas medicas nos campos de concentração e o avanço da medicina sob o governo de Hitler são pontos polêmicos da obra: testes relacionados a queda brusca de pressão e temperatura, infecção por doenças, cremação, contaminação por armas químicas, esterilização por raios-x, injeções de hormônios e transplantes de órgãos eram realizados sem qualquer mínimo traço de moralidade ou empatia. Cornwell nos mostra que tanto sofrimento também foi capaz de produzir avanços notáveis: a descoberta dos agentes cancerígenos, a estreita relação entre raios-x e leucemia, a importância da dieta alimentar na prevenção contra diversas formas de câncer e a gigantesca campanha de prevenção – a maior que o mundo já viu – onde foram estimulados os exames de rotina, o abandono do fumo, e redução do consumo de alimentos industrializados e o inicio de uma intensa campanha de saúde publica baseada em coleta de dados estatísticos, vigilância, higiene e prevenção. Durante a leitura chega a ser desconcertante pensar que o mundo viu surgir um lado positivo, ou o melhor da natureza humana, dentro de um contexto onde o seu lado negro era evidenciado pela mais terrível e destrutiva das guerras e pela manifestação mais deplorável de preconceito em relação ao próximo.
As armas que devastaram as cidades e campos de batalha da segunda guerra mundial e as mentes que as idealizaram também são foco de atenção especial do autor, desde os projetistas de foguetes V1 e V2, aos decifradores de códigos até as armas convencionais da guerra como tanques, aviões e submarinos. Trata-se de uma excepcional crônica da ciência alemã do século XX que graças ao seu avanço tecnológico inegável, foi capaz de produzir armas que desencadearam um nível de devastação sem precedentes na história humana. Ao final da obra Cornwell expõe os desdobramentos do avanço cientifico para o período da guerra fria e levanta um debate moral sobre até que ponto indivíduos instruídos são capazes de passar por cima da ética em nome de algo que chamam de ciência. Sua assertiva final não deixa duvidas quanto a sua postura: “Seres humanos primeiro, cientistas depois.”.
AUTOR: TIAGO RODRIGUES CARVALHO
OS CIENTISTAS DE HITLER, CIENCIA, GUERRA, E O PACTO COM O DEMONIO.
Autor: CORNWELL, JOHN
Editora: IMAGO
Número de páginas: 472

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