terça-feira, 2 de fevereiro de 2016


“O conceito mais repleto de significado é a beleza”
– Charlie Chaplin
“O que é um homem senão sua obra? Se nada fez, o que tem para contar?”
– Elvis Presley, My Way.
Musico, roteirista, diretor, ator, humorista, empresário, artista... Gênio! Charles Spencer Chaplin, o eterno Carlitos, cujo carisma e expressividade sem igual foram responsáveis por encabeçar a vanguarda da indústria cinematográfica indo muito além do estilo de criação de sua época – o pastelão e a pantomima – redefinindo o conceito de humor, não por lhe atribuir um novo significado, mas por expor sua excelência como núcleo de criação artística e como forma de reflexão e, sobretudo protesto.
O historiador David Robinson, em sua obra “Chaplin uma biografia definitiva”, nos apresenta um vasto relato sobre a vida de um dos mais icônicos personagens do cinema. Inicialmente a obra foca sua narrativa na conturbada trajetória percorrida pelos pais do pequeno Chaplin na impiedosa Londres do final do século XIX. Seu pai, um ator de teatro alcoólatra que abandonou a família e morreu precocemente aos 37 anos. Sua mãe, também artista de teatro, vivia em asilos psiquiátricos devido a crises de insanidade constantes. O mais interessante neste ponto da obra é que Robinson não se prende a estrita exposição dos dados biográficos dos progenitores de Chaplin e nem comete um erro muito comum em biografias desse gênero: a de querer criar a imagem de uma personalidade que se constrói a revelia das relações de dependência que estabelece com o meio em que este viveu.
Logo nas primeiras paginas vemos que o atual e glamoroso mundo do cinema em nada se parecia com seus primórdios. Originário dos palcos dos teatros de variedades, onde atores mal pagos e assolados pelo alcoolismo eram obrigados a entreter uma platéia exigente, muitas vezes hostil e cuja receptividade ao humor dos palcos variava de acordo com o dia da semana - as segundas feiras eram sempre temidas pelos atores.
Aos pouco a narrativa se concentra no menino frágil que abandonou a escola para ganhar a vida como ajudante de barbearia e vendedor de flores nos tradicionais pubs londrinos. Aos 12 anos ele consegue seu primeiro emprego no teatro atuando como um jornaleiro na famosa peça Sherlock Holmes. A infância difícil de Chaplin não teve apenas a miséria como marca; as dificuldades que enfrentou para conseguir seu lugar junto ao meio artístico nos são apresentadas pelo autor ao retratar a caótica realidade dos artistas de music hall da época: “Cada artista tinha de aprender os segredos de ataque e de estrutura, a necessidade de fazer o show em um crescendo – um inicio, um meio e um final deslumbrante.”
Arrancar aplausos das multidões que lotavam os teatros nas noites de sábado era um obstáculo até para os mais experientes; para um garoto de apenas 12 anos essa era uma realidade no mínimo apavorante. E como se essas dificuldades apenas não fossem suficientes havia ainda algumas leis de licenciamento decretadas na época e que proibiam o dialogo na maioria dos teatros, com exceção de apenas dois. Devido a essa proibição os artistas tinham que se apresentar ao som de musicas de piano e recorrer à mímica para que o enredo fosse compreendido. Segundo David Robinson esse costume foi um importante incentivo ao gênero da pantomima – a arte de representar por meio de gestos. Seu sucesso como ator infantil, e a ajuda de seu meio irmão Sidney, permitiram a Chaplin conseguir um emprego na companhia de teatro de Fred Karno, um dos maiores nomes da indústria do entretenimento, conhecida por suas turnês no interior da Inglaterra. Ao saírem em turnê pelos Estados Unidos o jovem Chaplin foi então descoberto por Mack Sennet, ator e diretor das indústrias Keystone, que imediatamente reconheceu seu potencial na emergente e inovadora era do cinema. Em seus anos com a produtora Keystone, Chaplin ampliou o significado da comedia dando profundidade aos seus personagens unindo o pastelão e a pantomima a um terceiro elemento: a expressão. Seu humor não era claro, mas sugestivo, metafórico.
Inovador no estilo também o era quanto ao método: ao contrario dos outros diretores, que só refilmavam uma cena se algo de errado ocorre-se, Chaplin refazia cada cena inúmeras vezes até atingir a perfeição que desejava. Era obcecado pelo trabalho e perfeccionista ao extremo. A famosa cena da “dança dos pãezinhos” no longa “Em busca do ouro” foi refilmada onze vezes. Chaplin também não trabalhava com roteiros prontos – apenas seus últimos filmes tiveram roteiro – tudo era filmado sem um planejamento e sem uma ordem cronológica. Muitas vezes chegava aos estúdios e descartava as filmagens do dia anterior dizendo que tinha uma ideia melhor.
FOTOGRAFIA MOSTRANDO CHAPLIN AINDA CARACTERIZADO NO ESTÚDIO INCENDIADO DURANTE AS GRAVAÇÕES DE "O CIRCO".
A obra de David Robinson está dividida de acordo com a ordem cronológica de sua filmografia. Em cada capítulo vemos os dramas criativos e as etapas de produção que deram origem a clássicos como O circo, filme que deu a Chaplin seu primeiro Oscar e cujas gravações foram assoladas por eventos trágicos como a morte de sua mãe e um incêndio no estúdio; O Garoto, onde claramente Chaplin explora os dramas de sua infância pobre; Tempos Modernos, filme que reforçou sua imagem como suposto comunista – algo que Chaplin nunca foi, mas que o levou a ser perseguido durante toda a vida pelo FBI; o belíssimo Luzes da cidade; o encantador Em busca do ouro; o polemico O Grande Ditador, primeiro filme falado de Chaplin – embora ele já tenha soltado a voz, porem numa linguagem incompreensiva, em Tempos Modernos – e o ultimo no qual usou o característico traje do “vagabundo”.
O Grande Ditador foi um filme carregado de polemicas, aplaudido e criticado por um igual numero de expectadores. As semelhanças entre Charlie Chaplin e Adolf Hitler são de fato assustadoras: ambos nasceram no mesmo ano, na mesma semana e com apenas 4 dias de diferença. Se já era polemico retratar de forma cômica, satírica e debochada o homem responsável por mergulhar a Europa no pesadelo da carnificina da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) o que dizer de seu famoso e impagável discurso na ultima cena do filme:
“(...) A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. (...) Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. (...) Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! (...)”
Na época em que O Grande Ditador foi lançado o conteúdo humanitário do seu discurso foi visto pela população americana como uma mensagem socialista. “A confusa recepção critica e pública de O grande Ditador revelou, para a crescente aflição de Chaplin, a extensão do sentimento pró-nazista nos Estados Unidos.” - escreveu David Robinson. Se a recepção americana ao filme havia dividido opiniões o mesmo não se pode dizer do seu sucesso imediato na Inglaterra. A estréia nos cinemas ingleses ocorreu em 16 de dezembro de 1940, momento em que a Alemanha havia intensificado seus bombardeios a Londres.
Outro filme, embora pouco conhecido, porem não menos grandioso quanto ao tema é “Monsieur Verdoux”, cujo enredo foi baseado na historia real de um assassino chamado Henri Desire Landru, morto na guilhotina em 1922. O filme apresenta, de forma irônica e genial, as contradições morais da sociedade. O cinismo com o qual seu personagem encara as convenções sociais e morais de sua época ressoam no dialogo de seu personagem durante seu julgamento:
- Que conversa é essa, sobre o bem e o mal? - Forças arbitrárias. Demasiado de uma ou de outra destrói-nos.
- O bem nunca é demais.
- O problema é que nunca tivemos o suficiente. Não sabemos. (...)
- Você é o exemplo trágico de uma vida de crime.
- Como alguém pode ser exemplo nestes tempos de crime?
- Você certamente foi, a roubar e matar pessoas.
- Era um modo de vida.
- As pessoas não vivem assim.
- É a história de grandes generais, guerras e conflitos. Tudo é um negócio. Um assassinato faz um vilão, milhares fazem um herói. A quantidade santifica, meu amigo.
Chaplin aos poucos viu sua consciência política se articular para além dos limites puramente artísticos. O “vagabundo”, que conservava a essência de um lord no estilo britânico, se transliterava no palhaço que se tornava político. Impossível não compará-lo a Plauto (C.254-184 a.c) famoso teatrólogo latino que adotava situações do cotidiano como base para seus enredos. Talvez a frase de Chaplin que mais bem resuma toda a sua obra seja: “Se você estivesse levando a serio as minhas brincadeiras de dizer verdades, você teria ouvido muitas verdades que eu insisto em dizer brincando.”
Mas nem só de feitos se constrói a historia de um homem, e David Robinson não nos apresenta apenas o artista, mas também a figura enigmática por trás dele. A maior parte das mais de 600 paginas da obra “Chaplin uma biografia definitiva” consistem em relatos sobre sua vida pessoal. Poucos poderiam imaginar que por traz do homem que fazia milhões de pessoas rirem se escondia uma figura atormentada por suas relações amorosas. Seus quatro casamentos, sempre com mulheres bem mais jovens – com idade entre 16 e 25 anos – terminaram quase sempre em escândalos e processos de separação envolvendo acordos financeiros. Somente sua ultima esposa Oona O’Neill – que na época do casamento tinha apenas 25 anos e Chaplin já tinha 54 - permaneceu ao seu lado até o fim da vida.
A obra de Robinson é um magistral retrato de uma das figuras mais influentes do século XX. Seu texto nos expõe a dialética construtiva de Chaplin: o tímido extrovertido, o vagabundo obcecado por trabalho, o diretor rígido que criava sem roteiros, o sorridente comediante cujo mau humor era lendário, o pequeno inglês que se tornou um gigante de seu tempo. Sua história, sua personalidade, seus filmes foram construídos por meio de antônimos, do contraste entre opostos.
A própria roupa de seu personagem mais famoso – a cartola pequena, as calças enormes, o paletó apertado e os sapatos grandes – reforçam seus estilo de expor o contraste cômico e igualmente assustador da sociedade: o vagabundo com roupas surradas que se comportava como um cavalheiro, a miséria que servia como amparo para o riso, o palhaço silencioso que com seus gestos e expressões atacava de forma bem humorada os dramas do século XX. Seu modo hábil de explorar as inovações técnica de seu tempo o levou a fazer do cinema uma arte. O mérito da obra de David Robinson se deve a sua capacidade de reafirmar a crença de que a historia de um filme vai muito alem daquilo que vemos nas telas.
AUTOR TIAGO R. CARVALHO
Título Chaplin uma Biografia Definitiva
Autor David Robinson
Editora Novo Século
Número de Páginas 792

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O PREÇO DA VITORIA


A maior parte da população de Dresden preferiu ignorar a alarme de ataque aéreo que soou exatamente as 21h51 de uma terça-feira, 13 de fevereiro de 1945. Foram tantos os alarmes falsos que os mais de 640 mil cidadãos estavam habituados a só buscar abrigo após o segundo alarme. A noite estava clara e uma brisa fria soprava por toda a cidade. A essa altura os motores dos 244 bombardeiros britânicos já podiam ser ouvidos em alguns bairros da periferia. Poucos minutos após as 22h os primeiros aviões surgiram e, em menos de cinco minutos, descarregaram 881 toneladas de bombas no centro histórico da cidade.
Em poucas horas a região central se converteu num mar de chamas e o calor chegou a ser sentido pela tripulação dos bombardeiros a 3 mil metros de altura. Aqueles que conseguiram escapar do inferno que tomou conta do centro histórico não podiam imaginar que o pior ainda estava por vir. Entre a meia noite e o meio dia de 14 de fevereiro a cidade sofreria mais dois ataques devastadores, cujos incêndios foram vistos a mais de oitenta quilômetros da cidade e provocaram a morte de quase 40 mil pessoas.
Sessenta e nove anos após o terrível bombardeio aliado a cidade de Dresden os questionamentos morais acerca do fato ainda rendem debates acalorados. Em “Dresden – terça feira 13 de fevereiro de 1945” o autor Frederick Taylor esmiúça um dos mais conturbados eventos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e se coloca diante de uma proposta, no mínimo, ousada: a de que o bombardeio foi um ataque militar legitimo contra alvos militares e não contra uma cidade indefesa. O caráter fortemente tendencioso da narrativa é um dos pontos fracos da obra, mas os inúmeros relatos impressionantes dos sobreviventes que enfrentaram temperaturas de até quinhentos graus e ventos com mais de oitenta quilômetros por hora, fazem valer a leitura das quase 600 paginas de um texto ágil e absolutamente chocante.
Taylor nos expõe um quadro vivo e sem atenuantes de uma das maiores arenas de sofrimento humano do século XX. Relatos de pessoas que morreram literalmente cozidas enquanto buscavam alivio para o calor dos incêndios dentro das fontes e reservatórios de água da cidade, ou da desesperada luta de sobrevivência – ironicamente um exemplo Darwinista tão amplamente defendido pelos nazistas - em meio a ruas cobertas por asfalto derretido e por corpos de vitimas asfixiados pela fumaça dos incêndios.
Ao amanhecer do dia 14 de fevereiro, “quarta-feira de cinzas”, Dresden já não era mais uma cidade. Reduzida a milhares de toneladas de escombros enegrecidos e deformados pelo calor a chamada “Florença do Elba” estava praticamente irreconhecível. Aqueles que conseguiram sobreviver ao cataclisma da noite anterior tiveram de enfrentar mais uma trágica ironia do destino: varias “grelhas” haviam sido montadas na região da praça do mercado central de Dresden para queimar os corpos retirados dos porões ainda quentes, mesmo após uma semana do bombardeiro. Ao final da leitura é impossível não se questionar sobre a real necessidade de um ataque com tamanha magnitude e violência. Faltava pouco mais de oitenta dias para o fim da segunda guerra mundial. Mas assim como Hiroshima, Dresden é o exemplo trágico de que e “melhor um fim com terror do que um terror sem fim”.
AUTOR: TIAGO RODRIGUES CARVALHO
DRESDEN - TERÇA-FEIRA, 13 DE FEVEREIRO DE 1945
Autor: TAYLOR, FREDERICK
Tradutor: PALOZZI, VITOR
Editora: RECORD
Número de páginas: 588

A REALIDADE ATRAVÉS DE OLHOS ANÔNIMOS


Obra “Uma mulher em Berlim – Diários dos últimos dias de guerra” retrata os dramas da população feminina da capital alemã durante a ocupação soviética.
Ler qualquer obra sobre a Segunda Guerra Mundial não é uma tarefa fácil. É exigida do leitor uma natureza essencialmente paradoxal: sensibilidade para compreender a magnitude daquele momento histórico, cujos dramas particulares talvez não encontrem paralelo equivalente em nenhuma outra época, assim como uma frieza seletiva, fundamental para se conduzir a leitura até o fim.
Não faltam exemplos de obras cujo foco são os dramas vividos pela população civil durante os quase seis anos de conflito. O extermínio nos campos de concentração, a vida nas cidades sob a ocupação nazista bem como relatos biográficos dos sobreviventes, lotam as prateleiras das livrarias atendendo a um publico bastante restrito, ainda que expressivo. Recentemente o publico alvo dessas obras parece ter se tornado mais permeável e menos resiliente quanto à absorção de textos que abordem o drama da população alemã, considerada desde o fim do conflito como a grande vila no contexto da guerra.
Nenhuma dessas obras, no entanto, buscam remodelar a imagem do nazismo ou levantar duvidas quanto a natureza de seus crimes. Através da exposição do sofrimento inigualável que marcou os 12 anos do governo de Adolf Hitler, esses textos acabam por reafirmar a imagem negativa de um governo autoritário, militarista e agressivo que se fechou dentro de um conceito de raça, amparado por uma insanidade ideológica tão absurda que permanece pouco compreendida até os dias atuais.
Em abril de 1945 a Segunda Guerra Mundial na Europa já estava perto do fim. Com a capital alemã cercada e arrasada pelas forças soviéticas não faltaram exemplos de determinação e resistência entre a população daquela que já havia sido uma das mais belas e modernas cidades do mundo. Berlim havia sido reduzida a uma gigantesca arena de sofrimento humano, e naqueles dias finais do conflito a guerra cobraria seu preço daquelas que haviam se mantido distante dos campos de batalha, ainda que obrigadas a conviver com uma escala de destruição até então nunca vista sobre a terra.
Cerca de 100 mil mulheres foram violentadas durante a ocupação soviética de Berlim. O número de suicídios decorrentes dos abusos é ainda incerto. O assunto é uma espécie de tabu para as autoridades da Federação Russa e da própria Alemanha devido ao constrangimento que o mesmo invoca. Parte da população de ambos os países ainda recebem com hostilidade qualquer assunto relacionado ao que definem simplesmente como “aquilo”. Apesar dessa tímida restrição moral, muitas obras de conteúdo “constrangedor” foram publicadas desde o termino do conflito, dentre as quais se pode destacar o livro “Uma mulher em Berlim, diário dos últimos dias de guerra”.
O que vemos nas mais de duzentas paginas do livro é a narração fria e metódica de um campo de batalha infinitamente mais pessoal e cruel, que não pode ser caracterizado através imagem natural que fazemos de um campo coberto de trincheiras, fumaça e arame farpado, mas pela ausência de qualquer resquício de moralidade por parte dos vencedores. Deparamos-nos com uma narrativa viva onde a natureza primitiva e selvagem dos homens encontra espaço dentre as indescritíveis misérias impostas pela realidade da guerra.
Aqui vemos uma singular, e admirável, característica dos eventos históricos: sua tendência natural em se imortalizar através de qualquer objeto que permita um simples registro dos acontecimentos. Em meio os destroços deixados pelas bombas, três simples cadernos escolares serviram para registrar os acontecimentos impressionantes vividos por uma cidadã berlinense entre os dias 20 de abril e 22 de junho de 1945. O texto, em forma de diário, seria datilografado pela própria autora poucos anos após a guerra e entregue a um editor de Nova York. Em 1954 ele é lançado em forma de livro, rendendo desde então criticas variadas.
Apesar da escassa quantidade de dados biográficos sobre a narradora, que resolveu permanecer anônima por motivos que se tornam óbvios ao final da leitura, ainda sim é possível traçar um perfil da mesma com base nas informações disseminadas ao longo do texto. Trata-se de uma mulher na faixa dos trinta anos de idade, proveniente de uma família burguesa e com um a bagagem cultural no mínimo bastante evidente. Após percorrer vários países europeus, chegando inclusive a passar um período em Moscou, ela teria se estabelecido em Berlim, onde permaneceu até a rendição final da Alemanha. A narrativa tem inicio numa sexta feira, dia 20 de abril de 1945, aniversario de 56 anos de Adolf Hitler:
“Sim a guerra vem rolando em direção a Berlim. O que ontem ainda eram resmungos distantes, hoje é um rufar continuo. Respira-se o ruído da artilharia.”
A relação entre os vencedores e os vencidos, ou seja, entre os conquistadores e os conquistados, é desnudada através das palavras de uma testemunha, que apesar do seu empenho em produzir uma narrativa áspera e desprovida de sentimentos, em muitos momentos acaba cedendo aos devaneios de um passado em nítido contraste com a realidade brutal da guerra.
O estupro, no contexto da obra, não se encaixa na clássica definição de crime hediondo; o mesmo emerge como um aspecto do cotidiano da população feminina. Por trás dessa tentativa de banalizar um evento, cuja própria natureza cruel parece agir no sentido contrario, se esconde um impulso feroz de evidenciar os dramas particulares da própria narradora. Em nenhum momento temos a impressão de que a mesma tenta se colocar como vitima dos eventos do qual foi expectadora e muitas vezes antagonista. Relatos impressionantes estão espalhados ao longo do texto, como o da mulher que havia escondido sua aliança de casamento em meio a suas partes íntimas alegando: “Se eles [soviéticos] chegaram até ali, o anel também não me importa mais.”
O primeiro contato com os soldados soviéticos é um dos momentos mais intensos da narrativa. A imagem dos “Ivans” [denominação dada aos soldados soviéticos pelos alemães] dentro dos porões lançando a luz de suas lanternas nos rostos das mulheres ali reunidas, a procura de suas vitimas, é tão viva que temos a impressão de transitarmos entre o papel de leitor e o de expectador daquele espetáculo animalesco. Algumas mulheres preferiam acreditar que sua idade avançada lhes pouparia dos horrendos estupros coletivos, mas para os soviéticos o provérbio alemão “em caminhos muito trilhados, não cresce mais capim”, parecia não fazer muito sentido. Diante de tal quadro de desumanidade é perfeitamente compreensiva uma postura fatalista por parte dos que o presenciaram. Segundo as palavras da própria “anônima”:
“A soma das lagrimas permanece constante. Pouco importa sob que bandeiras e formulas os povos viviam; pouco importa que deuses sigam e qual o salário real que recebem, a soma das lagrimas, das dores, dos medos, com que cada um paga sua existência, permanece constante.”
Uma das questões mais complexas dos textos de caráter biográfico, ou em forma de diário como é o caso, diz respeito a fidelidade factual. Até que ponto podemos acreditar na honestidade do texto? Não pretendo, de modo algum, colocar em cheque a natureza dos crimes cometidos pelos soviéticos. Os estupros, e centenas de outros crimes bárbaros de fato acorreram, não apenas em Berlim, mas em centenas de outras cidades alemãs. A questão é que quando mergulhamos em uma obra cujos testemunhos partem de uma única fonte, inconscientemente remetemos o mesmo a uma espécie de julgamento mental que avalia a autenticidade de tais relatos. É a partir desse trabalho cognitivo, quase que involuntário, que definimos, a posteriori, todo o nosso posicionamento em relação à recepção do conteúdo de suas paginas.
Não é novidade o fato de que muitos relatos de eventos históricos, sobretudo os dramáticos, possuem uma boa parcela de inverdades, ou seja, boa parte dos testemunhos são naturalmente contrafactuais. Embora um relato possa estar em desacordo, do ponto de vista histórico, com a realidade isso não significa que, ao menos do ponto de vista pessoal, aquilo não fosse verdade. Definir uma “inverdade histórica” como uma “verdade particular” pode parecer contraditório de inicio, mas essa contradição é apenas aparente. Para quem esteve lá, naquele momento, como testemunha ocular, com os sentidos subjugados pela imprevisibilidade de uma realidade tão grotesca e anti-humana, aquele relato, por mais improvável que pareça, faz parte da sua realidade e da sua experiência. No plano cognitivo, realidade é aquilo que se sentiu, que se viveu e não que a lógica ou os registros históricos determinam como fatos.
O fluxo imposto a um destino coletivo é capaz de arrasar qualquer traço de resistência individual. O senso e a moralidade desaparecem, cedendo espaço ao puro desespero. Não cabe, portanto, ao leitor o menor traço de julgamento moral quanto ao comportamento da narradora. A este lhe cabe apenas o lugar do espectador, com sua natural impotência diante dos eventos históricos, que apesar de lamentáveis jamais devem ser esquecidos.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
UMA MULHER EM BERLIM, UMA - DIARIO DOS ULTIMOS DIAS DE GUERRA 20/04/1945 A 22/06/1945
Autor: ANONIMO
Tradutor: ZWICK, RENATO
Editora: RECORD
Ano de Lançamento: 2008
Número de páginas: 288

quinta-feira, 26 de novembro de 2015


“Nossa época é uma época essencialmente trágica de modo que nos negamos a encará-la de modo trágico. Houve cataclismo, estamos entre as ruínas, começamos a construir novas casinhas e acalentar novas e leves esperanças. É uma tarefa árdua: não há um caminho cômodo para o futuro: ou nos contornamos o obstáculo, ou saltamos sobre ele. Precisamos viver, não importando quantos céus tenham vindo abaixo.”
D.H. Lawrence
Filho de um operário analfabeto que havia passado a vida trabalhando nas minas de carvão de Eastwood, Inglaterra, e de uma professora intolerante, D. H. Lawrence, um dos mais polêmicos literários de sua época, viveu exatamente como escreveu: intensamente. O jovem de compleição frágil nascido em 11 de setembro de 1885, tímido, pouco carismático e com nenhum talento para os estudos se tornaria um homem obcecado pela ideia de que o amor era algo puramente abstrato e que não se relacionava de nenhuma forma com as inconstâncias primitivas das necessidades físicas.
Lawrence transpôs o conceito de sua época onde o amor físico se transmutava no amor sentimental; ambos se relacionavam como termos devido a sua aparente fluidez natural. Acreditava-se que o sentimento se renovava na forma da atração física e que esta ao perder seu ímpeto natural sedia espaço a serenidade do sentimento fraterno - pensamento no qual o autor do presente texto está completamente de acordo. Esse ciclo alternante entre instinto e ternura, definição inquestionável de amor para os românticos e líricos de sua época, não fazia sentido para o enigmático Lawrence.
Casado aos vinte e sete anos com uma alemã de trinta, já mãe de três filhos e irmã do famoso aviador Manfred Von Richthofen, Lawrence despertou a hostilidade de seus conterrâneos ingleses. O que pensar daquele estranho jovem que gostava de realizar trabalhos domésticos, que cozinhava e que era casado com uma mulher alemã, em plena Primeira Guerra Mundial?
Se seu estilo de vida já era estranho aos olhos da sociedade conservadora da Inglaterra da virada do século o que dizer de sua obra, cujos valores estavam plenamente dissociados do senso comum de sua época? Ao escrever a obra “O amante de Lady Chaterley”, Lawrence buscava explorar o poder dos sentimentos circunscritos pelo convívio e pelo companheirismo em oposição às necessidades impostas pelo corpo físico.
Os críticos de seu tempo classificaram a obra como pornografia barata. Lawrence chegou a pensar em mudar o titulo para “Ternura” na tentativa de reduzir o impacto negativo da obra. Seriam necessários vários anos para que seu texto conseguisse seu merecido espaço junto às obras mais profundas e ricas de significado da literatura universal.
Em “O amante de Lady Chaterley” vemos a história de Constance Chatterley, uma jovem de 23 anos proveniente de uma família de burgueses liberais, que se casa com Clifford Chaterley, um homem arrogante de 29 anos que pouco tempo depois do casamento parte para os campos de batalha da Primeira Guerra Mundial e retorna vivo, porem paralitico. Certo de que não seria mais capaz de satisfazer as necessidades orgânicas de sua companheira, Clifford, escritor e empresário, mergulha no trabalho e aos poucos se distancia de sua jovem esposa.
Ninguém é capaz de satisfazer completamente outra pessoa; é exatamente nessa brecha aberta por nossas impossibilidades que nascem outros amores, outras formas inexplicáveis de afeto: "Toda partida significa um encontro em algum outro lugar. E cada novo encontro é uma nova ligação". A necessidade incondicional de Constance fruto de um casamento de aparências a leva a se relacionar com outros homens até que finalmente conhece o guarda-caças Oliver Mellors, um homem rude e misterioso que buscou no isolamento a cura por seus fracassos amorosos.
O livro e sem duvida uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Lawrence soube abordar de forma inigualável os sentimentos ocultos da imperiosa alma feminina. Ao longo de suas paginas o autor intercala passagens, onde vemos desde uma descrição crua e realista do ato sexual até a linguagem poética com a qual descreve as mudanças ocorridas no corpo e na alma da mulher levada pelo tempo e pelas experiências vividas. Trata-se de um grande dilema na qual a protagonista se vê dividida entre o correto e o incorreto, entre a falha e o excesso o que nos leva a indagar a todo instante ao longo do texto: a mentira seria o mesmo que uma verdade irrelevante?
AUTOR: TIAGO R. CARVALHO
O amante de Lady Chaterley
Páginas: 342
Selo: Martin Claret
OBS: As pintura utilizadas no texto é de autoria do artista Pino Daeni.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015


A terrível carnificina da caça a baleia do século XIX era o equivalente moderno a indústria do petróleo: as enormes cachalotes eram cobiçadas devido ao seu óleo de alta qualidade, utilizado para iluminar os lampiões das cidades e como lubrificantes nas maquinas de um mundo ainda mergulhado nas inovações técnicas da revolução industrial. Somente no ano de 1837, aproximadamente 6767 baleias foram mortas por baleeiros americanos. A baleia cachalote, tida como um dos mais pacíficos dos gigantes marinhos era conhecida por ser um animal pouco agressivo. Nunca haviam sido registrados casos de baleias que haviam atacado embarcações, mas a caça desenfreada a sua espécie, a ponto de levar os marinhos a definir o oceano pacifico como um “mar de óleo e sangue”, havia alterado seu instinto.
Na manha do dia 20 de novembro de 1820, o navio baleeiro Essex, navegava a cerca de 1500 milhas náuticas a oeste do conjunto de ilhas de Galápagos, em pleno oceano pacifico. Nos porões estava à preciosa carga de centenas de barris de óleo de gordura de baleia, extraídos pela tripulação ao longo dos vários meses que estavam no mar. Por volta das 9h um marinheiro de 15 anos, chamado Thomas Nickerson avistou, a cerca de 100 metros do navio, uma enorme cachalote: um macho com 26 metros de comprimento – quase do mesmo tamanho que o próprio navio que possuía 26,5 metros - e pesando aproximadamente 8 toneladas.
Para espanto de todos a bordo o imenso cetáceo começou a nadar em direção a lateral do navio e mergulhou a pouco mais de 30 metros de distancia. Ao passar por baixo da embarcação a baleia estraçalhou o revestimento de cobre e as groças placas de carvalho do fundo do casco. O enorme mamífero marinho, ensandecido pela força do choque contra uma embarcação de 238 toneladas, voltou-se novamente na direção do Essex e o atingiu com um segundo choque, ainda mais violento que o primeiro. O Essex, um navio com mais de 20 anos de idade, não resistiu e adernou num ângulo de 45º. Em poucas horas estaria no fundo do oceano, junto com a enorme baleia que o havia atingido e que nunca mais foi vista após aquela trágica manha de 20 de novembro.
Abandonados a própria sorte em três pequenos botes de madeira os sobreviventes se viram mergulhados em uma das mais cruéis e desesperadoras situações na qual os seres humanos podem se encontrar. Para os 21 apavorados homens a deriva só restava à esperança de navegar em direção à costa oeste da America do Sul antes que seus poucos recursos se esgotassem.
Em uma obra excepcionalmente bem escrita o americano Nathaniel Philbrick apresenta ao leitor a dramática luta pela sobrevivência da tripulação do baleeiro Essex que durante 89 dias enfrentaria as dores das terríveis queimaduras do sol, a fome, a sede que provocava rachaduras dolorosas na boca e inchaços na língua a ponto de impedir que se comunicassem uns com os outros e por fim a exaustão provocada pela inanição. Quando um dos barcos finalmente foi resgatado, em 23 de fevereiro pelo navio Dauphin, a tripulação encontrou no interior do bote uma pilha de ossos dos cinco homens que haviam morrido e sido devorados pelos dois esqueléticos sobreviventes deitados sob uma lona e que mal tinham forças para ficar de pé. A tragédia do Essex percorreu o mundo até que chegou aos ouvidos de um jovem marinheiro chamado Herman Melville, que anos mais tarde escreveria um dos maiores clássicos da literatura americana: Moby Dick.
Philbrick presenteia o leitor com inúmeras informações sobre as baleias cachalotes, sobre os problemas enfrentados pelo corpo humano - reduzidos a uma alimentação de poucas calorias diárias -, os problemas psicológicos decorrentes do cansaço e relatos de naufrágios impressionantes como o navio francês Medusa, que naufragou em 1816 e serviria de inspiração para a pintura de Théodore Géricault. O texto é empolgante, envolvente, ágil e eletrizante. Sem duvida vale a pena acompanhar ao longo das 392 paginas a historia real de 21 homens que enfrentaram nada mais que 2 mil milhas náuticas da imensidão hostil do oceano pacifico em um dos mais inacreditáveis exemplos de resistência, determinação e sobretudo coragem.
Autor: Tiago R. Carvalho
NO CORAÇÃO DO MAR - A história real que inspirou o Moby Dick de Melville
Autor: Nathaniel Philbrick
Título original: IN THE HEART OF THE SEA
Tradução: Rubens Figueiredo
Páginas: 392
Selo: Companhia das Letras

sexta-feira, 18 de setembro de 2015


A ironia pode ser definida como uma importante ferramenta social pois como diria Florbela Espanca “a ironia é a expressão mais perfeita do pensamento.” Dizer o contrário do que se pensa é afastar-se de si mesmo e admirar uma figura construída como ideal de si próprio. Isso pode ser entendido tanto como um narcisismo incontido como uma baixa alto estima. Sócrates era defensor da ironia como ferramenta de linguagem, pois a mesma associada a pratica da maiêutica permite compreender a magnitude do nível de conhecimento do seu interlocutor, em síntese esse comportamento pode ser descrito como um teste para saber com quem de fato estamos nos relacionando. A ironia é a mais bela e admiravel forma de sutileza que circunscreve a sempre retorica comunicação humana. Ser irônico é, portanto, o mesmo que ser cauteloso.
Todo homem é uma forma de duplo oposto de si mesmo: é o exemplo de coexistência entre racional e irracional, entre razão e emoção. É por isso que o conceito de relativo é perfeitamente aplicável ao homem. Sua essência é na verdade seu caráter ambíguo: a predominância alternada ora de uma postura ora de outra. E por isso que muitas vezes o individuo que diante de nós se apresenta cauteloso, assume aos olhos de outro a postura de radical.
A linguagem não mascara o pensamento dos irônicos, mas pelo contrario. Ela é uma expressão berrante que indica o grau de distanciamento entre o que dizemos e o que pensamos; é o único recurso de linguagem humana que é compreendida em sua plenitude apesar de sua origem nitidamente contraditória. O pensamento é compreendido a partir de sua expressão verbal contraria. Em síntese a ironia é nada além de uma forma de sinceridade adornada de muito humor.
Tememos ser desagradáveis; somos obcecados por aceitação social e por isso não dizemos o que realmente pensamos. A verdade é algo que sufocamos diariamente em nome do convívio social. Buscamos em cada frase não a verdade, mas a mentira por trás dela. Estamos sempre buscando significado oculto de cada frase; sempre tentando entender o que não foi dito, o que se esconde por trás da massa cuidadosamente ordenada de palavras. Buscamos a resposta no silencio criado pelo decoro social! O grande drama dessa questão é que a linguagem do silencio não pode ser compreendida da forma usual, ou seja, pela interpretação de palavras não ditas. O silencio não existe! Ele é apenas um emaranhado de palavras ditas de forma diferenciada e que revela muito além daquilo que se espera dele.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

O principal obstáculo que se impõe diante da tentativa de se compreender as civilizações antigas é a tendência quase natural que temos de classificá-las como inferiores ao invés de diferentes. Essa ótica etnocêntrica cria uma abordagem que inevitavelmente encerra todas as formas de cultura, religiosidade e de ciência numa forma estéril e menor de representação.
Os mitos, na medida em que são vistos como lendas, fabulas, em síntese como o conjunto de crenças nas quais esta ausente um encadeamento lógico racional que lhe preste a função de amparo argumentativo, são interpretados simplesmente como uma forma incorreta de religiosidade. Os mitos não necessitam da lógica porque sua adesão à cultura de cada povo acorre através da fé e não de um método rigoroso e técnico de interpretação. Trata-se de uma crença estéril porque é aceita sem questionamento e que se insere de forma insidiosa através dos costumes.
Qual seria então o real valor existente por trás dos mitos, sejam eles gregos, romanos, egípcios ou escandinavos? Se encararmos as lendas como uma tentativa particularizada de explicação da realidade como ela é, certamente enxergaríamos ai tanto sei valor cientifico como artístico, uma vez que consiste na busca por formas abstratas de representação, ainda que pouco racional, da realidade.
Os mitos, portanto, se caracterizam como uma criação artística que na tentativa de explicar o mundo acabou revelando as essências da psique humana. É nesse contexto que a frase do pintor Pablo Picasso expõe toda a sua grandeza e genialidade: “A arte é uma mentira que nos mostra a realidade.”
A idealização e aceitação desses mitos como uma verdade institucionalizada pela vontade nos revela a origem emocional por trás de tais historias. O mundo, com toda a sua amplitude e grandeza é por demais caótico para que seja compreendido em sua plenitude. O conhecimento é intuitivo e começa a partir das partes que compõem o todo. O método de compreensão consiste na constante fragmentação da realidade no plano mental, onde a mesma é reduzida a fragmentos menores através dos quais são feitas afirmações e exclusões arbitrarias cujos resultados são as variadas formas de fé que vemos pelo mundo. Em resumo os mitos revelam aquilo que queremos e o que tememos, na medida em que da vazão as necessidades essências do homem que encerra no seu âmago as inconstâncias de sua natureza primitiva.
Pode se dizer que os mitos gregos da antiguidade representam a primeira tentativa metafórica e mais elevada de representação psicológica. Não faltam exemplos de mitos que possam servir de representação da mecânica do inconsciente, dentre os quais estão os famosos doze trabalhos de Hercules. Segundo a lenda Hercules teria sido encarregado de matar o gigantesco e feroz leão que vinha aterrorizando o vale da região da Némeia. O monstro era impenetrável as flechas e lanças dos mortais graças a uma porção mágica feita por Selene, uma feiticeira que havia sido expulsa da cidade e que havia prometido se vingar de seus habitantes.
Quando Hercules finalmente conseguiu encontrar a fera no interior de uma caverna ele a teria estrangulado, pois suas armas não eram capazes de ferir o monstro. Na ocasião Hercules teria se lembrado dos conselhos da deusa Minerva – deusa da sabedoria - que disse para que usasse a inteligência ao invés da força.
O mito de Hercules e o Leão da Némeia é uma representação metafórica de que somente o uso da razão é capaz de sufocar a fera que existe dentro de cada um. De como nosso ego - representado pela pele do leão - se acha inatingível; e de como nos tornamos mais fortes quando enfrentamos aquilo que de certa forma é o oposto do que somos, nossa nêmeses. Na pratica a alegoria da pele do leão nos mostra que apesar da recusa em se revelar completamente para o outro, ninguém é completamente impenetrável.
De acordo com a concepção freudiana de inconsciente os mecanismos que o delimitam se articulam na busca pelo consenso, pelo equilíbrio. Da vontade, em constante atrito com a realidade, surge o que somos. Nascemos acolhidos pelos braços da contradição, talvez esteja ai a explicação para nossa natureza complexa. Verdades ou mentiras os mitos cumprem perfeitamente sua função: ensina-nos a enxergar quem somos e nos mostra que na maioria das vezes as mentiras dizem apenas verdades.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

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