terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O PREÇO DA VITORIA


A maior parte da população de Dresden preferiu ignorar a alarme de ataque aéreo que soou exatamente as 21h51 de uma terça-feira, 13 de fevereiro de 1945. Foram tantos os alarmes falsos que os mais de 640 mil cidadãos estavam habituados a só buscar abrigo após o segundo alarme. A noite estava clara e uma brisa fria soprava por toda a cidade. A essa altura os motores dos 244 bombardeiros britânicos já podiam ser ouvidos em alguns bairros da periferia. Poucos minutos após as 22h os primeiros aviões surgiram e, em menos de cinco minutos, descarregaram 881 toneladas de bombas no centro histórico da cidade.
Em poucas horas a região central se converteu num mar de chamas e o calor chegou a ser sentido pela tripulação dos bombardeiros a 3 mil metros de altura. Aqueles que conseguiram escapar do inferno que tomou conta do centro histórico não podiam imaginar que o pior ainda estava por vir. Entre a meia noite e o meio dia de 14 de fevereiro a cidade sofreria mais dois ataques devastadores, cujos incêndios foram vistos a mais de oitenta quilômetros da cidade e provocaram a morte de quase 40 mil pessoas.
Sessenta e nove anos após o terrível bombardeio aliado a cidade de Dresden os questionamentos morais acerca do fato ainda rendem debates acalorados. Em “Dresden – terça feira 13 de fevereiro de 1945” o autor Frederick Taylor esmiúça um dos mais conturbados eventos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e se coloca diante de uma proposta, no mínimo, ousada: a de que o bombardeio foi um ataque militar legitimo contra alvos militares e não contra uma cidade indefesa. O caráter fortemente tendencioso da narrativa é um dos pontos fracos da obra, mas os inúmeros relatos impressionantes dos sobreviventes que enfrentaram temperaturas de até quinhentos graus e ventos com mais de oitenta quilômetros por hora, fazem valer a leitura das quase 600 paginas de um texto ágil e absolutamente chocante.
Taylor nos expõe um quadro vivo e sem atenuantes de uma das maiores arenas de sofrimento humano do século XX. Relatos de pessoas que morreram literalmente cozidas enquanto buscavam alivio para o calor dos incêndios dentro das fontes e reservatórios de água da cidade, ou da desesperada luta de sobrevivência – ironicamente um exemplo Darwinista tão amplamente defendido pelos nazistas - em meio a ruas cobertas por asfalto derretido e por corpos de vitimas asfixiados pela fumaça dos incêndios.
Ao amanhecer do dia 14 de fevereiro, “quarta-feira de cinzas”, Dresden já não era mais uma cidade. Reduzida a milhares de toneladas de escombros enegrecidos e deformados pelo calor a chamada “Florença do Elba” estava praticamente irreconhecível. Aqueles que conseguiram sobreviver ao cataclisma da noite anterior tiveram de enfrentar mais uma trágica ironia do destino: varias “grelhas” haviam sido montadas na região da praça do mercado central de Dresden para queimar os corpos retirados dos porões ainda quentes, mesmo após uma semana do bombardeiro. Ao final da leitura é impossível não se questionar sobre a real necessidade de um ataque com tamanha magnitude e violência. Faltava pouco mais de oitenta dias para o fim da segunda guerra mundial. Mas assim como Hiroshima, Dresden é o exemplo trágico de que e “melhor um fim com terror do que um terror sem fim”.
AUTOR: TIAGO RODRIGUES CARVALHO
DRESDEN - TERÇA-FEIRA, 13 DE FEVEREIRO DE 1945
Autor: TAYLOR, FREDERICK
Tradutor: PALOZZI, VITOR
Editora: RECORD
Número de páginas: 588

A REALIDADE ATRAVÉS DE OLHOS ANÔNIMOS


Obra “Uma mulher em Berlim – Diários dos últimos dias de guerra” retrata os dramas da população feminina da capital alemã durante a ocupação soviética.
Ler qualquer obra sobre a Segunda Guerra Mundial não é uma tarefa fácil. É exigida do leitor uma natureza essencialmente paradoxal: sensibilidade para compreender a magnitude daquele momento histórico, cujos dramas particulares talvez não encontrem paralelo equivalente em nenhuma outra época, assim como uma frieza seletiva, fundamental para se conduzir a leitura até o fim.
Não faltam exemplos de obras cujo foco são os dramas vividos pela população civil durante os quase seis anos de conflito. O extermínio nos campos de concentração, a vida nas cidades sob a ocupação nazista bem como relatos biográficos dos sobreviventes, lotam as prateleiras das livrarias atendendo a um publico bastante restrito, ainda que expressivo. Recentemente o publico alvo dessas obras parece ter se tornado mais permeável e menos resiliente quanto à absorção de textos que abordem o drama da população alemã, considerada desde o fim do conflito como a grande vila no contexto da guerra.
Nenhuma dessas obras, no entanto, buscam remodelar a imagem do nazismo ou levantar duvidas quanto a natureza de seus crimes. Através da exposição do sofrimento inigualável que marcou os 12 anos do governo de Adolf Hitler, esses textos acabam por reafirmar a imagem negativa de um governo autoritário, militarista e agressivo que se fechou dentro de um conceito de raça, amparado por uma insanidade ideológica tão absurda que permanece pouco compreendida até os dias atuais.
Em abril de 1945 a Segunda Guerra Mundial na Europa já estava perto do fim. Com a capital alemã cercada e arrasada pelas forças soviéticas não faltaram exemplos de determinação e resistência entre a população daquela que já havia sido uma das mais belas e modernas cidades do mundo. Berlim havia sido reduzida a uma gigantesca arena de sofrimento humano, e naqueles dias finais do conflito a guerra cobraria seu preço daquelas que haviam se mantido distante dos campos de batalha, ainda que obrigadas a conviver com uma escala de destruição até então nunca vista sobre a terra.
Cerca de 100 mil mulheres foram violentadas durante a ocupação soviética de Berlim. O número de suicídios decorrentes dos abusos é ainda incerto. O assunto é uma espécie de tabu para as autoridades da Federação Russa e da própria Alemanha devido ao constrangimento que o mesmo invoca. Parte da população de ambos os países ainda recebem com hostilidade qualquer assunto relacionado ao que definem simplesmente como “aquilo”. Apesar dessa tímida restrição moral, muitas obras de conteúdo “constrangedor” foram publicadas desde o termino do conflito, dentre as quais se pode destacar o livro “Uma mulher em Berlim, diário dos últimos dias de guerra”.
O que vemos nas mais de duzentas paginas do livro é a narração fria e metódica de um campo de batalha infinitamente mais pessoal e cruel, que não pode ser caracterizado através imagem natural que fazemos de um campo coberto de trincheiras, fumaça e arame farpado, mas pela ausência de qualquer resquício de moralidade por parte dos vencedores. Deparamos-nos com uma narrativa viva onde a natureza primitiva e selvagem dos homens encontra espaço dentre as indescritíveis misérias impostas pela realidade da guerra.
Aqui vemos uma singular, e admirável, característica dos eventos históricos: sua tendência natural em se imortalizar através de qualquer objeto que permita um simples registro dos acontecimentos. Em meio os destroços deixados pelas bombas, três simples cadernos escolares serviram para registrar os acontecimentos impressionantes vividos por uma cidadã berlinense entre os dias 20 de abril e 22 de junho de 1945. O texto, em forma de diário, seria datilografado pela própria autora poucos anos após a guerra e entregue a um editor de Nova York. Em 1954 ele é lançado em forma de livro, rendendo desde então criticas variadas.
Apesar da escassa quantidade de dados biográficos sobre a narradora, que resolveu permanecer anônima por motivos que se tornam óbvios ao final da leitura, ainda sim é possível traçar um perfil da mesma com base nas informações disseminadas ao longo do texto. Trata-se de uma mulher na faixa dos trinta anos de idade, proveniente de uma família burguesa e com um a bagagem cultural no mínimo bastante evidente. Após percorrer vários países europeus, chegando inclusive a passar um período em Moscou, ela teria se estabelecido em Berlim, onde permaneceu até a rendição final da Alemanha. A narrativa tem inicio numa sexta feira, dia 20 de abril de 1945, aniversario de 56 anos de Adolf Hitler:
“Sim a guerra vem rolando em direção a Berlim. O que ontem ainda eram resmungos distantes, hoje é um rufar continuo. Respira-se o ruído da artilharia.”
A relação entre os vencedores e os vencidos, ou seja, entre os conquistadores e os conquistados, é desnudada através das palavras de uma testemunha, que apesar do seu empenho em produzir uma narrativa áspera e desprovida de sentimentos, em muitos momentos acaba cedendo aos devaneios de um passado em nítido contraste com a realidade brutal da guerra.
O estupro, no contexto da obra, não se encaixa na clássica definição de crime hediondo; o mesmo emerge como um aspecto do cotidiano da população feminina. Por trás dessa tentativa de banalizar um evento, cuja própria natureza cruel parece agir no sentido contrario, se esconde um impulso feroz de evidenciar os dramas particulares da própria narradora. Em nenhum momento temos a impressão de que a mesma tenta se colocar como vitima dos eventos do qual foi expectadora e muitas vezes antagonista. Relatos impressionantes estão espalhados ao longo do texto, como o da mulher que havia escondido sua aliança de casamento em meio a suas partes íntimas alegando: “Se eles [soviéticos] chegaram até ali, o anel também não me importa mais.”
O primeiro contato com os soldados soviéticos é um dos momentos mais intensos da narrativa. A imagem dos “Ivans” [denominação dada aos soldados soviéticos pelos alemães] dentro dos porões lançando a luz de suas lanternas nos rostos das mulheres ali reunidas, a procura de suas vitimas, é tão viva que temos a impressão de transitarmos entre o papel de leitor e o de expectador daquele espetáculo animalesco. Algumas mulheres preferiam acreditar que sua idade avançada lhes pouparia dos horrendos estupros coletivos, mas para os soviéticos o provérbio alemão “em caminhos muito trilhados, não cresce mais capim”, parecia não fazer muito sentido. Diante de tal quadro de desumanidade é perfeitamente compreensiva uma postura fatalista por parte dos que o presenciaram. Segundo as palavras da própria “anônima”:
“A soma das lagrimas permanece constante. Pouco importa sob que bandeiras e formulas os povos viviam; pouco importa que deuses sigam e qual o salário real que recebem, a soma das lagrimas, das dores, dos medos, com que cada um paga sua existência, permanece constante.”
Uma das questões mais complexas dos textos de caráter biográfico, ou em forma de diário como é o caso, diz respeito a fidelidade factual. Até que ponto podemos acreditar na honestidade do texto? Não pretendo, de modo algum, colocar em cheque a natureza dos crimes cometidos pelos soviéticos. Os estupros, e centenas de outros crimes bárbaros de fato acorreram, não apenas em Berlim, mas em centenas de outras cidades alemãs. A questão é que quando mergulhamos em uma obra cujos testemunhos partem de uma única fonte, inconscientemente remetemos o mesmo a uma espécie de julgamento mental que avalia a autenticidade de tais relatos. É a partir desse trabalho cognitivo, quase que involuntário, que definimos, a posteriori, todo o nosso posicionamento em relação à recepção do conteúdo de suas paginas.
Não é novidade o fato de que muitos relatos de eventos históricos, sobretudo os dramáticos, possuem uma boa parcela de inverdades, ou seja, boa parte dos testemunhos são naturalmente contrafactuais. Embora um relato possa estar em desacordo, do ponto de vista histórico, com a realidade isso não significa que, ao menos do ponto de vista pessoal, aquilo não fosse verdade. Definir uma “inverdade histórica” como uma “verdade particular” pode parecer contraditório de inicio, mas essa contradição é apenas aparente. Para quem esteve lá, naquele momento, como testemunha ocular, com os sentidos subjugados pela imprevisibilidade de uma realidade tão grotesca e anti-humana, aquele relato, por mais improvável que pareça, faz parte da sua realidade e da sua experiência. No plano cognitivo, realidade é aquilo que se sentiu, que se viveu e não que a lógica ou os registros históricos determinam como fatos.
O fluxo imposto a um destino coletivo é capaz de arrasar qualquer traço de resistência individual. O senso e a moralidade desaparecem, cedendo espaço ao puro desespero. Não cabe, portanto, ao leitor o menor traço de julgamento moral quanto ao comportamento da narradora. A este lhe cabe apenas o lugar do espectador, com sua natural impotência diante dos eventos históricos, que apesar de lamentáveis jamais devem ser esquecidos.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO
UMA MULHER EM BERLIM, UMA - DIARIO DOS ULTIMOS DIAS DE GUERRA 20/04/1945 A 22/06/1945
Autor: ANONIMO
Tradutor: ZWICK, RENATO
Editora: RECORD
Ano de Lançamento: 2008
Número de páginas: 288

quinta-feira, 26 de novembro de 2015


“Nossa época é uma época essencialmente trágica de modo que nos negamos a encará-la de modo trágico. Houve cataclismo, estamos entre as ruínas, começamos a construir novas casinhas e acalentar novas e leves esperanças. É uma tarefa árdua: não há um caminho cômodo para o futuro: ou nos contornamos o obstáculo, ou saltamos sobre ele. Precisamos viver, não importando quantos céus tenham vindo abaixo.”
D.H. Lawrence
Filho de um operário analfabeto que havia passado a vida trabalhando nas minas de carvão de Eastwood, Inglaterra, e de uma professora intolerante, D. H. Lawrence, um dos mais polêmicos literários de sua época, viveu exatamente como escreveu: intensamente. O jovem de compleição frágil nascido em 11 de setembro de 1885, tímido, pouco carismático e com nenhum talento para os estudos se tornaria um homem obcecado pela ideia de que o amor era algo puramente abstrato e que não se relacionava de nenhuma forma com as inconstâncias primitivas das necessidades físicas.
Lawrence transpôs o conceito de sua época onde o amor físico se transmutava no amor sentimental; ambos se relacionavam como termos devido a sua aparente fluidez natural. Acreditava-se que o sentimento se renovava na forma da atração física e que esta ao perder seu ímpeto natural sedia espaço a serenidade do sentimento fraterno - pensamento no qual o autor do presente texto está completamente de acordo. Esse ciclo alternante entre instinto e ternura, definição inquestionável de amor para os românticos e líricos de sua época, não fazia sentido para o enigmático Lawrence.
Casado aos vinte e sete anos com uma alemã de trinta, já mãe de três filhos e irmã do famoso aviador Manfred Von Richthofen, Lawrence despertou a hostilidade de seus conterrâneos ingleses. O que pensar daquele estranho jovem que gostava de realizar trabalhos domésticos, que cozinhava e que era casado com uma mulher alemã, em plena Primeira Guerra Mundial?
Se seu estilo de vida já era estranho aos olhos da sociedade conservadora da Inglaterra da virada do século o que dizer de sua obra, cujos valores estavam plenamente dissociados do senso comum de sua época? Ao escrever a obra “O amante de Lady Chaterley”, Lawrence buscava explorar o poder dos sentimentos circunscritos pelo convívio e pelo companheirismo em oposição às necessidades impostas pelo corpo físico.
Os críticos de seu tempo classificaram a obra como pornografia barata. Lawrence chegou a pensar em mudar o titulo para “Ternura” na tentativa de reduzir o impacto negativo da obra. Seriam necessários vários anos para que seu texto conseguisse seu merecido espaço junto às obras mais profundas e ricas de significado da literatura universal.
Em “O amante de Lady Chaterley” vemos a história de Constance Chatterley, uma jovem de 23 anos proveniente de uma família de burgueses liberais, que se casa com Clifford Chaterley, um homem arrogante de 29 anos que pouco tempo depois do casamento parte para os campos de batalha da Primeira Guerra Mundial e retorna vivo, porem paralitico. Certo de que não seria mais capaz de satisfazer as necessidades orgânicas de sua companheira, Clifford, escritor e empresário, mergulha no trabalho e aos poucos se distancia de sua jovem esposa.
Ninguém é capaz de satisfazer completamente outra pessoa; é exatamente nessa brecha aberta por nossas impossibilidades que nascem outros amores, outras formas inexplicáveis de afeto: "Toda partida significa um encontro em algum outro lugar. E cada novo encontro é uma nova ligação". A necessidade incondicional de Constance fruto de um casamento de aparências a leva a se relacionar com outros homens até que finalmente conhece o guarda-caças Oliver Mellors, um homem rude e misterioso que buscou no isolamento a cura por seus fracassos amorosos.
O livro e sem duvida uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Lawrence soube abordar de forma inigualável os sentimentos ocultos da imperiosa alma feminina. Ao longo de suas paginas o autor intercala passagens, onde vemos desde uma descrição crua e realista do ato sexual até a linguagem poética com a qual descreve as mudanças ocorridas no corpo e na alma da mulher levada pelo tempo e pelas experiências vividas. Trata-se de um grande dilema na qual a protagonista se vê dividida entre o correto e o incorreto, entre a falha e o excesso o que nos leva a indagar a todo instante ao longo do texto: a mentira seria o mesmo que uma verdade irrelevante?
AUTOR: TIAGO R. CARVALHO
O amante de Lady Chaterley
Páginas: 342
Selo: Martin Claret
OBS: As pintura utilizadas no texto é de autoria do artista Pino Daeni.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015


A terrível carnificina da caça a baleia do século XIX era o equivalente moderno a indústria do petróleo: as enormes cachalotes eram cobiçadas devido ao seu óleo de alta qualidade, utilizado para iluminar os lampiões das cidades e como lubrificantes nas maquinas de um mundo ainda mergulhado nas inovações técnicas da revolução industrial. Somente no ano de 1837, aproximadamente 6767 baleias foram mortas por baleeiros americanos. A baleia cachalote, tida como um dos mais pacíficos dos gigantes marinhos era conhecida por ser um animal pouco agressivo. Nunca haviam sido registrados casos de baleias que haviam atacado embarcações, mas a caça desenfreada a sua espécie, a ponto de levar os marinhos a definir o oceano pacifico como um “mar de óleo e sangue”, havia alterado seu instinto.
Na manha do dia 20 de novembro de 1820, o navio baleeiro Essex, navegava a cerca de 1500 milhas náuticas a oeste do conjunto de ilhas de Galápagos, em pleno oceano pacifico. Nos porões estava à preciosa carga de centenas de barris de óleo de gordura de baleia, extraídos pela tripulação ao longo dos vários meses que estavam no mar. Por volta das 9h um marinheiro de 15 anos, chamado Thomas Nickerson avistou, a cerca de 100 metros do navio, uma enorme cachalote: um macho com 26 metros de comprimento – quase do mesmo tamanho que o próprio navio que possuía 26,5 metros - e pesando aproximadamente 8 toneladas.
Para espanto de todos a bordo o imenso cetáceo começou a nadar em direção a lateral do navio e mergulhou a pouco mais de 30 metros de distancia. Ao passar por baixo da embarcação a baleia estraçalhou o revestimento de cobre e as groças placas de carvalho do fundo do casco. O enorme mamífero marinho, ensandecido pela força do choque contra uma embarcação de 238 toneladas, voltou-se novamente na direção do Essex e o atingiu com um segundo choque, ainda mais violento que o primeiro. O Essex, um navio com mais de 20 anos de idade, não resistiu e adernou num ângulo de 45º. Em poucas horas estaria no fundo do oceano, junto com a enorme baleia que o havia atingido e que nunca mais foi vista após aquela trágica manha de 20 de novembro.
Abandonados a própria sorte em três pequenos botes de madeira os sobreviventes se viram mergulhados em uma das mais cruéis e desesperadoras situações na qual os seres humanos podem se encontrar. Para os 21 apavorados homens a deriva só restava à esperança de navegar em direção à costa oeste da America do Sul antes que seus poucos recursos se esgotassem.
Em uma obra excepcionalmente bem escrita o americano Nathaniel Philbrick apresenta ao leitor a dramática luta pela sobrevivência da tripulação do baleeiro Essex que durante 89 dias enfrentaria as dores das terríveis queimaduras do sol, a fome, a sede que provocava rachaduras dolorosas na boca e inchaços na língua a ponto de impedir que se comunicassem uns com os outros e por fim a exaustão provocada pela inanição. Quando um dos barcos finalmente foi resgatado, em 23 de fevereiro pelo navio Dauphin, a tripulação encontrou no interior do bote uma pilha de ossos dos cinco homens que haviam morrido e sido devorados pelos dois esqueléticos sobreviventes deitados sob uma lona e que mal tinham forças para ficar de pé. A tragédia do Essex percorreu o mundo até que chegou aos ouvidos de um jovem marinheiro chamado Herman Melville, que anos mais tarde escreveria um dos maiores clássicos da literatura americana: Moby Dick.
Philbrick presenteia o leitor com inúmeras informações sobre as baleias cachalotes, sobre os problemas enfrentados pelo corpo humano - reduzidos a uma alimentação de poucas calorias diárias -, os problemas psicológicos decorrentes do cansaço e relatos de naufrágios impressionantes como o navio francês Medusa, que naufragou em 1816 e serviria de inspiração para a pintura de Théodore Géricault. O texto é empolgante, envolvente, ágil e eletrizante. Sem duvida vale a pena acompanhar ao longo das 392 paginas a historia real de 21 homens que enfrentaram nada mais que 2 mil milhas náuticas da imensidão hostil do oceano pacifico em um dos mais inacreditáveis exemplos de resistência, determinação e sobretudo coragem.
Autor: Tiago R. Carvalho
NO CORAÇÃO DO MAR - A história real que inspirou o Moby Dick de Melville
Autor: Nathaniel Philbrick
Título original: IN THE HEART OF THE SEA
Tradução: Rubens Figueiredo
Páginas: 392
Selo: Companhia das Letras

sexta-feira, 18 de setembro de 2015


A ironia pode ser definida como uma importante ferramenta social pois como diria Florbela Espanca “a ironia é a expressão mais perfeita do pensamento.” Dizer o contrário do que se pensa é afastar-se de si mesmo e admirar uma figura construída como ideal de si próprio. Isso pode ser entendido tanto como um narcisismo incontido como uma baixa alto estima. Sócrates era defensor da ironia como ferramenta de linguagem, pois a mesma associada a pratica da maiêutica permite compreender a magnitude do nível de conhecimento do seu interlocutor, em síntese esse comportamento pode ser descrito como um teste para saber com quem de fato estamos nos relacionando. A ironia é a mais bela e admiravel forma de sutileza que circunscreve a sempre retorica comunicação humana. Ser irônico é, portanto, o mesmo que ser cauteloso.
Todo homem é uma forma de duplo oposto de si mesmo: é o exemplo de coexistência entre racional e irracional, entre razão e emoção. É por isso que o conceito de relativo é perfeitamente aplicável ao homem. Sua essência é na verdade seu caráter ambíguo: a predominância alternada ora de uma postura ora de outra. E por isso que muitas vezes o individuo que diante de nós se apresenta cauteloso, assume aos olhos de outro a postura de radical.
A linguagem não mascara o pensamento dos irônicos, mas pelo contrario. Ela é uma expressão berrante que indica o grau de distanciamento entre o que dizemos e o que pensamos; é o único recurso de linguagem humana que é compreendida em sua plenitude apesar de sua origem nitidamente contraditória. O pensamento é compreendido a partir de sua expressão verbal contraria. Em síntese a ironia é nada além de uma forma de sinceridade adornada de muito humor.
Tememos ser desagradáveis; somos obcecados por aceitação social e por isso não dizemos o que realmente pensamos. A verdade é algo que sufocamos diariamente em nome do convívio social. Buscamos em cada frase não a verdade, mas a mentira por trás dela. Estamos sempre buscando significado oculto de cada frase; sempre tentando entender o que não foi dito, o que se esconde por trás da massa cuidadosamente ordenada de palavras. Buscamos a resposta no silencio criado pelo decoro social! O grande drama dessa questão é que a linguagem do silencio não pode ser compreendida da forma usual, ou seja, pela interpretação de palavras não ditas. O silencio não existe! Ele é apenas um emaranhado de palavras ditas de forma diferenciada e que revela muito além daquilo que se espera dele.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

O principal obstáculo que se impõe diante da tentativa de se compreender as civilizações antigas é a tendência quase natural que temos de classificá-las como inferiores ao invés de diferentes. Essa ótica etnocêntrica cria uma abordagem que inevitavelmente encerra todas as formas de cultura, religiosidade e de ciência numa forma estéril e menor de representação.
Os mitos, na medida em que são vistos como lendas, fabulas, em síntese como o conjunto de crenças nas quais esta ausente um encadeamento lógico racional que lhe preste a função de amparo argumentativo, são interpretados simplesmente como uma forma incorreta de religiosidade. Os mitos não necessitam da lógica porque sua adesão à cultura de cada povo acorre através da fé e não de um método rigoroso e técnico de interpretação. Trata-se de uma crença estéril porque é aceita sem questionamento e que se insere de forma insidiosa através dos costumes.
Qual seria então o real valor existente por trás dos mitos, sejam eles gregos, romanos, egípcios ou escandinavos? Se encararmos as lendas como uma tentativa particularizada de explicação da realidade como ela é, certamente enxergaríamos ai tanto sei valor cientifico como artístico, uma vez que consiste na busca por formas abstratas de representação, ainda que pouco racional, da realidade.
Os mitos, portanto, se caracterizam como uma criação artística que na tentativa de explicar o mundo acabou revelando as essências da psique humana. É nesse contexto que a frase do pintor Pablo Picasso expõe toda a sua grandeza e genialidade: “A arte é uma mentira que nos mostra a realidade.”
A idealização e aceitação desses mitos como uma verdade institucionalizada pela vontade nos revela a origem emocional por trás de tais historias. O mundo, com toda a sua amplitude e grandeza é por demais caótico para que seja compreendido em sua plenitude. O conhecimento é intuitivo e começa a partir das partes que compõem o todo. O método de compreensão consiste na constante fragmentação da realidade no plano mental, onde a mesma é reduzida a fragmentos menores através dos quais são feitas afirmações e exclusões arbitrarias cujos resultados são as variadas formas de fé que vemos pelo mundo. Em resumo os mitos revelam aquilo que queremos e o que tememos, na medida em que da vazão as necessidades essências do homem que encerra no seu âmago as inconstâncias de sua natureza primitiva.
Pode se dizer que os mitos gregos da antiguidade representam a primeira tentativa metafórica e mais elevada de representação psicológica. Não faltam exemplos de mitos que possam servir de representação da mecânica do inconsciente, dentre os quais estão os famosos doze trabalhos de Hercules. Segundo a lenda Hercules teria sido encarregado de matar o gigantesco e feroz leão que vinha aterrorizando o vale da região da Némeia. O monstro era impenetrável as flechas e lanças dos mortais graças a uma porção mágica feita por Selene, uma feiticeira que havia sido expulsa da cidade e que havia prometido se vingar de seus habitantes.
Quando Hercules finalmente conseguiu encontrar a fera no interior de uma caverna ele a teria estrangulado, pois suas armas não eram capazes de ferir o monstro. Na ocasião Hercules teria se lembrado dos conselhos da deusa Minerva – deusa da sabedoria - que disse para que usasse a inteligência ao invés da força.
O mito de Hercules e o Leão da Némeia é uma representação metafórica de que somente o uso da razão é capaz de sufocar a fera que existe dentro de cada um. De como nosso ego - representado pela pele do leão - se acha inatingível; e de como nos tornamos mais fortes quando enfrentamos aquilo que de certa forma é o oposto do que somos, nossa nêmeses. Na pratica a alegoria da pele do leão nos mostra que apesar da recusa em se revelar completamente para o outro, ninguém é completamente impenetrável.
De acordo com a concepção freudiana de inconsciente os mecanismos que o delimitam se articulam na busca pelo consenso, pelo equilíbrio. Da vontade, em constante atrito com a realidade, surge o que somos. Nascemos acolhidos pelos braços da contradição, talvez esteja ai a explicação para nossa natureza complexa. Verdades ou mentiras os mitos cumprem perfeitamente sua função: ensina-nos a enxergar quem somos e nos mostra que na maioria das vezes as mentiras dizem apenas verdades.
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

domingo, 30 de agosto de 2015

A IRRACIONALIDADE ILUSORIA DO COMPORTAMENTO


Nada cuja origem seja o homem pode ser considerado irracional. A mais ilusória falta de sentido por trás de determinado comportamento possui um amparo de ordem racional, ainda que esta forma particular de racionalidade não esteja alinhada com aquela amplamente difundida e generalizada. Aquele que de certa forma não se enquadra no modelo arbitrário de perfeição, isto é, o diferente, o exótico, o “anormal” consegue se dissociar da massa por que reserva para si a incompreensão como característica. Esses indivíduos são habilidosos na arte de ocultar a estrutura inconsciente que ordena o seu comportamento: o motivo!
Descobrir o que leva alguém a tomar determinadas atitudes é o mesmo que enxergar aquilo que constrói a articulação central de sua personalidade, como indivíduo, e de sua identidade, como ser social. É justamente ali, na origem subjetiva de seu comportamento que alguma lógica real pode ser encontrada. Como diria o gênio Charlie Chaplin "Muitas vezes um rosto é doce por causa do sal de suas lagrimas"; não há nenhum paradoxo nessa frase, apenas a constatação de que a dor nos modela a face.
Se deseja compreender alguém, decifrar o enigma de sua existência, enxergar sua forma altamente particularizada de beleza, não tenha medo...aproxime-se, sinta sua respiração, escute atenciosamente suas palavras – mesmo aquelas que não foram ditas – e olhe no fundo dos seus olhos. Tenha a ousadia de buscar as respostas no leito frio do improvável. Quando finalmente conseguir compreender aquilo que inicialmente parecia incompreensível, vai saber que loucura, futilidade, timidez, arrogância e até as formas mais variadas de grosseria, são apenas reflexos produzidos pela alma humana quando insistimos em direcionar nosso olhar para o lugar errado.
Se quiser ver o que ninguém mais viu tem que ter a coragem de se posicionar onde ninguém esteve. Existe um ângulo, apenas um, de onde é possível desnudar a alma de qualquer pessoa e compreender a magnitude de seus sentimentos. Apesar de não se tratar de ciência, mas de pura metafisica, a compreensão do incompreensível consiste, segundo as palavras de Albert St Georce, em “(...)ver algo que todos veem, e então pensar o que ninguém pensou".
AUTOR
TIAGO RODRIGUES CARVALHO

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