terça-feira, 26 de janeiro de 2016
O PREÇO DA VITORIA
A REALIDADE ATRAVÉS DE OLHOS ANÔNIMOS
Obra “Uma mulher em Berlim – Diários dos últimos dias de guerra” retrata os dramas da população feminina da capital alemã durante a ocupação soviética.Ler qualquer obra sobre a Segunda Guerra Mundial não é uma tarefa fácil. É exigida do leitor uma natureza essencialmente paradoxal: sensibilidade para compreender a magnitude daquele momento histórico, cujos dramas particulares talvez não encontrem paralelo equivalente em nenhuma outra época, assim como uma frieza seletiva, fundamental para se conduzir a leitura até o fim. Não faltam exemplos de obras cujo foco são os dramas vividos pela população civil durante os quase seis anos de conflito. O extermínio nos campos de concentração, a vida nas cidades sob a ocupação nazista bem como relatos biográficos dos sobreviventes, lotam as prateleiras das livrarias atendendo a um publico bastante restrito, ainda que expressivo. Recentemente o publico alvo dessas obras parece ter se tornado mais permeável e menos resiliente quanto à absorção de textos que abordem o drama da população alemã, considerada desde o fim do conflito como a grande vila no contexto da guerra. Nenhuma dessas obras, no entanto, buscam remodelar a imagem do nazismo ou levantar duvidas quanto a natureza de seus crimes. Através da exposição do sofrimento inigualável que marcou os 12 anos do governo de Adolf Hitler, esses textos acabam por reafirmar a imagem negativa de um governo autoritário, militarista e agressivo que se fechou dentro de um conceito de raça, amparado por uma insanidade ideológica tão absurda que permanece pouco compreendida até os dias atuais. Em abril de 1945 a Segunda Guerra Mundial na Europa já estava perto do fim. Com a capital alemã cercada e arrasada pelas forças soviéticas não faltaram exemplos de determinação e resistência entre a população daquela que já havia sido uma das mais belas e modernas cidades do mundo. Berlim havia sido reduzida a uma gigantesca arena de sofrimento humano, e naqueles dias finais do conflito a guerra cobraria seu preço daquelas que haviam se mantido distante dos campos de batalha, ainda que obrigadas a conviver com uma escala de destruição até então nunca vista sobre a terra. Cerca de 100 mil mulheres foram violentadas durante a ocupação soviética de Berlim. O número de suicídios decorrentes dos abusos é ainda incerto. O assunto é uma espécie de tabu para as autoridades da Federação Russa e da própria Alemanha devido ao constrangimento que o mesmo invoca. Parte da população de ambos os países ainda recebem com hostilidade qualquer assunto relacionado ao que definem simplesmente como “aquilo”. Apesar dessa tímida restrição moral, muitas obras de conteúdo “constrangedor” foram publicadas desde o termino do conflito, dentre as quais se pode destacar o livro “Uma mulher em Berlim, diário dos últimos dias de guerra”. O que vemos nas mais de duzentas paginas do livro é a narração fria e metódica de um campo de batalha infinitamente mais pessoal e cruel, que não pode ser caracterizado através imagem natural que fazemos de um campo coberto de trincheiras, fumaça e arame farpado, mas pela ausência de qualquer resquício de moralidade por parte dos vencedores. Deparamos-nos com uma narrativa viva onde a natureza primitiva e selvagem dos homens encontra espaço dentre as indescritíveis misérias impostas pela realidade da guerra. Aqui vemos uma singular, e admirável, característica dos eventos históricos: sua tendência natural em se imortalizar através de qualquer objeto que permita um simples registro dos acontecimentos. Em meio os destroços deixados pelas bombas, três simples cadernos escolares serviram para registrar os acontecimentos impressionantes vividos por uma cidadã berlinense entre os dias 20 de abril e 22 de junho de 1945. O texto, em forma de diário, seria datilografado pela própria autora poucos anos após a guerra e entregue a um editor de Nova York. Em 1954 ele é lançado em forma de livro, rendendo desde então criticas variadas. Apesar da escassa quantidade de dados biográficos sobre a narradora, que resolveu permanecer anônima por motivos que se tornam óbvios ao final da leitura, ainda sim é possível traçar um perfil da mesma com base nas informações disseminadas ao longo do texto. Trata-se de uma mulher na faixa dos trinta anos de idade, proveniente de uma família burguesa e com um a bagagem cultural no mínimo bastante evidente. Após percorrer vários países europeus, chegando inclusive a passar um período em Moscou, ela teria se estabelecido em Berlim, onde permaneceu até a rendição final da Alemanha. A narrativa tem inicio numa sexta feira, dia 20 de abril de 1945, aniversario de 56 anos de Adolf Hitler:
“Sim a guerra vem rolando em direção a Berlim. O que ontem ainda eram resmungos distantes, hoje é um rufar continuo. Respira-se o ruído da artilharia.”A relação entre os vencedores e os vencidos, ou seja, entre os conquistadores e os conquistados, é desnudada através das palavras de uma testemunha, que apesar do seu empenho em produzir uma narrativa áspera e desprovida de sentimentos, em muitos momentos acaba cedendo aos devaneios de um passado em nítido contraste com a realidade brutal da guerra. O estupro, no contexto da obra, não se encaixa na clássica definição de crime hediondo; o mesmo emerge como um aspecto do cotidiano da população feminina. Por trás dessa tentativa de banalizar um evento, cuja própria natureza cruel parece agir no sentido contrario, se esconde um impulso feroz de evidenciar os dramas particulares da própria narradora. Em nenhum momento temos a impressão de que a mesma tenta se colocar como vitima dos eventos do qual foi expectadora e muitas vezes antagonista. Relatos impressionantes estão espalhados ao longo do texto, como o da mulher que havia escondido sua aliança de casamento em meio a suas partes íntimas alegando: “Se eles [soviéticos] chegaram até ali, o anel também não me importa mais.” O primeiro contato com os soldados soviéticos é um dos momentos mais intensos da narrativa. A imagem dos “Ivans” [denominação dada aos soldados soviéticos pelos alemães] dentro dos porões lançando a luz de suas lanternas nos rostos das mulheres ali reunidas, a procura de suas vitimas, é tão viva que temos a impressão de transitarmos entre o papel de leitor e o de expectador daquele espetáculo animalesco. Algumas mulheres preferiam acreditar que sua idade avançada lhes pouparia dos horrendos estupros coletivos, mas para os soviéticos o provérbio alemão “em caminhos muito trilhados, não cresce mais capim”, parecia não fazer muito sentido. Diante de tal quadro de desumanidade é perfeitamente compreensiva uma postura fatalista por parte dos que o presenciaram. Segundo as palavras da própria “anônima”:
“A soma das lagrimas permanece constante. Pouco importa sob que bandeiras e formulas os povos viviam; pouco importa que deuses sigam e qual o salário real que recebem, a soma das lagrimas, das dores, dos medos, com que cada um paga sua existência, permanece constante.”Uma das questões mais complexas dos textos de caráter biográfico, ou em forma de diário como é o caso, diz respeito a fidelidade factual. Até que ponto podemos acreditar na honestidade do texto? Não pretendo, de modo algum, colocar em cheque a natureza dos crimes cometidos pelos soviéticos. Os estupros, e centenas de outros crimes bárbaros de fato acorreram, não apenas em Berlim, mas em centenas de outras cidades alemãs. A questão é que quando mergulhamos em uma obra cujos testemunhos partem de uma única fonte, inconscientemente remetemos o mesmo a uma espécie de julgamento mental que avalia a autenticidade de tais relatos. É a partir desse trabalho cognitivo, quase que involuntário, que definimos, a posteriori, todo o nosso posicionamento em relação à recepção do conteúdo de suas paginas. Não é novidade o fato de que muitos relatos de eventos históricos, sobretudo os dramáticos, possuem uma boa parcela de inverdades, ou seja, boa parte dos testemunhos são naturalmente contrafactuais. Embora um relato possa estar em desacordo, do ponto de vista histórico, com a realidade isso não significa que, ao menos do ponto de vista pessoal, aquilo não fosse verdade. Definir uma “inverdade histórica” como uma “verdade particular” pode parecer contraditório de inicio, mas essa contradição é apenas aparente. Para quem esteve lá, naquele momento, como testemunha ocular, com os sentidos subjugados pela imprevisibilidade de uma realidade tão grotesca e anti-humana, aquele relato, por mais improvável que pareça, faz parte da sua realidade e da sua experiência. No plano cognitivo, realidade é aquilo que se sentiu, que se viveu e não que a lógica ou os registros históricos determinam como fatos. O fluxo imposto a um destino coletivo é capaz de arrasar qualquer traço de resistência individual. O senso e a moralidade desaparecem, cedendo espaço ao puro desespero. Não cabe, portanto, ao leitor o menor traço de julgamento moral quanto ao comportamento da narradora. A este lhe cabe apenas o lugar do espectador, com sua natural impotência diante dos eventos históricos, que apesar de lamentáveis jamais devem ser esquecidos. AUTOR TIAGO RODRIGUES CARVALHO UMA MULHER EM BERLIM, UMA - DIARIO DOS ULTIMOS DIAS DE GUERRA 20/04/1945 A 22/06/1945 Autor: ANONIMO Tradutor: ZWICK, RENATO Editora: RECORD Ano de Lançamento: 2008 Número de páginas: 288
quinta-feira, 26 de novembro de 2015
“Nossa época é uma época essencialmente trágica de modo que nos negamos a encará-la de modo trágico. Houve cataclismo, estamos entre as ruínas, começamos a construir novas casinhas e acalentar novas e leves esperanças. É uma tarefa árdua: não há um caminho cômodo para o futuro: ou nos contornamos o obstáculo, ou saltamos sobre ele. Precisamos viver, não importando quantos céus tenham vindo abaixo.”
D.H. LawrenceFilho de um operário analfabeto que havia passado a vida trabalhando nas minas de carvão de Eastwood, Inglaterra, e de uma professora intolerante, D. H. Lawrence, um dos mais polêmicos literários de sua época, viveu exatamente como escreveu: intensamente. O jovem de compleição frágil nascido em 11 de setembro de 1885, tímido, pouco carismático e com nenhum talento para os estudos se tornaria um homem obcecado pela ideia de que o amor era algo puramente abstrato e que não se relacionava de nenhuma forma com as inconstâncias primitivas das necessidades físicas. Lawrence transpôs o conceito de sua época onde o amor físico se transmutava no amor sentimental; ambos se relacionavam como termos devido a sua aparente fluidez natural. Acreditava-se que o sentimento se renovava na forma da atração física e que esta ao perder seu ímpeto natural sedia espaço a serenidade do sentimento fraterno - pensamento no qual o autor do presente texto está completamente de acordo. Esse ciclo alternante entre instinto e ternura, definição inquestionável de amor para os românticos e líricos de sua época, não fazia sentido para o enigmático Lawrence. Casado aos vinte e sete anos com uma alemã de trinta, já mãe de três filhos e irmã do famoso aviador Manfred Von Richthofen, Lawrence despertou a hostilidade de seus conterrâneos ingleses. O que pensar daquele estranho jovem que gostava de realizar trabalhos domésticos, que cozinhava e que era casado com uma mulher alemã, em plena Primeira Guerra Mundial? Se seu estilo de vida já era estranho aos olhos da sociedade conservadora da Inglaterra da virada do século o que dizer de sua obra, cujos valores estavam plenamente dissociados do senso comum de sua época? Ao escrever a obra “O amante de Lady Chaterley”, Lawrence buscava explorar o poder dos sentimentos circunscritos pelo convívio e pelo companheirismo em oposição às necessidades impostas pelo corpo físico. Os críticos de seu tempo classificaram a obra como pornografia barata. Lawrence chegou a pensar em mudar o titulo para “Ternura” na tentativa de reduzir o impacto negativo da obra. Seriam necessários vários anos para que seu texto conseguisse seu merecido espaço junto às obras mais profundas e ricas de significado da literatura universal. Em “O amante de Lady Chaterley” vemos a história de Constance Chatterley, uma jovem de 23 anos proveniente de uma família de burgueses liberais, que se casa com Clifford Chaterley, um homem arrogante de 29 anos que pouco tempo depois do casamento parte para os campos de batalha da Primeira Guerra Mundial e retorna vivo, porem paralitico. Certo de que não seria mais capaz de satisfazer as necessidades orgânicas de sua companheira, Clifford, escritor e empresário, mergulha no trabalho e aos poucos se distancia de sua jovem esposa. Ninguém é capaz de satisfazer completamente outra pessoa; é exatamente nessa brecha aberta por nossas impossibilidades que nascem outros amores, outras formas inexplicáveis de afeto: "Toda partida significa um encontro em algum outro lugar. E cada novo encontro é uma nova ligação". A necessidade incondicional de Constance fruto de um casamento de aparências a leva a se relacionar com outros homens até que finalmente conhece o guarda-caças Oliver Mellors, um homem rude e misterioso que buscou no isolamento a cura por seus fracassos amorosos. O livro e sem duvida uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Lawrence soube abordar de forma inigualável os sentimentos ocultos da imperiosa alma feminina. Ao longo de suas paginas o autor intercala passagens, onde vemos desde uma descrição crua e realista do ato sexual até a linguagem poética com a qual descreve as mudanças ocorridas no corpo e na alma da mulher levada pelo tempo e pelas experiências vividas. Trata-se de um grande dilema na qual a protagonista se vê dividida entre o correto e o incorreto, entre a falha e o excesso o que nos leva a indagar a todo instante ao longo do texto: a mentira seria o mesmo que uma verdade irrelevante? AUTOR: TIAGO R. CARVALHO O amante de Lady Chaterley Páginas: 342 Selo: Martin Claret OBS: As pintura utilizadas no texto é de autoria do artista Pino Daeni.
quarta-feira, 25 de novembro de 2015
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
domingo, 30 de agosto de 2015
A IRRACIONALIDADE ILUSORIA DO COMPORTAMENTO
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